Entrevista com

Ana Carolina Souza

Consultora especializada em Neurociência Comportamental, pro

Por que procrastinamos e como driblar esse fenômeno?

Atitude comum em todos os seres humanos em algum momento da vida, a procrastinação traz, sim, malefícios, mas é possível fugir dela.

10 de Novembro de 2023



Você com certeza já postergou alguma entrega, deixou algo para a última hora, pensou “depois eu faço” e, na hora de fazer, se arrependeu de ter demorado tanto. Fique tranquilo: não se trata de uma acusação, afinal, todos nós, em algum momento da vida, já estivemos desse lado, seja postergando uma atividade física, um encontro com alguém ou até uma entrega profissional. 

Mas, o problema é que a data daquilo que tinha que ser feito sempre chega. E, com ela, frustrações, culpa e acusações externas. Como mudar esse cenário, então? Conversamos com Ana Carolina Souza, sócio-fundadora da Nemesis Neurociência Organizacional, consultora especializada em Neurociência Comportamental, professora e palestrante, para entender um pouco mais sobre o tema. 

Você confere o bate-papo completo a seguir! 

Falando em ciência: qual é o processo mental e cerebral envolvido quando estamos procrastinando? 

Um dos componentes principais associados à procrastinação tem a ver com a resposta motivacional, a motivação que mobiliza o nosso comportamento. Portanto, estamos falando sobre a discussão das emoções. As suas motivações podem ser várias: busca, interesse, aproximação, alcançar algo positivo, importante ou significativo pra você - tanto faz qual seja a sua. 

Em sua ausência, quando eu não quero fazer aquilo, não concordo, não me faz bem, não é agradável, há uma dificuldade em se conectar com o benefício ou o significado daquilo que se tem que fazer. Então falta motivação positiva, que está muito associada ao que a gente chama de resposta da dopamina, esse neurotransmissor que também está presente no sistema de recompensa. 

Na procrastinação, não há esse estímulo.. Ou porque na hora eu me sinto cansada, desanimada, fatigada, deprimida, ou seja, o nível de dopamina basal é baixo e eu não tenho energia, digamos assim. Ou porque eu não vejo uma recompensa associada a esse comportamento. Mas, ela pode ser também uma motivação negativa: evitar algo, fugir, ou porque não é interessante, não te faz bem ou porque você está evitando uma resposta defensiva. 

Fale um pouco mais sobre essa motivação negativa? 

É comum em alguns casos de procrastinação um comportamento que não é porque falta motivação positiva, mas a pessoa está evitando uma motivação negativa. Então se eu tenho muito medo de não conseguir, de não saber, de falhar, de me sentir exposta, julgada, até por uma autocrítica ou crítica externa dependendo de como eu performe, eu também posso procrastinar. 

Esse é um comportamento de motivação negativo, de afastamento, de evitação, que faz com que eu procrastine aquilo pelo medo de entrar em contato com emoções desconfortáveis a partir do que pode acontecer. Então pensando em processo cerebral fisiológico, a ausência da motivação positiva ou a presença de uma motivação negativa são os fenômenos que vão determinar em grande parte esses comportamentos de procrastinação. 

Um ponto importante é que, para nós, a mente é um subproduto do cérebro, então ela tem a ver com processos, ativações cerebrais, não é algo definido, a gente não separa mente e cérebro.


Quais os malefícios da procrastinação?

Você vai ter uma série de desdobramentos. Primeiro que, se aquilo que você precisa fazer é importante, por exemplo, para sua saúde, tem um impacto direto na sua saúde. Se aquilo é importante pro seu desenvolvimento profissional ou educacional, você tem um impacto daquilo que você deixou de fazer. 


O outro ponto é que a pessoa que procrastina mais começa a ser percebida e passa por um julgamento externo que vai classificá-la como alguém que é muito enrolada, que não consegue fazer as coisas, que não termina nada. Essa pessoa pode começar a lidar não só com a própria frustração, tristeza e desafio de não conseguir seguir com aquilo que ela sabe que tem que fazer, mas também com a opinião alheia. 

E o fato é que ela até gostaria de fazer, mas não encontrou ainda a maneira de fazer, então lidar com esse fenômeno da procrastinação é começar a ter não só as próprias emoções ligadas a como ela se sente em termos de fracassar, de se sentir limitada, constrangida, mas também um julgamento externo de pessoas que talvez não entendam o que essa pessoa está passando e podem começar a estereotipar.

E aí a gente vai começando a criar quase que um reforço negativo para essa pessoa. Se todo mundo diz que você não é capaz de fazer nada, não se concentra e nem se dedica, você pode começar a acreditar nisso e sentir que realmente não consegue. Isso vai criando muitas vezes uma mentalidade fixa e uma limitação.

Todo mundo procrastina, a gente sempre faz isso e seria um comportamento normal e natural, todos os seres humanos em algum momento vão procrastinar alguma coisa. Mas, existem pessoas que vão ter grandes dificuldades de de fato conseguirem implementar coisas na sua rotina ou executar certas coisas, então são procrastinadores crônicos que estão sempre lidando com esse tipo de situação, e aí cabe até um acompanhamento psicológico. 

Há quem diga que a procrastinação pode diminuir os pequenos estresses do dia a dia. Você concorda? 

Se considerarmos que, em parte, a procrastinação pode acontecer ou pode vir por um comportamento evitativo, de fuga e para evitar o contato com emoções negativas, nesse momento talvez a pessoa que procrastinou pode sentir uma certa resposta de alívio ou de relaxamento. Mas, conforme as consequências desse ato se acumulam ou chegam, há um preço a se pagar e mais cedo ou mais tarde vai voltar e a gente vai ter que lidar com isso. 

Se essa conta não chega, a gente entende que aquilo que foi procrastinado não era tão importante ou relevante o suficiente pra não vir a ser uma necessidade no futuro, a médio e longo prazo. Mas é bom fazer essa distinção também quando a gente fala de procrastinação. Você está procrastinando alguma coisa que era pequena e que na verdade poderia inclusive ser delegada e até cancelada ou de fato está procrastinando alguma coisa que é importante e que você não está conseguindo lidar? 

Na sua opinião, a procrastinação pode estimular a criatividade?

Pensando sobre a questão da criatividade, ela tem um componente que tem a ver na verdade com o ócio criativo. Trata-se de se manter num momento de abstração e relaxamento, porém desperto, não dormindo ou se distraindo com outras coisas. Esse estado de relaxamento e distração ativa uma rede cerebral chamada DMN, que significa “default mode network". 

Essa rede muitas vezes é ativada quando você deita pra dormir, no banho, caminhando, que são momentos que esse relaxamento acontece, e ela gera novas conexões cerebrais. Portanto, ela é fundamental pro processo criativo. Então se em algum momento eu tenho tanta coisa pra fazer e decido procrastinar para relaxar, pensar na vida ou viver outras experiências e depois eu volto para resolver aquilo, isso pode criar um propício para a criatividade. 

Mas, é somente nesse contexto. A procrastinação em si como um fenômeno e um comportamento, postergar uma coisa que precisa ser feita mas não é porque eu não tenho energia, disposição, vontade, interesse em fazer aquilo - ou receio de fazer aquilo -, isso a princípio não favorece a criatividade. Até porque, esse comportamento tende a ser mais fonte de angústia do que de relaxamento e prazer.

Qual a diferença entre procrastinação e preguiça?

A procrastinação geralmente está associada a algumas tarefas específicas, inclusive uma pessoa pode procrastinar uma atividade em si, que é aquela que ela não tem motivação ou receio, mas fazer outras coisas normalmente. Geralmente, a preguiça está associada a uma indisposição, uma dificuldade em executar todas as coisas.

Se estamos falando de uma procrastinação grande, onde a pessoa não tem energia para nada e os níveis de motivação são baixos continuamente, isso é algo a ser explorado - inclusive com a ajuda de um profissional que possa dar um direcionamento. 

Porque ambos os comportamentos vão trazer impactos negativos para a pessoa, só que a preguiça é diferente daquele momento pontual onde você está cansado, teve uma semana difícil e no final de semana decide não fazer nada e só descansar, é bem diferente de alguém que lida com aquilo cronicamente.

Como driblar a procrastinação e ter mais sucesso?

Na hora que a gente entende um pouco mais do que é a procrastinação, existem algumas estratégias pra gente tentar driblar esse fenômeno. A primeira é sempre se conectar com o motivo pelo qual você está fazendo o que você está fazendo. Então você não quer fazer porque está cansado ou inseguro? 

Pensar também: por que isso é importante pra mim? Porque isso faz parte de uma trajetória, de um movimento, é um investimento. Então se conectar com aquilo que é importante pra você justifica é dá sentido ao que você tem que fazer, é uma forma de manter como se fosse um objetivo que gera motivação e que te ajuda a seguir esses comportamentos, mesmo quando eles são difíceis de serem executados, não necessariamente prazerosos e agradáveis em si. 

A gente também pode tentar associar algo que seja prazeroso. No caso de uma atividade física, trazer um amigo para fazer junto é uma maneira de tornar aquilo mais agradável durante o processo de aquisição do hábito. Ou escolher alguma alternativa mais prazerosa, com a dança, nesse caso. São pequenas estratégias. 

Você pode ainda se conectar e entender porque teme ou sente medo de realizar algo - e, nesse caso, vale muito a pena ter apoio de um profissional novamente. Por fim, uma outra forma muito importante é desmembrar um objetivo em pequenas metas. Temos naturalmente muita dificuldade em identificar ganhos de médio e longo prazo.

Então é bom não só que a gente traga motivação como parte do presente, mas que a gente também fragmente, por exemplo, as respostas. Ao invés de eu pensar “vou fazer isso todos os dias pra daqui 10 anos eu ter o resultado”, eu posso pensar “o que que eu espero ganhar em uma semana ou em um mês?”. 

Ainda que o objetivo seja somente “hoje eu quero levantar da cama cedo e dar uma volta. Amanhã meu objetivo é colocar uma roupa de ginástica e dar uma volta. Depois o meu objetivo vai ser andar por 5 minutos a mais”. Até que um dia o seu objetivo vai ser cumprido porque fazer atividade física todo dia nesse horário virou um hábito graças às pequenas metas cumpridas.

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Parada obrigatória

Nosso segredo compartilhado

O que foi falado no Plenae em setembro

29 de Setembro de 2023


Olá, leitor! Sempre é muito bom revê-lo por aqui, na nossa retrospectiva mensal de conteúdos Plenae. No mês de setembro, não poderíamos fazer de outra forma: mergulhamos nos assuntos que tangem à nossa saúde mental. Não só pela campanha Setembro Amarelo, mas porque acreditamos que é preciso falar sobre isso exaustivamente, até que não haja mais nenhum resquício de tabu ao redor do tema.


Além disso, iniciamos mais uma temporada do Podcast Plenae - e, devemos dizer, uma temporada inesquecível. Por fim, tivemos as duas crônicas mensais e o nosso Tema da Vez, que se dedicou a falar justamente sobre o nosso segredo compartilhado: a depressão e outras condições emocionais. Leia mais sobre o que rolou por aqui a seguir!


Que cheiro é esse?

É o cheiro do aromaverso! A ciência está cada vez mais de olho nesse universo que pode proporcionar benefícios de forma natural e sem intervenções medicamentosas, usando apenas um dos nossos sentidos mais importantes: o olfato. Mas atenção: não é qualquer cheiro e nem em qualquer quantidade. Leia mais aqui.

Gostava, não gosto mais

Se você conhece alguém (ou é essa pessoa) que costumava ter interesses em várias atividades e agora não tem mais? Isso pode ser um sinal da anedonia, um dos sintomas pouco falados da depressão. Ela pode envolver ou não a tristeza e é isso que a torna tão difícil de ser diagnosticada. Entenda mais sobre o assunto.



Pequenos traumas, grandes efeitos

Não subestime os pequenos acontecimentos da sua vida: eles importam, e muito! E nem sempre de forma positiva, o que é importante ressaltar. Os pequenos estresses cotidianos ou até mesmo eventos antigos que você “decidiu ignorar”, podem marcar sua psique para sempre. Te contamos mais sobre o assunto aqui!



Talvez você esteja precisando ler isso hoje

Olhe ao seu redor: todo mundo está enfrentando alguma batalha interna, muitas vezes, de forma silenciosa e solitária. Ela pode ser grande ou pequena, não importa. O importante aqui é nos conectar com aquilo que nos une: os sentimentos. Esse é o abraço que a primeira crônica de setembro buscou te oferecer. 


Conexão intensa e profunda

Não estamos falando de algum casal que possa ter surgido na sua cabeça. Estamos falando da conexão mais intensa e profunda da história da ciência: nossa mente e nosso corpo físico. Pode parecer óbvio para alguns e até tema batido para outros, mas a verdade é que os especialistas nunca pesquisaram tanto sobre o assunto! 


Arrume sua bagunça

E não só porque seus pais te ensinaram assim. Estudos comprovam que existe uma relação entre ambientes bagunçados e a piora na saúde mental. Isso não só em pessoas que já enfrentam algum tipo de questão emocional, mas para quem não enfrenta e pode ficar estressado. Te demos dicas de por onde começar a organizar!


O terreiro como casa de todas

A décima terceira temporada do Podcast Plenae está no ar! Começamos com o relato de Carmem Virginia, representando o pilar Espírito, e contando sobre o chamado e sua iniciação ainda menina no candomblé. Carmem ainda conta como a religião está presente nos seus dias e onde a cozinha entra nisso tudo!


Divirta-se com propósito!

É muito bom ter um hobby, isso você já deve saber. Inclusive, a prática é indicada por diferentes especialistas da área da saúde. Ele ajuda a relaxar, a expandir a criatividade, a enxergar outras saídas e até desenvolver novas competências. Separamos neste post alguns hobbies específicos para você começar ainda hoje!


É primavera… Te amo!

A estação da beleza chegou. Basta olhar para cima e reparar nas árvores ou, ao olhar para o chão, você também verá que o duro concreto das calçadas irregulares está todo pintado de rosa, branco, amarelo,... Um carnaval fora de hora sendo a mãe natureza a rainha da bateria. Inspire-se com a segunda crônica do mês!


É mentira! É verdade

Inspirados na história, trouxemos mitos e verdades sobre essa religião tão potente e importante quanto qualquer outra, mas infelizmente ainda vítima de muitas fakes news, muitas vezes fruto de uma intolerância religiosa coletiva. Falamos sobre a relação com a natureza, a raiz dessa corrente, quem é Exu e muito mais!


Os indígenas e os games

O segundo episódio da nova temporada do Podcast Plenae ficou por conta de Kanynary, representando o pilar Contexto. Em sua história, conhecemos um pouco mais sobre tudo que ele passou sendo um indígena na grande cidade, sua reconexão com o seu povo e como a tecnologia participou disso tudo. 


O novo que veio para ficar

O conteúdo relacionado ao episódio de Kanynary não poderia ser diferente: de que forma as novas tecnologias chegaram nas aldeias? Como são utilizadas a favor dos povos indígenas? Elas vieram para ficar? Respondemos isso e outras questões nesse conteúdo que busca, acima de tudo, quebrar velhos paradigmas!


Fique ligado pois em outubro, a décima terceira temporada do Podcast Plenae segue no ar e trazendo mais quatro personagens inesquecíveis, inspiradores e queridos do público. Mais do que isso, são personagens que trazem assuntos relevantes para a pauta e te ensinam que é possível sim mudar a sua história inspirando-se na história do outro! Aperte o play e inspire-se!






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