O Plenae Apresenta a história de intuição e resiliência materna de Aline Bertolozzi, representante do pilar Propósito.
28 de Dezembro de 2024
Você valoriza a vida lá fora? Encerrando com chave de ouro a décima oitava temporada do Podcast Plenae, a representante do pilar Propósito, Aline Bertolozzi, conta sobre a Outcare, mala que criou para o seu filho eletrodependente, o Leo, poder aproveitar um pouco de ar livre sem correr grandes riscos.
Mas, até chegar nessa etapa da criação, conheceremos a história de sua graviez e os primeiros desafios enfrentados pela família que chegou até mesmo a se despedir dessa criança que um dia foi desenganada pelos médicos e hoje é a prova viva de que a intuição materna detém uma força maior do que imaginamos.
A notícia de que havia algo a se preocupar com o seu filho veio ainda na gestação, quando Aline pediu para repetir o ultrassom, movida já por uma dúvida que não sabia explicar. Na hora, pensou somente que queria confirmar de fato o sexo. Era menino, mas e se fosse menina? Ela viajaria com o marido para fazer o enxoval dali alguns dias e queria ter essa certeza.
“Foi então que eu pedi pro médico repetir o ultrassom antes da viagem. E aí, com 17 semanas de gestação, o resultado mostrou que o nosso bebê tinha várias alterações sérias. A gente começou a investigar todas as possíveis síndromes e doenças que poderiam ter causado aquelas deformações. E um dos exames mostrou que ele tinha uma síndrome raríssima, chamada Síndrome de Chaos”, diz.
O Chaos é, de forma objetiva, uma má formação nas vias aéreas do bebê, mais especificamente uma obstrução em dos aneizinhos da traqueia. Apesar de parecer simples, ele pode levar a um aborto espontâneo, porque um feto com essa síndrome não chega a nascer com vida. O coração do Léo, por exemplo, já estava esmagado por um acúmulo de líquido e ia parar de bater.
Naquele momento, os médicos ofereceram dois caminhos para Aline: entrar na Justiça e conseguir uma autorização pra um aborto legal ou fazer de tudo pro Léo sobreviver o máximo de tempo possível. Ela não teve dúvida: escolheu deixar a sua vida em função da vida do Léo.
“Os médicos que me acompanhavam naquele momento me disseram que havia um médico especialista em medicina fetal e que talvez ele pudesse nos acompanhar. Havia sido ele quem tinha feito a primeira cirurgia do mundo de traqueostomia intraútero. E talvez, se meu filho fizesse essa cirurgia, ele teria uma única chance de sobreviver. Essa cirurgia inédita aconteceu só 15 dias antes da gente receber o nosso diagnóstico. Eu achei tão curioso duas grávidas terem a mesma síndrome raríssima na mesma época, no mesmo lugar com os mesmos médicos”, relembra.
A condição desse médico para operar era esperar que o outro bebê nascesse para ver o resultado - ele não queria fazer duas cirurgias experimentais seguidas. Contudo, Aline não tinha esse tempo e começou a insistir pra que o procedimento fosse feito. A insistência foi tanta que o especialista cedeu e sugeriu uma reunião com toda a equipe médica para decidirem em conjunto se fariam ou não.
Só que, no dia do exame, não deu pra ver nada. O Léo estava virado de cabeça pra baixo, ele estava bem encolhido e não se mexia. O médico, que era super experiente, tentou diversas manobras para fazer o bebê mudar de posição, mas não conseguiu. Aline teria que retornar no dia seguinte para tentar novamente.
“Eu queria muito ter o Léo. Eu nunca tive problema em aceitar que ele seria uma criança com deficiência. A minha única dificuldade era entender o porquê ele não ia nascer. Mas eu não queria ser egoísta e pensar só em mim. E naquela noite, eu rezei muito e eu pedi muito pro Léo: ‘Filho, se você quer uma chance de nascer, me dê um sinal’. E pela primeira vez, em toda gravidez, eu senti minha barriga mexer. O Léo nunca tinha se mexido, porque o coraçãozinho dele não tinha forças pra mais nada”, conta.
No dia seguinte, a família voltou pra sala de ultrassom. E quando o médico colocou o aparelho na barriga, a surpresa: ele estava na posição exata para conseguir enxergar. Então ele disse: “Léo, agora só falta você levantar o pescoço”. E o Léo levantou o pescoço e ficou parado. O médico se emocionou, se afastou da cadeira e, sem nem perguntar a opinião dos outros médicos, disse: “Eu opero esse bebê”.
E foi assim que, com 24 semanas de gestação, a família de Aline se tornou a segunda família no mundo a passar pela traqueostomia intraútero, cirurgia aliás que foi um sucesso. No dia, apesar de Léo já estar normal, Aline contraiu uma infecção e teve que induzir o parto prematuro com 25 semanas. E ele nasceu com pouco mais de 5 meses de gestação, pesando apenas 630 gramas e da sala de parto já foi levado direto pra UTI neonatal.
Mas a jornada estava só começando. Com 1 mês de vida, ele foi acometido por uma infecção no intestino e precisou ser levado às pressas para uma cirurgia. “Os médicos saíram super desanimados do centro cirúrgico e liberaram a minha família pra se despedir dele na UTI. Até então, só eu e o meu marido podíamos estar com o Léo. Eu não queria aceitar que o Léo que tinha lutado tanto pra sobreviver estava indo embora, eu me neguei a dizer que seria uma despedida. Então eu falei pra minha família que agora eles podiam finalmente conhecer o Léo. Eu queria que o clima na incubadora fosse de alegria e não de tristeza”, revela.
Aline sempre manteve esse posicionamento de tentar blindar seu filho e sua família e, assim, se blindar também. Isso porque os desafios não pararam por aí: até mesmo um tiro durante um assalto o seu marido tomou, e ela teve que se manter firme com os dois na UTI simultaneamente. A parte bonita de tudo é que ela nunca deixou de ouvir sua intuição e, mesmo quando todos diziam que não daria certo, por meio de atos simples, como levar o Leo ao parque ou a praia para conhecer o tão sonhado “mundo lá fora” que ela sussurrava em seu ouvido, ela via resultados que desafiavam a medicina.
E foi daí que nasceu o seu grande propósito: uma mala capaz de manter os aparelhos de eletrodependentes funcionando em qualquer lugar para que assim, eles possam usufruir também de toda essa vida ao ar livre que por muito tempo lhes foi negada. Para conferir toda essa história, ouça o episódio completo aqui no nosso site ou no Spotify. Prepare seu coração e, claro, os lencinhos. Aperte o play e inspire-se!
Entrevista com
Jornalista e palestrante
Conversamos com a jornalista Denise Ribeiro, que depois de tantos anos engajada na causa do combate ao etarismo, decidiu se lançar na política e colocar a mão na massa
16 de Setembro de 2024
Longevidade é o tema que inspirou a criação deste portal, o Plenae. Pensar a longo prazo e atingir idades cada vez maiores e mais distantes era a verdadeira bandeira do nosso fundador, Abilio Diniz. Para isso, ele e sua esposa, Geyze Diniz, promoveram eventos focados no tema e enfim a plataforma de conteúdo que pudesse amplificar essa voz e difundir mais conhecimento.
Com o tempo, a causa foi guinando para o caminho da qualidade de vida. Afinal, do que adianta chegar mais longe se não for com saúde? Se você se cuidar hoje, o amanhã é consequência. Mas algo não mudou nesses últimos anos: a defesa do direito de envelhecer sem preconceitos.
Por aqui, já trouxemos o tema algumas vezes, seja diretamente como neste artigo com as falas do filósofo Pondé, ou simplesmente trazendo exemplos positivos de pessoas inspiradoras que não se encaixaram na caixinha que esperam que os idosos se encaixem. É o caso da Rosângela Carvalho Marcondes e Miréia Borges, as convidadas de um dos nossos Plenae Entrevistas.
Hoje, traremos mais uma figura inspiradora que de tão envolvida com a causa, decidiu se lançar aos mares da política para ver a diferença sendo feita de fato, na prática e com as suas mãos sovando a massa. É a jornalista Denise Ribeiro, candidata a vereadora em São Paulo e uma pessoa cujas falas valem a pena serem reconhecidas!
Quais foram os caminhos que te trouxeram até essa luta?Olha, foi praticamente o jornalismo. Na verdade, no jornalismo eu nunca escrevi sobre a minha própria trajetória de vida, mas foi a falta de oportunidades profissionais dentro do jornalismo depois dos 50 que fez eu me interessar por esse tema. Existem pesquisas que mostram que, a partir dos 45, sua batata começa a assar.
Uma dessas pesquisas, por exemplo, mostra que apenas 2% dos funcionários de grandes empresas têm mais de 50 anos. Você junta isso ao fato de que não vai ter mais emprego para ninguém, nem para jovem, nem para velho, mas o segundo público fica com a situação ainda mais complicada.
O etarismo se torna mais grave num país como o Brasil, que tem problemas estruturais de educação. Não pode se dar ao luxo, né? De jogar no lixo as nossas competências só porque a gente completou 60. Então esse é um tema que me motiva desde os meus 50 anos. Eu fui sócia de um portal onde, para lançar, fizemos um manifesto muito legal dizendo que não estávamos interessados em pular de paraquedas ou mostrar as nossas tatuagens.
A gente queria inclusive evitar esses clichês da publicidade e até alguns equívocos que as pessoas cometem achando que estão agradando. Como quando me falam “Nossa, você não parece que tem 68”. Isso, pra mim, é só mais um reforço da sociedade que supervaloriza a juventude, porque senão não seria visto como elogio.
Já me envolvi com alguns projetos relacionados ao tema, inclusive com o Mórris Litvak, contato com o Walter Feldman, que é o responsável pelo fórum da longevidade, evento que também estarei. Tenho ido a muitos seminários sobre isso, há muitos eventos, e aí eu acho que passou da hora de ter alguém na câmara municipal que defenda o direito do idoso ao trabalho depois da aposentadoria, porque essa é minha falta e essa é a dor que eu detecto na maioria dos idosos.
A gente tem um grupo em Higienópolis [bairro em São Paulo] que se reúne toda quarta-feira, seja online ou presencial, e temos diversas parcerias com as empresas da região e até com o Mackenzie, com o IED (Instituto Europeu de Design), que é onde a gente faz as reuniões na quarta. inclusive. Neste semestre, por exemplo, os alunos do curso de moda do IED vão usar a gente de modelo de estudo e vão desenvolver uma coleção voltada para o público 60+, por vezes esquecidos pelas indústrias dos mais diferentes segmentos.
Para além do exemplo do mercado de trabalho que eu citei anteriormente, tenho muitos outros exemplos, nós ficaríamos um tempão aqui. O desrespeito com o idoso é diário, ele é visto até mesmo em situações muito cotidianas como brigas no trânsito, episódio que passei recentemente, e que envolvem outras nuances - nesse caso, fui vítima de machismo junto ao etarismo. É complexo.
Para você, qual é a bandeira mais urgente dentro do etarismo?Eu acho que a bandeira mais urgente, que é a dor mais profunda, é a falta de oportunidade de trabalho. E quando eu digo isso, eu penso que tem tanta coisa que a gente pode fazer na economia criativa, na economia colaborativa, envolvendo a troca entre gerações. Eu posso dar oficinas, mentoria, palestras em escolas públicas, posso trocar com os jovens fragilizados das periferias.
E eu não preciso ser jornalista, advogado para dar uma oficina. Eu posso ser confeiteira. Eu vou lá ensinar, mostrar a fazer um bolo, eu posso ser carpinteiro Ensinar os meninos a fazerem um banquinho, sei lá. Entendeu? Então essa troca tem milhões de coisas que dá para a gente fazer sem precisar se sentir inútil, invisível, descartável, nada disso - mas para que isso aconteça, é preciso dinheiro.
Para que tenha dinheiro, precisa fazer parte do orçamento do município. Para fazer parte do orçamento do município, tem que ter um projeto de lei determinando isso e que seja aprovado, claro. E quem faz o projeto de lei é o vereador. Então o plano ficou muito claro que não adianta ficar brigando, reclamando, discutindo. Você tem que ir lá e colocar a mão na massa mesmo.
Acho que nós mulheres temos esse olhar mais carinhoso, mais acolhedor, mais do cuidado, seja com a cidade ou com as pessoas. Sempre me interessei por política, apesar de nunca ter estado diretamente envolvida. Tenho feito minha campanha com quase nada de recurso porque acredito que faço parte dessas pessoas que realmente representam essa geração, porque o Brasil está envelhecendo.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde, em 2030 o Brasil vai se tornar a quinta população mais idosa do mundo. Estamos vendo a inversão da pirâmide etária, a expectativa de vida do brasileiro cresceu 40% nos últimos 60 anos. Fora que os idosos também representam uma parcela importante do poder aquisitivo.
Um estudo diz que cerca de 86% das pessoas com mais de 55 anos têm fonte de renda e esse percentual aumenta para 93% quando são pessoas 75+. Quer dizer, as pessoas com mais de 75 anos ainda concentram mais renda do que as de 55. E 63% das pessoas 60+ são provedoras da família, tanto que durante a pandemia de COVID 19, teve família que ficou completamente sem renda depois de perder o idoso.
Você acredita que já evoluímos alguma coisa no discurso do etarismo e da economia prateada ou, na sua opinião, ainda é muito incipiente?Eu ainda acho que é muito incipiente para o tamanho do desafio que nos espera. Olha, para você ter uma ideia do descompasso entre a oferta de serviços: 63% do serviço tem os millennials como alvo. Há uma falta de serviços e produtos voltados para os idosos que é generalizada - e isso vai desde coisas mais básicas até serviços com foco em diversão ou relacionamento, por exemplo.
A sociedade quer que a gente fique sentado com controle remoto, na frente da televisão. E nós somos a primeira geração de idosos que vamos envelhecer do jeito que a gente quiser. Inclusive eu tenho uma crítica feroz a fazer contra essa biopolítica que tenta controlar os nossos corpos.
Desde o final do do século 20 existe essa narrativa sobre o envelhecimento que vem ganhando força, cujo foco é o cuidado preventivo. O idoso é levado a acreditar que ele tem que ser o gestor de si mesmo, quase como se nós fossemos uma empresa. O que é que isso quer dizer? Que somos forçados a alcançar o modelo oferecido pelo marketing da velhice ativa, saudável e participativa, e que quase sempre é voltado para a classe média alta, que é quem tem esse tipo de acesso.
E tudo bem, essa biopolítica fez com que a gente alcançasse uma longevidade, né, em teoria. Mas aí, de repente, viramos um problema político do ponto de vista da economia política e dos dispositivos de seguridade social. E nessas, a população dos idosos é dividida entre os ativos, que são aqueles aplaudidos, disponíveis para o consumo de bens, e os usuários chamados de dispendiosos, que são os os descartáveis, que viram constantemente alvos de serviços de política pública e banidos de alguns privilégios.
Eles são responsabilizados pela má gestão de si mesmo e eu mesma já senti isso na pele, dentro da minha família. Somos privados de vários prazeres alimentares, nosso estilo de vida é sempre colocado em questão, até mesmo a sua vida sexual, todos os seus hábitos, se não forem considerados saudáveis o suficiente, são usados contra você.
Eu acho que os jovens que têm visão de mercado, que se consideram empreendedores, precisavam estudar melhor esse mercado prateado, oferecer serviços e produtos voltados para as pessoas 60+, que é garantia de sucesso absoluta. E eu gostaria de falar também sobre o nosso direito à sexualidade, que é a minha outra pauta.
Porque a Organização Mundial de Saúde coloca práticas sexuais como um dos pilares do conceito que eles chamam de saúde integral. E você vê, por exemplo, as mulheres com problemas sexuais, sexuais depois da menopausa e sem coragem de falar pro médico, que também fica constrangido de perguntar.
E aí esse assunto acaba passando em “brancas nuvens" e a gente precisa tratar disso, precisa falar disso porque tesão é alegria. Por isso que o meu slogan é “sem tesão não há solução”, que é o título de um livro de um grande psicanalista chamado Roberto Frei e que eu peguei emprestado. Porque sem tesão a gente não levanta nem da cama, né? Precisamos de tesão para tudo na vida.
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