Entrevista com
Comunicador e ator
Entrevistamos o comunicador e artista Raphael Negrão, criador do workshop “Lugar de Escuta”, para entender como a brincadeira é uma ferramenta de construção
11 de Janeiro de 2023
Brincar não é coisa de criança, apesar do fato delas fazerem isso com maestria. Um dos grandes erros que cometemos quando crescemos, aliás, é abandonar o lado lúdico da vida e nos debruçarmos somente sobre as dificuldades da rotina. Isso nos afeta de várias maneiras, a começar pela nossa saúde mental, afinal, a diversão é também mola propulsora para a liberação de uma série de hormônios importantes para o nosso bem-estar.
O não-brincar é também fonte inibidora da criatividade, das soluções e do esgotamento físico e mental. Trazendo isso para o ambiente de trabalho, a dureza na comunicação pode afetar a criação de laços mais sólidos e verdadeiros, tão importantes para deixar tudo mais leve, confiável e eficiente.
Para mergulharmos um pouco mais nesse assunto e inspirados pela campanha Janeiro Branco, que traz à tona os temas oriundos à saúde mental, conversamos com o comunicador, ator e palhaço Raphael Negrão, que criou o workshop “Lugar de Escuta” e pretende com ele falar cada dia mais sobre a importância do brincar e sobre como a Escuta Ativa entra nessa jogada. Confira abaixo!
Quais foram os seus primeiros passos nessa jornada da escuta e do brincar?
Isso é uma coisa um pouco complexa na minha vida, na verdade. Mas eu venho de uma formação em comunicação, sou palhaço formado, fiz alguns cursos de teatro e cinema e fui entrando no mundo empresarial quase que sem querer. Só que esse lado artístico não se apagou, muito pelo contrário, continua latente. E com o tempo eu fui entendendo que o que me dá alegria no trabalho é ter boas relações, ter pessoas com quem a gente conta e tudo mais. Porque trabalhar, como sabemos, é difícil, é custoso, são muitas horas do nosso dia dedicado a essa tarefa. Então como eu consigo criar um ambiente bacana, gostoso de trabalhar, para que faça valer a pena e para que a gente lembre que a nossa vida não é só trabalho, que são várias outras coisas que me compõe como um ser humano fora do trabalho também? Eu gosto das minhas coisas fora, gosto de tocar guitarra, de ser palhaço, de ter cachorro, entre outras. E aí eu fui percebendo que era isso que me fazia vibrar de verdade, estudar as relações humanas, a criação das conexões. Com os anos eu fui entendendo como uma coisa se encaixa na outra e, nos últimos dois ou três anos, eu tenho dado alguns cursos sobre escuta, empatia e conexões humanas.
Qual é o objetivo desse workshop?
O objetivo final é que a gente tenha uma qualidade de vida melhor, afinal de contas estamos cada vez mais ansiosos. Se você for procurar ansiedade ou depressão no Google Trends, você verá que os temas só cresceram nos últimos cinco anos. Isso para mim sempre ficou muito latente, essa pergunta de como a gente consegue transformar o ambiente onde a gente passa mais tempo – que é o trabalho – em um ambiente colaborativo, que seja gostoso de estar apesar de tudo.
E onde você se encontra atualmente nessa jornada?
Hoje eu sou gerente de marketing em uma empresa grande, de Singapura, mas presente em mais de 60 países, então eu trabalho com pessoas do mundo inteiro, fuso horários completamente diferentes. E é aí que eu vejo como isso sendo bem aplicado funciona na prática. Porque é muito gratificante para mim ver que consigo ter uma conversa com alguém da Turquia, por exemplo, igual eu tenho com um amigo aqui do Brasil, dando risada, resolvendo coisas e trazendo questões. Eu me conecto com o que a gente tem de básico, que às vezes é simplesmente falar “você gosta de tomar cerveja? Você gosta de música?”, e aí a partir disso vamos desenvolvendo.
Você acredita então que a base para a construção de uma relação é sempre tentar se conectar com os pontos mais básicos em comum com aquela pessoa já de cara ou você acha que isso é construído com o tempo?
Eu acho que depende. Uma das coisas que eu mais gosto nas relações humanas é que depende muito de pessoa pra pessoa, essa pluralidade humana é o que me encanta. Tem gente que nos relacionamos bem já de imediato, e aí quando você vê, já faz 5 minutos que está contando uma história de infância que ninguém liga, mas que com aquela pessoa fez sentido. Mas tem gente que não, que é preciso ir galgando aos pouquinhos a relação e a coisa vai se criando. Uma das frases que eu mesmo escrevi e que eu gosto muito é “se conectar através de humanidades, e não de amenidades”. É sobre achar coisas que nos tornam parecidos naquilo que nós somos: seres humanos. Todos nós temos desejos, medos, anseios, paixões. E quando a gente percebe, por exemplo, que nós amamos cachorros, e você fala do seu cachorro, falaremos sobre isso e será uma conversa muito mais interessante do que começar um papo falando sobre o tempo, sobre a chuva.
Eu posso assumir então que essa é uma dica pra quem busca se relacionar melhor no trabalho, por exemplo? Tentar buscar a humanidade no outro.
Com certeza, não só no trabalho, acho que de maneira geral. Para termos boas relações é necessário lembrar que aquele ser humano que está ali na frente é um universo de coisas e que temos que fazer com que esses dois universos se colidam de maneira harmoniosa. Como que a gente acha esse meio do caminho entre o que é meu e o que é seu e onde a gente consegue encontrar espaço para brincar? E aí entramos no assunto que eu mais gosto, que é esse brincar, tema que é tão amplo e tão importante. É preciso entender como eu gosto de brincar e como você gosta de brincar, porque o brincar é uma linguagem que vem através da escuta e do cuidado. Eu tenho que ir percebendo as nuances dela e os espaços onde ela é permitida. Exige cuidado e carinho para você ir pisando e entendendo. Quando a gente acha esse jeito de brincar com o outro, a gente vai muito mais longe.
Mas há um jeito certo para isso? Não haverá erros no caminho?
Sim, esse movimento exige um nível de risco também, porque pode ser que a gente erre. As histórias que o outro carrega também vão ressoar na forma como ele recebe essa brincadeira e para isso exige a escuta atenta e ativa, ouvir o que o outro fala naquilo que ele não diz, é muito necessária. Conforme a gente vai abaixando a guarda, os erros também podem acontecer e faz parte. Como comentei antes, hoje, trabalhando com pessoas de vários lugares do mundo, eu percebo que como cada um brinca diferente, então não dá para eu trazer as mesmas referências que a gente aqui do Brasil quando eu falo com alguém da Tailândia. Mas algumas coisas sempre teremos em comum e são essas coisas que vamos caçando. Essa é a chave. Até em coisas que a gente discorde. A base de uma boa comunicação é saber ler o outro, e isso inclui desde levar em consideração a sua cultura, a sua raça, seu gênero, até o lado mais social tipo posição da pessoa na empresa, o nível de intimidade. Isso que é gostoso, como a gente consegue trazer essa brincadeira para transformar os ambientes em que estamos inseridos, em algo mais prazeroso. E eu falo muito nisso pensando no trabalho porque é onde a gente passa a maior parte da nossa vida e onde a gente é requerido a produzir mais.
Qual é a relação disso com a escuta ativa?
Para descobrir esse universo do outro que eu mencionei, não há nada mais simples do que perguntar. As pessoas às vezes esquecem desse ato tão simples que é perguntar. Desvendar o outro é perguntar e escutar. E eu fui percebendo ao longo do tempo nessa minha trajetória de escuta ativa que eu ia falar sobre esse tema e aí, de repente, eu já estava falando sobre brincadeira. Mas qual a relação das duas? Aí eu entendi: é um passo a passo. A escuta leva a um brincar, e o brincar sem a escuta não é uma brincadeira, dificilmente vai andar, pode inclusive parecer bullying, alguma coisa que só você tá brincando. Pra gente ter uma brincadeira gostosa, a gente tem que estar se escutando, percebendo como o outro reage.
Há outros caminhos para aliviar o trabalho?
Eu sou sempre favorável ao trabalho colaborativo, todas as equipes que eu trabalhei, principalmente a minha que hoje eu coordeno, tento fazer o máximo que a gente puder de co-criação de campanhas e de ideias, porque sempre vão vir coisas melhores do que se vierem só de mim. Eu tenho uma potencialidade, se eu souber entender onde cada pessoa do meu time consegue entrar com as suas ideias, a gente faz o bolo crescer mais do que se fosse só eu. Então sou muito a favor do trabalho colaborativo pra gente melhorar. E tem uma outra questão que é entrando num campo até mais filosófico, nós só sobrevivemos enquanto espécie por causa do trabalho colaborativo. Se não estivéssemos formados em grupos e coletivos, seríamos bichos muito mais frágeis, mais suscetíveis aos riscos e não teríamos sobrevivido.
De que forma prática conseguimos ler o outro, principalmente no trabalho que você tanto mencionou? Como criar um atalho com uma pessoa, por exemplo, que é de um cargo de liderança e como atrelar isso a um ambiente onde a pressão rege?
Isso é um ótimo ponto, mesmo. São as minhas descobertas também e cada um vai tendo as suas próprias descobertas, e acho que a gente tem que fomentar essa discussão, porque eu vejo que não é só no Brasil, em vários lugares do mundo não há muito essa resposta. Eu acho que esse papel colaborativo e que estimula esse lado mais brincante do grupo precisa obrigatoriamente vir da liderança. O líder tem que ser alguém que entende a importância da brincadeira. Eu acho que um líder que sabe a hora de brincar e como fazê-lo é o tipo de líder que cada vez mais a gente tem que ter. E mesmo que o brincar seja muito simples, seja trazendo um gif rapidinho e vamos em frente porque temos muita coisa pra resolver. Eu não estou falando que a gente tem que pegar 15 minutos da reunião para falar sobre uma história engraçada do fim de semana. Mas como que ele consegue, através da brincadeira, deixar todo mundo conectado – porque quando a gente ri junto, muitas áreas do cérebro se ativam e a própria risada de um ativa o neurônio espelho do outro, que pode rir só de olhar. Isso vem de cima pra baixo, porque brincar exige uma falta de regra e isso é muito arriscado e assustador. Se o líder não estiver disposto para que isso aconteça, das duas, uma: ou não vai ter brincadeira e o espaço vai ser uma grande conversa de elevador, vão ficar só falando de trabalho e aquilo vai ser muito angustiante; ou vai ter a brincadeira e o chefe não vai participar. Porque a brincadeira é intrínseca à experiência humana, a gente precisa achar o alívio cômico em algum momento, e ela é importante pra gente se reconhecer como grupo. Então ela vai existir, o que o líder precisa é aprender a usá-la como ferramenta.
Qual a importância neurológica da brincadeira?
Quando a gente brinca, produzimos hormônios que trazem a felicidade, relaxamento, colaboração. Tudo isso que eu fui percebendo que eu sentia na pele e não sabia descrever cientificamente, é na verdade uma realidade, chancelada até pela Harvard Business Review. Conversando com um outro amigo meu que é palhaço e neurocientista, ele falava disso também, quando estamos em um ambiente estressante, ficamos menos dispostos a trazer novas ideias, a testar, a brincar e tudo mais, e aí o trabalho fica mais chato e menos criativo. E quando a gente está num ambiente onde nos sentimos seguros, a gente se sente ouvido, as coisas fluem. Fora a liberação dos hormônios atrelados ao bem-estar, como a serotonina, ocitocina, dopamina, que são ligados ao bem-estar e seus benefícios são amplamente estudados.
Quais são os tipos de brincadeira que você mais estimula?
Uma das coisas que eu sempre falo é entender os tipos de brincar. E acho que isso implica em entender o que cada pessoa gosta. Falar sobre cachorro já é brincar, por exemplo, porque já estamos falando de um universo lúdico, é uma paixão, algo que a gente gosta, então já estamos no campo da brincadeira. Se a gente for falar sobre música, também vamos entrar em outro campo lúdico, porque aí você vai falar das bandas que você gosta, e eu também, histórias que a gente já teve com show, e já estamos brincando. Geralmente eu gosto muito de olhar pelas paixões, mas tem pessoas que gostam muito de brincar de outras maneiras, por exemplo, dançando, colecionando coisas, competindo de alguma forma. Outra coisa é que se a gente for olhar pra grupo, a melhor brincadeira é a brincadeira que é nossa. “Ah, mas falar sobre cachorro não é a brincadeira mais divertida do mundo”. Depende. Se for duas pessoas que amam muito esse tema conversando, é uma conversa que vai se estender por horas e vai fazer muito sentido ali naquela dinâmica.
E como isso se enquadra na vida adulta?
Justamente, a gente perde um pouco isso na vida adulta, somos cada vez mais cobrados a trazer resultado, a performar, e menos a brincar, a sentir, a escutar. Esses sentimentos a gente vai tendo que guardar, só que são eles que fazem a gente sorrir, que traz mais sentido pros dias. É ele que faz valer a pena, faz suspender nossa noção de tempo e acho que a gente tem que recobrar isso cada vez mais, principalmente com as pessoas do nosso dia a dia.
Todos os seus workshops seguem o mesmo roteiro?
Não! No começo do ano eu fiz um workshop em uma escola sobre brincadeira para 11 turmas, foram 2 dias intensivos e foi incrível. Eu basicamente peguei tudo isso aqui que tô te falando e joguei fora, porque era um momento de brincar e interagir com as pessoas que estavam lá e foi muito gostoso. Já em empresas, depende. É preciso saber primeiramente qual é o problema que você quer resolver. Então todos os casos de empresas são feitos à mão, eu converso com o RH ou com a equipe que está me contratando para entender como é a realidade daquelas pessoas, em que nível estão aquelas pessoas em relacionamento para entender o que é preciso resolver. Uma vez, em uma empresa de comunicação, o problema era uma alta de contratação durante a pandemia, momento em que as pessoas não se conheciam e não tinham quebrado o gelo. A ajuda buscada era essa. Já no workshop que eu fiz na escola que eu mencionei anteriormente, o momento era de planejamento no começo do ano e eles queriam trabalhar colaboração do grupo para depois passar isso para os alunos. E falam sobre um processo de educação que é baseado na descoberta, na escuta, então fazia todo sentido. Tudo usa a escuta e a brincadeira como pano de fundo, mas o pra que que elas vão servir é diferente.
Então, apesar de você acreditar que a mudança precisa vir da liderança, esses cursos são dados para diferentes cargos, certo?
Sim. E a linguagem vai se adaptar também. Se eu estou falando com líderes e gestores, é diferente do que eu falar com chão de fábrica, os termos vão ser outros, as referências e as brincadeiras também. Na escola era para todo o staff da instituição, então o passo que eu dei era menor, eu não vou entrar muito na questão da neurociência, eu vou mais promover experiências. Agora quando foi só para os professores, que é o caso de pessoas que estudam mais neurociência e outras teorias, eu já consegui trazer outras propostas. Trouxe, por exemplo, um monte de coisas do Paulo Freire, que já falava de escuta ativa lá atrás, à sua maneira.
Ele não chegava ensinando, ele falava “o que você tem? Vamos partir daqui?”. Ele buscava entender o conhecimento prévio de cada um, mergulhar nesse universo que já existia antes dele chegar, gerar interesse a partir da realidade daquela pessoa. Tem uma citação dele que eu gosto muito que é “Nós só aprendemos se aceitamos que o diferente está no outro; do contrário, não há diálogo. O diálogo só existe quando aceitamos que o outro é diferente e pode nos dizer algo que não conhecemos”.
Assim como ele, eu acho sim que escutar é um ato revolucionário. É preciso entender onde você tá, onde eu estou e onde conseguimos ir juntos. E é aí que vem um outro ponto pra finalizar: a minha eterna busca não é sobre trazer a escuta como ferramenta e só. É como fazer ela estar e permanecer naquele ambiente. Porque quando eu faço um workshop sobre escuta e vou embora, eu plantei uma semente e eu quero que ela germine, mas não tenho controle sobre isso.
Agora quando eu sou agente desse processo todos os dias, tem um outro papel, um outro jeito de praticar essa escuta e que aí é na minha própria rotina, não é no discurso bonitinho e na frase motivacional, é na ação mesmo. E é isso que eu tento trazer cada vez mais, errando, aprendendo e perguntando cada dia mais para o outro.
Entrevista com
Psicóloga e professora da Universidade de São Paulo
10 de Novembro de 2020
Quais são os efeitos das relações familiares para a nossa saúde e a formação da nossa personalidade? Por meio de explicações de conceitos, desde doenças degenerativas, passando por estilos de apego, a psicóloga e professora da Universidade de São Paulo, Deusivania Vieira da Silva Falcão, conversou com o Plenae para explicar melhor as nuances das relações humanas.
Sabemos que as doenças degenerativas afetam muito os idosos. Mas, para a ciência, como ela se caracteriza?
Uma doença degenerativa relaciona-se a alteração do funcionamento de uma célula, um tecido ou um órgão. Elas provocam a degeneração de todo o organismo, envolvendo vasos sanguíneos, ossos, visão, órgãos internos e cérebro. No caso das doenças neurodegenerativas, envolve a destruição progressiva e irreversível de neurônios e, consequentemente, o nosso comportamento, a nossa fala, a nossa maneira de atuar no mundo. Essas enfermidades causam danos não apenas para quem sofre com ela, mas principalmente para quem está convivendo com a pessoa que tem a doença. E nós temos vários tipos de comorbidades degenerativas, até mesmo as mais comuns, como diabetes, hipertensão, doença da coluna vertebral, o câncer.A que eu costumo trabalhar é a doença de Alzheimer, o tipo de demência mais comum. E a gente observa que, de alguma forma, as doenças degenerativas levam à deterioração progressiva da saúde como um todo. É preciso levar em consideração que há uma interação entre o comportamento, o meio ambiente que vivemos e o próprio perfil genético da pessoa. Alguém que tem algum membro da família com a doença de Alzheimer, tem mais chance de desenvolvê-la do que quem não tem, mas isso não é uma obrigatoriedade. E esse processo degenerativo, como eu falei, necessariamente destrói características originais do que éramos, em algum nível. Por exemplo, o Parkinson é uma doença que tem efeito degenerativo no sistema nervoso central. O Alzheimer já afeta mais a fala, a memória, o comportamento. E isso, naturalmente, acaba gerando danos não só para a pessoa, mas também para os familiares e para os cuidadores de uma maneira geral. oso central. O Alzheimer já afeta mais a fala, a memória, o comportamento. E isso, naturalmente, acaba gerando danos não só para a pessoa, mas também pros familiares e pros cuidadores de uma maneira geral.
Qual é o poder das relações familiares sobre elas - como elas podem auxiliar?
O papel das relações sociais e familiares pode ser preventivo, como também um papel que vai auxiliar no tratamento. Mas, antes disso tudo, vale destacar que as relações sociais e familiares podem ser tanto um fator de risco, quanto um fator de proteção para a saúde e bem-estar. Porque vai depender muito da qualidade das nossas relações. Nas relações saudáveis, há presença de coesão, educação, um bom nível desse vínculo. Mas a gente sabe que tem relacionamentos que são tóxicos, que trazem mais prejuízo do que benefícios. Focando na prevenção e no fortalecimento como promotor de saúde: as relações sociais podem promover o bem-estar na medida que elas promoverem suporte pras pessoas, não só o suporte, mas também uma qualidade de vida. A família é um tipo de relação social, mas nem toda relação social é familiar. A própria OMS preconiza que nossos amigos são sinalizadores da nossa saúde. Por exemplo, se sou sua amiga e converso com você, eu observo que você está mais alegre do que antes, e vice-versa. Então as pesquisas científicas destacam o poder da amizade entre as relações sociais para a vida idosa que, muitas vezes, podem ser melhores até do que o vínculo que você tem com a sua própria família. E isso tá muito ligado aos estilos de apego, que falaremos mais para frente. Em períodos de crises que todos nós vivenciamos pelo menos uma vez na vida, ou quando estamos em tratamento, na adesão ao exercício físico, tudo isso as relações podem oferecer auxílio - e também o contrário. O papel das relações sociais e familiares pode ser preventivo, como também auxiliar no tratamento. Mas, antes disso tudo, vale destacar que as relações sociais e familiares podem ser tanto um fator de risco, quanto um fator de proteção para a saúde e bem-estar. Vai depender de uma série de fatores, tais como, a qualidade das nossas relações. Nas relações saudáveis, há presença de coesão, educação, boa comunicação, reciprocidade e fortes vínculos afetivos. Mas a gente sabe que tem relacionamentos que são tóxicos, que trazem mais prejuízos do que benefícios. Focando na prevenção e no fortalecimento como promotor de saúde: as relações sociais podem promover o bem-estar na medida que elas promoverem suporte para as pessoas e favorecem a qualidade de vida. Alguns estudos indicaram que as relações sociais eletivas, ou seja, as amizades, têm mais potencial de proteção para o bem-estar subjetivo e a saúde dos idosos. A própria OMS preconiza que nossos amigos são sinalizadores da nossa saúde. Por exemplo, se sou sua amiga e converso com você, posso lhe fornecer parâmetros acerca dos seus aspectos físico e emocional, além de também lhe ajudar a refletir sobre as suas escolhas, hábitos e estilo de vida. Então as pesquisas científicas destacam o poder da amizade entre as relações sociais para a vida da pessoa idosa que, muitas vezes, podem ser melhores até do que o vínculo que a pessoa tem com a sua própria família. E isso está muito ligado aos estilos de apego, que falaremos mais para frente. Em períodos de crises que todos nós vivenciamos pelo menos uma vez na vida, ou quando estamos em tratamento, na adesão ao exercício físico, tudo isso as relações podem oferecer auxílio – e também o contrário. O papel das relações sociais e familiares pode ser preventivo, como também um papel que vai auxiliar no tratamento. Mas, antes disso tudo, vale destacar que as relações sociais e familiares podem ser tanto um fator de risco, quanto um fator de proteção para a saúde e bem-estar. Porque vai depender muito da qualidade das nossas relações. Nas relações saudáveis, há presença de coesão, educação, um bom nível desse vínculo. Mas a gente sabe que tem relacionamentos que são tóxicos, que trazem mais prejuízo do que benefícios. Focando na prevenção e no fortalecimento como promotor de saúde: as relações sociais podem promover o bem-estar na medida que elas promoverem suporte pras pessoas, não só o suporte, mas também uma qualidade de vida. A família é um tipo de relação social, mas nem toda relação social é familiar. A própria OMS preconiza que nossos amigos são sinalizadores da nossa saúde. Por exemplo, se sou sua amiga e converso com você, eu observo que você está mais alegre do que antes, e vice-versa. Então as pesquisas científicas destacam o poder da amizade entre as relações sociais para a vida idosa que, muitas vezes, podem ser melhores até do que o vínculo que você tem com a sua própria família. E isso tá muito ligado aos estilos de apego, que falaremos mais para frente. Em períodos de crises que todos nós vivenciamos pelo menos uma vez na vida, ou quando estamos em tratamento, na adesão ao exercício físico, tudo isso as relações podem oferecer auxílio - e também o contrário.
Há uma interdependência entre os membros de uma mesma família?
Sim. A família é um espaço atuante de comunicações, no qual os membros são interdependentes, influenciam e são influenciados entre eles. No caso de situações que envolvem o cuidado com pessoas acometidas por alguma enfermidade, observamos que essa interdependência será bastante influenciada pelo tipo vínculo e pela qualidade do relacionamento que existia entre os membros anterior a doença. Tem pessoas que antes da doença já tinham um péssimo relacionamento familiar e, após a doença, só piora – e o contrário também. A compaixão e a generosidade podem surgir durante esse período, e funcionarem como uma oportunidade de se relacionar com o passado, fazer as pazes com ele, mas isso envolve autoconhecimento, inteligência emocional e espiritual.
O que significa o termo familismo?
No meu pós-doutorado, um dos temas que eu trabalhei é relativamente novo no Brasil, que é essa perspectiva do familismo. Ele é um valor cultural dos povos latinos e hispânicos, principalmente. Nas culturas individualistas, como no Canadá e nos Estados Unidos, o ser está acima de todos os grupos em todos os aspectos - incluindo a família. Quando você está acima de tudo, há uma certa ruptura com seus ancestrais, você dá ênfase ao presente e não ao passado. Eles não são melhores ou piores que os familistas, são só diferentes. A nossa cultura é muito de ir pelo senso de obrigação filial, a questão da piedade, a visão coletivista da vida, a obrigatoriedade de estar ali. A questão do familismo é que os filhos acabam tendendo para uma depressão quando os vínculos familiares não são tão sólidos ou quando eles não têm nenhum apoio, cuidam sozinho dos pais e se torna um fardo. Mas o contrário também, se ele possui um suporte, se ele teve vínculos afetivos muito bem construídos, ele sente uma felicidade de estar ali, podendo devolver tudo isso.. O familismo é um valor cultural dos povos latinos e hispânicos que revela a importância da família e reflete aspectos, tais como, apego, forte identificação com os membros da família, lealdade, reciprocidade, sentimentos de obrigação familiar, apoio e solidariedade entre os parentes. Este é um dos temas que trabalhei no meu pós-doutorado. Nas culturas individualistas, como no Canadá e nos Estados Unidos, o indivíduo está acima de todos os grupos em todos os aspectos – incluindo a família. Quando a pessoa está acima de tudo, há uma certa ruptura com os ancestrais, dá ênfase ao presente e não ao passado. Eles não são melhores ou piores que os familistas, apenas possuem crenças e valores diferentes. Comumente, a nossa cultura destaca a ideia de que a família deve estar em primeiro lugar nas nossas vidas. Somos ensinados a proteger e honrar o nome da nossa família, a perpetuar os costumes, os legados e a história dos antepassados. Somos levados a refletir sobre o senso de obrigação filial, a questão da piedade, a visão coletivista da vida, a obrigatoriedade de estar ali. O familismo pode ser um fator de risco e proteção a saúde e bem-estar ao indivíduo. É considerado um mecanismo protetor, quando a família oferece suporte emocional, estimula-o a ter um estilo de vida saudável e auxilia no enfrentamento de experiências negativas ou traumáticas. Por outro lado, pode ser um fator de risco. Muitos filhos, por exemplo, acabam vivenciando mais conflitos, tendendo a desenvolver sintomas depressivos quando os vínculos familiares não são tão sólidos ou quando eles não têm nenhum apoio, cuidam sozinho dos pais e isso se torna um fardo. Mas o contrário também, se ele possui um suporte, se ele teve vínculos afetivos muito bem construídos, provavelmente, sentirá uma felicidade de estar ali. É uma oportunidade de agir com reciprocidade, de devolver aos pais todo o investimento e cuidado que receberam deles ao longo da vida. No meu pós-doutorado, um dos temas que eu trabalhei é relativamente novo no Brasil, que é essa perspectiva do familismo. Ele é um valor cultural dos povos latinos e hispânicos, principalmente. Nas culturas individualistas, como no Canadá e nos Estados Unidos, o ser está acima de todos os grupos em todos os aspectos - incluindo a família. Quando você está acima de tudo, há uma certa ruptura com seus ancestrais, você dá ênfase ao presente e não ao passado. Eles não são melhores ou piores que os familistas, são só diferentes. A nossa cultura é muito de ir pelo senso de obrigação filial, a questão da piedade, a visão coletivista da vida, a obrigatoriedade de estar ali. A questão do familismo é que os filhos acabam tendendo para uma depressão quando os vínculos familiares não são tão sólidos ou quando eles não têm nenhum apoio, cuidam sozinho dos pais e se torna um fardo. Mas o contrário também, se ele possui um suporte, se ele teve vínculos afetivos muito bem construídos, ele sente uma felicidade de estar ali, podendo devolver tudo isso..
Quais são os cuidados que os afetados pelas doenças degenerativas - ou seja, a família e os amigos - têm que ter com a saúde mental?
É importante cuidar, cuidando-se, ou seja, investir no autocuidado, numa boa alimentação, na prática de exercícios físicos e no cultivo de bons relacionamentos. É preciso que a pessoa esteja presente, mas conheça seus limites. Também, se houver necessidade, é fundamental que se busque ajuda de profissionais de saúde e grupos de apoio.
E o que são, afinal, esses estilos de apego?
Quando nascemos, nós vamos ser cuidados por alguém, essa figura de cuidador que pode ser o pai, a mãe, a avó, tanto faz. Então essa pessoa vai estar te ensinando o que é o amor e o que é o amar. Por isso que os 3 primeiros anos de vida de um bebê são tão importantes. Essa teoria foi desenvolvida por um psiquiatra inglês, John Bowlby, depois da Segunda Guerra Mundial, com as crianças órfãs de pais que morreram na guerra. Essas crianças foram institucionalizadas, ou seja, foram para a creche e apresentavam alto índice de depressão. A partir do momento que ela cresce, ela vai desenvolver uma base segura ou insegura de apego. Se ela estiver envolvida em uma base segura de apego, ela vai ter mais confiança em explorar o mundo, mais amor próprio, que é uma mola propulsora da autoestima. Daí que nascem as as nomeações estilo de apego seguro e inseguro, sendo que o inseguro ainda apresenta três tipos: ansioso/ambivalente, evitador/desapegado e desorganizado/desorientado. As relações de apego desenvolvidas na infância são as bases das formas de apego emocional de adultos em suas relações sociais e românticas ao longo da vida.
Qual é a vantagem de ter um estilo de apego seguro?
As pessoas que possuem um estilo de apego seguro têm mais facilidade de se relacionar, de confiar, de se entregar, de investir nos relacionamentos. As que possuem um estilo de apego inseguro, no geral, são pessoas que não consegue se relacionar de forma mais fácil e espontânea, há sempre uma desconfiança, um medo. O índice de divórcio é bem maior no estilo de apego inseguro, e são pessoas com autoestima geralmente mais baixa, pois não houve esse olhar sobre elas com carinho e cuidado. Se a pessoa não teve uma relação de confiança, de afeto e de amor com seus pais ou cuidadores, provavelmente, não vai se sentir suficientemente aberta e segura para ser amada e isso dificulta muito em suas relações futuras. Pessoas com estilo de apego seguro, ao se depararem com uma variedade de eventos estressantes advindos com as doenças neurodegenerativas, tais como, a doença de Alzheimer, os veem como menos ameaçadores e são mais capazes de lidar com o estresse. O estilo de apego seguro também tem sido relacionado aos baixos níveis de sobrecarga em filhos adultos que prestam cuidados aos pais idosos. Eles percebem o papel de cuidar como sendo mais positivo e menos oneroso do que aqueles que possuem estilo de apego inseguro.
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