Para Inspirar
Ouça e leia o episódio da nona temporada do Podcast Plenae, conheça a história da cantora Wanessa, que tratou a Síndrome do Pânico com autoconhecimento.
4 de Setembro de 2022
Leia a transcrição completa do episódio abaixo:
Wanessa: Quando eu comecei a falar sobre síndrome do pânico, um monte de gente me procurou pra contar que também tinha esse problema. Eu fiquei surpresa com o número de amigas e amigos que passaram por isso e nunca me disseram. Às vezes, pessoas com transtornos mentais sentem vergonha de se expor, por causa da incompreensão, da falta de empatia dos outros. Mas foi muito importante para mim encontrar gente que sentia a mesma coisa que eu. Por mais que eu tivesse ao meu lado pessoas que me amavam, era muito difícil elas entenderem o que eu tava passando.
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Geyze Diniz: Conhecida em todo país por seu talento, Wanessa Camargo nem sempre deu voz para um incomodo que carrega há mais de 20 anos. A síndrome do pânico. Com uma infância inquieta e com incidentes dolorosos, Wanessa desenvolveu um medo recorrente da morte que a levava a parar em hospitais mesmo sem nenhuma patologia física. Com ajuda médica e um mergulho profundo para dentro de si, Wanessa foi em busca da causa do problema em uma jornada de autoconhecimento para descobrir os seus gatilhos. Conheça a relação de Wanessa com seu corpo, sua mente e sua consciência. Ouça no final do episódio as reflexões da Neurocientista Claudia Feitosa-Santana para te ajudar a se conectar com a história e com você mesmo. Eu sou Geyze Diniz e esse é o podcast Plenae. Ouça e reconecte-se.
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Wanessa: Eu tive a minha primeira crise de síndrome do pânico lá pelos 20, 21 anos. Eu estava num restaurante com as minhas amigas e comecei a sentir um mal estar muito grande, falta de ar, taquicardia. Foi do nada. Quer dizer, hoje eu sei que não é do nada, mas na época eu não sabia de onde vinha aquele terremoto. Eu tive certeza que eu estava morrendo e pedi para me levarem para o hospital.
Fiz milhões de exames, mas todos deram resultados normais, graças a Deus. E quando eu recebi o diagnóstico de síndrome do pânico, eu não levei a sério. Os médicos juravam que eu não tinha nada físico. Mas eu não acreditava que aquela sensação tão real pudesse ser uma construção da minha mente. Eu continuava achando que eu tinha alguma coisa no cérebro, um tumor ou alguma doença séria que iria me matar.
Eu tratei a síndrome do pânico pelo método convencional naquela época, com remédio, com acompanhamento psiquiátrico e terapêutico. As crises passaram e ficaram adormecidas até 2020, quando voltaram com tudo.
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A minha síndrome do pânico vem do medo da morte. E bem no começo da pandemia, eu peguei covid e, um mês depois, comecei a sentir um cansaço extremo. O meu corpo não esquentava, eu tremia, eu tinha confusão mental. Eu fiquei muito estressada, até descobrir que eu estava com hipotireoidismo. Esse diagnóstico aumentou a minha ansiedade, que já tava alta desde o começo da quarentena, com aquele caos no mundo.
E aí, ainda em 2020, eu perdi o meu avô, Francisco, pai do meu pai. Meses depois, eu sofri um aborto espontâneo. Na sequência, a covid levou um grande amigo meu, o Aguiberto, que foi o primeiro produtor que eu tive, que era um segundo pai para mim, uma das pessoas mais importantes da minha vida. Aí passam mais três meses e eu perco outro avô, Geraldo, por covid. Foram muitas mortes em pouco tempo. E os lutos e os medos se misturaram em um grande liquidificador maluco que explodiu.
Chegou um ponto em que eu tinha crise de síndrome do pânico todos os dias. Todos os dias. E numa delas, eu estava dirigindo e fiquei com tanta tontura que tive medo de causar um acidente. Eu parei o carro, respirei fundo e admiti para mim mesma: “Eu não dou conta”. Achei um policial na rua e pedi para ele me levar até um hospital.
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Eu procurei psicólogo, psiquiatra, terapias holísticas. Eu cheguei a tentar tomar remédios, mas na fase de adaptação os sintomas pioraram. E aí eu falei com os meus médicos: “Vamos juntos tentar sem medicação?”. E eu sei muito bem que, com o remédio alopático, eu ia melhorar em questão de dois meses. Mas talvez pela minha forma de ser, eu ia me sentir confortável, eu ia me distrair e parar de olhar para mim mesma. Eu ia relaxar e largar o processo terapêutico, igual da outra vez. Lá atrás, eu não tratei a causa da doença. Eu me livrei das crises. Então eu tirei a medicação e fiquei ótima por um bom tempo. Mas, na realidade, eu só tinha varrido a sujeira para baixo do tapete. E nesse reencontro com o pânico, eu não podia mais tapar o sol com a peneira. Então eu decidi mergulhar profundamente em mim, para entender o que estava acontecendo comigo.
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A primeira parte do processo terapêutico foi apagar o incêndio, enxugar a inundação, limpar a casa e ver onde estavam as goteiras.
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Eu comecei a reconhecer os gatilhos da crise. Então, por exemplo, quando eu to mais estressada, eu já fico atenta aos sinais do meu corpo. Aí eu falo, eu converso comigo mesma: “Ó, Wan, tá difícil aqui, então tudo bem se o corpo extravasar”. Então eu passei a identificar os sintomas no início, porque a crise pode começar com um sinal qualquer. Pode ser uma tremedeira no olho, que evolui pra um formigamento no braço. Daqui a pouco, eu sinto tontura, eu vejo fora de foco. Aí a respiração fica curta, o coração acelera o batimento. Às vezes vem um enjoo. Só que a essa altura eu já perdi o controle e chega uma hora que a minha mente fala: “Ferrou, você vai ter um piripaque”.
Então, hoje, quando eu percebo algum sinal de alarme no meu corpo, eu não espero mais chegar no lugar do descontrole para agir. Eu aprendi várias técnicas para navegar junto com a crise, até ela passar. Oração, respiração, meditação guiada para aplacar a ansiedade funcionam muito para mim. Eu também uso estratégias de afirmação pra acalmar o meu lado racional. Eu repito para mim mesma: “Wan, você já teve essa crise, esse pânico 10 mil vezes. Você já passou por isso, mas você fez todos os exames. Não tem nada no seu coração. O seu pulmão tá limpinho, etc.”. Então eu vou escaneando o meu corpo, até entender que o sintoma é só um truque da minha mente mesmo.
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Na terapia, eu fui investigar a causa do pânico. Eu descobri que eu tenho transtorno obsessivo compulsivo, também conhecido como TOC. E desde criança, já manifestava sintomas, tipo não pisar em linha, pisar em alguma coisa com o pé esquerdo, só com o direito. Então cada pessoa é um caso, mas, no meu, o TOC tá relacionado com a hipocondria e com o medo da morte. Aí eu fui procurar saber o por quê e eu descobri, por exemplo, que quando eu nasci, a minha mãe teve síndrome do pânico e depressão pós-parto. Então com seis meses de vida, eu sofri com uma pneumonia grave e fui parar na UTI. Com 1 ano de idade, por exemplo, eu abracei um ferro quente e precisei fazer uma raspagem por causa de uma queimadura de quinto grau. Aos 3 anos, eu engoli um parafuso de uns 3 centímetros. E eu lembro do médico falando: “Zilú, pelo amor de Deus, essa menina tem que ser vigiada 24 horas, porque, se esse parafuso virar, ele fura o intestino e ela morre na hora com infecção”.
Eu me recordo perfeitamente da minha mãe desesperada, sabe? Tensa naquele momento, naqueles dias vigiando toda vez que eu ia ao banheiro. Com 6 anos, eu fui atropelada, eu desmaiei, mas permaneci consciente. Eu lembro de estar sozinha num lugar escuro, pensando: “Meu Deus, eu morri? O que aconteceu comigo? Por que eu não consigo acordar?”. Eu fazia força para acordar e ver a luz, mas não conseguia.
Então todos esses episódios me fizeram sentir a iminência da morte. A sucessão de traumas, misturada com a minha personalidade controladora, viraram uma linda receitinha para criar um transtorno obsessivo compulsivo.
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No tratamento, eu descobri que não existe uma bala de prata que vai resolver o meu problema magicamente. Parte do processo de cura foi mudar o estilo de vida. Hoje, eu evito beber álcool. Eu também não posso dormir muito tarde, porque vira um gatilho de preocupação. Antes, eu praticamente trocava o dia pela noite. Agora, quando dá duas, no máximo três da manhã, eu já vou dormir. Porque eu sei que se eu não dormir pode virar um pânico. Eu sei que continua tarde, né? Mas para mim já foi uma vitória dormir duas, três da manhã. Ajustando o meu sono, fica mais fácil, por exemplo, fazer exercício físico, seguir uma alimentação mais regrada. Eu também adoro usar óleos essenciais, homeopatia e cristais para me acalmar. O canto e a dança têm efeitos terapêuticos gigantescos sobre mim. Mas de fato o autoconhecimento é a maior ferramenta que eu tenho. Graças a ele, eu melhorei muito.
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Eu tenho buscado ser uma pessoa mais leve também, menos crítica comigo mesma. Eu sempre me castiguei muito quando errava, porque tudo tinha que sair perfeito. E eu vi que não tem como eu ser, ao mesmo tempo, boa mãe, boa profissional, boa filha, boa amiga, boa para mim mesma… Não dá! Alguma coisa vai falhar alguma hora. Então eu procuro não me penalizar se eu não conseguir acordar cedo e malhar. Tudo bem se eu não conseguir ter uma alimentação regradinha. Tudo bem se eu não conseguir estudar 4 horas por dia.
O pânico também me trouxe um olhar muito mais para o interno e menos para o externo. Quando eu me fortaleço por dentro, eu automaticamente paro de me preocupar tanto com o que vem de fora. E quem tem ou já teve algum transtorno mental sabe que é difícil lidar com o julgamento do outro. Eu, tendo uma crise, eu cheguei a ouvir de pessoas que me amam frases do tipo: “Ó, nem começa com esse pânico, nem começa!” Como se eu tivesse algum controle sobre a crise, quem me dera! Esses dias, num programa de TV, eu ouvi falarem: “Ai, pobre menina rica. Quem precisa alimentar o filho não tem esse tipo de problema”. Isso não é verdade! Quando a gente estuda transtornos mentais, a gente descobre que pessoas de baixa renda também têm ansiedade, também têm depressão. E comentários assim me deixam muito triste porque são um desserviço não só para mim, mas pra todo mundo que tem um sofrimento psíquico.
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Eu faço questão de falar sobre o meu pânico justamente pra combater esse tipo de preconceito. Eu quero que a minha fala possa encontrar ressonância em outros lugares. Eu quero que as pessoas se reconheçam em mim e não achem que estão ficando loucas, como eu achei no começo, quando meus pais diziam que era frescura. Eu quero que, de alguma forma, tenha alguém do outro lado que possa me ouvir e não sentir que tá sozinho. Quero que as minhas palavras possam dar uma luz pra alguém. Eu também não cheguei sozinha onde eu estou agora. Eu recebi ajuda de muita gente, de pessoas que viveram a mesma coisa que eu ou não.
Já faz um tempão que eu não to indo para o hospital achando que eu vou morrer. E isso pra mim já é uma grande conquista. Há uns dois, três meses, eu não tenho mais essas crises tão fortes. Eu fico ansiosa? Eu fico, mas a ansiedade não virou uma crise descontrolada. E eu sei que, daqui para a frente, se eu ficar nesse lugar de vigilância, de observadora de mim mesma o tempo inteiro ou o tempo que eu conseguir, as crises vão ter cada vez menos espaço na minha vida.
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O pânico foi uma das ferramentas mais divinas que eu tive pra aprender, pra crescer, pra evoluir. Pra me tornar uma mulher adulta, pra saber o que eu quero e o que eu não quero dentro da minha vida. Ele veio como uma bênção, porque, mesmo sendo doloroso, ele me colocou num lugar de desconforto do qual eu não podia mais me distrair. Eu sei que ainda tenho um longo caminho pela frente. Mas eu to muito feliz com o percurso que eu percorri até agora. Eu sou dona da minha história, eu sou dona das minhas escolhas, eu sou dona da minha voz.
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Claudia Feitosa-Santana: Wanessa Camargo nos relata sua busca por uma mente mais saudável. Como ela, todos se beneficiam quando escaneiam o corpo, ou seja, identificam as emoções. Pois a emoção está no corpo. Coração acelerado, enjoo, formigamento, por aí vai. O sentimento, por sua vez, vem depois, é a interpretação mental do conjunto de emoções, mas exige aprendizado e isso inclui recusar apostas do cérebro que são equivocadas ou inadequadas, como, a ansiedade que pode ser toda ou em parte cansaço, ou a raiva que deixa o descontrole tomar conta, mas poderia ser um sentir mais benéfico.
Quanto mais você se conhece as chances de acertar aumentam, seja o aceitar a medicação que precisa ou o recusar aquela que não precisa. Com isso, até uma dificuldade, deficiência ou transtorno pode ser um super poder ajudando você a construir uma vida mais feliz.
Geyze Diniz: Nossas histórias não acabam por aqui. Confira mais dos nossos conteúdos em plenae.com e em nosso perfil no Instagram @portalplenae.
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Para Inspirar
Conversamos com as avós “modernas”, mulheres que testemunharam revoluções em suas juventudes e hoje fogem do estereótipo de “velhinhas que tricotam”
6 de Março de 2024
Baby boomers, millenials, geração Z: você já deve ter ouvido falar em alguns desses termos, que são usados para nomear as gerações em determinados períodos e espaço de anos. Esses marcadores podem parecer sem muita serventia de imediato, mas a verdade é que eles existem para que os estudiosos de diferentes temas consigam identificar padrões de comportamentos e mudanças sociais relevantes.
No caso dos baby boomers, como são chamados os nascidos entre 1946 e 1964, já há um distanciamento histórico suficiente para cravá-los como a geração que testemunhou mais revoluções. O nome, inclusive, se dá pelo aumento de natalidade (um boom de bebês) pós-guerra, o maior do século 20. Havia um clima otimista no ar, de superação e recomeço, além de uma calmaria importante no cenário político, que ansiava por uma calma.
Hoje, essa horda de pessoas que ressignificaram o conceito de juventude e abriram alas para as revoluções e liberdades hippies que viriam em seguida, são avôs e avós. E, mais especificamente sobre as mulheres: o que querem elas que não seguem mais o estereótipo de vovós que fazem crochês e vivem pelos seus netos?
Vovós modernasPílula anticoncepcional, minissaia, direito ao voto e ao divórcio, maior inserção no mercado de trabalho: essas são só algumas das emancipações vivenciadas pelas baby boomers, que testemunharam o movimento feminista se consolidar e as discussões acerca de gênero e liberdade ganharem forma e força.
Tantas décadas depois, essas mulheres se tornaram hoje avós. Hoje, aliás, temos mais avós do que netos segundo o estudo Tsunami 60+. Estima-se que em 2030 teremos mais idosos do que pessoas com até 14 anos, para se ter uma ideia. E, ao tentar definir quem é e o que quer esse público, velhos mitos e preconceitos são derrubados em uma rápida conversa.
“Sim, elas se sentem bem física e mentalmente. Sim, elas se movimentam pela cidade, trabalham, namoram. E não, a relação delas com a tecnologia não é tão ruim quanto se pensa”, escrevem as criadoras do estudo, Layla Valias, Lívia Hollerbach e Mariana Fonseca.
Ainda segundo o mesmo levantamento, 62% dos brasileiros com mais de 55 anos dizem "Minha saúde mental e física está bem". A sensação de estar bem física e mentalmente independe da classe social. Além disso, 59% das pessoas entre 55 e 64 anos afirmam: "Minha rotina na semana é bem intensa, com muitas atividades fora de casa."
Reflexo disso é que 63% das pessoas com mais de 60 anos são provedoras da família, 86% das pessoas acima dos 55 anos vivem com sua própria renda e 93% das pessoas acima dos 75 também. Ou seja, há uma movimentação não só em prol do lazer, mas também criativa e do ofício.
Elas namoram, fazem sexo, jogam videogame e estão muito mais por dentro da tecnologia do que se pode imaginar, como continua a pesquisa. Nas redes sociais, a presença já é consolidada. Mas fora das telas, a longevidade também já é uma realidade que veio para ficar.
A diferença no criarNeste artigo, falamos um pouco sobre a diferença na criação dos filhos de ontem e os de hoje. Mas, mais do que como elas criaram seus filhos no passado, queremos saber como essas avós são hoje. Conhecemos alguns dados importantes sobre essa população prateada, mas também fomos conversar com avós consideradas “modernas”.
Neste Plenae Entrevista, conversamos com duas influenciadoras digitais que são o reflexo dessa modernidade. Também já conversamos com Helena Schargel, modelo da maturidade, além de um Plenae Drop com as Avós da Razão. Mas, novamente, fomos conhecer mais exemplos de avós modernas, dessa vez, com foco em seus papéis e qual a diferença entre elas e suas próprias avós. Conheça a seguir o que elas têm a dizer.
“Fui pega de surpresa aos 45 anos quando minha filha adolescente me comunicou que eu seria avó. No início, a única coisa que conseguia fazer era chorar, pois sabia as dificuldades que teríamos que enfrentar. Mas tudo passou quando ouvi pela primeira vez os batimentos do coraçãozinho da minha neta. As diferenças entre eu e minha avó são muitas, começando pelo tratamento, pois eu tinha que chamá-la de senhora e não tinha abertura para dialogar abertamente da maneira que eu e minha neta fazemos hoje. Acredito que a oportunidade de trabalhar fora e ter contato com diversas pessoas, inclusive muitos jovens, me ajudou a ter mais flexibilidade nessa relação. Além disso, o contexto histórico também influencia muito”.

“Não sei bem explicar o motivo, mas eu tinha um pressentimento que minha filha mais velha estaria grávida. Quando veio a notícia oficial, foi um misto de alegria e de apreensão, mas não foi totalmente uma surpresa. Sou muito apaixonada pela maternidade e por bebês e sempre tive muita vontade de ser avó. A minha foi meu anjo da guarda durante toda sua existência, mas por mais próxima fisicamente que ela tentou ser, ela vivia em um mundo só dela, que eu considerava impenetrável. O amor nos unia, mas não falávamos a mesma língua. Hoje, eu procuro ser amiga dos meus netos e me inserir no mundo deles, ser participativa, conhecer os amigos, sair juntos, saber o que está acontecendo na escola. Curto músicas, filmes, jogos, entre outras coisas que fazem parte do universo deles. Também gosto de cozinhar para eles como minha avó fazia, claro, mas nossa relação não se resume a só isso. A questão é que não me sinto uma idosinha, vovozinha que deve ficar em casa em uma vida muito limitada. Sou ativa e quero mais. Ensino eles a nunca ter preconceito, sempre ter empatia e, acima de tudo, curtir muito a vida.”

“Minha neta nasceu em 2006, quando meu filho tinha 18 anos. Foi um susto, porém ela foi muito bem-vinda e hoje é uma linda jovem. Me considero moderna porque vivo de uma forma livre e intensa. Viajo bastante e sou independente. Comparando com minhas avós, sou fisicamente mais saudável e com uma aparência mais jovial. Do que me lembro de aparência, com minha idade (65 anos), minha avó paterna era uma velhinha de trança num coque e a materna, minhas lembranças são de uma velhinha ranzinza fazendo pãezinhos para receber os netos. Acredito que fora o progresso social dos últimos anos, um grau de escolaridade melhor e a experiência em ser mãe foram determinantes para um relacionamento mais leve com minha neta. Ensino sempre ela a viver a vida de uma forma saudável, respeitando a família e o mundo embasada nos valores morais e éticos.”

“Quando eu soube, no primeiro momento, minha filha era jovem e eu fiquei assustada, com medo que ela não concluísse a faculdade. Depois que nasceu, foi uma aproximação encantadora. A diferença gritante entre eu e minha avó se dá principalmente em relação a independência financeira, profissão, carreira. Nossos valores também, é inevitável que a minha avó tivesse percepções da vida muito mais centradas em ser do lar. Mas em contrapartida ela tinha habilidades que eu não tinha, ela pintava, costurava, eu não sei fazer nada disso. Eu me questiono se sou uma avó moderna, o que é ser uma. O que eu acho é que sou uma referência diferente pra minha neta, tanto eu quanto a avó paterna dela. Nós duas temos o mesmo perfil, temos mais ou menos a mesma idade e uma relação intensa com o trabalho. Com isso, minha neta entende se falamos que temos que trabalhar, por exemplo, e que não dá pra brincar agora. Ela também cresce em um ambiente de maior liderança feminina, nós ditamos mais os rumos do nosso lar do que os maridos. Inclusive, eu me separei recentemente e a minha neta me questionou sobre isso, teve dificuldade de entender por ser uma criança na primeira infância, mas esse vai ser um referencial diferente no futuro dela. O contexto social e até a criação dos eletrodomésticos, tudo isso e coisas que a gente não imagina contribuíram para nossa liberdade. Hoje eu ensino para ela o que a minha avó não podia me ensinar, que é o valor do trabalho. E escuto ela falar que quer estudar tudo, quer aprender tudo e fazer muitas faculdades. Ao mesmo tempo, indiretamente nós ensinamos a importância também do cuidado da família, porque somos todos muito unidos e ela vê isso na prática. Isso era algo que a minha avó fazia e eu continuei fazendo”.

Agora, nos resta esperar para descobrir como será a próxima geração de avós, essas que também participaram ativamente da história do mundo, dessa vez com mais direitos adquiridos e muita vontade de fazer. O futuro será otimista e feminista!
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