Para Inspirar

Tamara Klink em "A minha viagem despertou travessias em outras pessoas"

A oitava temporada do Podcast Plenae está no ar! Confira a história da navegante Tamara Klink. Aperte o play e inspire-se!

22 de Maio de 2022


Leia a transcrição completa do episódio abaixo:


[trilha sonora]

Tamara Klink: Eu sabia, racionalmente, que a ideia de atravessar o Atlântico sozinha não era exatamente a melhor do mundo naquela hora. Eu não tinha a experiência necessária para uma aventura desse porte, nem dinheiro. Meu barco era velho, pequeno, não exatamente super seguro e o trajeto era bem longo. Se eu falasse pra minha mãe, eu com certeza ia desistir, porque ela ia me transmitir os medos inevitáveis que ela teria. Foi por isso que eu só contei pra minha avó. Ela me disse: "Mas Tamara, por que sozinha? Você não pode levar uns dois idiotas com você?”. Sem pensar muito, eu respondi: “Se eu posso contar com dois idiotas, eu também posso contar comigo mesma, né?”

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Geyze Diniz: Ela percorreu mais de 1.700 milhas e atravessou o Atlântico aos 24 anos. Muitos falam que ela estava sozinha nessa travessia. Ela diz o contrário. Conheça a história da doce e corajosa Tamara Klink. Ouça no final do episódio as reflexões do rabino, escritor e dramaturgo Nilton Bonder para te ajudar a se conectar com a história e com você mesmo. Eu sou Geyze Diniz e esse é o Podcast Plenae. Ouça e reconecte-se.


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Tamara Klink: A minha ideia original era atravessar o oceano num barco novo. Durante dois anos eu formei um time, desenhei o projeto e busquei sem cansar patrocínio pra construir esse veleiro. Eu fiz reuniões com pessoas de altos cargos que pareciam muito interessados em entrar no projeto. Em momentos decisivos, de vez em quando, surgia uma pergunta: “O que a gente vai fazer com a imagem da nossa marca se essa menina morrer no mar?”. 


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É verdade que eu nunca tinha feito uma travessia solo. Entendi que eu mesma precisava me dar os meios de começar de algum jeito. Pela internet eu conheci uma pessoa que estava disposta a me ajudar. Um professor de engenharia naval chamado Henrique que morava na Noruega e seguia o meu canal no Youtube. Ele tinha um barco que ele nunca usava e me convidou para ir para lá e usar esse barco dele durante as férias. Quando eu cheguei a gente conversou um pouco e em 15 minutos ele me disse uma frase que mudaria tudo: “Tamara, pra você ser comandante mesmo, você precisa ter seu próprio barco, porque só assim você vai poder tomar suas decisões com autonomia, sem precisar perguntar nem pedir autorização pra ninguém”.


A gente começou a ir atrás de uns veleiros num site de venda de usados. Pensei que seria uma boa ideia começar com algo pequeno, simples, antigo. Pequeno para os esforços não serem tão grandes para meus braços ainda finos. Antigo porque eu sabia que os cascos antigos eram mais espessos. Simples porque eu tinha muita coisa pra aprender. 


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Na internet, a gente achou uns dois barcos: um era legal, o preço um pouco alto e o antigo dono um pouco frio. O segundo não estava no melhor estado do mundo, entrava água por furos no cockpit que nunca tinham sido cobertos, tinha um probleminha no motor que cuspia água de refrigeração pra dentro de um balde que ficava dentro de outro balde que eu tinha que esvaziar a cada duas horas e metade do barco tinha sido queimada por um incêndio. Mas eu gostei do antigo dono e ele gostou do meu projeto. Ele topou me vender pelo preço de uma bicicleta e me deu a chave antes mesmo de saber meu nome. 


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A minha avó, a única pessoa da família que sabia do meu plano, minha confidente, escolheu o nome do veleiro. Ela propôs o nome de sardinha e eu gostei. É um peixe pequeno pro qual ninguém dá muito valor, mas que ao mesmo tempo é um peixe pelágico que vence grandes distâncias e nunca está sozinho, ele sempre nada em cardume. Mesmo na conserva, as sardinhas vêm juntas. É, o meu plano tinha mudado de construir um barco voador, relativamente complexo pra um barco de passeio de fim de semana, 26 pés, 8 metros de comprimento. Era mesmo uma sardinha, mas era o bastante pro que eu queria. 


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Eu levaria o barco até a França. Mil milhas pela frente, um mês de navegação. Eu era um tanto inexperiente, ainda não sabia parar um veleiro numa vaga de porto, eu nunca tinha tido a chance de tentar, ninguém nunca tinha me dado o leme de um outro barco pra fazer isso. Eu aprendi a fazer manobras com velas grandes, ainda não sabia como escolher qual vela colocar ou quando abaixar o pano, porque eu nunca tinha sido comandante, eu sempre fazia o que me falavam pra fazer antes de saber o motivo. É Tamara, só dá para aprender a navegar solitário navegando solitário.  


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Atravessar o mar do norte tem um certo desafio de cruzar com centenas de embarcações e navios carregando containers. É uma região com um enorme fluxo de navios. Eu achava que a Sardinha era um pouco pequena para esse trecho, mas a gente lidou bem com as adversidades. Comecei aos poucos a ficar segura com ela e mais segura comigo. É, de repente, a gente já tem o que precisa pra ir bem mais longe do que a gente pensa. 


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Assim que eu cheguei na França, eu tive a certeza que a gente podia fazer um trajeto quatro vezes maior, mas faltava. Precisava de recursos financeiros pra preparar a viagem, pra esse trecho que seria um tanto mais perigoso. Eu estava acostumada com negativas, eu já tinha passado por muitas. Mas, pelo menos dessa vez, uma busca por patrocínio eu tinha mais que uma ideia pra mostrar, eu tinha um mapa com meu trajeto traçado, eu tinha argumentos, eu tinha histórias, eu tinha dados, eu tinha as marcas na minha mão. Consegui marcar uma reunião com a Luiza Trajano, uma pessoa que pra mim parecia tão inatingível. No dia que eu a conheci, não parava de entrar e sair gente da sala, tinha pessoas de grandes cargos com muita responsabilidade ligando pra ela o tempo todo, e eu tentava conquistar um pouco de atenção pra falar da minha viagem, com uma certa vergonha do meu veleiro pequeno e antigo. De vez em quando, eu pensava: "Acho que não tenho muitas chances." Mas, para minha surpresa, ela viu a viagem de outro jeito. Ela gostou da ideia justamente porque eu mostrava que era possível ir muito longe com muito pouco e me disse que essa viagem tinha o poder de inspirar muitas mulheres. Aí eu fiquei pensando: “Mas será que eu tenho legitimidade pra inspirar alguém? Parece um objetivo tão abstrato. Mas, se ela disse, eu vou acreditar”. 


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Me planejei para sair no verão de 2021, pra aproveitar os ventos um pouco mais favoráveis do Golfo da Biscaia e também porque ia coincidir com o fim dos meus estudos. No dia que eu apresentei meu trabalho de conclusão de curso, eu corri pro barco, que estava em Lorient, na Bretanha. Durante um mês, eu pintei o fundo, eu refiz as vedações e fiz uma série de reparos e revisões pra deixar a França. Todas as vezes que eu planejei sair, o vento virava, tinha algum problema técnico e eu tinha que remarcar a data da partida. 


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Deixei Lorient em 11 de agosto, um dia de sol. As partidas são momentos de muita mistura de sentimentos. Eu tinha uma tristeza enorme por estar partindo da França. Simbolicamente, eu estava deixando para trás o país onde eu escolhi fazer meus estudos, onde eu ganhei autonomia, onde aprendi a navegar comigo mesma. Estava deixando para trás também um pedaço da minha história, amigos, namorado e partindo pro desconhecido absoluto. Essa viagem certamente ia me transformar de algum jeito. Quem eu serei quando eu chegar? Como a minha família vai ver isso? Como os outros, as pessoas que moram no Brasil, vão viver a minha viagem? Eu vou conseguir? E se não der certo?


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Os próximos 3 meses eram uma incógnita. Eu passava a maior parte do tempo navegando. Tinha três paradas previstas: Portugal, em Las Palmas na Espanha e em Cabo Verde, antes de chegar ao destino final, Recife.
 

Havia perigos reais na rota que eu fiz, desde possíveis encontros com orcas que atacavam os veleiros na costa de Portugal, até piratas ou o risco de bater em containers que flutuam no mar. Mas o primeiro perrengue que eu tive foi outro: uma enorme calmaria. A gente costuma imaginar que o perigo no mar vem em forma de tempestades ou ondas gigantes. As calmarias são momentos onde a gente fica sem nenhum controle, nem sobre a nossa direção. São períodos de pouquíssimo ou zero vento, são extremamente duras, principalmente pra dentro, pro nosso emocional. A gente dá tudo de si e avança quase nada. 


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Peguei uma calmaria logo no começo. Além de não ter vento, a corrente marítima estava contra. Eu tinha perdido a hélice do motor e fui carregada em direção às pedras, sem poder fazer nada pra impedir. Parece um pouco absurdo, mas a solução que eu encontrei foi ir em direção às pedras, eu colocava o barco no sentido da corrente, o nariz apontado pro perigo e pegava velocidade pra desviar. Foram 3 horas de muita tensão, mas foi o único jeito de eu ter manobrabilidade e ganhar tempo. Eu sabia que, a cada 6 horas, a corrente mudaria de sentido naquele pedaço da costa francesa.


Também tive calmaria no Golfo da Biscaia, entre a França e a Espanha. A minha cabeça começava a enlouquecer: “Será que vai durar pra sempre?” Começava a contar as garrafas de água que ainda tinham no barco. Se eu ficasse 10 dias daquele jeito, não sei se teria água o suficiente pra chegar no porto mais próximo. 


Quando a gente está parado no mesmo lugar, é mais fácil a gente perder a noção do risco e fazer bobagem. É nessa hora que a gente se distrai, que a gente sai sem colete salva-vidas, porque o mar tá um espelho e parece que não tem perigo. É quando a gente esquece de olhar o nível das baterias, porque tem tanto sol, é aí que a gente se acomoda. Quando tem água entrando por todos os lados, a gente nunca fica tranquilo. No mar, o maior perigo talvez seja baixar a guarda. Seja achar que a gente está no controle da situação, seja achar que a gente é inatingível ou invencível. 


[trilha sonora]


O segundo momento de dificuldade foi na costa de Portugal. Aí foi o contrário: muito, muito, muito vento e ondas curtas e altas. Fiquei com muito medo. Em alguns momentos, eu senti que uma ou outra avaria podiam por tudo a perder. Entrava muita água dentro do barco, eu perdi o leme de vento, que é uma espécie de piloto automático mecânico e rústico que para mim era fundamental. O barco parecia tão frágil naquele mar que, quando o leme quebrou, foi muito assustador ficar na mão. Eu tentava me acalmar, respirava e pensava: “Tamara, fica tranquila, no futuro será muito pior, no futuro os ventos serão mais fortes, as ondas serão maiores e mais curtas, aproveita agora, usa essa experiência pra aprender alguma coisa”. 


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O futuro chegou bem rápido. No trajeto mais longo da viagem, os 17 dias entre Cabo Verde e Recife, eu peguei um série de pirajás, que são essas nuvens escuras que fazem mini tempestades, com vento, chuva e onda. Um dos pirajás me deixou exausta e levou embora as minhas luzes de navegação, a minha antena e queimaram os meus 2 pilotos automáticos, o oficial e o reserva. Eu tive que passar mais de 30 horas com a barra do leme na mão. Às vezes eu sentia muita fome e eu sabia onde estava a comida, que ficava a menos de 2 metros dali, e eu não podia sair pra comer. Às vezes eu queria dormir e eu sabia que eu não podia. Quando eu não tinha mais força, eu pensava em outras viagens, em pessoas, em outros barcos que tinham passado por situações que pareciam muito mais difíceis que a minha. Eu lembrava que meu pai atravessou o Atlântico a remo e deixava de reclamar por estar segurando uma barra. "Pelo menos eu não estou nem remando". Quando eu sentia que meu barco não avançava, eu lembrava que as caravelas avançavam muito menos e que ainda por cima não conseguiam avançar contra o vento. 

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Era difícil lidar com a carência. Desde que eu parti da França, eu era a minha principal e exclusiva fonte de carinho. Às vezes eu me sentia esvaziada, sentia saudades da minha família, eu pensava no meu namorado, a muitas milhas dali, e nos meus amigos que eu não sabia se chegaria a rever. Em outros momentos, eu questionei: “O que eu estou fazendo aqui? Por que eu vim tão só pra esse lugar? Que é lugar nenhum.” 


Minha comunicação no barco era um tanto limitada. Eu envia e recebia mensagens de 160 caracteres e às vezes elas levavam mais de 24 horas pra sair do barco, atravessar a estratosfera, encontrar um satélite em órbita e voltar pra outro ponto da Terra, onde um amigo ou um familiar receberia "bom dia".


Na navegação em solitário, a gente parte de um porto e fica dias, semanas sem ver ninguém. A gente toma decisões sem ter com quem compartilhar. Às vezes a gente se sente em perigo, a gente tem dúvidas se vai chegar onde a gente queria e às vezes a gente tem dúvida se vai sobreviver. O mar exige que a gente aguente situações que, às vezes, a gente acha que não suporta. Sem descanso, sem distrações e com o mínimo conforto, é uma solidão profunda. 


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Mas também tem partes incríveis. A bordo, eu podia inventar as minhas próprias regras,  podia seguir o fuso horário do lugar que eu quisesse, podia acordar com o som dos golfinhos atravessando o casco, eu podia varar uma noite debaixo de um céu 100% estrelado, podia ficar sem roupa, trocar o café da manhã pelo jantar, identificar espécies marinhas que pegavam carona no guarda corpo. Eu podia estar em lugares muito diferentes, cruzar linhas imaginárias dos trópicos e saber que cada chegada era inquestionável.


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Três meses depois da partida, eu cheguei ao Recife, onde encontrei a minha família me esperando. Eu me achava às vezes tão egoísta de estar navegando só, mas descobri que eu não estava sozinha naquele barco. A viagem foi vivida por muitas pessoas e despertou múltiplas travessias. Meninas, meninos, homens, mulheres, idosos e idosas que talvez nunca pensaram em navegar me escreveram dizendo que começaram a fazer aulas de vela, ou que tomaram coragem para ter uma família, adotar crianças, se separar, mudar de estado, de profissão, de curso acadêmico e tomar outras decisões importantes. Acho que a Luiza tinha razão. Sem saber, a viagem inspirava muitas outras travessias. 


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Sonhei grande, mas eu me permiti começar pequeno. Todos nós temos alguma coisa que nos orienta e que às vezes parece tão absurda que talvez nem receba a atenção devida. Eu acho que sonho não é algo que a gente decide ter. Ele está lá, dentro da gente e a gente precisa desvendar qual ele é e começar a tomar decisões, mesmo que pequenas, de algum jeito para ele se tornar real. Talvez o meu barco não fosse o barco que eu mais sonhei, talvez não era o que eu mais queria e eu sabia que eu corria o risco de ele não chegar até o final. Mas eu me permiti correr esse risco e me permiti me aproximar cada vez mais do meu objetivo. 


Durante a viagem, a escrita foi um instrumento importante pra aplacar a minha solidão. As páginas do diário funcionavam como o reflexo do espelho que eu não tinha. No texto, eu podia interagir comigo mesma.


“É assim que acaba?

No escuro da noite,

a voz das irmãs e primas de longe,

acenos ao longo do canal


ficaram os peixes voadores

ficaram as noites solitárias

ficaram as conversas com o silêncio


5.600 milhas náuticas me trouxeram de volta pros braços da minha avó.


É assim que acaba,

com um novo começo.”


[trilha sonora]


Nilton Bonder: Tal como a vida, é a metáfora de sua viagem que nos apresenta os desafios das tormentas e das calmarias. O que fazer quando estamos em crise e o que fazer quando o telefone não toca, mensagens não chegam e a vida parece à deriva, estagnada. Um soco no estômago, esse tal de você dar o melhor de si e não sair do lugar. As calmarias desativam a atenção, recurso fundamental no mar e na vida. Outro artifício básico é saber diminuir o drama. Olhar o meio copo cheio ao invés do vazio. Comparar sua velocidade frustrante com a das caravelas que até para trás iam, ou o cansaço de estar por 30 horas junto ao timão lembrando do pai que tinha que remar para sair do lugar. Tamara sabe também que navegar é preciso, mas só se for cheia de vontade. Os recursos motivacionais são tudo. Ir de encontro aos braços da avó ou inspirar mulheres como sugere e desafia Luiza Trajano, além de romper com limites, são o sopro maior de suas velas. Tomar risco é maravilhoso, mas fica a advertência das TVs, pra não fazer isso sem a presença de um adulto. O adulto aqui é você mesmo quando algo maduro, amadurecido em você é capaz de transformar uma loucura numa grande aventura e conquista. 


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Geyze Diniz: Nossas histórias não acabam por aqui. Confira mais dos nossos conteúdos em plenae.com e em nosso perfil no Instagram @portalplenae.


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Para Inspirar

Paula Pfeifer em "​​Eu sou uma surda que ouve"

Desmistificando a deficiência auditiva por meio de seus textos e de sua própria existência, Paula prova de que não há limitações quando se tem um objetivo.

4 de Dezembro de 2022



Leia a transcrição completa do episódio abaixo:

 

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Paula Pfeifer: Eu sou surda. Só de ouvir essa frase, talvez você já se pergunte: “Como assim, surda, se ela fala tão bem?”. É que graças à medicina e à tecnologia, eu sou uma surda que ouve. Pode parecer coisa de ficção científica, mas não é. Quando as pessoas escutam as palavras “surdez” ou “surdo”, elas automaticamente associam à língua de sinais, intérprete de libras, surdos que não falam. Só que eu e milhões de pessoas no mundo inteiro somos surdos oralizados. Pessoas com algum grau de surdez que falam, que leem lábios e que usam próteses auditivas para voltar ao mundo dos sons.

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Geyze Diniz: Aos 6 anos de idade, a escritora Paula Pfeifer começou a perceber um ruído estranho em seu ouvido, mas só aos 16 que ela recebeu o diagnóstico que tinha surdez severa, bilateral e progressiva. Após alguns anos escondendo sua deficiência auditiva até de si mesma, foi na faculdade que ela revelou seu segredo e saiu do armário da surdez. De lá pra cá, Paula se dedica a criar conteúdo sobre surdez e tecnologia para disseminar informação de qualidade sobre o tema.

 

Ouça no final do episódio as reflexões do Historiador Leandro Karnal para te ajudar a se conectar com a história e com você mesmo. Eu sou Geyze Diniz e esse é o Podcast Plenae. Ouça e reconecte-se.

 

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Paula Pfeifer: Eu devia ter uns 6 anos de idade quando percebi um ruído estranho no meu ouvido. O apartamento em que a gente morava, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, tinha um corredor em formato de “S”, onde eu adorava correr. Numa tarde, eu encostei a cabeça na parede e gritei: “Mãe, tem um apito no meu ouvido!”. A minha memória mais antiga da surdez ainda é nítida, mesmo que tenha passado quase 35 anos.

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Eu lembro do olhar intrigado da minha tia-avó, toda vez que eu repetia a palavrinha mágica das pessoas que não escutam direito: “Hã?”. Pra ela, eu falava “hã?” demais. Às vezes, ela comentava com a minha mãe e a minha avó que desconfiava que eu não ouvia bem. As duas sempre retrucavam: “Imagina, que bobagem!”. Como eu tinha a voz perfeita, ouvia muita coisa e conversava normalmente, era mais fácil pensar que eu era distraída. E, nos anos 80, não havia toda essa informação facilmente disponível hoje.

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Fiz uma audiometria e a fonoaudióloga deixou claro que eu tinha uma perda auditiva, mas minha mãe não lidou bem com a notícia e disse à fono que ela estava enganada. Só posso explicar de uma forma: é a clássica negação. Quando a surdez se manifesta na infância, nem todos os pais lidam com isso da melhor maneira. Embora a surdez seja considerada uma urgência quando acomete as crianças, muitas famílias levam anos até buscar reabilitação auditiva, sem saber o quanto estão prejudicando os seus pequenos. Afinal, tudo é comunicação, e a saúde auditiva é fundamental para o nosso pleno desenvolvimento.
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Fui levada a um otorrino que disse que o canal do meu ouvido se abriria conforme eu crescesse. E que daí ficaria tudo bem porque eu passaria a ouvir melhor. A gente acreditou nesse diagnóstico médico errado, e eu fui me virando com leitura labial. Na escola, eu procurava sempre um lugar estratégico para me sentar. Na época, meu ouvido bom era o direito. Então, eu sentava na fileira lateral e encostava a cabeça na parede, pra ter uma visão panorâmica da sala de aula e “ouvir” com os olhos.

A coisa se complicou na adolescência. Conversar no telefone com as amigas e namoradinhos era um pesadelo. Eu não entendia nada do que eles diziam. Para não passar vergonha, eu pedia para quem atendesse o telefonema dizer que eu não estava em casa. 

No segundo ano do ensino médio, eu fiquei muito amiga de uma menina que era surda oralizada. Ela tinha a voz bem diferente, mas dava para entender direitinho o que ela falava. A gente conversava tanto durante a aula que os professores colocaram cada uma numa ponta da classe. Só que a gente continuava conversando, sem som, somente com leitura labial.

Um dia, um colega me perguntou: “Como é que você consegue entender o que ela fala sem som?”. Aquela pergunta me intrigou tanto, que eu cheguei em casa e falei para a minha mãe: “Até hoje aquele canal que o médico disse que ia abrir não abriu. Vamos procurar outro especialista?”. E assim nós fomos a outro otorrino. 

Eu tinha 16 anos quando finalmente recebi o diagnóstico certo. Eu nunca vou esquecer o movimento dos lábios do médico quando ele me falou: “Você tem deficiência auditiva neurossensorial, bilateral, de caráter severo e progressivo”. Como em muitos casos, a minha surdez é de causa desconhecida. Mas a causa não importava muito. O mais difícil era pensar que, em breve, eu precisaria lidar com a chegada do silêncio total. Meu mundo caiu? Não. Em vez de pensar em mim, eu pensei nos outros. 

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Como seria se alguém soubesse desse fato ao meu respeito? Como seria a reação das pessoas? Será que eu seria vítima de piadinhas e de capacitismo? Quando a minha mãe e eu saímos do consultório, ela estava com o rosto inchado de tanto chorar. Enquanto a gente esperava o elevador, eu disse a ela: “Esquece isso que ouvimos aqui. E nunca mais toque nesse assunto comigo”. Olhando para trás, eu vejo que foi uma atitude infantil de uma adolescente apavorada. A palavra “deficiência” não fazia parte do meu mundo. Em termos práticos, o diagnóstico não mudou muita coisa no meu dia a dia. Eu usei poucas vezes o aparelho auditivo caríssimo que a fono recomendou, porque eu tinha vergonha de usar e entrei para o armário da surdez, tentando esconder a minha deficiência auditiva até de mim mesma.

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Eu me formei no ensino médio e fiquei muito agoniada na hora de escolher uma profissão. Eu tinha vontade de estudar jornalismo ou direito. Mas como, se eu tinha dificuldade para ouvir e para me comunicar? Eu acabei prestando vestibular para o curso de ciências sociais, mesmo sem vocação, e a escolha estava intimamente ligada ao fato de que esse curso não requeria muita interação humana e eu poderia passar bastante tempo com a cabeça enterrada em livros.


A faculdade me tirou da minha zona de conforto. Eram novos amigos, novos professores, novas vozes e novas bocas pra decifrar. Eu ganhei fama de antipática, porque eu não respondia quando os colegas me cumprimentavam. Um dia, na aula de antropologia, a professora me chamou e eu não ouvi. Mas eu li os lábios dela dizendo pra classe inteira que eu era mal-educada. Eu chamei a professora e falei bem alto, pra todo mundo ouvir: “Eu não respondi porque eu não escutei. Eu não sou mal-educada, eu sou surda”. 

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Todo mundo me olhou com os olhos arregalados, e a professora ficou com as bochechas coradas de vergonha. No intervalo, alguns colegas vieram me dizer que se sentiam aliviados em saber que eu não era metida como eles achavam. Esse episódio é muito marcante pra mim. Foi a primeira vez que eu verbalizei alguma coisa a respeito da minha deficiência. Como eu vivia no armário da surdez desde que recebi o diagnóstico, eu achava que, se revelasse o meu segredo, as pessoas ficariam horrorizadas ou algo semelhante. E na verdade elas pouco se importaram. 

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A partir daí, eu comecei a me assumir como surda e a me interessar pelo tema. No último ano da faculdade, eu prestei um concurso público na Secretaria da Fazenda do Rio Grande do Sul. Pela primeira vez, eu tive que lidar com a palavra “deficiente” no meu dia a dia. Eu concorri a uma vaga reservada a pessoas com deficiência, no início das cotas para PCDs em concursos públicos. Eu passei no concurso e, no primeiro dia de trabalho, um colega foi apresentar os três recém nomeados aos outros funcionários. E disse assim: “Esse aqui é o Giovano, esse aqui é o Cristiano e essa é a deficiente”. Eu nunca tinha ouvido falar na palavra capacitismo, eu nem sabia o que era isso. Mas o preconceito já estava ali, escancarado. 

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Alguns meses depois, um colega, muito observador, começou a questionar a minha teimosia em não usar aparelhos auditivos. Ele passou muito tempo insistindo, e eu lembro de um dia em que ele me disse: “Paula, não é possível que tu não te acertes com teus aparelhos auditivos. Deixa de frescura, porque até a minha tia de 80 anos se acertou com os dela e ganhou muita qualidade de vida”. Ele tinha razão. E foi assim que eu dei um basta em todas as desculpas esfarrapadas que contava pra mim mesma tentando justificar porque os meus aparelhos estavam na gaveta ao invés de estarem nos meus ouvidos.

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A partir daí, eu nunca mais deixei de usar os meus aparelhos auditivos. Sair do armário da surdez me tornou mais leve. Eu gastava muita energia fingindo que era uma pessoa que ouvia e fingindo que entendia o que as pessoas estavam falando. Uma cena clássica da surdez é ficar só sorrindo e concordando numa roda de conversa, sem ter a menor ideia do que os outros estão dizendo. Aí você concorda e reza para que não seja uma pergunta. Assumir a surdez me deu liberdade pra eu falar: “Eu não ouvi, você pode repetir?”. 

O tempo foi passando e eu fui perdendo a pouca audição que eu tinha. A surdez tem graus: leve, moderado, severo, profundo. Eu conheci e experimentei todos esses graus. E quando eu cheguei na surdez profunda, a sensação era de viver trancada num aquário. Sem aparelho, eu só escutava estouros, portas batendo, trovão alto e um zumbido constante. Eu era prisioneira do silêncio. E ainda por cima tinha o zumbido como carcereiro, o tempo todo me lembrando: “Eu tô aqui, eu tô aqui”. Eu queria muito sair daquela prisão, mas não via a menor possibilidade de como fazer isso acontecer.

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Em 2010, decidi criar o site Crônicas da Surdez e passei a escrever sobre os perrengues que eu passava no dia a dia. Era quase uma terapia, porque eu não tinha com quem conversar sobre a minha deficiência auditiva. 

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A audiência foi crescendo aos poucos cada vez mais e, a partir daí, um monte de coisas legais aconteceram, entre elas um convite pra fazer a minha primeira palestra num congresso de otorrinolaringologia, que aconteceu em Campos do Jordão. Depois da palestra, saímos com um grupo de 10 fonoaudiólogas para jantar. Apesar de ser expert em leitura labial desde pequenininha, naquele dia, ter que ler o lábio de várias pessoas num ambiente escuro e super barulhento foi impossível. Era a surdez, mais uma vez me afastando das pessoas. 

A minha mãe tirou uma foto minha dormindo na ponta da mesa. Quando ela me mostrou, eu ri, todo mundo riu. Mas eu fui pro banheiro chorar, porque essa foto me mostrava claramente que eu tinha chegado no fundo do poço. Enquanto todo mundo se divertia e conversava, eu dormia, porque não conseguia acompanhar as conversas. E foi aí que eu decidi investigar se podia fazer um implante coclear. Esse implante é um dispositivo de altíssima tecnologia indicado nos casos de surdez severa ou profunda. Eu descobri que sim, eu tinha indicação médica para fazer a cirurgia do ouvido biônico. A foto foi tirada no dia 16 de agosto de 2013. No dia 28 de setembro, eu entrava no hospital para operar o meu ouvido direito. E a partir daí, a minha vida mudou. 

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O meu sonho era poder escutar uma música e entender a letra sem leitura labial. Algumas semanas após a cirurgia, eu estava sentada em cima da minha cama, sem prestar atenção na TV, e começou a tocar a música de abertura de uma novela das 8. E era “Eu sei que vou te amar”. Quando aquela música entrou pelo meu ouvido e fez sentido, o meu corpo arrepiou inteiro. Eu estava ouvindo uma música e entendendo a letra inteirinha pela primeira vez.
Aos 31 anos, eu voltei a ouvir as vozes dos meus amores. Da minha mãe, da minha vó, do meu irmão. Eu voltei a ouvir e a controlar a minha própria voz, porque eu não tinha como saber antes se eu estava gritando ou falando baixinho. Quando eu ouvi passarinhos pela primeira vez, depois de tantos e tantos anos, foi emocionante. O dia em que eu fui até a praia para descobrir se eu tinha voltado a ouvir o mar, que eu tanto amava, e sim, eu tinha, eu não tenho nem palavras para descrever o que eu senti.

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Quando eu voltei a ouvir com o ouvido biônico, percebi que estava no trabalho errado, na cidade errada. E aí eu pensei: “Bom, agora que eu consigo fazer o que eu quiser, o que que eu quero fazer?”. A vida foi abrindo os caminhos. Por uma sucessão de coincidências, por causa do meu primeiro livro, eu conheci o meu marido, que é otorrino, especializado em surdez e em implante coclear. Um ano depois, pedi demissão, me mudei pro Rio de Janeiro, me casei e me tornei madrasta de três crianças.

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O foco do meu trabalho, desde então, é a criação de conteúdo sobre surdez e tecnologias auditivas. Criei uma comunidade que hoje tem 22 mil membros. Em 2018, venci um programa global de liderança do Facebook como residente da América Latina. Foram mais de 6.500 inscritos no mundo inteiro. Esse programa nos deu acesso a fundo de 1 milhão de dólares pra criar e executar um projeto em prol da nossa comunidade. O projeto se chamou Surdos que Ouvem e foi um sucesso. Milhões de pessoas assistiram a nossa campanha em vídeo. Milhares participaram dos nossos eventos. E incontáveis pessoas passaram a usar aparelhos auditivos ou fizeram implante coclear depois de conhecer o nosso trabalho.

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Segundo a Organização Mundial de Saúde divulgou no Relatório Mundial da Audição de 2021, há 1 bilhão e 500 milhões de pessoas com algum grau de perda auditiva hoje no mundo. A nossa missão é disseminar informação de qualidade para que todos saibam os caminhos possíveis para quem nasce com algum grau de deficiência auditiva ou para quem passa a perder a audição ao longo dos anos. A audição é o único sentido humano capaz de ser recuperado artificialmente. Reabilitação auditiva e tecnologia são sinônimo de qualidade de vida: ouvindo melhor, você para de se isolar, de sentir medo das interações sociais e se sente mais seguro para correr atrás dos seus sonhos. 

Outro tema muito importante nesse universo é a acessibilidade, que precisa ser uma luta coletiva, porque ninguém está livre de vir a ter uma deficiência em qualquer momento da vida. Hoje, todos nós temos um celular na palma da mão e consumimos muito conteúdo em vídeo. As legendas são essenciais. Há pouco tempo, o IBGE apresentou os dados da Pesquisa Nacional de Saúde, feita em 2019, e eles mostram que a maioria das pessoas com algum grau de surdez no Brasil não usa Língua de Sinais. Mas nós precisamos pensar em todas as pessoas surdas sempre, e a acessibilidade total para surdos envolve legendas e intérprete de Libras.

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Quando eu comecei a compartilhar as minhas dores e conquistas, eu entendi o poder da autoaceitação, o poder de vencer o medo na direção da mudança. E, com essa mudança, entendi que podia inspirar muitas pessoas a escutarem o barulho de dentro e mudarem as suas próprias vidas.

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Leandro Karnal: História tocante da Paula Pfeifer. Primeiro ela tem que lutar com um problema: surdez progressiva. Ela tem que descobrir até na negação da mãe do primeiro diagnóstico o que fazer diante de uma realidade, que segundo o dado que ela mesma fornece, mais de 1,5 bilhão de pessoas no mundo tem algum tipo de deficiência auditiva. Depois, o que ela mostra, que ela consegue lutar, construir sua história, fazer um concurso e enfrentar o capacitismo, o preconceito das pessoas contra alguma limitação de outra pessoa. Mas, o mais interessante da história não é só nos revelar o que todos sabemos: que o mundo é tomado de preconceitos, que as pessoas julgam a partir de modelos de perfeição. Mas que ela própria teve que superar alguns preconceitos, como a resistência dela a um aparelho e insistir em não usar um aparelho quando ela poderia e ela conseguiu melhorar a sua qualidade de vida através do uso da tecnologia. O preconceito estava no mundo e de alguma forma, ela mesma teve que trabalhar nela a questão da surdez e os desafios que isto pode representar para alguém. O que é bonito na história é que ela se transformou em uma pessoa que luta pra visibilidade, pra diminuição do preconceito, para poder não ser de novo apresentada como a deficiente do grupo, ou seja, que ela tenha identidade, que ela seja a Paula Pfeifer antes ser qualquer outra característica. Então ela conseguiu superar muitas questões, conseguiu superar muitos preconceitos externos e internos e fazer da sua característica específica uma alavanca, um foco que ajuda tanta gente no trabalho que ela faz. Parabéns, Paula.


Geyze Diniz: Nossas histórias não acabam por aqui. Confira mais dos nossos conteúdos em plenae.com e em nosso perfil no Instagram @portalplenae.


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