Para Inspirar

Sua saúde depende de como você vê a vida

Enxergar um significado na própria vida diminui as chances de distúrbios de sono, ataques cardíacos e mortes prematuras

4 de Fevereiro de 2019


Por que se preocupar em sair da cama de manhã? Ter uma boa resposta para essa pergunta pode ajudá-lo a permanecer mais saudável e a viver mais. Enxergar um significado na própria vida diminui as chances de distúrbios de sono,  ataques cardíacos e mortes prematuras. Um artigo publicado na Review of General Psychology ajuda a esclarecer como o propósito e a saúde podem estar conectados. “Redução do estresse, melhor enfrentamento e estilo de vida saudável são algumas das consequências de ter um propósito na vida”, diz a principal autora do artigo, Stephanie Hooker, da Universidade de Minnesota. Sentido da vida. Cada pessoa define uma vida significativa de um jeito. Segundo Hooker, no entanto, trata-se basicamente da ideia de que a existência faz sentido e que você é importante no mundo. Apenas levar uma vida “boa” provavelmente não é suficiente para colher as recompensas de saúde que o estudo mostra. “Você provavelmente precisa se lembrar regularmente sobre o que dá propósito à sua vida”, afirma a pesquisadora. As pressões e os aborrecimentos diários tiram o foco do seu propósito inicial ao escolher uma carreira. Quando isso acontece, se você puder recuar e tirar alguns momentos para refletir sobre o que faz tudo valer a pena, sua saúde e sua felicidade provavelmente se beneficiarão. Os impactos do senso de propósito na saúde:
  1. Estresse reduzido. Estar ciente do que é mais importante ajuda a manter frustrações e aborrecimentos em perspectiva. Você ainda está lidando com o mesmo engarrafamento, prazo iminente ou chefe exigente. Mas você não está colocando a situação fora de proporção, e isso resulta em menos estresse.
  2. Estresse aumentado. Por outro lado, sentir que sua vida é inútil pode aumentar o nível de estresse.
  3. Melhor enfrentamento. Pessoas que acham significado na vida escolhem estratégias de enfrentamento mais eficazes quando passam por um problema ou desafio. Por exemplo, em um estudo sobre pacientes com artrite submetidos à artroplastia do joelho (cirurgia de substituição do joelho) que apresentavam forte senso de propósito enfrentaram melhor a operação e se recuperaram melhor da intervenção.
  4. Autoestima. “As pessoas que têm um senso maior de significado podem ter maior probabilidade de cuidar de si mesmas porque sentem que suas vidas são mais importantes”, diz Stephanie, autora do estudo. “Elas têm esse objetivo final que estão tentando alcançar e a saúde é a base para poder fazer isso.”
Mais pesquisas. Anteriormente, Hooker realizou um estudo na Universidade do Colorado em Denver para analisar a relação entre o significado e a atividade física. Ela percebeu que o senso de propósito mais forte estava associado à maior atividade física. Outras equipes de pesquisa encontraram links semelhantes para o comportamento saudável. Por exemplo, em um estudo de adultos mais velhos, um senso de propósito foi associado a um maior uso de serviços preventivos de saúde, como a realização de um teste de colesterol, mamografia ou exame de próstata. Não por acaso, também estava relacionado a passar menos tempo no hospital. Os resultados de todos esses estudos apontam para o mesmo ponto: a importância de encontrar motivos para achar que a vida vale a pena – e se lembrar disso com frequência – será bom para sua saúde. Leia o artigo original aqui .

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Para Inspirar

Luciane Zaimoski em "A maior dor de uma mãe"

Conheça a história de uma mãe que transformou o luto em luta, na décima quarta temporada do Podcast Plenae.

12 de Novembro de 2023



Leia a transcrição completa do episódio abaixo:

[trilha sonora] 

Luciane Zaimoski: Eu não achava que depressão era frescura. Então quando o meu filho recebeu esse diagnóstico, eu entendi que era uma doença que precisava de tratamento. Mas, mesmo assim, na minha cabeça, se o Samuel se esforçasse um pouco, ele resolveria esse problema.

Se ele saísse de casa pra passear, por exemplo, ficaria melhor. Foi só na primeira tentativa de suicídio do meu filho, que eu entendi
, de verdade, que melhorar da depressão não é uma questão de força de vontade. 
 

[trilha sonora] 

Geyze Diniz: Desde que recebeu o diagnóstico de depressão de seu filho, Luciane Zaimoski se dedicou a cuidar dele e a entender mais sobre a doença. Infelizmente seu esforço não evitou que Samuel tirasse sua própria vida, mas Luciane transformou sua dor em uma causa pessoal e hoje, ajuda pessoas para que elas não passem pelo que ela passou. Eu sou Geyze Diniz e esse é o podcast Plenae. Ouça e reconecte-se. 
 
 

[trilha sonora] 

Luciane Zaimoski: Eu tenho três filhos: a Carol, o Samuel e o Tiago. O do meio, foi planejado. Foi tipo: O pai do Samuel e eu olhamos no calendário e falamos: é agora! 

[trilha sonora] 

Desde pequenininho, o Samuel se destacou tanto em casa como na escola. Ele era muito inteligente. No primeiro ano dele na creche, ele desenhava tão bem e aprendia tão rápido, que as professoras falavam assim: “Nossa, quando ele for pra educação infantil, vai ter que fazer uma avaliação. Ele provavelmente vai passar na frente das outras crianças”. Elas achavam que ele era superdotado. Dali pra frente, o Samuel sempre foi considerado o melhor aluno da sala. 

[trilha sonora] 

O Samuel tinha alguns amigos mais chegados, mas não fazia o tipo popular. Ele era mais introvertido e isso se acentuou a partir dos 15 anos. Naquela idade em que os jovens começam a sair, namorar, festinha, ele fez o movimento inverso. Ficou mais caseiro do que já era. Eu estranhei, mas achei que fosse pelo jeito tímido dele. O Samuel era doce, sensível… E fechado.  

[trilha sonora] 

No ensino médio, pela primeira vez, as notas dele começaram a cair. Os desenhos do Samuel se tornaram sombrios. É como se ele tivesse deixado de desenhar o sol pra desenhar a escuridão. Ele passou a não dormir, a não tomar banho, a não ter energia para ir para escola. Eu fui várias vezes ao colégio, mas ninguém notou nada anormal no comportamento dele.

Cheguei até a ouvir de uma professora que
o meu filho fazia parte da geração mimimi. Ela disse que ele não precisava de psicóloga, e sim de trabalhar, já que ele não queria estudar. Eu não concordei com ela. Tinha alguma coisa estranha. 
 

Chegou um momento que eu falei: “Filho, eu acho que você precisa de ajuda. Vamos procurar uma psicóloga?” Ele concordou.

Eu participei de algumas sessões da terapia e questionei a mudança de comportamento do Samuel. Mas a psicóloga dizia que nunca tinha notado nada anormal. Ela falava: “Se eu perceber que ele
está correndo algum risco, eu te conto. Mas, fica tranquila, porque tá tudo dentro do esperado pra idade dele”.
 

[trilha sonora] 

Com a terapia, o Samuel começou a conversar mais comigo. A gente falava sobre sexo, sobre droga e sobre outros assuntos considerados tabu. Mesmo assim, era um papo mais superficial, eu diria. Meu filho nunca me contou sobre as angústias que ele sentia de verdade. Por que ele andava tão triste?  

[trilha sonora] 

Depois de um ano e oito meses, ele não quis mais continuar com a terapia. A psicóloga achou que ele estava bem e deu alta. Só que aí veio a pandemia e o Samuel piorou muito. Ele começou a se mutilar e a se queimar. Eu desconfiei quando vi ele de calça e blusa num dia muito quente. Fui conversar com ele de maneira tranquila, sem que parecesse cobrança ou briga. Eu perguntava: “Tem alguma coisa errada aí, né, meu filho? Vamos conversar?” Daí ele me mostrava as cicatrizes.
 
 

Ele passou a ter crises de ansiedade também. As primeiras causavam uma sensação de falta de ar. Daí ele começou a ter espasmos, como se fossem ataques epiléticos. Eu procurei um neurologista e o Samuel fez uma bateria de exames. Só que os resultados deram todos normais. O meu filho foi encaminhado pra um psiquiatra e com provável diagnóstico de depressão 

[trilha sonora] 

Uns dias depois que o Samuel iniciou o tratamento com antidepressivo, ele tentou tirar a própria vida. Ele tinha acabado de começar a estudar na faculdade e a trabalhar na prefeitura de Curitiba. Foi no emprego que ele se machucou. O meu filho foi levado pra uma unidade de atendimento médico e, de lá, transferido pra um hospital psiquiátrico.
 
 

Eu fiquei sem chão. Eu era muito ignorante sobre a depressão. Não tinha nenhum caso anterior na família. E eu nunca tinha convivido com alguém que tivesse a doença. Nunca tinha nem sequer lido a respeito. Foi a partir da tentativa de suicídio do Samuel, que eu comecei a estudar sobre o assunto.  

[trilha sonora] 

Antes, eu achava que se o meu filho tivesse amigos alegres, se fosse à igreja comigo, se saísse mais, ele resolveria o problema dele. Eu não sabia que a doença causava um sofrimento tão profundo na pessoa. O meu filho ficou 48 dias internado no hospital psiquiátrico. No começo, o Samuel também concordou com a internação. Eu me enchi de esperança nesse período.

Achei que ele sairia curado. Mas foi o contrário. Depois de uns 20 dias, meu filho só chorava durante as visitas. 
O psiquiatra do hospital me explicou que, na realidade, o Samuel tinha transtorno bipolar. Até hoje, eu não tenho certeza sobre o verdadeiro diagnóstico.  

[trilha sonora] 

Dentro da clínica, o meu filho, que era um doce de pessoa, se tornou agressivo. Ele se revoltava com o tratamento e chegou a ser amarrado. Depois que ele saiu da clínica, me contou os horrores que ele viveu lá dentro. Ele não dormia, porque tinha medo de ser atacado por pacientes com registros criminais. Eu praticamente larguei o trabalho pra me dedicar ao meu filho. Eu dormia com ele, às vezes segurando a sua mão, pra que ele não fizesse nada contra a própria vida.  

[trilha sonora] 

Quando fez um mês que ele estava em casa, ele pediu pra voltar pro trabalho e pra faculdade. Ele realmente parecia melhor. A gente chegou até a comentar que o antidepressivo estava fazendo efeito. Mal eu sabia que a felicidade era porque ele tinha descoberto uma forma de encerrar a dor absurda que ele sentia.

No dia 2
2 de agosto de 2022, eu ainda lembro da última vez que ouvi a voz do Samuel: “Tchau mãe. indo trabalhar. Te amo”. Algumas horas depois, eu recebi uma ligação com alguém dizendo que ele tinha se machucado no trabalho
. Quando eu cheguei lá, não me deixaram ver o Samuel.

Um enfermeiro me falou: “Mãe, faz 37 minutos que a gente tá tentando reanimar o seu filho”. A minha vista sumiu. Eu perdi o chão e desmaiei. De repente, acordei com alguém me chamando: “Lu, Lu, vamo
s, o Samuel voltou. Ele tá indo pro hospital”.
 Os batimentos cardíacos tinham voltado, mas a atividade no cérebro, não.

Três dias depois, um médico me chamou numa sala, junto com toda a família, e deu o diagnóstico de morte cerebral. Eu sou uma mulher de fé e até o último minuto eu acreditei que um milagre traria o meu filho de volta. Mas o milagre que eu esperei veio de outra forma. 
 

[trilha sonora] 

No momento em que eu recebi a notícia da morte do meu filho, alguém recebeu uma ligação para receber vida. Nós doamos todos os órgãos possíveis do Samuel. Com isso, algumas pessoas receberam a esperança de viver. Mais de 500 pessoas foram ao velório e ao enterro. Eu fazia questão de contar pra todas, principalmente pros jovens, a verdade, para que de repente essa tragédia não acontecesse de novo.

Um amigo dele me contou que o Samuel já tinha tentado tirar a própria vida pelo menos mais uma vez. E eu nem tinha ficado sabendo.
 Um dia depois do enterro, algumas pessoas vieram na minha casa. A gente estava numa roda de conversa e eu falei: “Quantas mães ainda vão chorar por um filho que cometeu suicídio? Quantas pessoas ainda vão tirar a própria vida por falta de informação? E se a gente criasse uma ONG que alcançasse pessoas com depressão e os familiares dessas pessoas?”.

Assim, nasceu o Instituto Samuel Caetano.
 Logo depois que o Samuel foi enterrado, começou a campanha do Setembro Amarelo, dedicada à prevenção do suicídio. A Câmara Municipal de Colombo, uma cidade perto de Curitiba, estava fazendo um evento sobre isso. Eu fui convidada pra ir e dei o meu depoimento. 

[trilha sonora] 

Depois desse evento, a notícia se espalhou e pessoas que eu nem conhecia começaram a me procurar. A gente criou um grupo no WhatsApp e o projeto do instituto foi crescendo. Eu comecei a virar referência pros outros. Era assim: “Lu, uma amiga minha acabou de perder a filha e precisa de ajuda”. Ou: “Fulano tá com depressão”.

E assim eu fui fortalecendo outras mães e ajudando jovens com a doença. O suicídio acontece não porque a pessoa quer tirar a própria vida. Na realidade, é uma saída pra uma dor que a pessoa suporta mais sentir.
 

[trilha sonora] 

Atualmente, o Instituto Samuel Caetano tem cerca de 51 voluntários que prestam atendimento gratuito pra quem precisa. A gente faz ações em praças, pistas de skate, parques, ruas. Fazemos um trabalho de acolhimento para quem precisa, desde um abraço até uma conversa individual. 

Eu dedico a maior parte do meu tempo ao instituto, sem ganhar nada por isso. Nós temos dois projetos em andamento. O Projeto Girassol atua no ambiente escolar, da educação infantil até a universidade. Recentemente, nós demos palestra sobre saúde mental pra 800 alunos de uma escola na periferia de Curitiba. Já o Projeto Life, que ainda está em fase de discussão, prevê apresentação de música, teatro, dança.

A ideia é ter um cantinho da conversa, onde especialistas acolhem e encaminham pra tratamento se houver necessidade. Tudo de forma gratuita.
 O Instituto Samuel Caetano ainda não possui espaço físico. Mas eu sonho com uma sede espaçosa para acolher e tratar os pacientes de forma humanizada. Seria um lugar mais parecido com uma casa do que uma clínica. Quem tá doente precisa receber escuta sem julgamento, uma coisa que muita gente não encontra na própria família.  

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Na minha experiência de dor, nasceu a vontade de ajudar o próximo com amor. O Samuel se foi, mas a vida continua. Eu tenho tantos outros filhos pra cuidar. A Carol, o Tiago e tantos filhos e filhas que nasceram de outras mães e que necessitam de acolhimento. O nosso mundo precisa de pessoas dispostas a doar alegria e esperança ao próximo. 

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Geyze Diniz: Nossas histórias não acabam por aqui. Confira mais dos nossos conteúdos em plenae.com e em nosso perfil no Instagram @portalplenae. 

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