Para Inspirar

Silvia Poppovic em "Vivendo a adolescência da maturidade"

A sétima temporada do Podcast Plenae está no ar! Confira a história da jornalista Silvia Poppovic. Aperte o play e inspire-se!

15 de Fevereiro de 2022


Leia a transcrição completa do episódio abaixo:


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Silvia Poppovic: Durante muito tempo, eu não via a obesidade como uma doença. Eu tive uma grife plus size e dizia: “as mulheres podem ser do jeito que elas quiserem”. E podem mesmo. O problema é que é uma hipocrisia  dizer que quem tá acima do peso tá sempre bem. Gente, não é verdade. O excesso de peso pode trazer uma série de doenças metabólicas e fisiológicas. Eu negava os prejuízos da obesidade, até começar a sentir as consequências dela. 


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Geyze Diniz: Conhecida por sua presença e potência feminina na TV aberta por mais de 40 anos, a apresentadora Silvia Poppovic, aos 60 anos, resolveu tomar uma atitude radical em relação ao seu corpo: fazer uma cirurgia de redução do estômago. Depois de passar uma vida com excesso de peso, ela percebeu que para ter uma velhice com qualidade e longevidade, precisava perder um peso significativo. Com quase 50 quilos a menos, ela vivenciou prazeres singelos e rotineiros na vida de quem nunca viveu com sobrepeso. Como cruzar as pernas com conforto e vestir o que queria. Mais do que isso, Silvia hoje vive a adolescência da maturidade, como ela mesma diz. 


Conheça a história de autocuidado e zelo com o hoje e amanhã de Silvia Poppovic. Ouça, no final do episódio, as reflexões do especialista em desenvolvimento humano, Marc Kirst, para te ajudar a se conectar com a história e com você mesmo. Eu sou Geyze Diniz e este é o podcast Plenae. Ouça e reconecte-se.


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Silvia Poppovic: Quando eu tinha 26 anos, a minha mãe morreu num acidente de trânsito. Ela era educadora, psicóloga, uma pessoa energética, inteligente e MUITO importante na minha vida. E um dia, ela saiu pra trabalhar, foi dirigindo pela Avenida Sumaré, aqui em São Paulo. Na outra direção, vinha um jovem num carro grande, em altíssima velocidade. Esse motorista atropelou uma menininha de 8 anos, perdeu o controle do volante, atravessou a ilha de 4 metros que separa os dois sentidos da avenida e pegou a mamãe que estava vindo de frente. Matou ela na hora. 


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Acidente de trânsito é diferente de uma morte pra qual você se prepara. Ou que acontece num ambiente privado, dentro de casa. A minha mãe não. A minha mãe morreu no asfalto. Durante muitos anos, eu simplesmente não conseguia me deitar, porque eu sentia o que ela poderia ter sentido quando ela foi colocada sobre o asfalto. Muito forte isso. Eu nunca engoli direito essa tragédia, o jeito que ela morreu. O motorista fugiu, mas foi preso depois. Eu acredito na lei do retorno, e a vida dele não foi nada fácil depois disso. Agora… A minha também não foi.


Depois do acidente, eu comecei a trabalhar que nem uma maluca e abandonei os cuidados comigo mesma. Eu sempre fui uma pessoa acima do peso e, quando a mamãe morreu, eu simplesmente desencanei dessa preocupação. Fiquei obesa. Até os 40 anos eu fui muito gorda. Talvez tenha sido a época que eu fui mais prejudicada pelo excesso de peso.


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Eu nunca fui escrava do corpo gente, nem nunca deixei me vitimizar pela gordura. Não me incomodava ser fora do padrão. Eu namorava, me divertia, dançava, fazia tudo que tinha vontade. Mas algumas coisas eram BEM complicadas, por exemplo, como comprar roupa. Eu me apresentava num programa de TV diário e precisava de um figurino variado. No Brasil, simplesmente, não tinha manequim do meu tamanho nas marcas legais. Então eu tinha que viajar duas, três vezes por ano pros Estados Unidos. Ficava lá uns 3 ou 4 dias e comprava tudo que eu precisava, de calcinha a sutiã, calça, blusa, blazer. E eu descobri que essa moda se chamava plus size e resolvi então criar uma grife de tamanhos grandes. Durou 12 anos e foi um sucesso. Era uma maneira de fazer de um limão uma limonada.


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Aos 40 anos, eu me casei. Voltei a me cuidar mais. Aos 45, eu tive uma filha, que tem o nome de Ana, o nome da minha mãe. Só que eu engordei de novo e aí eu fui oscilando o peso na balança, até completar os 60 anos. Eu não sofria nenhum problema grave de saúde por causa da obesidade. Eu tinha colesterol e triglicérides altos, que eu controlava com remédio. Agora, o excesso de peso começou a atrapalhar a minha rotina. Eu comecei a ter dor nos lados, comecei a ter dor no joelho, nas costas, na sola do pé e passei a ter dificuldade pra caminhar. Então eu andava 2 quarteirões e tinha que me alongar. Era uma questão de mobilidade. Aí, nesse momento, caiu a ficha de que, naquele peso, eu ia envelhecer mal.


A minha filha tava com 18 anos e o meu pai tinha feito 90 anos. A Ana já estava  independente, cuidando de si, estudando medicina, pronta pra andar com as próprias pernas. O meu pai tava ótimo, com a cabeça lúcida aos 90 anos e eu me perguntei: “e eu?”. 


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Como eu sou muito otimista, no mínimo eu pretendo viver o mesmo tanto que o meu pai, ou mais, já que eu sou uma geração que vem depois Tendo uma filha tão jovem e uma tradição de longevidade, eu pensei o seguinte: “eu quero viver também a minha maturidade, bem, não sobreviver ela, eu quero viver com qualidade”. Agora, gorda daquele jeito, não ia dar. Eu precisava emagrecer. 


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Agora, gente, a obesidade é uma doença difícil de lidar. O gordo tem o metabolismo lento. Eu sou casada com um médico endocrinologista e testei todas as dietas. Agora, tem uma hora que não adianta. Você se esforça, se restringe, abre mão de prazeres, emagrece, e depois ganha tudo de novo, às vezes até mais do que você perdeu. Todo mundo com excesso de peso sabe como é isso. Por isso, em 17, exatamente em setembro de 2017, eu decidi seguir um caminho mais radical, que foi o da cirurgia bariátrica.


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A técnica de redução de estômago era perigosa no início. As pessoas morriam na mesa de operação. Mas a ciência foi se aperfeiçoando e hoje em dia é uma cirurgia controlada, com riscos pequenos. A obesidade oferece muito mais perigo do que qualquer operação.


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A cirurgia foi feita por laparoscopia e durou uns 30 ou 40 minutos. No outro dia, já tive alta, já tava em casa. Agora, não pense que a bariátrica é café com leite. As pessoas acham que a cirurgia é simples. Ah, pronto, se você opera já fica maravilhosa, já sai perdendo peso e tá tudo certo. Não é assim não. O pós-operatório até que é tranquilo, mas o pós-vida exige uma BAITA disciplina. 


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O corpo demorou a se adaptar nesse novo formato. Meu intestino ficou diferente e eu passei a comer muito menos do que eu comia. Eu como de tudo, mas em pequenas quantidades. Mas não posso comer e beber ao mesmo tempo, por exemplo, porque não cabe no estômago. Então, com o passar dos anos, eu me ajustei e essas questões sinceramente ficaram menores. A comida é importante? É. A comida é importante, mas sinceramente também, eu já comi tudo o que eu queria nessa vida.


Eu passei a descobrir outras fontes de prazer, como me vestir bem, por exemplo. Antes, era a roupa que me escolhia. Agora, o poder de decisão é meu. Com 48 quilos a menos, tudo que eu visto cai bem. É uma delícia entrar numa loja e comprar um biquíni que eu achei bonito, por exemplo. Ou usar uma calça marinheiro com um monte de botõezinhos, algo impensável antes. Não é que eu tô magra, eu tô no peso que eu tenho que ter: 65 quilos pra 1 metro e 70. É uma equação equilibrada. 


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Meus índices metabólicos se estabilizaram e eu não preciso mais de remédio pra nada. Tenho a saúde de uma menina. Estou in love com esse corpo que me oferece tantas possibilidades. Fazer exercício, que era um pesadelo, ficou muito mais fácil e prazeroso. Caminhar passou a ser uma coisa leve, gostosa. Hoje cruzo a perna com uma felicidade que ninguém imagina. Eu chego a dobrar duas vezes a perna. São pequenos prazeres que quem é magro não tem a menor ideia. Olha, tem uma Silvia que ficou abandonada por muito tempo e agora tá sendo mimada. Essa é que é a verdade. Eu tô me sentindo muito plena, eu estou me sentindo muito bem.


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Se eu soubesse que seria tão bom, eu teria operado antes. Mesmo assim, eu agradeço por ter tido a oportunidade de fazer essa mudança, de ter acordado pra ela a tempo e de poder curtir o meu corpo. Porque envelhecer já é complicado. Mas, se a gente tá em forma, dá pra filtrar várias doenças e problemas. Essa é a verdade.


Aos 66 anos, estou vivendo a adolescência da maturidade, cheia de projetos de vida que eu nem pensava em realizar. Eu me reinventei nas redes sociais, gente. Eu tô numa fase criativa profissionalmente, aprendendo, tentando usar a credibilidade de 40 anos de TV aberta como uma jornalista pra me comunicar com o meu público. Estou desenvolvendo uma linha de mesa, de toalhas, de pratos. Eu adoro esse universo do servir e agora eu tô entrando nele, como empreendedora. Um montão de novos projetos.


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A maturidade pode ser uma fase muito gostosa. É quando você tem tempo e dinheiro pra fazer coisas que durante a vida talvez você não tenha tido. A gente não precisa temer a velhice, precisa se preparar pra vivê-la da melhor maneira possível. Essa fase não tem só ruga e doença. Tem também a coragem de ser quem você é. 


A gente pode recomeçar a qualquer tempo, basta ter curiosidade de aprender coisas novas e coragem pra dar os primeiros passos. Feliz de quem tem o insight de perceber isso e de viver na plenitude, em qualquer idade. Porque se você tem 30 anos e consegue viver na plenitude dos 30, maravilhoso, ótimo! Tem muita gente que, por neurose, vai empurrando os problemas com a barriga e sendo infeliz a vida inteira. É ou não é?  A vida é muito curta pra gente não ser feliz. Chega uma hora em que ou você toma uma providência pra mudar ou entra numa posição de vítima. 


Eu espero que o meu último terço de vida seja leve, com propósito, com saúde. E olha, com tudo isso eu posso sonhar com o amanhã. Espero que eu continue descobrindo o mundo e fazendo coisas que eu nunca fiz. Eu não canso de me reinventar. Eu me casei mais velha, fui mãe tardia. Aos 45 anos a Ana nasceu. Gente, 45 anos, isso era uma novidade na época. Essa mudança do meu corpo também aconteceu numa fase em que a maioria das pessoas nem pensa mais nisso. 


No fundo, todo mundo sabe onde está pecando e onde pode melhorar na sua própria vida. Com um autoexame e sinceridade consigo mesmo, você pode estabelecer projetos e concretizar esses projetos. A vida fica muito melhor quando você vai ticando a sua lista de desejos. Quem consegue fazer isso tem uma existência menos frustrante, menos amarga, menos problemática. A gente tem que estabelecer as nossas metas e realmente se comprometer com elas. Eu queria me comprometer com um corpo novo. Eu estou comprometida com ele e muito feliz por isso. 


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Marc Kirst: A transformação de Silvia chega colocando luz em algumas das grandes contradições que vivemos atualmente. Focamos no externo, negligenciando o interno. Nos doamos ao outro e esquecemos de nós mesmos. Buscamos o prazer do agora sem cuidar do amanhã. Em uma cultura que venera a correria, a estética e o reconhecimento externo, quantos de nós, realmente, incluímos no dia a dia o cuidado e a saúde do nosso corpo? É comum estar focado na próxima conquista profissional e esquecer que é ele, o corpo, o nosso veículo, a ferramenta, o instrumento que permite e potencializa toda e qualquer realização. E claro, quanto melhor a qualidade do nosso meio, melhor será o nosso fim e o nosso resultado. 


Depois de décadas minimizando a dor e o incômodo do excesso de peso, Silvia chegou ao ponto de não conseguir andar com as próprias pernas. E com a liberdade de ir e vir ameaçada, despertou a necessidade de levar a própria saúde a sério. Autoconhecimento, honestidade e comprometimento foram a base para o nascimento de um novo nível de potência e satisfação que era até inesperado. O que antes era impossível se tornou privilégio diário. Quantos pequenos incômodos ignoramos no cotidiano, sem perceber os problemas sérios que estamos arriscando ter no futuro. Muitos precisam encarar consequências extremas pra admitir o que precisa ser feito. Te convidamos a decidir pela tua mudança, agora. 


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Geyze Diniz: Nossas histórias não acabam por aqui. Confira mais dos nossos conteúdos em plenae.com e em nosso perfil no Instagram @portalplenae.


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Para Inspirar

Henri Zylberstajn em "As boas surpresas do acaso"

O episódio de estréia da nossa primeira temporada do Podcast Plenae, "Histórias para Refletir", está no ar!

21 de Junho de 2020


Leia a transcrição completa do episódio abaixo: 

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Introdução: Bem-vindo ao Podcast Plenae, um lugar onde você encontra histórias reais para refletir. Ouça e reconecte-se. 

 

No episódio de hoje, o engenheiro e fundador da ONG Serendipidade, Henri Zylberstajn conta como a sua vida deu uma guinada a partir do nascimento do Pepo. Mais do que um filho, Henri ganhou um propósito, o pilar que ele representa neste podcast. No final do relato, você ouvirá reflexões do monge Satyanatha, nosso convidado especial dessa temporada, para ajudar você a se conectar com o seu momento presente. Aproveite este momento, observe seus sentidos e abra-se para uma nova visão sobre o mundo e sobre você mesmo.

 

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Henri Zylberstajn: A Marina e eu temos um ritual desde que a gente começou a namorar, em 2007. Entre o Natal e o Ano Novo, em um jantar a dois, a gente escreve bilhetes com os nossos desejos pro ano que vai chegar. Em voz alta, a gente lê também o que a gente pediu no ano anterior. Na virada de 2017 para 2018, os dois pediram pela saúde do bebê que ia nascer. A gente já tinha a Nina, de 5 anos, e o Lipe, de 2, quando ficamos grávidos do Pedro, o Pepo. Eu sempre quis ter três filhos. A Marina também. O que não escrevemos naquele fim de ano, e a gente nem poderíamos imaginar, era o presente que estava por vir.

 

[trilha sonora]

 

A gravidez do Pepo, como as outras duas, foi normal, sem nenhum tipo de intercorrência. A gente fez todos os acompanhamentos com a mesma médica, no mesmo consultório. Fizemos todos os exames possíveis e imagináveis que nos foram apresentados e nenhum deles apontou nenhum risco de anormalidade. Éramos pais jovens, saudáveis, que não consumiam drogas e nem bebidas alcoólicas, ou seja, todo um cenário pra que tudo caminhasse dentro do que são as situações mais típicas. 

 

Quando a Marina tava de 36 semanas, a gente começou a ter um acompanhamento um pouquinho mais de perto, porque ela passou a ter contração. A médica falou: “O fluxo do cordão umbilical de oxigênio não é que tá ruim, mas ele não tá como eu gostaria.” Dois dias depois, a mesma médica disse: “Já tem um pouquinho de dilatação, vamos induzir pro Pedro nascer de parto normal, se ele quiser”.

 

Esse foi o único dia da gestação que a Marina teve um feeling ruim. Eu lembro que, quando a gente saiu da médica e entrou no carro, a Marina desabou, começou a chorar. E eu falei: “Fica tranquila, tá tudo bem”. Mas, por maior a confiança que a gente tivesse na obstetra, essa história de que o fluxo de oxigênio não tá bom, vamos adiantar o parto, tudo isso trouxe dúvidas: será que tá tudo bem com ele mesmo?

 

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Era meio de carnaval, 5 horas da tarde de uma segunda-feira, dia 12 de fevereiro de 2018. O Pedro nasceu prematuro, com 43 centímetros e 2 quilos e 200 gramas. A Marina ficou com ele no colo. Ele era tão pequenininho... 

 

Também percebi que a pediatra ficou examinando ele com um pouco mais de atenção, com um pouco mais de cuidado do que nos partos da Nina e do Lipe. Mas até aí tudo bem. Você tá eufórico, nasceu teu filho, é uma explosão de alegria! Toquei o hino do Corinthians. A gente recebeu a família, ficamos debatendo com ele parecia, com quem ele não parecia, como foi o parto...

 

A gente nem se preocupou quando a enfermeira levou ele pra UTI. A obstetra já tinha falado que, por ele ser prematuro, talvez tivesse que ficar uns diazinhos por lá, pra poder se reabilitar. Nesse dia, eu dormi do lado da Má, no sofazinho do quarto.

 

[trilha sonora]

 

No dia seguinte, acordei umas 6h da manhã e desci pra tomar um café. Quando eu tô voltando, encontro a obstetra no corredor: “Você tá indo pra onde?”, ela perguntou. “Ah, tô indo pro quarto”. “Então tá bom, vou lá com você”. 

 

Voltei pro quarto com a doutora, sentei na cama e ela disse: “Então”... E mudou o tom. “Vocês acreditam que o hospital tá desconfiando que o Pedro tem Síndrome de Down?” Eu me lembro como se fosse ontem do quente que me veio aqui dentro, uma sensação de calor, desespero. Eu falei: “como é que é?”

 

[trilha sonora]

 

Meu nível de informação sobre a trissomia do cromossomo 21, o nome técnico da Síndrome de Down, era praticamente nulo. Eu não tinha a menor ideia do que era. E o pouco que eu sabia não me deixava muito animado, pra dizer o mínimo. A real é que a minha primeira sensação foi a pior possível.

 

Eu falei, tremendo: “Doutora, como assim?”. E ela também assustada não tava acreditando. Acho que, apesar de tecnicamente ser magnífica, nessa hora ela vestiu o casaco de mãe. Aí me baixou o espírito de engenheiro e eu falei: “Calma. Quem falou que ele tem Síndrome de Down?”. E lá fui eu pelos corredores do hospital atrás da pediatra neonatal que tinha dito.

 

Quando ela me vê, ela para e petrifica. Eu cheguei perto e falei: “Doutora, eu sou o pai do Pedro. Ele tem Síndrome de Down?”. Ela se assustou com a pergunta e falou: “vamos ali no quarto conversar?”. Eu falei: “Não. Eu só quero saber o seguinte: além de você, alguém examinou ele?” 


E ela falou: “Examinou”. Quem? "Outros médicos, pediatras". Mas pediatras neonatais? "Sim" Quantos? "Mais cinco." Alguém teve alguma dúvida? "Não". Voltei pro quarto e falei: Marina, o Pedro tem síndrome de Down. 

 

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Eu nunca vi uma morte de perto. A não ser dos meus avós, que já estavam bem velhinhos e aí eu acho que é diferente. Receber a notícia de que o filho que você imaginou não é exatamente assim certamente foi o momento mais difícil da minha vida. Eu não sabia onde eu tava. 

 

Eu entrei na UTI e comecei a enxergar no Pedro - pela primeira vez - os traços da Síndrome de Down. Aí veio o pediatra da família. Ele chegou perto da incubadora e precisou de um segundo e meio, não mais do que isso, pra dizer: “Henri, a gente vai ter que esperar um exame de confirmação, mas o Pedro tem Síndrome de Down”.

 

Ele começou a me dar uma série de elementos no meu filho: Falta de tônus muscular, uma linha na mão, a orelhinha implantada mais baixa, os olhinhos amendoados, a falta de osso nasal ou o osso nasal muito pequeno, a língua pra fora...

 

Quando os meus pais chegaram no hospital, eu levei eles na salinha da UTI neonatal e dei a notícia. A minha mãe é que nem eu: chorona, emotiva. Se um neto tocar DO RE MI FA, ela vai chorar, então, eu já estava acostumado. Mas meu pai, que estava prestes a fazer 70 anos, eu nunca tinha visto chorar. Nem quando o pai dele morreu. Eu acho que os avós sentem em dobro, pelos netos e pelos filhos.

 

Eu até me arrepio, porque talvez tenha sido um momento tão difícil quanto o de receber a notícia. A médica tinha conversado comigo umas 7 horas da manhã, isso já eram 3h da tarde. Então, eu já tinha de alguma forma absorvido o baque, nem que fosse um pouquinho. Mas quando eu vi o meu pai chorar pela primeira vez, foi muito, muito, muito difícil. Me veio uma sensação de culpa.

 

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A primeira vez que eu fiquei no quarto só com a Má, a gente se abraçou e chorou muito. E essa cena se repetiu por várias vezes, até o Pepo sair da UTI, 22 dias depois. Desde antes do Pedro nascer, a gente não planejava anunciar o nascimento dele nas redes sociais. Porque a gente não estava querendo no terceiro filho receber muita gente no quarto. Tanto é que não tinha nem brigadeiro, lembrancinha, nem nada.

 

Só que eu comecei a encontrar pessoas, conhecidos no corredor do hospital. E passei a ficar incomodado com o fato dessas pessoas poderem imaginar que eu estivesse escondendo a Síndrome de Down do meu filho. Então, decidi postar um texto no Facebook.

 

E a partir de então eu comecei a receber muitas mensagens. Muitas clichês, do tipo:  “Filhos especiais são para pessoas especiais”; “Deus não confia missões mais difíceis do que as pessoas podem carregar”; “Vocês são uma família do bem, então nada vem por acaso”;

 

Só que essas mensagens, apesar de me confortarem, não tocavam o meu íntimo. Até então - eu confesso - eu estava encarando aquilo como um castigo. Eu questionei Deus muitas vezes. Do por que que ele tinha me mandado um filho com Síndrome de Down, se eu me considerava uma pessoa boa? Eu não tenho vergonha de falar isso, porque é a verdade, era como eu estava encarando a situação.

 

Até que chegou a mensagem da Silvia, uma amiga que também tem uma filha com Síndrome de Down. E a Silvia me falou, baseada na experiência dela que, na verdade, ter um filho com Síndrome de Down não é uma coisa ruim. É o contrário, é uma oportunidade de vida. De poder tê-lo do nosso lado e poder enxergar o mundo através de uma outra perspectiva. Poder valorizar as pequenas coisas. Poder respeitar as individualidades alheias. Poder entender que talvez o mundo não seja como a gente enxerga e que existam outras possibilidades. E que tudo isso fazia a vida valer a pena. Eu fiquei em prantos quando ela falou isso para mim. E foi ali, oito dias depois que o Pepo nasceu, que tudo começou.

 

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Pedro saiu do hospital, tomou as vacinas e a gente começou a levá-lo pra passear, pra ver gente. Parte dos meus amigos não conseguia me olhar no olho. Não conseguia tocar no assunto “Pedro”. A outra parte nos abraçavam como se a gente tivesse de luto. Foram muitos abraços, tapinhas nas costas, falando: “Que barra, conta comigo”. E eu pensava: conta comigo para quê?

 

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Apesar de ninguém escolher ter um filho com deficiência, a gente tava tentando extrair o melhor daquela situação. Eu acredito que as pessoas vão encarar o teu filhos da mesma forma como você encara ele. Então, se eu estava encarando o Pedro como alguém capaz, repleto de possibilidades, era muito provável que as pessoas também iam enxergá-lo da mesma maneira. 


Aí então a gente resolveu abrir uma conta de Instagram pra dividir um pouco do nosso dia a dia. Eu queria que a gente fosse no clube e as pessoas não precisassem falar: “Ah, ele tem Síndrome de Down”, diminuindo o volume quando falassem a palavra Síndrome de Down no final da frase. 

 

Eu não queria que os outros tivessem dedos para falar da deficiência do meu filho. Porque a deficiência faz parte da personalidade dele, faz parte das características dele, mas não é o que o define. Eu e a Má criamos a conta de Instagram dentro de um táxi, indo pro aeroporto. Um dia depois, tínhamos 3.500 seguidores. Em cinco dias, 10.000. E hoje, são mais de 115 mil.

 

[trilha sonora]

 

Eu nasci numa família que sempre me educou a respeitar a diversidade, mas ela não fazia parte do nosso dia a dia. Eu nunca tive preconceito, no sentido ruim da palavra, mas ao mesmo tempo eu achava que aquilo não me pertencia. Quando você vive uma vida inteira com pessoas da mesma cor de pele que a tua, da mesma classe social e com as mesmas condições físicas e cognitivas, você pode até não ter preconceito, o que já é um bom começo. Mas certamente você vai sentir uma barreira quando cruzar com alguém que não se encaixe nesses padrões.

 

Então, eu fico aflito quando eu penso que meu filho vai sofrer com essas barreiras. Porque eu sei que ele vai encontrar algumas. E, por mais racional, por mais preparado que você esteja, imagino que deva ser algo que te tire do prumo. 

 

Depois que o Pepo nasceu, eu tirei um sabático de 6 meses pra me dedicar a estudar a deficiência intelectual. Comecei a contribuir na APAE São Paulo e ter contato com a realidade brasileira do tema. Eu e a Má criamos uma ONG, chamada Serendipidade, que vem do inglês Serendipity, que quer dizer o ato de descobrir coisas boas ao acaso. Foi exatamente o que aconteceu conosco quando o Pedro nasceu. 

 

A gente fala de uma maneira leve e positiva sobre o tema, sem esconder nada e sem falar que é a melhor coisa do mundo ter um filho com deficiência. Mas a gente mostra que, se isso acontece, dá para você viver e enxergar um outro lado incrível da vida.

 

A nossa missão é fazer com que a inclusão não seja encarada como uma caridade, mas sim como algo bom para todos que se envolverem com ela. A gente atua para que as pessoas não tenham que ter um filho com Síndrome de Down ou esperar 38 ou 70 anos, como foi o caso do meu pai, para conhecer mais sobre o assunto.

 

Eu não tenho a menor dúvida de que o contato com a inclusão engrandece a nossa essência, faz com que as pessoas abram a mente. A diversidade nada mais é que a liberdade que as pessoas têm de viver como elas são ou como elas querem ser. O Lipe ainda é pequeno pra entender o que é a Síndrome de Down, mas a Nina já entende. Outro dia, ela me perguntou se o Pedro vai ter filhos. Aí eu falei: “Filha, ele vai ter se ele quiser e se ele puder. Mas se ele tiver, você gostaria que o filho dele nascesse com ou sem Síndrome de Down?”. Ela me disse: “Papai, tanto faz”.

 

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Satyanatha: Chegamos ao fim do relato do Henri. A gente costuma achar que o futuro é perigoso. Por isso, criamos um cenário hipotético e se convence de que é o único panorama viável e seguro. Mas a vida tem uma criatividade extraordinária. Muitas vezes ela nos conduz para um caminho diferente - e melhor - do que imaginávamos. Os temperos de alegria, de criatividade e de propósito são muito superiores a qualquer dor causada - até porque não existe caminhada sem dor. 

 

A solução pra evitar o sofrimento não é imaginar vários futuros, e sim viver o agora. Se hoje eu for aberto, verdadeiro, amoroso e dedicado ao que eu sinto, eu vou criar um futuro positivo. Foi isso que o Henri começou a descobrir, quando transformou a condição do Pepo em um propósito. 

 

Muita gente vê o propósito como uma tarefa. Na verdade, ele é um estado de espírito, no qual você se predispõe a estar alinhado com um tema e a vibrar, no presente, aquilo que você quer para o futuro. 

 

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Finalização: Nossas histórias não acabam por aqui. Acompanhe semanalmente novos episódios e confira nosso conteúdo em plenae.com e no perfil @portalplenae no Instagram.

 

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