Para Inspirar

Sandra Chemin em “Mudar a rota é o melhor caminho”

Na sexta temporada do Podcast Plenae, Sandra Chemin conta como as surpresas no seu caminho construíram uma vida mais fiel ao seus desejos.

19 de Setembro de 2021


Leia a transcrição completa do episódio abaixo:


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Sandra Chemin: O primeiro momento “ahá” que eu tive na vida foi quando eu deixei a vice-presidência de uma multinacional para morar num barco. No mar, eu percebi que existem muitas outras formas de viver, de trabalhar e de ser que eu nem imaginava. Ampliar o olhar de mundo foi o primeiro passo pra eu encontrar significado pra minha vida e o meu trabalho. O segundo foi quando eu mergulhei dentro de mim e me perguntei: o que me move? O que é importante pra mim hoje? Quem eu sou?


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Geyze Diniz: A vida da empreendedora Sandra Chemin virou de cabeça pra baixo aos 30 anos. Num intervalo de 3 meses ela descobriu que estava grávida e que o pai de seu filho teria somente dois anos de vida por causa de um câncer. Para realizar o sonho do marido, Sandra trocou a vida executiva pela de velejadora.


Ela planejava retomar a carreira de publicitária depois de uma temporada a bordo num veleiro. Mas, a experiência foi tão transformadora que ela a levou para outros mares. Conheça a história de mudança de rota e de mindset de Sandra Chemin. Ouça no final do episódio as reflexões da psicanalista Vera Iaconelli para lhe ajudar a se conectar com a história e com o momento presente. Eu sou Geyze Diniz e esse é o Podcast Plenae. Ouça e reconecte-se.


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Sandra Chemin: Eu sou movida à inovação. Aos 21 anos, eu abri um estúdio de design com foco em editoração eletrônica. Isso era novidade no Brasil, em 92. Nós fomos os primeiros a trazermos Macintosh para o Brasil. Poucos anos depois, quando começou a se falar em internet, eu e meu sócio percebemos que aquela tecnologia ia mudar tudo. E a gente ainda nem tinha acesso à internet discada na época, quando a gente resolveu criar, talvez, a primeira agência digital do Brasil, a Hipermídia.


E foi um sucesso. A gente vendeu a agência para a WPP, que na época era a maior rede de propaganda do mundo. E nessa operação, eu me tornei vice-presidente da Ogilvy, uma das agências da WPP no Brasil. Aos 28 anos, eu cuidava da operação de internet da Ogilvy na América Latina, com 250 funcionários em 5 países.


Com 30 anos, eu já tinha ganho um monte de Leão de Cannes, que é o maior da publicidade mundial. Tinha uma super visibilidade na mídia, uma carreira promissora e uma situação financeira muito boa pra minha idade. Mas o sucesso profissional tinha um preço alto. Eu levava uma vida super acelerada. Viajava, pelo menos, duas vezes por semana para fora de São Paulo, 16 vezes por ano pro exterior. Meu apelido na época era Ensandrecida. 


Até que dois acontecimentos me fizeram repensar o meu modo de viver. 


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O primeiro foi uma gravidez não planejada. Eu tinha uma relação super bacana com o Lucas, mas era uma relação recente. Nós nem morávamos juntos na época que eu engravidei. E eu ainda estava processando a gravidez quando o Lucas recebeu um diagnóstico de um câncer de próstata. Ele tinha 28 anos e, segundo os médicos, ele só teria dois anos de vida. Num intervalo de três meses, eu soube que estava grávida e que o pai da minha filha tinha uma doença grave e incurável. Isso foi um baque.


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Um dia, eu me lembro, eu estava com o Lucas na banheira do loft onde eu morava e eu perguntei: “O que você quer viver nesses dois anos?”. Eu era muito realizada, mas eu sentia que ele tinha muitos sonhos guardados na gaveta. "Um deles é escrever um livro", ele me disse, "mas eu acho que talvez eu não tenha vivido histórias suficientes para contar. O segundo é morar a bordo de um veleiro”. 


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Eu acredito que algum momento da vida, entre 35, 40 e 45 anos, todo mundo em algum momento vai se questionar sobre as escolhas que fez e faz, isso é inevitável. Mas para mim, esse questionamento foi antecipado. Hoje eu vejo que a vida me deu de presente a oportunidade de refletir sobre o estilo de vida que eu estava levando. Hoje eu vejo isso como um presente. 


E o detalhe mais curioso dessa história é que, quatro meses depois do Lucas receber esse diagnóstico de câncer, um médico descobriu que ele não tinha câncer, e sim uma infecção. O diagnóstico estava errado e a vida podia continuar do jeito que estava, mas a verdade é que dentro de nós algo tinha mudado. Ali começava o fim da Ensandrecida. 


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Aí eu pensei no sonho do Lucas e lembrei que as minhas melhores memórias de infância foram no mar. Meu pai, desde que eu nasci, tinha um barco a motor e a paixão dele era a pesca submarina. Eu lembro que desde os meus 5 anos de idade, eu passava horas com ele fazendo snorkel. E eu curti muito a ideia de poder oferecer pra minha filha, aquela experiência que o meu pai tinha me proporcionado.

Então eu disse pro Lucas: “Eu não faço a menor ideia se eu vou querer morar a bordo, se eu vou saber velejar, mas eu topo fazer uma experiência de três meses e ver no que dá”. 
Pedi demissão e, eu lembro até hoje quando eu reuni a minha equipe numa sala grande da Ogilvy pra contar que eu estava deixando a vice-presidência da agência pra passar uma temporada num veleiro, ninguém acreditava. De fato, era uma mudança radical.


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E nós deixamos a nossa casa montada, o carro na garagem e fomos pra Inglaterra. Nós compramos o Santa Paz, um barco de 39 pés e começamos a velejar pela Europa. 


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Confesso que não foi fácil. Eu não sabia cuidar de filho, de casa, não sabia velejar, muito menos fora do Brasil. Os três meses que eu tinha planejado viver no barco passaram voando. Foi um período de aprendizado, sem descanso. Mas foi o suficiente pra ver que eu podia ficar um ano. Então nós resolvemos estender o período no barco para o que na época eu achava um ano sabático, que era um tempo enorme.


Muitas pessoas têm uma ideia idealizada do que é morar num barco. Acham que as coisas acontecem magicamente, que a gente fica tomando sol e caipirinha no convés. Não é nada disso. O Lucas e eu fazíamos todo trabalho sozinhos, sem nenhum marinheiro. Era cozinhar, limpar, navegar, cuidar de filho, só nós. E quando a gente tava começando a curtir aquela vida, o período de um ano acabou. E aí a gente pensou: "Puxa, vamos ficar mais um ano?."  


E nesse segundo ano a bordo, eu acabei engravidei da Júlia, em Menorca, na Espanha. E aí, nesse momento de gravidez, a gente pensa: "Poxa, eu quero ter a família perto, onde eu quero que minha filha nasça." E nós resolvemos voltar para o Brasil. A Júlia nasceu em São Paulo, e o Lucas, com medo da Ensandrecida voltar, sugeriu que a gente fosse morar em Paraty, no sul do Rio de Janeiro.

Eu achei que era bom pra primeira infância das nossas filhas uma temporada na praia e disse sim. E aí aconteceu algo muito comum em cidades menores no Brasil. Não tinha nenhuma escola com os nossos valores, uma escola boa pras meninas. E aí, mesmo sem formação pedagógica, a gente reuniu outras 6 famílias na nossa casa para conversar sobre que valores a gente gostaria de modelar pros nossos filhos e que tipo de educação seria boa pra eles.


E, sem nenhum apoio do governo, nós fundamos uma escola Waldorf, onde metade dos alunos paga e metade não paga. Nós queríamos uma escola pro Brasil real com todas as dificuldades que vocês podem imaginar.


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E durante o processo de concepção da escola, eu recebi uma ligação de um headhunter com um convite para eu ser gerente-geral do Google no Brasil. O Google era a minha referência de inovação né, e aquele cargo era a minha cara. Normalmente, eu marcaria um almoço com o headhunter, ia ouvir a proposta, conversar sobre possibilidades.

Mas, daquela vez, quando eu percebi, eu tinha dito “não” por telefone. E eu só me dei conta disso ao desligar. De alguma maneira, o meu inconsciente já tinha sacado que trabalhar no Google traria de volta a Ensandrecida. E aquele modo de viver não cabia mais em mim. 


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Mas daí eu me perguntei: “Pera lá. Se eu disse ‘não’ pra ser gerente-geral do Google no Brasil, o que que eu quero?”. E essa reflexão me causou muita angústia porque eu não tinha aquela resposta. Naquela época, além da escola, eu já tinha a minha consultoria e já trabalhava também como conselheira de empresas, dividindo meu tempo entre Paraty e São Paulo.


Mas a verdade é que o trabalho sempre foi uma parte muito importante da minha vida, é a minha forma de agir no mundo. Então quando eu recusei aquela oferta, eu comecei a fazer uma investigação interna, pra entender quem eu sou hoje, o que que é importante pra mim.


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Quando eu saí da Ogilvy, eu achei que tava fazendo um sabático e que depois eu voltaria no mesmo ritmo. Depois eu achei que tava fazendo uma transição de carreira. Mas a verdade é que no meu processo de autoconhecimento, eu descobri que eu tava me transformando o tempo todo. A vivência no barco e em Paraty me ensinaram a navegar transformações. E eu acredito que essa é uma das principais habilidades de qualquer pessoa hoje em dia, porque a gente nunca mais vai parar de se transformar.

Eu acredito que assim como o celular nos avisa de que tá na hora de atualizar a versão, a gente tem que se atualizar de tempos em tempos. Tem que parar para recalibrar os valores, entender o que me move hoje, o que é importante pra mim. Será que algo mudou? Quando eu compreendi esse processo, eu entendi que a minha missão era ajudar pessoas e empresas a encontrar significado no que elas fazem, na forma como elas vivem e na maneira como atuam no mundo. 


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Eu disse ‘sim’ a três meses num barco, e sem querer mudei a minha vida inteira. Eu disse ‘sim’ a um ano em Paraty, e criei uma escola que existe há 15 anos na cidade até hoje. Tudo na minha vida eu aprendi fazendo, e é isso que eu recomendo pras pessoas que me procuram. Antes de tomar uma decisão, de mudar de carreira, de montar um negócio, de começar um estudo, converse com alguém que leva a vida que você quer levar antes de tomar uma decisão. Isso se chama prototipagem e essa é uma ferramenta de inovação. Isso é prototipar a vida. Você vai experimentar algo novo? Comece com um pequeno passo. Veja se você gosta. 


Eu aprendi que eu primeiro escolho a vida que eu quero levar, pra depois desenhar um trabalho que ajuste a esse modelo. A gente costuma fazer o contrário: a gente primeiro escolhe o trabalho e depois tenta encaixar a vida ao redor. O que acontece é que nessa ordem, muitas vezes a gente não vai viver as experiências que quer viver. Eu aprendi que, se existe coerência entre quem eu sou, o que eu acredito e o que eu faço eu sou feliz. Se não existe coerência, eu não sou feliz. É simples assim. 


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Vera Iaconelli: Pra falar da Sandra Chemin, eu gostaria de lembrar que o sobrenome dela em francês significa caminho. E acho que caminho é uma questão chave aqui, porque a Sandra é uma dessas pessoas excepcionais, extremamente inteligentes, que se destacam rapidamente. Mas que por isso mesmo correm o risco de ficar capturadas em escolhas muito convencionais. O grande risco de uma pessoa como a Sandra é ficar siderada pelo sucesso, sucesso rápido e bem remunerado. O que faz com que muitas vezes a pessoa pare de se perguntar sobre o próprio desejo.


O caso da Sandra é exatamente o oposto. Ela vai, a cada momento, perguntando pra si mesma, sendo muito honesta na resposta, sobre o desejo dela. E aí fica a dica de uma experiência central que ela traz na história dela, que é o encontro muito precoce com a ideia da morte. Na hora que a Sandra pergunta uma pergunta que talvez coubesse para nós todos os dias: o que que a gente quer fazer da nossa vida, uma vez que a morte é garantida, ela responde buscando nela o desejo.


Inspirada pelo companheiro dela, ela começa um longo percurso de velejar, de criar novos caminhos, de seguir as forças dos ventos, que vão levando ela pra diferentes possibilidades, diferentes conquistas, diferentes marcas que ela vai deixando em cada lugar que ela passa. Então, acho que a grande lição da Sandra é nos fazer ver que a gente tem que consultar acima de tudo o nosso desejo e nos distanciarmos dos caminhos pré-programados por nós mesmos ou pelos outros.


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Geyze Diniz:
Nossas histórias não acabam por aqui. Confira mais dos nossos conteúdos em plenae.com e em nosso perfil no Instagram @portalplenae.

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Para Inspirar

Regina Ramos em "De psicóloga para paciente"

Um câncer de estômago colocou em perspectiva toda sua vida e uma mudança de rota posterior foi necessária.

21 de Novembro de 2022



Leia a transcrição completa do episódio abaixo: 

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Regina Ramos: Durante uma fase da minha vida, eu entrei numa pilha de ter sucesso profissional, trabalhar demais e só correr atrás de dinheiro. Eu buscava a felicidade fora de mim e, sem perceber, fui me afastando da minha essência. Eu precisei adoecer gravemente para me reencontrar. Eu coloquei a vida nos trilhos novamente e, hoje, ajudo as pessoas a encontrarem a felicidade dentro de si mesmas.

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 Geyze Diniz: A psicóloga Regina Ramos, que sempre buscou entender porque as pessoas ficavam doentes, adoeceu gravemente sem perceber. Vivendo em piloto automático, ela depositava sua felicidade no sucesso profissional e financeiro. Mas ao descobrir um câncer de estômago, Regina colocou seus objetivos em perspectiva e desenvolveu resiliência e uma força interna que a ajudou a se reconectar com ela mesma.

Ouça no final do episódio as reflexões do historiador Leandro Karnal para te ajudar a se conectar com a história e com você mesmo. Eu sou Geyze Diniz e esse é o Podcast Plenae. Ouça e reconecte-se.

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 Regina Ramos: Por que as pessoas ficam doentes? O que acontece dentro delas a ponto de desenvolverem uma doença? Essas perguntas me intrigam desde o início da minha carreira como psicóloga. Quando eu me formei na faculdade, eu poderia ter seguido por vários caminhos profissionais. Só que eu senti um chamado para trabalhar numa instituição hospitalar. Eu passei em um concurso do Hospital das Clínicas, o HC, em São Paulo, e escolhi atuar junto a uma equipe multidisciplinar no departamento da gastroclínica. Não sei explicar o porquê, mas eu decidi atender pacientes com câncer de estômago.

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O câncer é uma doença multifatorial, ele é ligado à genética, ao ambiente e aos hábitos, por exemplo. Mas eu acredito que a doença também pode estar relacionada a dificuldades em você lidar com o estresse e com as emoções. Eu observava isso no HC. Todos os meus pacientes, ao sentirem a iminência da morte, refletiam sobre as suas vidas. Eram pessoas em estado de muito sofrimento psíquico e com histórias de vida pelas quais eu tinha muito carinho, cuidado e respeito.

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 Eu trabalhei no HC por 6 anos. Eu saí de lá porque eu senti um outro chamado. Eu queria trabalhar na área de desenvolvimento humano, com treinamentos em empresas. Mas a pergunta interna ainda me perseguia: por que que as pessoas adoecem? No mundo corporativo, ficou claro que o estresse e a corrida insana em busca do sucesso afastavam as pessoas de si mesmas. Elas buscavam a felicidade fora, não dentro de si. Sem perceber, eu fui me tornando uma dessas pessoas, vivendo totalmente longe de mim. Eu trabalhava muito, me alimentava mal, não me exercitava e focava toda a minha energia em ganhar dinheiro.

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 Um dia, uma colega da empresa perguntou se eu conhecia o trabalho biográfico. Eu nunca tinha ouvido falar, mas fui pesquisar. A metodologia biográfica é baseada na teoria dos setênios e nas leis biográficas que regem os grandes ciclos da vida humana em ritmos de 7 em 7 anos. Cada fase tem um papel no nosso desenvolvimento. O propósito do trabalho biográfico é você resgatar tudo o que aconteceu na sua vida de 0 a 7 anos, de 7 a 14, 14 a 21 e assim sucessivamente, até chegar na sua idade atual. A gente une o passado e  o presente pra que o futuro aconteça com escolhas pessoais mais conscientes. Em resumo: “Tomar a vida nas próprias mãos e decidir a direção que queremos dar a nossa vida”.

Quando eu fiz a minha retrospectiva biográfica, eu estava com 42 anos. A partir dessa idade, segundo a teoria da biografia humana, o plano espiritual começa a se tornar mais importante que o físico. E aí eu percebi que tinha alguma coisa fora do eixo. Eu estava mais materialista do que nunca. No fundo, eu sabia que eu precisava corrigir a rota. Mesmo assim, eu liguei o piloto automático e segui na minha rotina de executiva de RH. Continuei depositando a minha felicidade no sucesso profissional e financeiro.

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 Passaram-se alguns meses, até que um dia eu senti uma forte pontada no estômago. Foi durante uma partida de futebol dos meus filhos. Foi só uma pontada, mas o suficiente pra me acender um alerta. Eu telefonei pra um gastroenterologista, amigo meu desde os tempos do HC, e ele pediu uma endoscopia. Eu fiz o exame e abri o resultado numa sexta-feira à noite, sozinha, em casa. Na segunda seguinte, eu fui ao consultório do médico e falei: “André, eu estou com câncer, por favor não me esconda nada”. Após ler o laudo, ele muito emocionado, se expressou assim: “Rê, é a primeira vez que um paciente me dá o diagnóstico. Eu tenho que te operar amanhã”.

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 O câncer de estômago não tem sintomas tão claros e eu tive sorte por ter conseguido um diagnóstico precoce. Porque - como todo câncer - quanto mais cedo a gente descobrir a doença, maior a chance de cura do paciente. Só que meu caso era gravíssimo e eu entendi que precisava de uma ajuda superior, porque o sucesso da operação não dependeria só de mim e da equipe do André.

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No dia seguinte à consulta, fui à igreja Nossa Senhora de Fátima, sentei no primeiro banco e supliquei: “Nossa Senhora de Fátima, eu preciso da sua ajuda. Eu entrego a minha vida nas suas mãos”. Na véspera da operação, eu tive uma sessão com a minha psicóloga e perguntei pra ela: “Márcia, e se não der certo?”. Tipo assim: se eu morrer amanhã? Ela, muito carinhosamente, com o olhar fixo me respondeu: “Tem coisas na nossa vida que estão acima de nós!”.

Eu entendi a minha limitação e aí, eu fui aprendendo o meu lugar em relação a Deus. Na véspera da cirurgia, eu rezei com os meus filhos, de 9 e 6 anos, antes de dormir. A gente fazia aquele ritual sempre, mas aquela oração foi muito forte e especial para mim porque, ao final, eles disseram: “Papai do céu proteja a nossa mamãe amanhã”.

Neste mesmo dia, ao final da tarde, eu estava preocupada com o André, pois sabia que me operaria e que seria um desafio por eu ser sua amiga. Queria falar alguma coisa para ele e não sabia o quê. Foi então que fui a uma papelaria comprar uns cartões pois eu queria escrever alguma coisa pra minha família, pros meus filhos e pros meus amigos.

Quando cheguei no caixa para pagar, tinha um livrinho desses pequenos, e ao abrir estava escrito um diálogo entre um médico e Deus. O médico perguntava: “Deus, o que eu faço para salvar minha paciente?”. E Deus respondeu: “Você faz a parte do médico e eu faço a parte de Deus”. Foi isso que eu falei para ele no centro cirúrgico e pra minha felicidade, todo mundo fez a sua parte.

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 Eu fui submetida a uma gastrectomia total, exatamente uma semana após ter aberto o laudo do exame. O meu estômago inteiro foi retirado. Os médicos fizeram uma ligação direta entre o intestino e o esôfago. A minha prima e a minha irmã, que cuidaram de mim no hospital, colocaram uma foto dos meus filhos sorrindo, bem em frente à cama. Quando eu acordava, a primeira imagem que eu via era essa. E eu pensava: “Eu quero encomendar os santinhos da primeira comunhão, como também eu quero dançar a valsa de formatura com eles”.

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 A esperança de ver meus filhos crescerem me deu muita força pra encarar o pós-operatório, a quimio e a radioterapia. Foi um período de bastante reflexão e muitos desafios. Eu, que a vida toda busquei entender porque que as pessoas ficavam doentes, adoeci gravemente. A minha sorte foi que, quando o câncer chegou, eu já tinha começado a ter uma visão espiritualizada da saúde.

 A biografia humana e a teoria dos setênios fazem parte da antroposofia, uma ciência humanística criada pelo filósofo Rudolf Steiner. Ela tem um olhar ampliado pro ser humano, que inclui o aspecto da espiritualidade. Pros médicos antroposóficos, uma doença não vem pra nos matar. Ela vem pra nos curar quando não estamos alinhados ao nosso propósito de vida e a nossa missão.

Em nenhum momento eu me vitimizei. A minha grande pergunta interna não era “por que” isso aconteceu comigo, mas sim “para que” estou passando por isso. Qual aprendizado que eu devo tirar dessa experiência? Afinal, sem querer, eu tinha mudado de lado: eu passei de psicóloga a paciente. Comecei a perceber que, quanto mais eu buscava meu autoconhecimento, mais eu tinha clareza nas respostas. As explicações estavam dentro de mim e não fora. Eu me dei conta que tudo isto que estava acontecendo era para me ajudar a colocar em ordem tudo aquilo que estava em desordem. O que parecia o fim, foi só o começo.

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 A possibilidade de morrer me fez entender o que que era importante na minha vida. Eu aprendi rapidamente a valorizar o que eu tinha, não o que eu deixei de ter. Aprendi a ser menos verniz e a ser mais raiz. Pouco tempo depois da cirurgia, um repórter me perguntou como é não ter estômago e ouviu como resposta: “Eu não estou preocupada em não ter estômago. Pra mim, o que importa é poder ir na formatura dos meus filhos”. E não é que os dois estão formados? Dançar a valsa com um deles, ouvir o juramento na colação de grau do outro e ganhar de presente  “Obrigado, mamãe, obrigado” me fazem ter a certeza de que tudo valeu a pena!

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 A minha vida passou a fluir realmente depois desse processo. Sem estômago, eu fui obrigada a reaprender a comer e parei de me alimentar com besteiras. Comecei a me exercitar. Eu fiz pilates, caminhada, corrida e zouk. Na vida afetiva, saí de um casamento que já não estava legal havia tempo.

Eu diminuí o ritmo de trabalho e me tornei pesquisadora junto a uma equipe de médicos antroposóficos na Escola Paulista de Medicina. Há 13 anos, eu estudo a teoria da Salutogênese. “Salus” quer dizer saúde, e gênese origem, ou seja, como encontrar dentro de nós as forças que nos blindam diante do estresse para que não cheguemos a adoecer.

Essa abordagem foi criada por um sociólogo chamado Aaron Antonovsky. Ele pesquisou o que havia em comum entre os sobreviventes do Holocausto que se adaptaram às mudanças,  reconstruíram as suas vidas e não adoeceram. Ele constatou que essas pessoas não se colocavam na posição de vítima e tinham um olhar positivo para a vida, mesmo passando por adversidades. Elas tinham também internamente o que ele denominou “senso de coerência”: um equilíbrio psíquico entre o que pensavam, sentiam e como agiam. Mas, o mais importante, ele ressaltou, é que elas sempre encontravam um sentido maior no sofrimento, um significado para poder continuar adiante.

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 Eu mergulhei na Salutogênese e me tornei especialista no tema da resiliência. Resiliência tem a ver com fé, com esperança, com você olhar para o problema e pensar: eu vou passar por isso, eu já passei por outras fases difíceis, os problemas não irão durar para sempre, eu posso fazer alguma coisa e eu também posso pedir ajuda. E aí, com o impulso dessa força interna, seguimos adiante, temos uma melhor proteção diante do estresse, não deprimimos e o nosso sistema imunológico não sofre alteração e, então, não adoecemos.

O segredo é a gente ter flexibilidade e não ficar nos extremos, nem ser totalmente vulnerável nem se achar a Mulher Maravilha ou o Super-Homem, que enfrenta tudo que aparece. Com o autoconhecimento, a gente conhece os nossos limites e sabe até onde podemos ir. O conceito de resiliência que eu acho legal é passar pela situação difícil e sair mais fortalecido dela. É como um músculo que você trabalha na academia, só que um músculo emocional, que você sempre pode fortalecê-lo.

Quando eu dou uma aula, palestra ou um treinamento, eu compartilho o meu exemplo. O pessoal se espanta de saber que eu vivo bem sem um estômago. Eu sempre digo para eles uma frase de uma meditação: “Nada terá valor se a coragem nos faltar”.

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 Eu tenho gratidão por ter conseguido aprender na minha vida com os momentos de adversidade e ter me fortalecido. Meus colegas brincam que meu nome devia ser “Regiliência”. Eu uso o meu aprendizado para ensinar outras pessoas que elas não precisam chegar ao ponto de desenvolver uma doença. Tem muita coisa que a gente pode fazer antes.

Com o trabalho biográfico, eu ajudo as pessoas a encontrarem a resiliência na sua própria história de vida e a entenderem que essa força interna aparece nos momentos mais difíceis. Quando a gente se apropria dela, temos mais habilidades para enfrentar os problemas que possam surgir. Descobrir essa força interna que cada um de nós tem e muitas vezes não percebe é o caminho para viver com saúde.

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 Leandro Karnal: O caso da Regina Ramos é muito interessante. Como muitos de nós, somos estimulados a buscar na carreira um grande eixo da vida. Uma pessoa que está ganhando dinheiro, que é citada profissionalmente, que tem muitos clientes ou pacientes, é uma pessoa respeitada. Ela ganha prestígio social, vai recebendo um retorno positivo desse esforço e vai se sentindo bem. Só que às vezes este bem funciona como uma espécie de anestésico que, sim, evita a dor, mas não impede que a doença progrida.

Ela precisou ter um grave caso de câncer de estômago, fazer uma cirurgia delicadíssima que obriga a uma reeducação absoluta depois da cirurgia pra que ela pudesse acordar para outros valores que ela já tinha, mas que agora terá um outro olhar, e vai parar de pensar que a vida é feita exclusivamente do sucesso e da aplicação do sucesso profissional.

A Regina foi descobrindo como paciente o que talvez ela dissesse para seus outros pacientes: que ela de fato tinha que reinventar propósitos, tinha que reinventar na mente  seus valores, tinha que redefinir metas, que não podia ficar apenas focada em um campo. E foi redescobrir-se profissionalmente, foi revalorizar coisas da família, passou a desenvolver muito esse conceito de resiliência e conseguiu redefinir as coisas a partir de uma experiência impactante que é o câncer no estômago. Muitas vezes, a dificuldade tem esse poder de epifania, de revelação de quem nós somos de verdade, que é o que aconteceu com a Regina.

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