Para Inspirar

Ruth Manus em "As curvas da vida"

O primeiro episódio da décima sexta temporada ouve a história das relações possíveis da escritora Ruth Manus.

4 de Agosto de 2024



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Ruth Manus: Eu nunca tive nenhuma rejeição a ideia de ser mãe. Mas, eu tive dúvidas, especialmente na minha vida adulta. Eu me perguntava como ia conseguir conciliar a maternidade e profissão. Agora, uma coisa que eu nunca planejei foi ser madrasta

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Geyze
Diniz:
A advogada e escritora Ruth Manus tem nove livros publicados e um texto que encanta os seus leitores. Entre os temas das suas crônicas estão a sua relação com a maternidade e com a “madrasternidade”, um termo que ela cunhou. A história familiar de Ruth é como a de muitos entre nós: fora do script tradicional. Eu sou Geyze Diniz e esse é o podcast Plenae. Ouça e reconecte-se. 

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Ruth
Manus:
Quando a gente é criança, a gente planeja ser sereia, aeromoça, jogadora de futebol, tia, astronauta... Mas ser madrasta nunca esteve nos meus planos. Só que a vida é assim né? Cheia de curvas que vão nos levando a lugares inesperados. E uma dessas curvas me levou até a Francisca.  

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Eu tinha 25 anos quando a conheci. Ela tinha 3.
E o nosso encontro foi em Lisboa, onde ela mora e para onde eu me mudei quando me casei com o pai dela. Eu me preparei para o primeiro encontro com a Francisca. Eu lembro que fui fazer compras com umas amigas e
falei: “Olha, eu quero parecer o avesso da madrasta que os contos de fadas fazem o desfavor de construir”. Então eu me vesti de cor-de-rosa. Na minha bolsa, tinha bala de ursinho e Kinder Ovo, como se fossem meus. Eu criei uma personagem para que ela me visse como alguém que pudesse ser próxima, agradável, confiável.  

 

E a Francisca não me recebeu de braços abertos. Ela era uma criança desconfiada, muito intensa, que são características que hoje eu acho que são algumas das melhores coisas que ela tem. Ela não parece um filhote de labrador, que nem eu, que acha tudo legal, quer ser amigo de todo mundo. Ela tem a seleção dela. Para nós duas, era tudo novo. Eu nunca tinha sido madrasta. Ela nunca tinha sido enteada. Mas, com o tempo, a gente conseguiu construir a nossa relação de amor. 

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A “
madrasternidade, como eu gosto de dizer, é um lugar cheio de tabus, mas que eu acho que es mudando, inclusive com a coisa da guarda compartilhada. Porque as madrastas agora tão na linha de frente do cuidado. Elas buscam as crianças na escola, ligam para mãe do amigo, compram o lanche do recreio. Fazem tudo que os pais fazem, às vezes até mais ou menos, dependendo da dinâmica da casa.

Mas, i
sso sem nenhum reconhecimento, muitas vezes, da família, da escola ou até do comércio. Porque eu inclusive acho que deveria existir o Dia da Madrasta para ter esse reconhecimento
Uma vez eu escrevi que ser madrasta é fazer tudo aquilo que uma mãe e um pai fazem, mas sem a garantia do amor incondicional. Só que depois eu entendi que o amor incondicional é mais uma idealização do que uma realidade na relação de muitos pais e filhos.

Eu descobri também que as crianças muitas vezes amam
profundamente a madrasta ou o padrasto e sentem medo real de perdê-los. Porque os enteados não têm nenhuma garantia de que esse vínculo vai continuar se o casamento da mãe acabar ou se o casamento do pai acabar. Então, para mim, mais difícil do que ser madrasta só ser enteada, porque o poder não es na mão da criança. O poder está na mão do adulto. 
 

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Eu e a
Francisca somos bem parecidas. Ela é geminiana, que nem eu. A gente faz aniversário com uma semana de diferença. E hoje, eu percebo que ela não tem o meu sangue, não se parece esteticamente comigo. Mas ela tem o meu senso de humor, ela tem meu jeito de falar.
 

Outro dia eu postei uma foto de um
, de um Nescau que eu pedi na padaria bem clarinho, do jeito que eu gosto e ela sempre criticou. E aí ela comentou no post: “Ruth, não foi assim que eu te eduquei”. Enfim, eu vejo que eu plantei algumas sementes que de fato ficaram, o humor é meu.
 

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O meu relacionamento com o pai dela durou sete anos. A Francisca tinha quase 11 na época do divórcio e a única pergunta dela foi: “Mas
, Ru, você vai embora?”. E eu respondi: “Olha, eu provavelmente vou passar mais temporadas longas no Brasil. Mas eu sempre volto”. E há quase quatro anos eu venho cumprindo essa promessa de sempre voltar.
 

Eu não tive o luxo do divórcio
no qual eu podia me importar só comigo mesma. Quando eu me separei, algumas pessoas próximas e que conheciam bem a nossa relação, me disseram coisas do tipo: Não, a Francisca agora é problema dele. Você tem que se preocupar em cuidar de você!”. E eu só conseguia pensar: “Não, a Francisca não é problema dele. A Francisca é problema meu e eu quero que continue sendo também um problema meu."

Quando eu conto
para as pessoas que eu converso com a Fran todos os dias, que a gente troca mensagem, que eu viajo só para es com ela nas férias, só falta as pessoas me estenderem um tapete vermelho. Do tipo: “Nossa, que pessoa incrível!”. Isso é uma coisa que me incomoda demais! Eu sou adulta. Eu fiquei sete anos na vida dela. Seria uma surpresa, aí sim, se eu tivesse abandonado emocionalmente uma criança. Eu não mereço palmas porque eu permaneci. A gente precisa problematizar o abandono, e não aplaudir quem faz o mínimo.
 

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Quando eu voltei
para o Brasil, eu sabia que, em algum momento, eu ia conhecer um novo parceiro. Que era só uma questão de tempo. Mas eu realmente não queria alguém que já tivesse um filho. Eu não queria correr o risco de sentir a dor que eu estava sentindo por aquela ausência de acesso ao dia a dia da Fran. Eu não queria outra vez amar uma criança, fazer parte da rotina dela e, de repente, ter um parceiro que decida ir embora, como meu ex-marido foi, e eu me ver à deriva. 
 

E aí eu conheci o Agustin, meu marido, num aplicativo de relacionamento. A gente combinou um café e estava tudo indo muito bem, até que ele me contou que tinha um filho, exatamente da idade da Francisca. E aí, eu dei uma bugada. Eu pedi licença, fui até o banheiro, fiquei um tempinho processando aquele plot twist. Eu só pensava: “Não, não é possível. De novo, de novo as curvas da vida me levando numa direção que eu não estava esperando. Só que de novo eu aceitei. 
 

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E aí, a minha experiência como madrasta do Caetano foi muito mais fácil. Por muitas razões. O Caetano é super tranquilo, é easy going, era mais velho, já tinha conhecido outras namoradas do pai. Eu, do outro lado, cheguei com uma bagagem que facilitou também a construção do nosso vínculo.  

Foi mais suave também a minha relação com a mãe do meu enteado. Eu passei muitos anos estudando o feminismo e ressignificando a minha relação com outras mulheres. Quando eu conheci a Francisca, eu caí um pouco naquelas ciladas da competição, de achar que eu tinha que ser mais legal que a mãe dela. Depois do divórcio, a mãe da Francisca virou uma grande amiga. E hoje, eu quero que o Caetano tenha a melhor mãe possível, porque eu quero ser a melhor madrasta possível. 

Quando eu conheci o Agustin, eu já sabia que eu queria ser mãe. Eu tive essa consciência depois do meu divórcio com o pai da Fran. Eu lembro que eu andava na rua e, se eu visse um casal, ok. Porque eu sabia que eu ia ter isso em outro momento. Mas quando eu via mulher grávida ou pessoas com filhos pequenos, eu ficava desolada, porque eu não sabia se eu ia ter isso em algum momento. Então ficou claro que, se eu tinha aquelas crises, a maternidade era uma prioridade para mim. 

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No meu primeiro encontro com o Agustin, eu falei na lata, falei:Quero casar de novo, quero ter filho”. Muitas mulheres dizem que têm medo de assustar os caras com quem tão saindo dizendo isso no primeiro encontro. Mas, gente, que mané assustar o cara! Se um homem de 30 anos tem medinho, duvidazinha, honestamente cai fora! Porque ele precisa se resolver antes de se relacionar com alguém. Essas são respostas importantes. 

Mas, o fato foi que o Agustin não se assustou com a minha assertividade. Quando a gente começou a namorar e, depois decidiu ter um filho, eu acabei engravidando rapidamente. Quando o Joaquim nasceu eu não vivenciei aquele amor à primeira vista, que muita gente narra. A minha experiência como mãe não foi maravilhosa logo de cara.

Muita gente fala
que o dia do parto foi o dia mais feliz da vida, mas eu, honestamente, fui mais feliz em qualquer visita ao Hopi Hari do que no dia do meu parto
Não que eu tenha tido um parto especialmente ruim. Foi uma cesárea planejada. Só que minha pressão subiu, o Joaquim teve uma instabilidade respiratória. Então, assim que ele saiu da minha barriga, colocaram ele num daqueles bercinhos aquecidos, e não no meu peito, como eu imaginava.

Ele ficou longe de mim por 4 horas
que foram as 4 horas mais longas e aflitivas da minha vida. Então lá no hospital, eu estava preocupada se ele estava respirando. Estava preocupada com a minha dor. Estava preocupada em não ser transferida para uma semi-intensiva e ficar ainda mais longe dele. E aí no dia seguinte chegam as visitas, chegam os desafios com a amamentação, e era o Joaquim que não tinha pega, o leite que não era suficiente ... Cara, não tinha espaço pra romantização ali.
 

 
Quando a gente teve alta e voltou para casa, o clima não melhorou automaticamente. Eu admiro as mães que amam os bebês imediatamente, porque eu, honestamente, nunca me apaixonei à primeira vista por ninguém, todos meus amores foram construções. Aquele bebê ainda era um estranho para mim, eu estava começando a conhecê-lo.

E
como qualquer recém-nascido, ele só chorava, ele não ria, ele ainda não tinha, né, nenhum tipo de interação. Então eu falo que o primeiro mês foi um grande incêndio que eu ia apagando sem parar. Um dia eu cheguei a dizer para uma amiga: “Eu acho que o Joca merecia uma mãe que o amasse mais do que eu”.
 

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Eu me sentia uma mãe esquisita, porque eu não cabia muito bem em nenhum lugar. Eu não embarquei naquela loucura consumista do mêsversário, do ensaio gestante, de festa de um ano com bolo de três andares. Na verdade, essas coisas nem fazem parte da minha bolha. Mas, eu também não segui os modismos do meu universo, né, que eu brinco que é meio intelectual meio de esquerda.

Porque e
u não tive um parto normal. Porque eu não consegui amamentar tanto quanto eu gostaria, né, amamentei exclusivamente por dois meses, depois mais dois com complemento. Eu não segui o método BLW para introduzir a comida porque dois meses depois do parto eu já estava trabalhando. Eu não tinha tempo de ficar catando brócolis no chão. Eu amassei a batatinha no garfo, ia dando na colher e tudo bem.
 

[trilha sonora] 

Eu acredito, honestamente, que a maternidade também é feita de alívios. Porque quando a gente está aliviada, a gente es segura é muito mais fácil o amor conseguir emergir. Quando o Joca começou a sorrir, quando a minha cicatriz fechou, quando ele começou a ganhar peso… Aí sim, foram se abrindo outros capítulos. Cada pessoas tem um tempo, e esse foi o meu.

Não que a minha vida hoje seja perfeita. Continua um caos, mas é o caos da maternidade possível, que existe entre o romantismo e o terrorismo. Eu venho encontrando o meu caminho. É desgastante
, é cansativo, mas é muito divertido também. Eu me divirto muito sendo mãe. Quando a gente tem criança em casa, a gente aprende a voltar a brincar. E eu lembrei o quanto eu gosto disso.
 

A maternidade me ensinou também que eu tenho uma força que eu desconhecia. Eu lembro da primeira vez que eu fui sozinha ao shopping com o Joca. Coloquei o carrinho no carro, dirigi, estacionei, tira carrinho, pega criança, põe no carrinho, fecha o carro, procura o elevador...

E d
e repente eu olhei para aquilo e falei: “Meu Deus, eu consegui fazer isso”. E pode parecer ridículo, né? Sentir que é uma grande conquista ir até o shopping com um neném. Mas quem já fez qualquer banalidade com um neném pela primeira vez, sabe como a gente se sente poderosa. 
 

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Sendo mãe, eu passei a entender também o papel da madrasta sob uma outra perspectiva. Quando existe a figura de uma mãe presente, quando tem uma limitação de até onde eu devo ir. O Caetano sempre foi cabeludo e outro dia ele quis cortar o cabelo. E eu falei: “Cara, essa decisão não é minha.” E ele não tem mais de 18 anos para tomar essa decisão sozinha. Meu marido não atendeu o telefone, então eu liguei para mãe dele e perguntei: “Eu posso levar o Caetano no cabeleireiro? Você quer conversar com o cabeleireiro para dizer o que que é para fazer?”.  

Eu espero que não, mas se um dia meu filho tiver uma madrasta, tem decisões que eu quero que sejam minhas. Eu fui e sou madrasta de crianças com guarda compartilhada. Elas estão comigo 50% do tempo. E eu entendi que uma coisa é a gestão doméstica do dia a dia. Mas, outra coisa é a gestão do indivíduo, das decisões de saúde, de educação, do que pode e do que não pode. 

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Existem muitas famílias possíveis e muitas formas de se sentir completo. Tem uma autora britânica que eu gosto muito, a Dolly Alderton, que escreveu um livro chamado “Tudo o que eu sei sobre o amor”. Ela nunca se casou, nem tem filhos, mas refletindo sobre o assunto ela percebeu que o amor da vida dela são as amigas, e que há muitas formas possíveis de se ter uma família. 

Ser mãe me fez entender quem quer ter 11 filhos. Mas também me fez entender perfeitamente quem não quer ter filho nenhum. Eu acho que eu nunca vou ser a mãe que vai ficar evangelizando mulheres para que elas tenham filhos, porque a minha vida hoje é muito legal. Mas, a minha vida sem filho também era muito legal. Era muito bom ser a única protagonista da minha vida. Mas, também é muito bom dividir esse protagonismo com alguém, então tudo tem dois lados 

A minha família hoje eu considero que são dois filhos que não são meus, de dois homens diferentes, que têm suas próprias mães, o meu marido e o meu filho biológico. Os meus momentos mais felizes são com eles. Às vezes sou só eu e o Joca. Às vezes eu, Joca e Agustin. Às vezes eu, Joca, Agustin e Caetano. Às vezes eu, Joca, Agustin, Caetano e Francisca. Enfim, são momentos que me enchem os olhos e são níveis de alegria que eu não conhecia. 
 

Um desses momentos muito felizes foi o batizado do Joca porque eu convidei a Francisca para ser madrinha dele. E eu sou muito grata ao meu marido, ao Agustin, por ter aceitado essa ideia e também sou muito grata à mãe da Fran, que veio para o Brasil com ela para cerimônia.

A gente fez um ritual muito
maluco de batizado lá em casa. Minha mãe levou uma imagem de São Francisco, já que os padrinhos são a Francisca e o Francisco, que é um amigo do meu marido. E a gente pegou vinho do Porto, fernet e cachaça, para simbolizar o encontro do Brasil, de Portugal e da Argentina, já que o meu marido é argentino. E o Joca foi batizado assim, com essa mistura de bebidas e culturas.
 

 

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Eu lembro que uma vez eu postei uma foto em que estava o Agustin, o Joca, o Caetano, a Fran e eu. Quando eu olhei, eu falei: “Cara, essa é a minha família”. É aqui eu completa. Uma foto só minha, do Joaquim e do Agustin não é minha família. Uma foto com eles e com Caetano ainda não é a minha família. Mas uma foto com todo mundo, na qual esteja a Fran também, aí sim é a minha família completa. Não é a família obvia construída do jeito tradicional. Mas foram os presentes que as curvas da vida me deram. E que eu felizmente aceitei. 

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Geyze
Diniz
: Nossas histórias não acabam por aqui. Confira mais dos nossos conteúdos em plenae.com e em nosso perfil no Instagram @portalplenae. 

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Para Inspirar

Depressão infantojuvenil: como reconhecer os sinais e o que fazer?

O assunto delicado que quase ninguém quer falar, mas que é urgente entre nós: nossos filhos podem estar deprimidos e precisamos saber ajudá-los.

17 de Novembro de 2023


A depressão não é brincadeira: estima-se que mais de 300 milhões de pessoas no mundo, de todas as idades, sofram com esse transtorno, sendo a principal causa de incapacidade mundial e afetando mais as mulheres do que os homens. Mas, há uma camada ainda mais fina, sutil e preocupante nesses dados, trazidos pela Organização Mundial da Saúde: em seu pior desfecho, ela pode levar ao suicídio.

Cerca de 800 mil pessoas tiram suas próprias vidas a cada ano, sendo essa a segunda principal causa de morte entre pessoas com idade entre 15 e 29 anos.
E é sobre isso que vamos falar hoje. Inspirados pelo relate potente de Luciane Zaimoski, que abre a décima quarta temporada do Podcast Plenae, fomos entender um pouco mais sobre depressão infantojuvenil, doença que acometeu seu filho.

Sabemos que o assunto pode ser difícil e delicado, mas ele se faz igualmente necessário. É preciso reconhecer os sinais enquanto há tempo e saber o que fazer a partir disso. Conversamos com três especialistas para te ajudar nessa jornada!

A depressão na primeira infância

Sim, você leu corretamente: infância e depressão na mesma frase, essa triste realidade que não pode mais ser ignorada. Das 300 milhões de pessoas afetadas por ela, cerca de 2% são os pequenos. Um estudo exploratório buscou entender as manifestações clínicas dessa condição, que difere em alguns pontos dos adultos.

Segundo essa pesquisa, os sintomas giram principalmente em torno do 
transtorno do déficit de atenção e hiperatividade, baixa autoestima, tristeza, medos, distúrbios do sono, enurese, dores abdominais e sintomas somáticos. Outras queixas podem aparecer e serem tratadas inicialmente sem serem identificados como depressão. São as dores de cabeça, diarreia, falta de apetite ou apetite exagerado, insônia, irritabilidade, agressividade ou passividade exagerada, choro sem razão aparente, dificuldades cognitivas, comportamento antissocial, indisciplina, ideias ou comportamento suicidas.

Realizar esse diagnóstico não é fácil, já que as crianças apresentam dificuldade para nomear esses sintomas, que aparecem de forma multifacetada, e ainda estão em desenvolvimento. Além disso, o tema só ganhou força de investigação somente em 1970 – o que é historicamente recente -, pode trazer grandes prejuízos futuros no desenvolvimento desse indivíduo que se tornará um adulto em algum momento.

“Em crianças muito pequenas, pensando de 1 até 7 anos, a gente identifica uma possível depressão ou ansiedade ou essas questões clínicas de acordo com o comportamento”, explica Carolina Bifulco, pedagoga e psicóloga especializada em primeira infância, professora bilíngue e educadora parental em Disciplina Positiva. “São alguns pontos de atenção: uma criança  que não se sente capaz de realizar as tarefas, que não se sente parte do grupo ou que está mais excluída e brinca mais sozinha”, diz.

Além disso, Carolina ainda destaca dois pontos muito relevantes nessa investigação: um comportamento agressivo com os outros e consigo e a apatia. “A automutilação – criança que se arranha o corpo ou o rosto quando se desregula emocionalmente ou a agressividade com o outro: aquela criança que começa a brigar muito com os colegas e começa a usar violência para conseguir o que quer”, explica.

Uma criança que não quer fazer atividade, não quer brincar, ou só quer dormir também é preocupante – e esse, como frisa Bifulco, talvez seja o maior ponto de atenção. “Quando ela não demonstra vontade de ser criança é quando a gente tem que parar e tentar entender o porquê que ela está agindo daquela maneira”, diz.

Sandra Evangelista, psicóloga especializada em família, casal, luto, primeiros socorros psicológicos (situações de crise), prevenção e pósvenção do suicídio, reforça a importância de diferenciar uma tristeza comum de uma depressão. “Vamos dar um exemplo: a mãe que não deixa com que o filho faça uma atividade específica. O que essa criança vai manifestar como emoção? A tristeza. Só que essa tristeza vai durar algumas horas, talvez um dia, ela não vai durar a semana ou o mês todo”, diz.

Para Evangelista, a definição do que é ser criança é ser uma “exploradora do mundo”. Então, a falta de curiosidade, a apatia, o isolamento e a agressividade, são realmente pontos que merecem essa atenção, como Bifulco havia pontuado. A dificuldade em separação e ainda a criança que se machuca de propósito também preocupam.

A depressão na adolescência 

Da mesma forma que o transtorno mental e emocional pode acometer crianças pequenas, ele pode se dar na adolescência e é ainda mais comum. As condições de saúde mental são responsáveis por 16% da carga global de doenças e lesões em pessoas entre 10 e 19 anos, segundo dados da Organização Mundialda Saúde.

Metade de todas as condições de saúde mental, continua o estudo, começam aos 14 anos de idade, mas a maioria dos casos não é detectada nem tratada. E as consequências de não abordar o tema com seriedade se estendem à idade adulta, prejudicando a saúde física e mental e limitando futuras oportunidades.

“O primeiro conhecimento que precisamos ter sobre o adolescente é: o seu cérebro, suas conexões sinápticas, a carga máxima química e hormonal, não estão prontos. Ele está em processo de amadurecimento e desenvolvimento e será finalizado em média aos 18/20 anos. O córtex frontal é responsável pelas tomadas de decisões, controle inibitório e flexibilidade cognitiva - o último a ser formado. Por isso, ele é naturalmente impulsivo, com poucos recursos e manejos diante de situações e pensamentos catastróficos, e não lida bem com o estresse. Exigir que ele haja como adulto é um erro.”, explica Thaís Malta Romano, neuropsicóloga e mestre em Ciências da Saúde pela UNIFESP.

Os sintomas do adolescente são próximos ao da criança: ainda mais irritabilidade, o isolamento e a apatia. Aqui entra o segundo ponto levantado por Romano: atenção a durabilidade e intensidade desses sintomas, pois isso fará toda a diferença. “Sinais de ansiedade e depressão tem características semelhantes ao comportamento base de qualquer adolescente. O que vai diferenciar se é um comportamento comum ou patológico é a duração e intensidade dos eventos, prejuízo sociais, acadêmicos e físicos”, explica.

O adolescente, diferente do adulto, vai apresentar pior humor, acessos de raiva e hostilidade, dores inexplicáveis na cabeça, estômago, coluna e pescoço travados com frequência, uma altíssima sensibilidade a críticas, podendo apresentar choros, crises de raiva e até automutilação, além de uma vulnerabilidade extrema à rejeição e ao fracasso”, continua Thaís.

Há um isolamento exacerbado também que pode ocorrer, e não só aquele clássico do quarto, jogando videogame, mas um isolamento dos melhores amigos também. Isso pode ser o início de um comportamento evitativo com aqueles que o conhecem melhor, cujo objetivo é esconder um machucado, um olho inchado ou somente uma expressão de tristeza. A observação das microexpressões faciais aqui será muito importante.

A queda no rendimento escolar ou pedidos de falta com muita frequência e uso de substâncias como álcool e drogas, podem ser tanto consequências de um quadro psiquiátrico já instalado quanto um gatilho para o desenvolvimento de um. 

O adolescente que está sempre muito cansado, uma exaustão extrema que não é sobre o sono – afinal, é natural que eles durmam mais horas e, por sua vez, será extremamente importante para a manutenção da saúde mental e física – também são atípicas. O abandono de atividades que gosta e não simplesmente mudança de preferências, mudança no comportamento alimentar, tudo isso é relevante nessa jornada da observação”, pontua.

E, por fim, chegamos à automutilação. Ela pode começar com algo “leve”, como roer unhas até sangrar, arrancar peles pequenas da boca, cutucar espinhas e causar machucados menores pelo corpo ao menor sinal de ansiedade. Acontece que esse comportamento pode levar a outro pior: se cortar ou se machucar de forma mais intensa ou até atentar contra a sua própria vida, o estágio final e mais preocupante de todos. “Essa automutilação é uma forma que o adolescente encontra para se autorregular emocionalmente quando não tem recursos sociais e cognitivos suficientes para lidar com o problema”, diz.

O papel da escola e dos especialistas na jornada da depressão infantojuvenil

Para as três entrevistadas, o papel da escola é fundamental. “O primeiro passo a ser feito quando você começa a enxergar uma mudança de comportamento dessa criança é marcar uma reunião com o coordenador e o professor dela para entender se esse comportamento que você está observando em casa se mantém na escola. Depois dessa reunião, se eles baterem na tecla que ela de fato está diferente, o próximo passo é procurar um psicólogo especializado em clínica infantil”, pontua Carolina Bifulco.

É no ambiente escolar onde a criança será assistida por olhos diferentes e onde o tema da saúde mental poderá ser promovido em sala de aula ou em atividades extracurriculares. É por lá também que ela irá socializar, atividade que pode escancarar alguns comportamentos que mencionamos, como o isolamento ou a agressividade.


“As escolas precisam ainda promover formações para os seus profissionais visando a questão da saúde mental, promover campanhas internas para seus professores e funcionários, ensinando-os como identificar, como intervir, etc. Tem que ser uma coisa maior, que faça parte do projeto político-pedagógico da instituição. Os pais também têm que ser contemplados nessa campanha com palestras, debates, formações sobre a prevenção, entre outros”, continua Bifulco.

Mas, é preciso cautela nessa transferência, pois a escola é parte de um todo, e não a responsável total pelo problema, como reforça Thaís Malta. “Direcionar a responsabilidade total aos educadores é sobrecarregar um profissional que não está habilitado para tal função. A realidade é diferente do desejo, há professores com dois turnos de trabalho, com três ou quatro salas de quarenta alunos. Há casos que naturalmente chamam mais atenção, mas o que nos preocupa são os adolescentes discretos com suas dores”, pontua.

Algumas possibilidades sugeridas por Thaís para driblar esse impasse são os dias temáticos, atividades extracurriculares, palestras, rodas de conversa. “Dessa forma, podemos instrumentalizar os adolescentes a reconhecer sinais em si e nos colegas, prevenir o bullying, o assédio, as brigas. Um educador físico que ensine consciência corporal, respiração, relaxamento, meditação. Ter uma equipe de acolhimento, com um espaço seguro para que eles possam se expressar sem julgamentos ou ameaças.”

A escola, como dito anteriormente, trabalhará em conjunto com os especialistas. Mas, quem são eles? “São duas abordagens mais utilizadas nesse caso: a psicanálise e a comportamental. A segunda é mais específica para ensinar novos comportamentos, mudar uma fobia ou atender crianças atípicas. Se a questão for de comportamento emocional ou de pensamento, a psicanálise Winnicottiana seria ideal para começar a investigar e entender o que essa criança está sentindo”, explica Carolina.

O papel dos pais na jornada da depressão infantojuvenil

Se a escola e a escuta profissional são parte do caminho, a outra parte, é claro, fica aos tutores. E vale dizer, uma parte bastante significativa. Sabemos que há um fator genético importante envolvido em vários casos de depressão. Mas, há outros vários casos que se dão por conta de um ambiente estressor ou algum gatilho específico, uma situação vivida por aquela criança ou adolescente, por exemplo.

“Se eu tenho um ambiente familiar disfuncional com muita agressividade, brigas entre o casal, violências físicas, psicológicas e às vezes até um abuso sexual, esses fatores todos vão marcar significativamente essa criança e esse adolescente, aumentando a possibilidade do desenvolvimento de um transtorno”, revela Sandra Evangelista.

“O que nós temos hoje são os pais provedores da família, que saem para trabalhar e ficam distantes dos seus filhos. Oferecer boas oportunidades para seus filhos é importante. Porém, mais importante ainda é garantir o afeto e a segurança emocional. E como a gente faz isso? Sendo presença. Estando perto. Brincando junto. Entendendo como está sendo o dia a dia deles, quais são as dificuldades”, pontua.

Sandra menciona também os benefícios da previsibilidade e da rotina: ter horas para as atividades e ter regras torna o lar um ambiente seguro, com limites, contorno e bem-estar. Para Thais, tratar a dor de seu filho como “mimimi” é parte do problema. Dizer frases como “na sua época eu já trabalhava e não tinha tempo para pensar nisso” não são um mérito, pois esse cuidador deve se perguntar: o que eu passei me tornou um adulto hoje feliz? Era necessário ter vivido aquela situação?", questiona Thais.

“Estamos falando de pais que, em sua adolescência e até mesmo na vida adulta, não tiveram e não têm suas emoções e sentimentos acolhidos e validados. Como é que eu acolho meu filho, meu neto, meu sobrinho, se eu não tive essa experiência? Mas há alguns passos possíveis de serem feitos por todos”.

Legitimar e validar os sentimentos do seu filho é um passo importante na Disciplina Positiva, assunto que abordamos por aqui em um Plenae Drops. “A disciplina positiva consiste em uma forma de se criar crianças com base em firmeza e gentileza sem o uso de punição. Não se trata de não impor limites, mas de colocá-los sem violência. O primeiro passo de tudo é criar esse ambiente seguro em casa onde a criança pode se expressar, falar o que ela pensa, conversar, se expor e principalmente, ser levada a sério", explica Carolina Bifulco.

Outros passos importantes dessa filosofia é parar de buscar culpados e procurarem juntos uma solução, além de dar o peso devido às coisas. “Se um amigo seu adulto derruba um copo, você não grita com ele. Por que fazer isso com uma criança que, ao contrário do seu amigo, está aprendendo a ter equilíbrio e coordenação motora?”, questiona Bifulco.

Por fim, um ambiente seguro e acolhedor é também um ambiente onde as crianças são encorajadas a testarem, se arriscarem e, claro, errarem. Essa confiança fará a criança se sentir capaz de tudo e isso, no futuro, irá refletir em um adulto que expressa suas ideias sem medo, autônomo, livre e com uma boa autoestima.

Aos pais de adolescente: resista fortemente a qualquer impulso de criticar ou julgar o  quando ele estiver falando – e isso inclui sem caras e bocas. Demonstre, enfatize, fale sobre o interesse em ouvi-lo, reconheça, acolha e valide seus sentimentos. Persista no diálogo, mas com respeito.

"Dificilmente o adolescente vai te procurar, mas nenhuma conversa deve cair num limbo. Retome semanalmente, quinzenalmente, até se tornar um hábito o diálogo entre vocês”, explica. “Tenha a curiosidade sobre o adolescente, pergunte sobre suas referências públicas nas redes sociais, conheça os seus amigos, promova encontro entre eles. E por fim acredite: você está dando o seu melhor". Você é capaz de abraçar essa causa e tornar a vida do seu filho muito melhor: acredite! 

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