Para Inspirar
Como um episódio marcante pode mudar os rumos de sua vida - e de outros tantos? Rodrigo Hübner Mendes explica, no Podcast Plenae
11 de Outubro de 2020
Leia a transcrição completa do episódio abaixo:
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Rodrigo Hübner Mendes: Quando o pessoal do Plenae me convidou pra gravar esse podcast, achei interessante a provocação pra que eu falasse sobre minha relação com meu corpo, com a minha saúde, com meu movimento. Especialmente pra alguém que, aos 18 anos, sentiu na pele o que parecia ser uma eterna perda da mobilidade. [trilha sonora]
Geyze Diniz: Conhecer o Rodrigo é entender o significado da palavra inspiração. Uma assalto, um tiro, uma mudança drástica do percurso. O que seria para muita gente motivo para deprimir e se fechar, foi o motivo com que ele se abrisse para o mundo e criasse caminhos para inclusão de tanta gente que precisa. No final do episódio, você ouvirá reflexões do doutor Victor Stirnimann para te ajudar a se conectar com a história e com você mesmo. Eu sou Geyze Diniz e esse é o Podcast Plenae. Aproveite este momento, ouça e reconecte-se. [trilha sonora]
Rodrigo Hübner Mendes: Durante toda minha infância fui apaixonado por futebol. Comecei jogando bola no quintal de casa e, conforme fui ganhando confiança, pedi pro meu pai me inscrever no campeonato do Clube Pinheiros. Tive a sorte de me destacar logo no primeiro ano. Fui convocado pra a seleção do clube, o que era o máximo pra um garoto naquela idade. Já com 13 anos, levei uma pancada no joelho, o que me afastou completamente do esporte por bastante tempo. Acabei precisando passar por uma cirurgia pra retirada do menisco, que resolveu totalmente o meu problema. Voltei a jogar bola sem nenhuma dor. E, ao mesmo tempo, defini qual seria meu plano de vida. Fiquei tão fascinado com o poder do médico de devolver bem-estar pras pessoas, que decidi que eu seria cirurgião de joelhos de atletas.
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Na época, meu médico tinha fortemente recomendado que eu balanceasse o futebol com algum esporte que não gerasse impacto no joelho e que me desse massa muscular. Lembrei que um primo mais velho tinha experimentado remo recentemente e tinha adorado. E aí fui eu pra raia da USP, onde ficam as instalações de todos os clubes de remo de São Paulo. Logo de cara criei uma enorme curiosidade e motivação por aquele esporte que, no meu imaginário, formava atletas indestrutíveis, incansáveis. Quer dizer, um universo extremamente sedutor para um adolescente em busca de novidades. Comecei remando no Paulistano, que é um clube de elite e tinha a melhor infraestrutura na época. Nosso treinador se chamava Hércules. Acho que nenhum nome pode ser mais apropriado pra descrever um personagem que era um mito na raia. O cara era um armário, alto, muito forte, barba preta. Falava pouco, nunca sorria e fuzilava com os olhos quando alguém se atrevia a fazer um comentário mais descontraído durante o treinamento. Eu achava aquilo tudo muito divertido. Me sentia meio que num filme. Mas levava super a sério. Era bem "caxias" com horários, esforço, etc.
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Saltando no tempo, na época em que eu estava no cursinho pré-vestibular, eu passei por um assalto onde levei um tiro. E isso gerou a imobilidade abaixo dos ombros, chamada de tetraplegia.
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Fui obrigado a abandonar os estudos e canalizar todo o meu tempo pra diversos tipos de fisioterapia. Tive acesso aos melhores médicos e apoio incondicional da minha família e dos meus amigos. Em nenhum momento me faltou ajuda. Me lembro que, toda noite, a sala de espera do hospital ficava abarrotada de gente querendo me ver, querendo ajudar de alguma forma. Além disso, minha história com esporte foi decisiva para que eu conseguisse sobreviver, especialmente pelo remo que trabalha muito resistência e saber não entregar os pontos.
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Teve uma passagem muito marcante com meu pai. No dia do assalto, logo que ele chegou no hospital e me viu na maca, num limite entre vida e morte, muito fragilizado, ele segurou no meu braço e disse: filho, fica tranquilo, faz a sua parte, a gente vai fazer a nossa e a gente vai vencer isso tudo. Isso passou a ser o meu lema diário que me influencia até hoje.
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Quando eu comecei a frequentar clínicas de reabilitação, percebi que eu era uma exceção. A maioria das pessoas que passam por acidentes ou nascem com alguma deficiência, enfrentam também pobreza, miséria. Interessante que outro dia eu estava lendo um livro sobre o navegador Ernest Shackleton. Ele era um aventureiro que, em 1914, organizou uma expedição com o objetivo de realizar a primeira travessia do continente antártico com trenós. E aí o negócio deu errado. Antes de chegar no ponto de desembarque, o mar congelou e eles ficaram presos por 9 meses no navio, até que a pressão do gelo arrebentou com a estrutura do barco e eles tiveram que passar um tempo enorme vivendo em cima de placas de gelo, em condições extremas. Temperaturas muito baixas, ventania, muita umidade. Em várias passagens desse livro, o Shackleton fala sobre a relatividade das adversidades. Dizia, por exemplo, que quando a temperatura subia de -25º para -5º, comparativamente eles se sentiam super confortáveis e felizes. Esse livro fez eu voltar no tempo, porque eu me identifiquei muito com essa sensação. Logo na primeira semana de hospital eu tive esse insight de que estava na minha mão dimensionar qual seria o tamanho do meu problema. Em relação a quem não tinha nenhum suporte, me vi ali como uma pessoa extremamente privilegiada. E aí, mais pra frente, o desejo de retribuir tanta coisa boa que eu tinha recebido, combinado com o sentimento de indignação por ver que muitas famílias não tinham como pagar as despesas do tratamento dos seus filhos, com casos muito complicados, resultou na criação do Instituto Rodrigo Mendes. [trilha sonora]
E o que que o Instituto faz? A gente trabalha pra que nenhuma criança ou adolescente fique de fora da escola por causa de uma deficiência. Pra isso, a gente vem investindo em 3 pilares: identificando o que existe de mais avançado no mundo, oferecendo referências práticas pro professor que tá lá na ponta e se sente inseguro e promovendo formação, cursos pra professores em todo Brasil.
Nos últimos anos a gente produziu documentários sobre casos de sucesso no Brasil, nos Estados Unidos, na França, na Dinamarca e na Argentina. E como resultado dessa nossa exposição internacional, a gente foi contratado pelo Governo de Angola para um projeto de consultoria para a criação de uma Política Nacional de Educação Inclusiva lá. É a nossa primeira intervenção na África e vai beneficiar milhares de crianças e adolescentes. Olhando pro Brasil, a gente conseguiu impactar mais de 100 mil educadores dos 26 estados brasileiros. Essa é uma marca que a gente atingiu esse ano. Estamos super feliz, é o nosso presente de 25 anos.
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Voltando à provocação do Plenae, será que a minha relação com meu corpo mudou nesse tempo todo? Será que quando eu era atleta o meu corpo exercia maior influência sobre a minha identidade? Ou, ainda, será que a minha nova condição me levou a ser mais desprendido do meu corpo?
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Para começar, eu acho que a separação corpo, mente e espírito tem uma função meramente didática. Serve para a gente tratar das diferentes dimensões que nos compõem de uma forma mais organizada. Mas, objetivamente, a nossa existência se dá pelo corpo. É por meio dele que somos percebidos, que a gente deixa nossa marca, mesmo que a gente continue a existir na memória dos outros depois da morte. Isso independe da nossa crença pessoal sobre questões metafísicas e religiosas. Quer dizer, eu continuo intrinsecamente ligado ao meu corpo. E o fato do meu corpo ter mudado não significa que minha essência tenha mudado. Eu sinto que ela foi preservada.
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Há alguns anos fui convidado pra dar uma palestra em Davos. Me chamaram para falar sobre resiliência. Como muita gente sabe, resiliência é um conceito da física que diz que, na natureza, alguns materiais têm a capacidade de retornar ao seu estado original após sofrerem uma deformação ou um impacto. Os americanos gostam de chamar isso de "bouncing back", que é o movimento que uma bola de borracha desempenha quando é arremessada contra uma superfície rígida. A bola se deforma e depois recupera a sua configuração. A plateia em Davos tinha príncipes, princesas e grandes autoridades. Quando subi no palco, o entrevistador me perguntou: Rodrigo, sabendo que a história da humanidade é marcada por crises cíclicas, você acha que é possível aplicar o conceito de resiliência para superação dessas crises? Eu pessoalmente acredito que, diante de uma mudança imposta, indesejada, a tendência humana é querer voltar à situação anterior. Senti isso na pele logo depois do meu acidente. Passei 3 anos fazendo 8 horas por dia de fisioterapia pra voltar a ser quem eu era, ou seja, um jovem fisicamente independente. Hoje eu percebo que a resiliência é uma capacidade fundamental para nossa essência. Seja qual for o impacto, a ruptura que surgir na nossa frente, a gente precisa ser capaz de preservar, de proteger nosso objetivo maior. Agora, quando a gente pensa na nossa ação, na nossa vida prática, eu prefiro usar um conceito que é o oposto da resiliência, que é a plasticidade. Plasticidade é a capacidade de um material se moldar, se transformar e se desprender da forma anterior. Resumindo, eu propus que as lideranças lá presentes buscassem combinar resiliência do propósito com plasticidade da ação. Que deixassem para trás o "bouncing back" e começassem a pensar em "bouncing forward". E esse negócio pegou. A expressão "boucing forward" saiu na frase final do relatório do Fórum Econômico Mundial.
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Voltando para a questão da mudança do meu corpo, de certa forma, acho que é isso que eu venho fazendo nesses anos todos. Me reinventado, mas blindando a minha essência. Os caminhos pra eu atingir meus objetivos vão se modificando com o tempo, mas o meu norte segue sendo o mesmo. Eu gosto muito do poema vitoriano que diz que “somos mestres dos nossos destinos, somos capitães das nossas almas”. Apesar da enorme incerteza que está sempre ao nosso redor, da impossibilidade da gente controlar as coisas, daquilo que os budistas chamam de impermanência, me ajuda muito pensar que a nossa intenção, o nosso objetivo maior está sob nosso controle, não importa quantos tiros, quantos trancos a gente leve.
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Os momentos mais difíceis da minha vida foram, de longe, os primeiros dias no hospital. Eu tinha muita dificuldade pra respirar e precisava enfrentar uma maratona de procedimentos que eu nem sabia que existiam. Toda madrugada, tinha a hora em que todo mundo fazia uma pausa pra descansar e eu ficava, ali, acordado, meio que numa sombra, como que na beira de um precipício, me segurando como eu podia pra não despencar. Nessas horas, eu recorria aos melhores momentos do meu passado, que apareciam como um cinema projetado no céu. Eram sempre momentos marcados por leveza e afeto. E aquilo me reanimava. Eu me sentia com uma força sem fim pra, no dia seguinte, encarar de novo aquele maremoto com meu barquinho a remo.
Me dá muito prazer saber que eu, minha equipe, meus conselheiros, nossos parceiros, quer dizer uma legião de pessoas, trabalham pra melhorar a educação no país, pra que todo mundo esteja no jogo e tenha a chance de marcar um gol ao invés de passar a vida toda no banco de reservas, ou pior, escondido no vestiário.
Uma das estratégias que eu adoto pra manter o meu foco no meu propósito é me lembrar de uma noite, quando eu estava no primeiro ano de faculdade, em que eu perdi o sono e resolvi ligar a TV. E estava sendo transmitida a cobertura de um encontro mundial de grandes cientistas, filósofos e líderes religiosos. O objetivo era discutir o futuro do planeta.
Os argumentos eram hiper sofisticados até que, num dado momento, a palavra foi passada pro Dalai Lama. E aí, com muita simplicidade, ele falou que é uma ilusão discutir sustentabilidade sem que a gente primeiro reconheça que todos os seres humanos são interdependentes. Eu gosto muito dessa visão de que, se o nosso vizinho tá passando por um sofrimento, de alguma forma a gente também vai ser afetado por esse sofrimento, não importa a altura dos muros que separam as nossas casas.
Eu realmente acredito que a gente precisa ser capaz de devolver tanta coisa boa que a vida oferece pra gente todos os dias e trabalhar duro para que as coisas melhorem. Melhorem não só pra gente, mas pra cada vizinho desse bairro planetário chamado Terra. Acho que no fundo eu continuo seguindo o pedido do meu pai, buscando fazer a minha parte.
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Geyze Diniz: As nossas histórias não acabam por aqui. Acompanhe semanalmente nossos episódios e confira nossos conteúdos em plenae.com e no perfil @portalplenae no Instagram. [trilha sonora]
Para Inspirar
Conheça a história de Zica, personagem do pilar Contexto e símbolo de perseverança, sucesso e resiliência
5 de Julho de 2020
Leia a transcrição completa do episódio abaixo:
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Introdução: Bem-vindo ao Podcast Plenae, um lugar onde você encontra histórias reais para refletir. Ouça e reconecte-se.
No episódio de hoje, a empresária Heloísa Assis, a Zica, como prefere ser chamada, compartilha sua trajetória de aprendizagem, superação e muita garra. A filha do meio da dona Dulce e do seu João já entrou para a lista da Forbes das 10 mulheres mais poderosas do Brasil, ao lado da Gisele Bündchen e da Luiza Trajano. Sua jornada ilustra o pilar Contexto. No final do relato você ouvirá reflexões do monge Satyanatha, nosso convidado especial dessa temporada, para ajudar você a se conectar com o seu momento presente. Aproveite este momento, observe seus sentidos e abra-se para uma nova visão sobre o mundo e sobre você mesmo.
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Zica Assis: Eu sou a filha do meio entre 13 irmãos, seis pra cima, seis pra baixo.
A gente cresceu na comunidade do Catrambi, perto do morro do Borel, na Tijuca, zona norte do Rio. Minha mãe lavava roupa para fora e meu pai vivia de fazer bicos.
A gente morava em um barraco de 20 metros quadrados, dois cômodos, chão de terra batida e telhado de zinco.
Nem tinha cama. Dormia tudo apertado, no chão mesmo. Apesar de todos os problemas, a energia da nossa casa era boa. Meus pais ensinavam que a gente tinha que se unir, se ajudar para superar as dificuldades. E era isso que a gente fazia.
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A minha maior alegria eram os bailes que aconteciam no sábado e domingo à tarde, perto de casa, num grande barracão de madeira azul. Como era matinê, com 7 anos eu já frequentava o baile e a comunidade toda ia. Naquela época, final dos anos 60, começo dos anos 70, a influência do soul americano era muito forte e as festas faziam concurso de melhor cabelo black power. Eu tinha um black enorme, o maior da comunidade e ganhei vários desses concursos. Eu morria de orgulho do meu belo pêlo. Ah, pêlo, é como a gente chamava o cabelo black na época.
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Apesar de fazer sucesso no baile, eu sofria preconceito na escola. Eu nunca pude sentar na frente da sala, porque o black incomodava ela. Quando ela me chamava a atenção por alguma coisa, ela não falava o meu nome, mas dizia assim: “Ô, menina, você aí do cabelo armado”. Ou ainda pior: “você aí do cabelo de arame farpado!” Não tinha a Heloísa, não tinha a Zica. Embora eu ficasse muito triste na escola, o maior problema não foi esse.
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Em casa, existia uma regra: quando a gente fazia 9 anos, tinha que começar a trabalhar. Minha mãe ficou sabendo que uma família do Alto da Boa Vista, onde só tinha mansões, precisava de uma babá pra uma criança de 5 anos, e ela me levou lá pra conhecer a patroa. Era uma casa enorme. O muro era de pedra e com um belo jardim. E logo no portão, a mulher olhou pra mim e falou: “com esse cabelo, você não entra. Tem que dar um jeito”.
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Eu fiquei paralisada por alguns segundos, sem entender o que estava acontecendo.
O que o meu black tinha a ver com tudo aquilo? Por que eu não podia apenas fazer o meu trabalho? Só acordei quando minha mãe segurou firme no meu braço, olhou pra mim e falou: “Seus irmãos precisam de comida! Vai ter que cortar o cabelo!" Cortar o cabelo, pra mim, era deixar de ir ao baile. Porque como eu ganhava os concursos eu não precisava pagar pra entrar. Sem meu pêlo eu ia deixar de me divertir. Mais do que isso, eu ia deixar de me achar bonita. Ele era a fonte da minha alegria. Eu fiquei arrasada!
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Fui pra casa e minha mãe cortou meu cabelo. Eu chorava muito. Não cortei curtinho, porque eu ainda queria me sentir menina. Aí ficou um blackzinho. Mas não…. não foi suficiente pra patroa. Eu ia ter que alisar. A maioria das mulheres da comunidade também alisava o cabelo pra trabalhar e minha mãe pagou uma vizinha fazer o meu. No quintal da casa dela, ela espalhou henê na minha cabeça. Henê é uma pasta química que alisa e colore o fio de preto. Depois, ela ainda passou um pente de ferro quente. Meu cabelo ficou totalmente liso. E eu me senti horrorosa. Ganhei um emprego, mas perdi a identidade.
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Nessa época eu chorava muito sozinha, mas nunca na frente da minha mãe e dos meus irmãos. Eu guardei essa tristeza dentro de mim e joguei a energia toda pro trabalho.
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Aí eu virei a melhor lavadeira da região. A melhor babá. A melhor faxineira. Eu prestava atenção nos detalhes: pegava as flores no jardim e colocava num vasinho, arrumava a cama bem bonita, fechava as cortinas da sala pra não esquentar a casa. Fui fazendo isso tão bem que as patroas me amavam. Para mim, ter um trabalho era fundamental para o sustento da minha família, mas por causa dele eu deixei de me divertir durante a infância e adolescência. Nem namorado eu tive, de tanto que eu me dediquei ao trabalho. Enquanto isso, eu continuava alisando o cabelo. Todo mês! Várias vezes eu não tinha dinheiro pro henê e passava ferro de carvão mesmo no cabelo. Parece até coisa de novela, né? Mas não é, não! Era assim mesmo.
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Na minha comunidade tinha sempre alguém que aprendia uma profissão e aí ensinava o outro. Quando eu tinha 21 anos, fiz um curso de cabeleireiro na Igreja de São Camilo de Lellis, ali mesmo no meu bairro. Não era um curso especializado que nem hoje. Eu nem pensava em ser cabeleireira, eu só queria aprender a cuidar do meu cabelo.
Por que meu cabelo crescia pra cima? Por que ele era grosso? Por que ele não tinha brilho? Mas principalmente, eu queria entender porque as pessoas associavam o crespo à sujeira e a desleixo. Infelizmente, o curso não deu as respostas para as minhas perguntas. Porque, na verdade, o que ele ensinava era o alisamento que todas as minhas vizinhas faziam. Mas ali nasceu uma paixão.
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Eu acabei fazendo amizade com os fornecedores de henê e de pasta para alisar o cabelo e pedi para que eles me trouxessem não os produtos prontos, mas as matérias-primas. E aí, eles chegaram com um monte de pozinho. E eu nem sabia o que era o quê. Mesmo assim fui pro tanque, separei uma bacia com água, uma colher de pau e comecei a misturar os pozinhos de qualquer jeito, sem seguir nenhuma receita.
Na maior inocência, apliquei aquele negócio em metade do meu cabelo, da raiz até a ponta. E… surpresa… Meu cabelo caiu todo. Foi horrível ver o meu cabelo se desfazendo na minha mão. Mesmo assim coloquei um lenço na cabeça e não desisti.
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Os anos passaram, eu casei, tive três filhos e continuei fazendo faxina para colocar dinheiro em casa. Mas, nos fins de semana, quando tinha um tempinho, eu ia pro tanque e fazia minha alquimia. Quer dizer, eu não entendia absolutamente nada de química. Eu misturava tudo o que você pode imaginar. Pegava os pozinhos e misturava com azeite, óleo de cozinha, sabão e o que tivesse à mão.
Aí, teve uma época que o meu marido se chateou. Meu cabelo tava destruído, cheio de buraco no couro cabeludo. Eu vivia de lenço. Ele implicou muito e eu falei: “Quer saber? Vou pegar meus irmãos de cobaia”. Porque em casa era lei: os irmão mais novos tinham que obedecer os mais velhos.
E aí eu escolhi o Rogério, que já era meu parceiro, entregando as roupas que eu lavava. O cabelo dele também caiu várias vezes com as minhas misturas, coitado. Mas ele esperava crescer e deixava eu passar de novo.
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Depois de oito anos e muito cabelo estragado, eu recebi o primeiro elogio. Eu estava voltando pra casa depois de um dia de trabalho e uma prima minha me parou na rua. Ela falou que meu cabelo estava lindo! Mais do que isso, ela pegou no meu cabelo e perguntou o que eu estava passando, pra passar no dela também.
Foi incrível, porque naquela época ninguém nunca elogiava o meu cabelo, só o meu trabalho, a minha alegria… Mas não o meu cabelo. Nesse dia, quando eu cheguei em casa, corri pro banheiro e me olhei no espelho. Meu cabelo estava hidratado, com balanço e cachos definidos. Minha vida começou a mudar aí!
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Eu já tinha 33 anos, ainda era empregada doméstica, ajudava a sustentar a minha casa quando consegui a patente do "Super-Relaxante". Tinha chegado a hora de arriscar. Meu marido, que é 20 anos mais velho que eu, já era aposentado. Com o dinheiro da rescisão na empresa, ele tinha comprado um Fusca 78 e trabalhava como taxista na comunidade. Era o único bem de grana da família. Convenci ele a vender o carro e investir em um salão de beleza. Acontece que o dinheiro ainda não era suficiente. Meu irmão Rogério, que já tinha sido meu parceiro de baile e cobaia de cabelo, virou meu sócio, e ele trouxe junto a Leila. Nós juntamos o que hoje seriam uns 4.200 reais.
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A última faxina que eu fiz na vida foi numa segunda-feira. Eu sei, porque abrimos o Beleza Natural no dia seguinte, 27 de julho de 1993, lá na Tijuca. Esse dia marcou a minha vida. O salão ficava em uma casa de fundos, com uns 30 metros quadrados e mais de 100 anos. Tinha piso de cimento, pé direito alto e as paredes descascadas. Tinha café passando na hora e, principalmente, era feito para as mulheres de cabelos crespos e cacheados, coisa que o mercado não enxergava na época. Era pobrezinho e pequenininho, mas acolhedor e inovador.
No primeiro dia eu, meu marido, meu irmão e a Leila fomos de ônibus até lá. Quando eu coloquei a chave no portão minhas mãos tremiam a suavam. Abrimos às 9h em ponto. E no dia inteiro... Não apareceu ninguém. Nem as vizinhas que me incentivaram a abrir o salão. Pra não dizer que não entrou ninguém, a minha família chegou de noite, pra festa de inauguração. Eu fiz salgadinhos, comprei refrigerante e brindamos com espumante nacional. Eu chorei de emoção várias vezes naquele dia, porque eu me vi como profissional, como empresária, como patroa.
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Dois dias depois que a gente abriu o salão, o Itamar Franco, presidente na época, anunciou o Plano Real. Acabou a inflação e começou a ascensão da classe C. As primeiras clientes começaram a chegar. Em três meses, já tinha fila na porta. Quando o salão abria, às 9h, já tinha umas 100 pessoas esperando. A gente teve que começar a distribuir senhas e saía do salão meia-noite, uma da manhã, porque não dava conta!
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Hoje, nós somos uma rede com 38 endereços em 5 estados. Quando acontece alguma coisa que me deixa triste, eu olho para trás e penso de onde eu vim, da comunidade de onde eu saí e que agora eu consigo ajudar. Eu lembro dos concursos que eu ganhei, do meu cabelo sendo cortado, das faxinas, dos pozinhos misturados, do meu irmão deixando o cabelo dele crescer só pra eu testar tudo de novo.
Lembro da minha prima elogiando meu cabelo lindo, da patroa que me incentivou e da química que acreditou em mim. Lembro do meu marido vendendo o fusquinha dele e do meu irmão e da Leila juntando o dinheirinho suado deles pra me ajudar. E aí eu levanto a cabeça, dou um sorriso e tá tudo bem.
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Satyanatha: Chegamos ao fim da história da Zica. Não tem nada mais bonito do que aprender a ser você mesmo. A Zica insiste em ser ela. Tem uma música do Cartola que diz: “Deixe-me ir, preciso andar, ir por aí a procurar, rir pra não chorar. E se alguém por mim perguntar, diga que só vou voltar depois de me encontrar”. Conhecer a si mesmo é encontrar uma vibração que é só sua, algo especial que só você tem. O “eu” não é um ponto, mas é uma frase, uma prosa fluida.
Quando a gente descobre e aceita quem se é, alcança o ápice produtivo. Se eu, que sou monge, tentasse ser matemático, a minha contribuição pra humanidade seria menor. A Zica era uma excelente faxineira, mas ajudou a mudar a vida de muito mais gente porque persistiu na busca pela sua identidade, até encontrar a fórmula para embelezar os seus cachos. A identidade deu a ela a sensação de pertencimento.
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Finalização: Nossas histórias não acabam por aqui. Acompanhe semanalmente novos episódios e confira nosso conteúdo em plenae.com e no perfil @portalplenae no Instagram .
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