Para Inspirar

Renata Rocha em “Conheci a meditação pela dor, mas fiquei por amor”

A oitava temporada do Podcast Plenae está no ar! Confira a história da coach de vida e propósito Renata Rocha. Aperte o play e inspire-se!

19 de Junho de 2022


Leia a transcrição completa do episódio abaixo:


Renata Rocha - Muitas pessoas dizem assim: “Meditação não é pra mim, porque eu penso demais, eu sou muito ansiosa”. Pois eu garanto que a meditação é EXATAMENTE pra quem fala isso. A agitação mental é nociva para o ser humano. A pessoa fica presa em distrações, se preocupando com o futuro ou remoendo o passado.

É por causa disso que, hoje, os nossos grandes males são a ansiedade e a depressão. Meditar é um remédio poderoso para curar essas e outras doenças. É uma ferramenta gratuita, que está disponível para pessoas de todas as idades, de todas as classes sociais, de qualquer lugar do mundo. A meditação é universal.

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Geyze Diniz:
Já imaginou ficar 10 dias em silêncio? Meditando por 9 horas? Renata Rocha, coach de vida e propósito, passou por esta experiência e ressignificou seu olhar para o mundo e para si mesma. Conheça a história de transformação pessoal e profissional da fundadora do Positiv App, a partir da sua espiritualidade. Ouça no final do episódio as reflexões do rabino, escritor e dramaturgo Nilton Bonder para te ajudar a se conectar com a história e com você mesmo. Eu sou Geyze Diniz e esse é o Podcast Plenae. Ouça e reconecte-se.

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Renata Rocha:
Quando eu tinha 22 anos, eu fui diagnosticada com fibromialgia, uma doença autoimune que causa dores intensas no corpo todo. Os sintomas começaram no mesmo dia em que terminei um namoro com uma pessoa de quem eu gostava muito, mas com quem era impossível eu me relacionar em paz. Era uma dor que eu nunca tinha sentido na vida, num lugar que se chama fáscia, entre o osso e o músculo. Parecia uma inflamação generalizada no corpo inteirinho, que me paralisava e impedia de trabalhar.

Eu passei 2 anos tendo crises, procurando médicos e tomando remédios. Mas o tratamento era só paliativo e não resolvia direito. Quando eu não via mais saída para essa dor, pra esse sofrimento, eu comecei a tomar antidepressivo. Eu não tinha depressão, mas o remédio aumenta a quantidade de serotonina no corpo e funciona como um analgésico.

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Um dia, o meu chefe na época me convidou pra ir a um evento com música, mantras e meditação. Foi no estúdio de yoga da minha amada professora Márcia De Luca, em São Paulo. Era um programa bem inusitado pra mim, não tinha nada a ver com o meu universo na época, mas eu fui de coração aberto.
Quando eu fechei os olhos e fui conduzida na meditação, eu senti como se eu tivesse vivendo um reencontro com um lugar familiar, aconchegante dentro de mim.

Eu pensei: “UAU! Isso aqui é incrível! Como eu não conhecia isso antes?”. E
u me senti tão bem, que eu me matriculei na hora na escola e comecei a praticar meditação e yoga. Duas semanas depois… as dores da fibromialgia sumiram. Quanto mais eu meditava, menos desconforto eu sentia. Depois de algum tempo, eu não precisei mais tomar medicamento nenhum.

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Quando a gente sente uma dor, seja ela física, emocional ou mental, parece que só ela existe e que a gente não tem nenhum controle sobre aquela situação. Mas, com a meditação, eu consegui enxergar o meu próprio sofrimento à distância. Eu me vi maior que a dor e, aos poucos, eu fui me auto regulando e me curando.

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Isso já é bastante coisa, mas foi só o começo do que a meditação fez por mim.

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Meditar abriu um portal de espiritualidade na minha vida.
A conexão que eu passei a sentir com algo maior do que eu foi tão forte, que eu deixei o meu trabalho. Na época, eu era headhunter de presidentes de empresas e eu senti que aquele não era mais o meu lugar.

Eu precisava ir pro Oriente, para o Oriente que estava dentro de mim, mais pautado pelo ser, pela cultura de bem viver e de autocuidado. Eu saí da sociedade do escritório e abri mão do sucesso ou pelo menos do que eu conhecia de sucesso. E aí eu embarquei para um sabático de 1 ano e meio pela Ásia, sozinha.

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A minha viagem começou na Índia, especificamente em Rishikesh, que é a meca da meditação e do yoga no mundo. Foi pra lá que os Beatles viajaram, nos anos 60, e revelaram a meditação transcendental pro Ocidente. De Rishikesh, eu fui pra Dharamsala, também na Índia, o exílio do Dalai Lama desde que ele precisou fugir do Tibete.

Nessa cidade espetacular, rodeada pelas montanhas dos Himalaias, eu participei do meu primeiro retiro de vipassana. Na tradição budista, vipassana em pali, que é a língua de Buda, significa insight, algo que acontece quando a gente entra num estado de concentração profunda. No retiro, a gente passava 9 horas meditando por dia, durante 10 dias. Não era permitido conversar com ninguém, nem sequer olhar no olho de ninguém. Não podia ler, escrever, ouvir música, praticar algum exercício. Todos os dias, todo mundo acordava às 4 da manhã e sentava na posição de lótus às 4h30. Era um lugar de muito silêncio, exceto pelo barulhos dos corvos.

Mulheres e homens ficavam separados em alojamentos e no salão de meditação. Eu era uma das poucas estrangeiras, no meio de muitas indianas, e nos três primeiros dias, a gente recebeu a seguinte instrução: “Preste atenção no ar que entra e sai das suas narinas”. Só isso, 9 horas por dia. Eu achei que eu fosse enlouquecer, e comecei a pensar: “Esse pessoal não sabe de nada. Eu aprendi técnicas muito mais evoluídas do que essa que eles estão ensinando aqui”.

Eu quis ir embora, mas a professora do curso, que já estava acostumada com gente querendo fugir do retiro, veio conversar comigo. E muito gentilmente, ela me explicou que eu ia melhorar, que eu ia ficar mais tranquila e aproveitar aqueles dias de meditação e as práticas. Eu resolvi dar uma chance, porque eu entendi que a revolta era do meu ego, que não gosta de ser nada controlado. E aí, lá pelo sétimo dia, eu tive uma experiência que eu nunca imaginei.

Talvez você já tenha escutado ou lido alguma coisa sobre os chakras. Eles são os centros de energia do nosso corpo, que vão da base da coluna até acima da coroa da cabeça. Quem pratica yoga sempre ouve falar sobre eles. Eu já tinha ouvido falar, mas nesse retiro eu entendi exatamente como eles funcionam.

Quando eu estava em estado de concentração total, eu vi os meus sete grandes chakras em movimento. E de olhos fechados, eu vi eles girando em círculos, em altíssima velocidade, cada um com uma cor. Eles funcionavam sem parar, regulando diferentes sistemas do nosso corpo. Era algo que eu já sabia na teoria, mas nunca tinha experimentado e nunca mais experimentei. Foi impressionante.

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O budismo explica que a mente é como se fosse um lago e os pensamentos como o vento. Quando o ar sopra, ele forma ondulações na água. Assim, tudo que você vê no reflexo do lago é uma distorção. A meditação é um treino para deixar a mente cristalina, sem ondulações nem distorções. Se a gente consegue aquietar a mente, entramos em um estado de relaxamento profundo e acessamos uma frequência energética mais elevada. É um lugar tão sutil onde não há relação com tempo, espaço e nem matéria.

Eu saí desse retiro muito mexida e senti uma vontade muito grande de compartilhar a minha experiência com o maior número de pessoas. Porque o nosso coração é assim, né? Ele quer espalhar uma boa notícia. Em algum lugar do Himalaia, eu conheci um brasileiro chamado João, um cara que eu considero genial e que entende muito de tecnologia.

Ele se tornou um grande amigo e, juntos, a gente pensou em criar um aplicativo de meditação. O João trouxe outro sócio, o Helder, que manja muito de inteligência artificial e design. E assim nasceu o Positive App, que é um aplicativo que hoje tem mais de mil meditações, com vários objetivos. Tem práticas pra dormir, pra focar, pra relaxar, pra quem tá tendo um ataque de pânico e precisa se acalmar na hora.

Tem ainda cursos de autoconhecimento e autodesenvolvimento. É um aplicativo brasileiro, em português, com profissionais seríssimos que fazem um trabalho consistente. O app veio da vontade de fazer do mundo um lugar mais positivo e por isso o nome da Positiv. A nossa ideia é deixar o nosso entorno melhor do que a gente encontrou.

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Já tem 12 anos que eu fiz aquele sabático. Eu parei aqueles meses pra me dedicar só a mim, ao meu estudo e à minha relação com a espiritualidade. Eu estava com 28 anos na época e pensava: “Nossa! Se todo mundo tivesse a oportunidade de se dedicar ao espírito em uma parte da vida, o planeta certamente seria melhor”. Na tradição dos Vedas, que deu origem ao hinduísmo, as pessoas se devotam ao espírito no quarto final da vida, depois dos 60 anos. Na verdade, eu acho que quanto antes a gente puder descobrir esse caminho, melhor será a nossa existência. Ter a percepção de que o mundo espiritual está aqui, em todos os lugares, é algo maravilhoso.

Falando dessa maneira, pode parecer até algo enigmático, esotérico. Mas não é bem assim. Os benefícios da meditação já foram super validados pela ciência. E a prática é tão ancestral, quanto moderna, e é o grande remédio do século 21. Isso eu escutei do Jon Kabat Zinn, que é professor na escola de medicina da Universidade de Massachusetts.

Foi ele que levou o mindfulness
pro ambiente acadêmico e popularizou essa técnica no Ocidente. Em 2014 eu organizei uma viagem para um grupo de brasileiros e tive a graça de passar um dia inteiro com ele. E nesse dia, ele pegou o ideograma chinês de “meditation” e mostrou: as palavras “meditação” e “medicação” têm a mesma raiz etimológica.

Esse cara criou na universidade um programa para redução de dor, que depois virou um programa para redução de estresse. O curso dele dura 8 semanas e é muito disseminado no mundo. Ele fala: se você praticar meditação, você vai melhorar. E não é que você vai ganhar um poder super místico. Não. Você vai treinar a sua mente e, a partir desse treinamento, a sua cabeça vai funcionar de uma forma diferente pra lidar com o estresse, com a depressão, com a ansiedade. E ou você vai se curar de uma dor, porque você vai conhecer ela melhor, e vai ter ferramentas que podem funcionar como um remédio para aquele sofrimento.

É como um tratamento alopático mesmo. Se você precisa tomar um remédio por 8 semanas, você tem pelo menos uma expectativa de falar: “Na segunda semana, eu vou estar melhor. Na sexta, eu vou estar MUITO melhor. Na oitava então, eu vou me livrar  desse medicamento”. O Jon Kabat Zinn propõe algo assim com a meditação. Hoje, médicos do mundo todo já estão prescrevendo a prática de mindfulness, banhos de floresta e exercícios de respiração.
Não é uma questão de fé. Simplesmente funciona, porque de fato a gente se conecta com quem a gente é de verdade.

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Eu sou a prova viva disso. A fibromialgia é incurável. Ela já voltou pra minha vida algumas vezes, em momentos de estresse. Mas hoje eu conheço a dor e a minha mente. Eu não preciso mais de remédio para amenizar o meu incômodo que a doença traz. Quando a dor começa a chegar, eu sei que preciso retomar as práticas de uma forma mais firme e consistente. E nesse quesito, eu desenvolvi a minha médica interior e ganhei muita autonomia. Eu conheci a meditação pela dor, mas fiquei nela, com certeza, por amor.

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Nilton Bonder:
Renata nos traz o seu testemunho sobre a meditação como um recurso de cura. Porém, ao mencionar que a meditação é o remédio do século XXI, diagnostica também a doença do século XXI. Essa doença é a autoconsciência, um excesso ou overdose da consciência. Se o pensamento é um vento, os pensamentos do século XXI são uma tempestade, uma enxurrada de impulsos externos e internos.

Talvez haja uma crise climática interna como existe externamente. E se a meditação é reconhecida como eficaz pela medicina, o estresse é ainda mais comprovado como danoso à saúde. O estresse não é um estado de atenção, mas de alerta. É uma neurose de consciência, não uma reação de exagero à uma experiência, mas a reação em exagero de experiências. 

Tenho certeza de que a meditação é um santo remédio. Ela faz você prestar atenção ao respirar, ao invés de ficar alerta. Traz calmaria aos pensamentos e faz você se sentir sendo, ao invés de se possuir e controlar. Mas cá pra nós, é melhor prevenir do que remediar, então pode ser no Himalaia, mas ar fresco e cuca fresca é a “véia” dica do matuto para uma vida mais harmônica.

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Geyze Diniz:
Nossas histórias não acabam por aqui. Confira mais dos nossos conteúdos em plenae.com e em nosso perfil no Instagram @portalplenae.

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Para Inspirar

Luciana e Marcella Tranchesi em "A espiritualidade é qualquer caminho que te aproxima de Deus"

O terceiro episódio da décima quinta temporada do Podcast Plenae é das influenciadoras digitais Luciana e Marcella Tranchesi, representando o pilar Espírito

14 de Abril de 2024



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Marcella: Quando você é criança, você segue rituais religiosos porque te ensinaram a fazer aquilo. Depois que você cresce, incorpora ou não aquilo que faz sentido para você. O meu amadurecimento aconteceu junto com a doença da minha mãe. No meu momento de maior fragilidade, fui entendendo o que é a espiritualidade.

Luciana: Eu lembro que eu pedia muito, muito pra Deus me tirar tudo e devolver a minha mãe. Eu tinha 22 anos, eu sabia que isso não era possível, mas eu pedia como se fosse. Eu me imaginava morando na rua, mas com a minha mãe ao meu lado.

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Geyze Diniz: As irmãs Luciana e Marcella Tranchesi sempre foram muito unidas. Entre os muitos assuntos em comum, a fé também é um deles. A dupla foi criada em um ambiente católico e aprendeu desde cedo com a sua mãe, Eliana, que a espiritualidade tem que estar nas ações e não só nos pensamentos. Eu sou Geyze Diniz e esse é o podcast Plenae. Ouça e reconecte-se.

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Luciana: A espiritualidade pautou a minha vida desde o minuto em que eu nasci. Eu venho de uma família muito católica. A minha avó materna, Lúcia, era uma mulher de tanta fé, que ela quase não se casou pra ser freira. Ela só mudou de ideia porque foi convencida pelo meu avô, o Carlão, de que ela poderia continuar fazendo o bem e ensinando sobre Deus, mesmo sendo casada.

Eles tiveram 6 filhos: 5 homens e a minha mãe, Eliana. Todos sempre foram super espiritualizados. A minha mãe teve três filhos. Eu, Luciana, sou a do meio. Quando eu tinha nove meses, eu me afoguei na banheira da casa onde a gente morava. Eu entrei em coma por 5 horas, mas eu saí do coma sem nenhuma sequela. A minha tia foi me visitar no hospital e viu a imagem de Nossa Senhora. Minha mãe, super devota de Nossa Senhora das Graças, ficou ainda mais religiosa.

Marcella: A nossa família é muito unida. A gente vivia com os nossos tios e primos. Em qualquer celebração, tipo o aniversário de alguém, tinha uma missa ou uma benção pra agradecer a saúde, a família e mais um ano de vida. A gente se juntava também nos cenáculos, que são como uns grupos para rezar o terço de uma maneira mais completa. Nas férias do meio do ano, eu viajava com as minhas primas e minhas tias pra ficar uns 15 dias num convento, em Jauru, uma cidadezinha no interior do Mato Grosso.

A mamãe ensinou a gente a rezar. Todo santo dia a gente rezava com ela. Domingo era dia de missa, onde quer que estivéssemos. É engraçado que, quando a gente conversa com pessoas que não cresceram numa família religiosa, elas se lembram da primeira vez que elas participaram de algum ritual, tipo uma missa. Eu não tenho essa lembrança, assim como eu não lembro a primeira vez que eu pulei numa piscina. A fé foi crescendo com a gente de uma forma muito normal. Não era um grande acontecimento, era só parte da nossa rotina.

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Luciana: Na minha opinião, religião e espiritualidade são duas coisas um pouco diferentes, que não necessariamente andam juntas. Eu cresci religiosa, mas a minha noção de espiritualidade mesmo veio quando a minha mãe foi diagnosticada com câncer. Eu tinha 15 anos. E ela só tinha 50.

Eu me lembro de procurar, mais do que a religião, a espiritualidade em todas as religiões. Eu queria achar uma explicação pro que estava acontecendo. Essa busca foi também uma influência da minha mãe. Ela, apesar de sempre ter sido super católica, buscava acima de tudo a espiritualidade e a devoção incondicional a Deus.

Marcella: O meu amadurecimento aconteceu simultaneamente com a doença da mamãe. Eu sou um pouco mais nova que a Lu, tinha 13 anos na época e, claro, menos entendimento da real situação. Mas como o tratamento foi um processo longo, a gente cresceu na fé e na espiritualidade. Quando as coisas saem do nosso controle, a gente percebe que talvez não faça sentido se prender a conceitos tão racionais.

A mamãe sabia que ia morrer. Lógico, todo mundo sabe disso, mas ela sabia com uma precisão maior. Então, ela foi preparando a gente pra esse momento, espiritualmente falando. A minha mãe expandiu pra gente o conceito de religião. Ela mostrou que a espiritualidade tem que tá nas nossas ações, não só no nosso pensamento. É fazer o bem, é ser grato, é olhar no olho, é ser educado, é doar o seu tempo, o seu dinheiro e o seu carinho pra quem precisa.

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Luciana: O tratamento da mamãe durou 6 anos.

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Logo que ela morreu, eu tive uma depressão durante um ano e meio, dois. Eu só queria ficar deitada, fugindo de tudo que estava acontecendo, fugindo do tempo que parecia ser meu maior inimigo. Quanto mais ele passava, mais distante a lembrança, o cheiro e o toque da minha mãe ficavam.

Eu lembro que eu perguntei pro meu irmão: “Quanto tempo eu posso ficar aqui na cama?”. Ele falou: “Um mês”. Eu achei que seria suficiente mas eu passei muito mais tempo assim. Eu dormia o dia inteiro, que é um sintoma clássico de depressão, e eu comia muito. Eu não tinha energia pra nada. Até tomar banho era difícil. Eu não perdi a fé em Deus. Pelo contrário. Eu botei tanta fé Nele, que eu pedia algo impossível. Sem Ele teria sido muito mais difícil. Eu estava num fundo do poço tão grande e Ele era meu maior aliado, nunca deixei de rezar, de agradecer e de pedir força.

Marcella: Um ano antes da mamãe falecer, eu quase fui morar fora do Brasil. Não deu certo. Na época eu não entendi muito bem, mas foi a melhor coisa que aconteceu, porque senão eu teria passado os últimos oito meses de vida da minha mãe longe dela. Fiquei no Brasil e passei no vestibular. A mamãe morreu numa sexta-feira, 24 de fevereiro, numa emenda de Carnaval.

As aulas voltaram na segunda. Eu não tinha a menor vontade de ir, mas eu pensei: “Se eu me permitir folgar uma semana, eu já vou me permitir o primeiro mês. Se eu perder o primeiro mês, eu vou perder o primeiro semestre”. Ninguém falou nada, mas eu senti que a minha mãe gostaria que eu assumisse aquela responsabilidade. Eu faltei na segunda, mas na terça-feira eu fui pra faculdade. Foi um semestre insuportável. Como as aulas tinham acabado de começar, eu não conhecia ninguém.

A morte da mamãe repercutiu na mídia. Ela era uma empresária famosa, dona de uma butique também famosa, a Daslu, que ela herdou da mãe dela. Só que na minha classe ninguém sabia que eu era filha daquela mulher que apareceu no Fantástico. Eu não tinha com quem conversar, exceto a irmã do meu namorado na época que estudava em outra sala, e uma amiga do cursinho. Eu já tinha uma ideia de que eu não podia chegar pra pessoas de 18 anos e jogar no colo delas: “Oi! Minha mãe morreu tem três dias”.

Então, eu fiquei muda e fui sobrevivendo. Eu ia todo dia pra faculdade e assistia às aulas. E aí reparei que os professores iam lendo meu nome na chamada e percebendo quem era a minha mãe. Eu ia chorar no banheiro e fingia um resquício de vida normal que eu ainda tinha, pelo menos na parte da manhã, porque o resto do dia eu passava na frente da TV.

Fui me arrastando, fingindo que estava tudo bem e meio que engolindo aquele luto. Eu cheguei no final do semestre esgotadíssima de encenar aquele teatro que eu mesma criei. E aí a Dani, nossa querida madrasta, me levou no psiquiatra, e eu comecei a melhorar. Não foi a melhor forma de lidar com o luto, mas foi a que eu consegui pra não perder a faculdade.

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Luciana: A minha depressão estava se arrastando, mas a minha sorte é que eu tinha uma família, que sempre foi o alicerce da minha vida. Eu tinha meus dois irmãos, eu tinha meu pai e eu tinha minha madrasta. Eu e meus irmãos continuamos morando na casa da mamãe por uns seis, sete, oito meses, só nós três. Até que um dia meu pai falou: “Não, vocês precisam vir morar comigo”.

Foi nessa época que eu comecei a ir ao médico. A minha madrasta que marcava a consulta e me levava pela mão. Eu estava no fundo do poço, mas eu queria continuar ali. Eu não queria ir no médico. Eu não queria tomar remédio. Eu fingia que tomava o remédio e parava de tomar por minha conta. Eu dei muito trabalho pra minha família durante quase dois anos, entre altos e baixos que foram ficando cada vez menos extremos, até que eu engravidei. E aí, a minha vida voltou a ter sentido.

Ficar grávida do Antonio foi o que me deu razão pra viver. Ele foi uma virada de chave na minha vida, uma conexão espiritual muito grande, porque eu tenho certeza absoluta que a minha mãe e Deus me enviaram ele. Quando o Antonio tinha 2 anos, ele falou que ele tinha visto a vovó Eliana. Eu falei: “Filho, que legal! Foi um sonho?” Ele: “Não, mamãe, antes de vir para cá, pra esse mundo”. Esse é só um exemplo, mas tiveram vários episódios assim. Ele fala de uma conexão com ela, ele tem saudade dela, chora por ela.

Ele sempre se interessou muito pela minha mãe, perguntou muito por ela. Não acho que foi uma influência minha porque, inclusive quando ele era menor, eu nem trazia tanto a memória dela com receio de não conseguir segurar a emoção. Eu mal conseguia falar dela sem chorar. Na verdade, eu fui me acostumando a falar sobre luto pra conseguir suprir essa demanda do Antonio de querer saber tudo sobre ela.

Por isso que eu acredito muito que a alma dele foi escolhida e me foi enviada por Deus e pela minha mãe. O Antonio não é um simples acaso na minha vida. O Antonio pra mim é o meu propósito de vida.

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Marcella: Depois da morte da mamãe, não demorou muito pra gente retomar os rituais católicos. Eu levo muito a espiritualidade pro lado de fazer o bem, de ajudar o próximo, de buscar ser uma pessoa melhor, de não julgar o outro. Procuro também entender as mensagens bíblicas não necessariamente de maneira literal. Por exemplo, a gente ouvi muito que o mandamento mais fácil de seguir é “não matar”. Mas ele não diz respeito somente à morte física. É também não matar a reputação, a esperança de alguém.

Quando falamos da promessa de casamento de ser pra sempre, nossa mãe saiu das quatro linhas. Ela se separou do meu pai, mas eles continuaram amigos até a morte dela. Pra uma pessoa muito caxias, ela tava errada. Mas quando você olha sob a ótica da espiritualidade, que é de fazer o bem pro próximo, ela tirou de letra. Se o que uma pessoa faz é pecado ou não, não é um problema nosso. Cada um carrega Deus dentro de si. Mesmo com o julgamento alheio, eu me mantenho fiel à minha espiritualidade e à minha fé.

Luciana: Amai ao próximo como a ti mesmo é uma lição linda de amor e também de tolerância. Ela fala sobre amar o outro de maneira inteira, sobre ter compaixão e empatia pelo outro. Independente se a maneira do outro pecar é diferente da sua. E essa lição sempre foi muito falada e praticada durante a nossa infância. Eu cresci ouvindo que precisamos amar as pessoas independente das suas escolhas, religião, semelhanças ou diferenças. O amor e o respeito ao próximo pautaram nossa vida e estão presentes até hoje.

Procuro não julgar escolhas diferentes das minhas ou apontar os pecados dos outros. Eu seria incapaz de tirar uma pessoa da fila de comunhão apontando seus pecados, como uma vez aconteceu com a minha mãe por ter se divorciado e depois também comigo. Hoje eu entendo que cada um lida com as regras da Igreja de uma maneira, mas que nada pode me afastar de Deus. Somos todos humanos, da mesma maneira que eu tenho meus pecados e converso com Deus sobre eles, o outro também peca mas talvez de um maneira só diferente.

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Marcella: Eu me casei, formei um novo núcleo familiar e o meu marido passou a gostar de frequentar a missa. Era uma coisa que não fazia parte da vida dele. Diferente da gente que cresceu nesse ambiente religioso e como adulta escolhe ir à missa, ele nunca teve esse hábito. Mas isso passou a fazer sentido pra ele. Para mim foi muito bom, porque eu ganhei mais uma companhia. Eu faço as rezas católicas e me interesso por todos os credos. Eu sempre vou estar aberta a conversar com um sacerdote de outra religião. Sempre vou estar aberta a ouvir uma história de fé.

Luciana: Meu marido também aprendeu a gostar de missa, igual o marido da Ma. Ele não tinha essa rotina na família dele, e aí é um pouquinho mais desafiador. Mas eu jamais falaria: “Temos que ir na missa todo domingo”. Eu fui indo. Ele foi indo quando ele sentia que estava a fim. E eu acho que, por ser tão natural, ele começou a ir com prazer.

Aí ele começou a perceber todas as vezes que ele estava lá o quão bem fazia, ele se via inspirado pela fala do Padre, pelas passagens da Bíblia. São reflexões trazidas para a vida cotidiana que nos nutrem muito. A reza coletiva tem uma energia mais forte e eu percebi que meu marido também sente isso. Hoje em dia, muitos domingos a iniciativa de ir à missa parte dele.

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Todos os dias eu rezo com o Antonio. E além disso, a nossa família tem algumas fases de práticas mais intensas, de fazer novenas, que são coisas muito presentes na fé católica. Eu acredito que espiritualidade é, junto com a família, a coisa mais importante das nossas vidas.

Esses dois pilares são os guias que movem a gente, que guiam a nossa vida. A religião pautou a nossa infância e hoje, ela pauta a nossa vida adulta, porque a gente escolheu assim. Mas a espiritualidade é muito maior do que uma regra, um dogma. A espiritualidade é qualquer caminho que te aproxima de Deus.

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Geyze Diniz: Nossas histórias não acabam por aqui. Confira mais dos nossos conteúdos em plenae.com e em nosso perfil no Instagram @portalplenae.

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