Para Inspirar

Pedro Pacífico em “Os livros me ajudaram a ser quem eu sou”

O primeiro episódio da décima quinta temporada do Podcast Plenae é do influenciador digital Pedro Pacífico, representando o pilar Mente!

31 de Março de 2024



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Pedro Pacífico: É difícil explicar a sensação de controle constante pra quem nunca precisou esconder algo de alguém. Quando eu era adolescente, eu não compreendia direito o que eu sentia. Ainda assim, eu achava que eu não podia me comportar de alguma maneira que desse margem pra qualquer comentário que questionasse a minha sexualidade. Nessa tentativa, até o hábito da leitura foi prejudicado. Eu queria fazer parte do grupo de meninos populares da escola, que falavam de garotas, iam pra festas e não se interessavam tanto pelos estudos. A leitura, portanto, não fazia parte dessa cartilha.

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 Geyze Diniz: Pedro Pacífico, mais conhecido como Bookster, perfil que dá dicas de leitura nas redes sociais, nem sempre teve essa relação próxima com a literatura. Mas em um momento crucial de identidade própria foram os livros que não só fizeram companhia para ele como o ajudaram a se aceitar, enxergar novas possibilidades e valorizar outras perspectivas. Eu sou Geyze Diniz e esse é o Podcast Plenae. Ouça e reconecte-se.

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Pedro Pacífico: Eu estudei numa escola alemã tradicional de São Paulo a vida toda. Era um colégio bem conservador, cheio de regras. Até a quarta série, todo mundo precisava usar meia e tênis brancos. Quando a diretora entrava na sala, os alunos tinham que se levantar e falar em voz alta: “Bom dia, Dona Fulana”. Eu sei que normas no ambiente escolar são importantes. Mas acho que a minha escola era rígida demais.

Eu não aprendi o valor da diversidade no colégio e acabei concluindo que ser diferente não era legal. Quando eu era criança, quase não se falava de bullying. Era comum ver os estudantes sendo insultados. Quem de alguma forma saísse do padrão esperado, pelo motivo que fosse, podia ser vítima de ofensas. Se eu escapei de um bullying intenso, foi porque eu vigiei o meu comportamento o tempo inteiro. Era um constante estado de alerta.

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 Desde pequeno, eu também fui percebendo que eu gostava de algumas coisas que fugiam do padrão da imagem do menino arteiro. As aulas de educação física, por exemplo, eram uma tortura pra mim. A partir de uma certa idade, meninas e meninos eram separados, e os meninos jogavam futebol. Toda aula eu inventava uma desculpa pra escapar.

A pressão não vinha só das crianças, mas dos adultos também. Meu pai é apaixonado por futebol e me levava ao estádio pra ver os jogos com ele. E eu só torcia pro jogo terminar logo. Pode parecer exagero, mas quando você tá numa situação de vulnerabilidade e não tem maturidade pra impor seus interesses, pequenos gatilhos causam muito sofrimento no dia a dia.

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Na pré-adolescência, eu fui ficando cada vez mais consciente de que a sensação que eu tinha de ser diferente estava ligada à minha sexualidade. A partir daí, esse estado de alerta passou a dominar a minha vida, como se eu guardasse um segredo muito valioso e que a qualquer momento pudesse ser descoberto. Mesmo com todo meu esforço pra tentar controlar o que os outros pensavam sobre mim, um dia cheguei na escola e li a palavra “gay” escrita em letras grandes no meu armário.

Eu comecei a reprimir os meus gostos, pra me encaixar nos padrões sociais. Com o tempo, eu já nem sabia o que era a minha personalidade e o que era uma imagem construída pra me camuflar na multidão. Até hoje, mesmo depois de me aceitar plenamente como eu sou, ainda tenho essa dificuldade.

 Quando chegou na fase pré-vestibular, eu senti uma ansiedade muito grande e acabei buscando ajuda de um psiquiatra e de um psicólogo. Como eu não admitia nem pra mim mesmo a possibilidade de ser gay, eu obviamente nem falei isso com o terapeuta. Coloquei a culpa da minha ansiedade na escolha da minha profissão.

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Acabei entrando no curso de direito da USP. E a transição de uma escola particular conservadora pra uma universidade pública que estimula o pensamento diverso foi fundamental pra esse meu amadurecimento. O convívio com estudantes de várias partes do Brasil começou a abrir a minha cabeça, mas ainda tinha um longo caminho a percorrer.

 Numa das primeiras festas da faculdade, eu vi um casal gay se beijando e reagi àquela cena com muito preconceito. “Nossa! Não tenho nada contra isso, mas precisa fazer isso na frente de todo mundo?”. Hoje eu sei que eu estava reproduzindo falas que eu ouvi a vida inteira, pela necessidade de mostrar que eu não era gay.

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Durante a faculdade, eu fiz um intercâmbio em Paris, na França. E mesmo morando sozinho em uma cidade onde ninguém me conhecia, eu não me sentia livre pra descobrir e experimentar a minha sexualidade. No fundo, eu sabia que provavelmente era gay, mas não me permitia pensar sobre isso. Então, eu me reprimia e tentava mudar de qualquer jeito.

E quando eu pensava no meu futuro, eu me imaginava casado com uma mulher e com filhos. Um dia, numa viagem pra Itália, eu senti um enjoo muito forte e tomei um remédio pra náusea. Sem motivo aparente, comecei a sentir uma ansiedade muito, muito grande, que eu nunca tinha sentido antes. O mal-estar aumentou, e eu tomei mais um comprimido pro enjoo. Na sequência, tomei o terceiro.

 Mas as sensações foram piorando. E eu perdi o controle do meu corpo, tive uma crise de choro que não parava. Liguei pra minha mãe, desesperado, e ela disse que aquela reação podia ser um efeito colateral do remédio. E foi o que de fato aconteceu: entrei na porcentagem dos raros pacientes que podem ter um efeito bem agressivo por conta de um simples remédio de enjoo.

Os sintomas agudos diminuíram depois de dois dias, mas o episódio desencadeou crises que me acompanharam por muito tempo. E eu logo voltei pro Brasil. A ideia de retomar a vida normal me dava ansiedade e medo de ter uma nova crise. Então, eu passei por uma fase de recolhimento interior, ainda que tentasse forçar uma vida normal. Foram meses pra conseguir encontrar uma medicação que conseguisse controlar essas minhas crises.

Os livros entraram com mais força justamente nessa época da minha vida, já que eles me davam uma sensação de acolhimento, de segurança. Num primeiro momento, eu não sabia o que eu gostava tanto de ler. Eu estava totalmente perdido no que ler. Até porque eu não nasci numa família de pessoas apaixonadas pela leitura, exceto pelas minhas duas avós.

Minhas irmãs não tinham o hábito de ler, nem os meus pais. Então, nessa época, eu fui procurar dicas de leitura nas redes sociais. Num primeiro momento, eu busquei livros de não ficção e de autoajuda que pudessem me ajudar a superar esses meus medos. As redes sociais acabaram sendo um guia pra me apresentar coisas diferentes, pra me encorajar a ler obras que eu achava que iam ser chatas ou difíceis. E assim eu fui me apaixonando cada vez mais pela literatura.

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 Os livros foram grandes companheiros e uma importante ferramenta pra melhorar a minha saúde mental. Eu nunca estava sozinho com um livro nas mãos. [trilha sonora] A leitura também significava um momento de relaxamento, como uma meditação. Enquanto eu lia, conseguia focar na narrativa e esquecer um pouco os pensamentos que perturbavam a minha mente.

Antes de mergulhar na literatura, eu achava que ninguém ia entender aquele aperto que eu sentia no peito. E quando eu me deparei com personagens que descreviam as mesmas dores e angústias, entendi que eu não era o único a sofrer daquele jeito. E aos poucos, eu comecei a entender um pouquinho mais sobre a riqueza da literatura. E foi aí que eu pensei: “Por que que as pessoas não tão falando tanto disso como deveriam? Eu preciso mostrar como a leitura tá fazendo bem para mim”.

Com o incentivo da minha namorada na época, já que ainda tinha relacionamentos com mulheres, eu criei o Bookster, um perfil no Instagram dedicado à literatura. Como naquela fase eu ainda não me aceitava como eu sou, eu criei o perfil de maneira anônima. Afinal, pra quem tinha um segredo a esconder, eu não queria me expor de forma alguma.

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O Bookster foi crescendo e, aos poucos, eu relaxei. Comecei a mostrar meu rosto nos stories, até que um dos meus amigos descobriu essa minha identidade secreta. E aí acabei contando pra todo mundo sobre esse meu perfil anônimo no Instagram. Recebi vários elogios e senti a segurança pra compartilhar com todo mundo esse meu espaço dedicado à literatura.

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 Depois de quase quatro anos, o meu namoro acabou. Ficar solteiro era um gatilho pra um velho stress. Eu teria que sair com mulheres e performar a masculinidade esperada de um homem heterossexual. Com os remédios pra ansiedade, viver dentro do armário era menos angustiante, mas ainda assim um fardo. Um dia, no final de 2019, eu estava no carro, sozinho voltando do escritório, e tentei falar em voz alta: “Eu sou gay”. Parece simples, mas eu não consegui. A voz não saía.

 Depois de alguns meses, comecei a considerar a possibilidade de sair com um homem. Entrei num aplicativo de relacionamento para homens gays e criei um perfil sem foto. Cada passo era uma luta interna enorme, principalmente pelo medo de ser descoberto. Em pouco tempo, eu conheci meu primeiro namorado e descobri uma paixão diferente, mais intensa.

Aos 27 anos, conheci a sensação que a maioria dos adolescentes conhece ainda na escola, de perder esse controle. A paixão me deu a força pra minha autoaceitação. Quando eu aceitei como sou, falei pra mim mesmo: “Agora chega de perder tempo e viver pelos outros”.

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 Não demorou muito e eu contei pra minha mãe que era gay. Nós dois choramos de emoção e ela me agradeceu por compartilhar esse segredo com ela. Eu senti que, pela primeira vez, estava vivendo por inteiro. Depois, contei pro meu pai, pro resto da família, pros amigos e pra minha ex-namorada. Todo mundo ficou do meu lado.

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 No fundo, eu sabia que a reação da minha família não seria ruim. O que eu mais tinha medo era do resto da sociedade: dos amigos, do pessoal do trabalho. E como eu cresci achando que o diferente era ruim, eu achava que a minha orientação sexual me definia por completo. Hoje, pra mim, ser gay é algo muito menor do que antes. É só uma parte de quem eu sou.

O próximo passo era contar a novidade também pros seguidores do Bookster. Tem gente que acha que assuntos íntimos não precisam ser divulgados na internet. Eu discordo. A minha família me aceitou como eu sou e eu tenho a minha independência financeira. Todos os meus privilégios me permitiram sair do armário de uma maneira muito positiva. Então, eu tento usar esses privilégios pra ajudar outras pessoas.

Muitos jovens da comunidade LGBTQIA+ têm famílias preconceituosas, extremamente religiosas e conservadoras. Eles dependem financeiramente dos pais e são expulsos de casa se falarem a verdade e foi justamente por essas pessoas que eu resolvi contar sobre a minha história. Eu postei um vídeo expondo a minha orientação sexual e perdi mais de 5 mil seguidores em um dia só.

Talvez essas pessoas lidem mal com a própria sexualidade, eu não sei..., mas isso foi só um detalhe. Eu recebi e continuo recebendo milhares de relatos maravilhosos e de mensagens de agradecimento. Eu também compartilhei a minha história em um TEDx e em um livro que eu publiquei. Dediquei o livro ao meu padrinho, um homem gay que hoje tem 94 anos.

A sexualidade dele era um tabu imenso na família. Ninguém falava sobre isso, a começar por ele mesmo. O meu padrinho precisou de 93 anos pra conseguir se aceitar. Hoje em dia, ele me liga toda semana pra falar que me ama e o quanto o meu livro mudou a vida dele.

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 Se há 10 anos uma vidente virasse e falasse pra mim: “Quando você tiver 31 anos, você vai tá namorando um homem, vai ser influenciador digital de literatura, vai ter feito um TEDx falando sobre sua sexualidade, vai ter escrito um livro autobiográfico e vai ter dedicado esse livro pro seu padrinho”, eu diria: “Você só pode tá confundindo a pessoa”.

Desde que publique meu livro em agosto de 2023, o “Trinta segundos sem pensar no medo”, eu recebo diariamente mensagens lindas de pessoas que se identificam com a minha história. Elas dizem: “Parece que você tá escrevendo sobre a minha vida; parece que você tá lendo o que se passa na minha cabeça”.

 E é maravilhoso poder ajudar os outros a enfrentarem seus medos, a terem orgulho das diferenças, a entenderem que os livros são uma companhia pras suas dores. É muito reconfortante a sensação de que a gente não tá sozinho. Na literatura, eu encontrei a sensação de acolhimento e de pertencimento. Os livros me ajudaram a assumir o meu verdadeiro eu e me mostraram um caminho de orgulho.

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Geyze Diniz: Nossas histórias não acabam por aqui. Confira mais dos nossos conteúdos em plenae.com e em nosso perfil no Instagram @portalplenae.

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Para Inspirar

Renata Rocha em “Conheci a meditação pela dor, mas fiquei por amor”

A oitava temporada do Podcast Plenae está no ar! Confira a história da coach de vida e propósito Renata Rocha. Aperte o play e inspire-se!

19 de Junho de 2022


Leia a transcrição completa do episódio abaixo:


Renata Rocha - Muitas pessoas dizem assim: “Meditação não é pra mim, porque eu penso demais, eu sou muito ansiosa”. Pois eu garanto que a meditação é EXATAMENTE pra quem fala isso. A agitação mental é nociva para o ser humano. A pessoa fica presa em distrações, se preocupando com o futuro ou remoendo o passado.

É por causa disso que, hoje, os nossos grandes males são a ansiedade e a depressão. Meditar é um remédio poderoso para curar essas e outras doenças. É uma ferramenta gratuita, que está disponível para pessoas de todas as idades, de todas as classes sociais, de qualquer lugar do mundo. A meditação é universal.

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Geyze Diniz:
Já imaginou ficar 10 dias em silêncio? Meditando por 9 horas? Renata Rocha, coach de vida e propósito, passou por esta experiência e ressignificou seu olhar para o mundo e para si mesma. Conheça a história de transformação pessoal e profissional da fundadora do Positiv App, a partir da sua espiritualidade. Ouça no final do episódio as reflexões do rabino, escritor e dramaturgo Nilton Bonder para te ajudar a se conectar com a história e com você mesmo. Eu sou Geyze Diniz e esse é o Podcast Plenae. Ouça e reconecte-se.

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Renata Rocha:
Quando eu tinha 22 anos, eu fui diagnosticada com fibromialgia, uma doença autoimune que causa dores intensas no corpo todo. Os sintomas começaram no mesmo dia em que terminei um namoro com uma pessoa de quem eu gostava muito, mas com quem era impossível eu me relacionar em paz. Era uma dor que eu nunca tinha sentido na vida, num lugar que se chama fáscia, entre o osso e o músculo. Parecia uma inflamação generalizada no corpo inteirinho, que me paralisava e impedia de trabalhar.

Eu passei 2 anos tendo crises, procurando médicos e tomando remédios. Mas o tratamento era só paliativo e não resolvia direito. Quando eu não via mais saída para essa dor, pra esse sofrimento, eu comecei a tomar antidepressivo. Eu não tinha depressão, mas o remédio aumenta a quantidade de serotonina no corpo e funciona como um analgésico.

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Um dia, o meu chefe na época me convidou pra ir a um evento com música, mantras e meditação. Foi no estúdio de yoga da minha amada professora Márcia De Luca, em São Paulo. Era um programa bem inusitado pra mim, não tinha nada a ver com o meu universo na época, mas eu fui de coração aberto.
Quando eu fechei os olhos e fui conduzida na meditação, eu senti como se eu tivesse vivendo um reencontro com um lugar familiar, aconchegante dentro de mim.

Eu pensei: “UAU! Isso aqui é incrível! Como eu não conhecia isso antes?”. E
u me senti tão bem, que eu me matriculei na hora na escola e comecei a praticar meditação e yoga. Duas semanas depois… as dores da fibromialgia sumiram. Quanto mais eu meditava, menos desconforto eu sentia. Depois de algum tempo, eu não precisei mais tomar medicamento nenhum.

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Quando a gente sente uma dor, seja ela física, emocional ou mental, parece que só ela existe e que a gente não tem nenhum controle sobre aquela situação. Mas, com a meditação, eu consegui enxergar o meu próprio sofrimento à distância. Eu me vi maior que a dor e, aos poucos, eu fui me auto regulando e me curando.

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Isso já é bastante coisa, mas foi só o começo do que a meditação fez por mim.

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Meditar abriu um portal de espiritualidade na minha vida.
A conexão que eu passei a sentir com algo maior do que eu foi tão forte, que eu deixei o meu trabalho. Na época, eu era headhunter de presidentes de empresas e eu senti que aquele não era mais o meu lugar.

Eu precisava ir pro Oriente, para o Oriente que estava dentro de mim, mais pautado pelo ser, pela cultura de bem viver e de autocuidado. Eu saí da sociedade do escritório e abri mão do sucesso ou pelo menos do que eu conhecia de sucesso. E aí eu embarquei para um sabático de 1 ano e meio pela Ásia, sozinha.

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A minha viagem começou na Índia, especificamente em Rishikesh, que é a meca da meditação e do yoga no mundo. Foi pra lá que os Beatles viajaram, nos anos 60, e revelaram a meditação transcendental pro Ocidente. De Rishikesh, eu fui pra Dharamsala, também na Índia, o exílio do Dalai Lama desde que ele precisou fugir do Tibete.

Nessa cidade espetacular, rodeada pelas montanhas dos Himalaias, eu participei do meu primeiro retiro de vipassana. Na tradição budista, vipassana em pali, que é a língua de Buda, significa insight, algo que acontece quando a gente entra num estado de concentração profunda. No retiro, a gente passava 9 horas meditando por dia, durante 10 dias. Não era permitido conversar com ninguém, nem sequer olhar no olho de ninguém. Não podia ler, escrever, ouvir música, praticar algum exercício. Todos os dias, todo mundo acordava às 4 da manhã e sentava na posição de lótus às 4h30. Era um lugar de muito silêncio, exceto pelo barulhos dos corvos.

Mulheres e homens ficavam separados em alojamentos e no salão de meditação. Eu era uma das poucas estrangeiras, no meio de muitas indianas, e nos três primeiros dias, a gente recebeu a seguinte instrução: “Preste atenção no ar que entra e sai das suas narinas”. Só isso, 9 horas por dia. Eu achei que eu fosse enlouquecer, e comecei a pensar: “Esse pessoal não sabe de nada. Eu aprendi técnicas muito mais evoluídas do que essa que eles estão ensinando aqui”.

Eu quis ir embora, mas a professora do curso, que já estava acostumada com gente querendo fugir do retiro, veio conversar comigo. E muito gentilmente, ela me explicou que eu ia melhorar, que eu ia ficar mais tranquila e aproveitar aqueles dias de meditação e as práticas. Eu resolvi dar uma chance, porque eu entendi que a revolta era do meu ego, que não gosta de ser nada controlado. E aí, lá pelo sétimo dia, eu tive uma experiência que eu nunca imaginei.

Talvez você já tenha escutado ou lido alguma coisa sobre os chakras. Eles são os centros de energia do nosso corpo, que vão da base da coluna até acima da coroa da cabeça. Quem pratica yoga sempre ouve falar sobre eles. Eu já tinha ouvido falar, mas nesse retiro eu entendi exatamente como eles funcionam.

Quando eu estava em estado de concentração total, eu vi os meus sete grandes chakras em movimento. E de olhos fechados, eu vi eles girando em círculos, em altíssima velocidade, cada um com uma cor. Eles funcionavam sem parar, regulando diferentes sistemas do nosso corpo. Era algo que eu já sabia na teoria, mas nunca tinha experimentado e nunca mais experimentei. Foi impressionante.

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O budismo explica que a mente é como se fosse um lago e os pensamentos como o vento. Quando o ar sopra, ele forma ondulações na água. Assim, tudo que você vê no reflexo do lago é uma distorção. A meditação é um treino para deixar a mente cristalina, sem ondulações nem distorções. Se a gente consegue aquietar a mente, entramos em um estado de relaxamento profundo e acessamos uma frequência energética mais elevada. É um lugar tão sutil onde não há relação com tempo, espaço e nem matéria.

Eu saí desse retiro muito mexida e senti uma vontade muito grande de compartilhar a minha experiência com o maior número de pessoas. Porque o nosso coração é assim, né? Ele quer espalhar uma boa notícia. Em algum lugar do Himalaia, eu conheci um brasileiro chamado João, um cara que eu considero genial e que entende muito de tecnologia.

Ele se tornou um grande amigo e, juntos, a gente pensou em criar um aplicativo de meditação. O João trouxe outro sócio, o Helder, que manja muito de inteligência artificial e design. E assim nasceu o Positive App, que é um aplicativo que hoje tem mais de mil meditações, com vários objetivos. Tem práticas pra dormir, pra focar, pra relaxar, pra quem tá tendo um ataque de pânico e precisa se acalmar na hora.

Tem ainda cursos de autoconhecimento e autodesenvolvimento. É um aplicativo brasileiro, em português, com profissionais seríssimos que fazem um trabalho consistente. O app veio da vontade de fazer do mundo um lugar mais positivo e por isso o nome da Positiv. A nossa ideia é deixar o nosso entorno melhor do que a gente encontrou.

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Já tem 12 anos que eu fiz aquele sabático. Eu parei aqueles meses pra me dedicar só a mim, ao meu estudo e à minha relação com a espiritualidade. Eu estava com 28 anos na época e pensava: “Nossa! Se todo mundo tivesse a oportunidade de se dedicar ao espírito em uma parte da vida, o planeta certamente seria melhor”. Na tradição dos Vedas, que deu origem ao hinduísmo, as pessoas se devotam ao espírito no quarto final da vida, depois dos 60 anos. Na verdade, eu acho que quanto antes a gente puder descobrir esse caminho, melhor será a nossa existência. Ter a percepção de que o mundo espiritual está aqui, em todos os lugares, é algo maravilhoso.

Falando dessa maneira, pode parecer até algo enigmático, esotérico. Mas não é bem assim. Os benefícios da meditação já foram super validados pela ciência. E a prática é tão ancestral, quanto moderna, e é o grande remédio do século 21. Isso eu escutei do Jon Kabat Zinn, que é professor na escola de medicina da Universidade de Massachusetts.

Foi ele que levou o mindfulness
pro ambiente acadêmico e popularizou essa técnica no Ocidente. Em 2014 eu organizei uma viagem para um grupo de brasileiros e tive a graça de passar um dia inteiro com ele. E nesse dia, ele pegou o ideograma chinês de “meditation” e mostrou: as palavras “meditação” e “medicação” têm a mesma raiz etimológica.

Esse cara criou na universidade um programa para redução de dor, que depois virou um programa para redução de estresse. O curso dele dura 8 semanas e é muito disseminado no mundo. Ele fala: se você praticar meditação, você vai melhorar. E não é que você vai ganhar um poder super místico. Não. Você vai treinar a sua mente e, a partir desse treinamento, a sua cabeça vai funcionar de uma forma diferente pra lidar com o estresse, com a depressão, com a ansiedade. E ou você vai se curar de uma dor, porque você vai conhecer ela melhor, e vai ter ferramentas que podem funcionar como um remédio para aquele sofrimento.

É como um tratamento alopático mesmo. Se você precisa tomar um remédio por 8 semanas, você tem pelo menos uma expectativa de falar: “Na segunda semana, eu vou estar melhor. Na sexta, eu vou estar MUITO melhor. Na oitava então, eu vou me livrar  desse medicamento”. O Jon Kabat Zinn propõe algo assim com a meditação. Hoje, médicos do mundo todo já estão prescrevendo a prática de mindfulness, banhos de floresta e exercícios de respiração.
Não é uma questão de fé. Simplesmente funciona, porque de fato a gente se conecta com quem a gente é de verdade.

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Eu sou a prova viva disso. A fibromialgia é incurável. Ela já voltou pra minha vida algumas vezes, em momentos de estresse. Mas hoje eu conheço a dor e a minha mente. Eu não preciso mais de remédio para amenizar o meu incômodo que a doença traz. Quando a dor começa a chegar, eu sei que preciso retomar as práticas de uma forma mais firme e consistente. E nesse quesito, eu desenvolvi a minha médica interior e ganhei muita autonomia. Eu conheci a meditação pela dor, mas fiquei nela, com certeza, por amor.

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Nilton Bonder:
Renata nos traz o seu testemunho sobre a meditação como um recurso de cura. Porém, ao mencionar que a meditação é o remédio do século XXI, diagnostica também a doença do século XXI. Essa doença é a autoconsciência, um excesso ou overdose da consciência. Se o pensamento é um vento, os pensamentos do século XXI são uma tempestade, uma enxurrada de impulsos externos e internos.

Talvez haja uma crise climática interna como existe externamente. E se a meditação é reconhecida como eficaz pela medicina, o estresse é ainda mais comprovado como danoso à saúde. O estresse não é um estado de atenção, mas de alerta. É uma neurose de consciência, não uma reação de exagero à uma experiência, mas a reação em exagero de experiências. 

Tenho certeza de que a meditação é um santo remédio. Ela faz você prestar atenção ao respirar, ao invés de ficar alerta. Traz calmaria aos pensamentos e faz você se sentir sendo, ao invés de se possuir e controlar. Mas cá pra nós, é melhor prevenir do que remediar, então pode ser no Himalaia, mas ar fresco e cuca fresca é a “véia” dica do matuto para uma vida mais harmônica.

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