Para Inspirar

Paulo Vicelli em "Não tem Deus errado. Tem Deus e ponto"

O que há em comum entre espiritualidade e arte? Paulo Vicelli explica sua relação com ambas em seu episódio

12 de Julho de 2020


Leia a transcrição completa do episódio abaixo:

Introdução: Bem-vindo ao Podcast Plenae, um lugar onde você encontra histórias reais para refletir. Ouça e reconecte-se. 


No episódio de hoje Paulo Vicelli, diretor institucional da Pinacoteca de São Paulo, conta porque a experiência transcendental da espiritualidade é tão importante ns sua vida. A história dele representa o pilar Espírito. No final do relato você ouvirá reflexões e uma meditação guiada do monge Satyanatha, nosso convidado especial dessa temporada, para ajudar você a se conectar com o seu momento presente. 


[trilha sonora]


Paulo Vicelli: Na minha primeira vez no Sudeste Asiático, visitei a estupa de Shwedagon, em Myanmar. É um templo budista com torres de 100 metros de altura cobertas de ouro e com um grande de diamante na ponta. Ali, eu vi pessoas em cerimônias de adoração ao Buda, banhando a imagem, colando folhas de ouro nas estátuas, cantando ajoelhados com a mesma fé e devoção que eu tenho pela Nossa Senhora. 

 

E lá eu me lembro de pensar: “Será que eles não sabem que estão rezando pro Deus errado?”. E fiquei com isso na cabeça durante boa parte da viagem, até que entendi que não era sobre isso. Não tem Deus errado. Tem Deus e ponto. E Ele é único, não importa a forma que ele assuma ou os caminhos que se faz para acessá-lo. Todas as representações são formas de um único Deus, que é amoroso, que perdoa, que quer o bem e que protege, não importa se é em São Paulo ou em Rangum. 

 

[trilha sonora]

 

A minha ligação com a arte e com a espiritualidade vem desde a infância e ela se deu de forma espontânea e natural. Eu era uma criança muito independente e agitada. Uma das minhas diversões, imagine, era ir sozinho ao museu histórico da cidade onde eu morava, Rio Claro, no interior de São Paulo. Isso com 7, 8 anos de idade.

 

No mesmo quarteirão do museu morava uma benzedeira. Eu ia na casa dessa mulher umas duas vezes por dia. O portão ficava sempre aberto. Eu entrava na sala e tinha uma roda de pessoas sentadas e uma cadeira bem no meio. Aí eu sentava nessa cadeira e a mulher passava a mão na minha cabeça, enquanto o marido dela e outras pessoas ao redor ficavam com as mãos espalmadas no ar. Ela pedia para eu rezar uma Ave Maria. Aí eu lembro só do “psi, psi, psi”, que eram eles rezando. Aquele ritual me tranquilizava e me dava paz. 

 

Fiz o ensino fundamental todo em colégio de freiras e sempre fui muito ligado à religião católica e interessado nas religiões e no divino. Era comum que eu fosse a única criança no meio de um monte de adultos participando de eventos como grupos de oração, círculo bíblico, novena de Natal, novena de Páscoa. Eu sempre acompanhava a minha avó materna, Didi. Eu adorava e sigo fazendo as novenas até hoje.

 

Eu já questionei até que ponto a fé é minha ou foi influenciada pelo ambiente em que eu cresci. Cheguei à conclusão que ela é minha mesmo. Houve o estímulo inicial da família, mas eu me apropriei da fé e hoje não vivo sem ela. Minha relação com Deus é muito pessoal e íntima. Considero Deus um amigo, desses que a gente pode tocar e abraçar. 

 

[trilha sonora]

 

Aos 17 anos, fui passar um ano em Brighton, no sul da Inglaterra. Tinha acabado de ser aprovado na faculdade de Relações Internacionais e me faltava vivência de mundo e, claro, falar inglês fluentemente. Tranquei a faculdade e fui morar fora, com o incentivo do meu pai. O começo foi difícil, porque eu não falava a língua, sofria com o frio, a comida e tinha muita saudade da minha família.

 

Acabei indo buscar refúgio em dois lugares: a biblioteca local e a igreja. Na primeira vez que encontrei a biblioteca, meio que por acaso, lembro de me sentir aliviado, como se estivesse em casa. Eu não conseguia ainda ler bem em inglês, então os únicos livros que eu entendia eram os livros de criança, além de umas poucas matérias de revistas e jornais. Nada de Jane Austen ou Henry James, por enquanto. 

 

Já a igreja eu procurei intencionalmente. Queria sentir parte de uma comunidade, acolhido e mais próximo da família que estava no Brasil. 

 

[trilha sonora]

 

Quando eu entrei nela pela primeira vez na St. Josephs Church, eu me sentei no banco e fiquei investigando com os olhos aquele novo templo. Aí apareceu uma senhora que disse alguma coisa que eu não entendi. Acho que ela falou assim: “Você quer falar com o padre?”. Aí eu devo ter respondido: “Ah, quero”. E dali a pouco veio o padre, um irlandês, com batina preta e uma cruz de ametista no peito. Não sei como a gente conseguiu se comunicar. O fato é que eu passei a frequentar a missa, meu inglês começou melhorar e eu fui me envolvendo nas atividades da igreja, tipo festa dos velhinhos, bazares, almoços… 

 

Me senti muito acolhido por aquela comunidade. Passei a me sentir mais seguro naquele país, mais tranquilo e com a certeza que tudo daria certo. As missas e essas visitas rapidinhas a igreja apenas para dar um oi pra Nossa Senhora acalmavam a falta que eu sentia de casa.

 

Como ainda não tinha sido crismado no Brasil, aproveitei aquele tempo na Inglaterra para resolver isso. A crisma é a confirmação da fé cristã. E acabei recebendo o sacramento pelo Bispo da região. Como sou muito devoto de Santa Terezinha do Menino Jesus, pude incluir o nome da minha santinha de devoção no meu nome de crisma. No início, a minha escolha gerou um certo espanto, porque normalmente os homens escolhem santos homens e eu escolhi uma mulher para ser minha madrinha espiritual. E, assim, meu nome de crismado ficou: Paulo de Santa Teresinha do Menino Jesus.

 

[trilha sonora]

 

Foi na Inglaterra também que eu me liguei mais em arte. Sempre gostei e era interessado, mas eu quase não tinha acesso a esse universo em Rio Claro. Na estante de casa tinha um livro de História da Arte do Ernest Gombrich, um dos clássicos. A capa era uma reprodução do quadro A Leiteira, do Johannes Vermeer, um pintor holandês do século XVII que se tornaria um dos meus favoritos. Eu sempre folheava esse livro.

 

Mas fora isso, pouco se falava de arte em casa, ou ao menos, nada que justificasse um gosto hereditário. Meu pai é engenheiro e minha mãe professora. Não são pessoas super interessadas no tema. A arte foi se tornando algo tão presente que só visitar os museus nos finais de semana não bastava. Eu queria mais. Primeiro, eu tentei fazer arte. Fui para a aula de pintura, escultura, toquei piano e violão. Mas sempre fui um artista medíocre. Depois, percebi que era possível ficar nos bastidores e trabalhar com arte, mesmo não sendo um artista. De volta ao Brasil, concluí o curso de Relações Internacionais na PUC São Paulo, mas logo desisti do sonho de ser diplomata. Fui me apaixonando cada vez mais pela arte e enveredando por esse caminho, até chegar à diretoria da Pinacoteca de São Paulo em 2012.

 

[trilha sonora]

 

A arte e a espiritualidade sempre caminharam em paralelo na minha vida. No entanto, alguns momentos elas deixam de andar separadas e se juntam. São momentos super raros e sublimes, mas acontecem. Uma missa com canto gregoriano, uma igreja especial, uma pintura de um ícone russo, uma sinfonia do Mahler, por exemplo.

 

Em 2018, a Pinacoteca organizou uma exposição da artista Hilma af Klint, que viveu na Suécia no início do século XX. Eu já tinha visto algumas pinturas dela em Nova York anos antes e fiquei fascinado. Não sabia nada da vida da artista, aliás nem quem era ela. Fui impactado pela força daquelas pinturas que estavam em uma exposição coletiva em meio a tantas outras de outros artistas. 

 

Para minha sorte (e para sorte de muitos visitantes que vieram até a Pina para ver a exposição), o museu organizou uma mostra com várias pinturas da Hilma e aí eu fui saber e conhecer mais detalhes daquela artista que também acreditava que arte e espiritualidade caminhavam bem juntas e que acabavam, uma por influenciar a outra. 

 

[trilha sonora]

As obras da Hilma af Klint são misteriosas, mas um mistério que fala daquilo que vem do divino, de outra dimensão. As cores, as formas, os símbolos, tudo parece vir de uma comunicação direta com Deus.

 

[trilha sonora]

 

Quando as obras chegaram em  São Paulo, eu não quis participar da montagem, porque eu gosto de ver a exposição pronta, assim como o público. No dia da abertura, recebi os convidados do museu e fiz algumas visitas guiadas com eles. Por duas vezes, ao começar a falar sobre a obra fiquei tão emocionado que mal podia continuar falando. 


As pessoas me olhavam e tentavam me consolar: Tipo, “Tá tudo bem, é bonito mesmo”. Eu tinha muita vontade de ver aquele conjuntos de obras. E aquela situação toda delas estarem no museu onde eu trabalho, mexeu muito comigo. Eu não me lembro de ter me emocionado como eu me emocionei nessa exposição. Quando o evento acabou, eu até mandei rezar uma missa pra alma da Hilma af Klint na Igreja de Santa Generosa, em São Paulo. 


[trilha sonora]


As manifestações culturais ligadas à religião também sempre me tocam de forma especial. Ir ao Santuário de Fátima ou na igrejinha da Nossa Senhora da Medalha Milagrosa em Paris são sempre encontros muito especiais. É como se naqueles lugares, com tantas pessoas rezando e agradecendo, Deus e seus Santos estivessem mais perto da Terra.


A Festa do Círio de Nazaré em Belém do Pará foi um desses momentos especiais para mim. Tenho uma ligação com o Pará, gosto muito daquele lugar, da comida, do clima. E ver a devoção do paraense para a Virgem me toca profundamente. Sempre tive essa vontade de ir à Belém na época do Círio, mas só consegui ir em 2018. 

A fé das outras pessoas faz com que a nossa própria fé aumente. E lá é uma multidão rezando por dois, três dias. Me disseram que a energia do Círio é diferente e especial, e sabe por que? Porque as pessoas vão para lá para agradecer e não para pedir. Esse arrebatamento independe da religião: posso me emocionar com uma procissão ou com o banho do Buda, como aconteceu lá em Myanmar. 

 

As pessoas acham estranho que eu seja religioso. Porque eu uso óculos de armação laranja, visto camisa estampada e, às vezes, uso até saia… Não é exatamente o estereótipo de um carola. Eu sempre ouço: “Mas você é super católico e é diretor de um museu?”. Como se as coisas não pudessem conviver. Mas é ao contrário! Crer em Deus e vivenciar esta fé me conforta e potencializa a minha experiência com a arte. E vice-versa.


[trilha sonora]


Satyanatha: Chegamos ao fim do relato do Paulo. A espiritualidade é a sua experiência do divino. Já a religião é o método que te leva até lá. Mas muitas estradas levam ao mesmo destino. A arte é uma dessas estradas.


Tanto a arte quanto a espiritualidade buscam a transcendência do concreto. Ambas têm muitos elementos que não são utilitaristas. Rezar um terço ou contemplar um quadro nos lembram da nossa dimensão humana superior, que está muito além da simples sobrevivência. 


Enquanto a gente apenas se alimenta, se reproduz e procura abrigo, somos quase animalescos. Mas, quando a gente transcende, lembra da alma. E a conexão com a alma tem a potência de revolucionar a nossa vida. Para viver essa experiência, é preciso estar de coração aberto, como o Paulo. Ele tem uma relação tão leve com a espiritualidade que vê Deus em todas as coisas. E você? Abre seu coração para se conectar com as outras dimensões?


A meditação é algo que nós usamos para nos levar para o invisível, para o transcendente e para as outras camadas da existência. Então eu convido você a meditar. Sente-se, relaxe, em uma cadeira, em uma poltrona, em um sofá, no chão de pernas cruzadas, como você preferir. Sente-se, relaxe, feche os olhos e vá suavemente mergulhando dentro de você. Meditar é encontrar o divino dentro de você. Respire e amorosamente vá relaxando seu corpo.


[respiração profunda]


Relaxe pés e dedos do pé. Relaxe as pernas. E a cada relaxamento, vá sentindo a libertação das tensões indo embora, saindo de onde estavam aprisionadas. A ideia fica sempre presa na mente, mas a tensão fica nos músculos, nos tendões, no corpo. Liberte-se. Relaxe os quadris. Relaxe os braços e o peito. Relaxe o rosto. Inspire, expire. Inspire de novo, sinta o ar cheio de vida que entra em você. Solte o ar. E tendo relaxado completamente vá buscar em cada coisa a transcendência. O ir além, encontrar a própria essência, libertar a luz dentro de cada pensamento, dentro de cada sinto. Sinta o corpo, e tente transcender o corpo, perceba que ele é energia 


[silêncio]


Sinta a mente e tente transcender os pensamentos. Perceba que eles são passageiros e que você é mais permanente.


[silêncio]


Sinta as emoções de alegria ou tristeza, tanto faz, e tente transcendê-las. A sua consciência é o que está além das emoções. Sinta o mundo e tente transcender o mundo encontrando a espiritualidade e o divino, que está presente em todas as coisas. Busque a transcendência. Respire e continuamente, a cada assunto que vier na sua mente, busque a transcendência. 


[silêncio]


A busca pela transcendência leva ao silêncio, o silêncio interno. Sinta esse silêncio. Você não é os seus pensamentos. Por alguns momentos, apenas sinta o silêncio dentro de você. Perceba o alívio, perceba a plenitude de estar em seu silêncio interior. 


[silêncio + respiração profunda]


Respire e gradativamente dentro do silêncio, do profundo, do mais profundo, procure sentir a presença, a sua presença. Mas também a presença divina em todas as coisas. Sinta a presença da infinita energia que sustenta toda realidade, sinta a presença divina em você, na matéria e no mundo. Sinta a presença divina, a luz em todas as coisas. Sinta a presença. 


[silêncio]


Inspire e solte o ar e mais conectado com a sua espiritualidade, vá retornando suavemente da meditação, lentamente, para estar em paz, ficar em paz. Ser a própria luz, viver uma vida mais plena. Namastê.


[trilha sonora]

 

Finalização: Nossas histórias não acabam por aqui. Acompanhe semanalmente novos episódios e confira nosso conteúdo em plenae.com e no perfil @portalplenae no Instagram .


[trilha sonora]

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Para Inspirar

Barbara Gancia em “Depois da saideira“

A sétima temporada do Podcast Plenae está no ar! Confira a história da jornalista Barbara Gancia. Aperte o play e inspire-se!

13 de Março de 2022


Leia a transcrição completa do episódio abaixo:


[trilha sonora]


Barbara Gancia: Os meus pais se mudaram sozinhos da Itália pro Brasil. Eu nunca tive avós, avôs, tios e primos presentes. A nossa família era pequena: só meu pai, minha mãe, meus dois irmãos e eu. A gente sempre foi muito unido, com uma relação de afeto forte. Mesmo não concordando com o meu comportamento, eles estavam do meu lado. O apoio da minha família foi fundamental pra eu conseguir vencer a dependência no álcool.


[trilha sonora]


Geyze Diniz: Profissional consagrada e jornalista reconhecida nacionalmente por suas análises cirúrgicas, Barbara Gancia abriu seu passado no livro “A saideira” onde, além de resgatar memórias dolorosas, também busca ajudar pessoas e famílias inteiras a lidar com o alcoolismo. Bárbara foi alcoólatra por 30 anos e conseguiu vencer a dependência depois de várias tentativas. O apoio da família e de outras pessoas que enfrentam o mesmo problema foi crucial para ela dar a volta por cima. Conheça todo o aprendizado que Barbara Gancia reuniu ao longo dos últimos anos. 


Ao final do episódio, você ainda encontra reflexões do especialista em desenvolvimento humano Marc Kirst, para te ajudar a se conectar com a história e com você mesmo. Eu sou Geyze Diniz e esse é o podcast Plenae, ouça e reconecte-se.


[trilha sonora]


Barbara Gancia Eu tinha 3 anos de idade quando provei álcool pela primeira vez. Isso mesmo, 3 anos. Foi numa das tantas festas que meus pais deram na nossa casa da avenida República do Líbano, no Jardim Paulista, em São Paulo. A minha mãe contava que o Alberto, um copeiro que trabalhava com a gente, me pescou no chão da copa, tomando restos de bebida dos copos que ele havia empilhado num carrinho, desses que também servem de bar.


Me disseram que a minha segunda experiência com álcool foi aos 6 anos. A marca de chocolates Kopenhagen fabricava, e ainda fabrica, um bombom recheado com uma cereja banhada num vinho bem doce e licoroso. A minha mãe comprava uma caixa desses bombons e deixava no quarto de vestir dela, em cima de um pufe quadrado. Nunca me esqueço da embalagem: era vermelha e redonda, com chocolates embrulhados num papel prateado. Eu desenvolvi uma técnica de desembrulhar o doce e, ao mesmo, deixar a impressão de que ele estava intacto. Eu abria o papel laminado e fazia um furinho junto ao talo da cereja que saía de dentro do bombom. Depois, virava o doce feito um shot de uísque e bebia o líquido. Daí eu fechava de novo e colocava na caixa. Alguém me viu trançando as pernas no corredor, e foi assim que descobriram o meu delito.


[trilha sonora]


Teve um terceiro episódio, quando eu tinha 9 anos, e desse eu me lembro muito bem. Aconteceu num domingo e, no dia seguinte, pela primeira, de muitas e muitas vezes, senti a mais terrível das sensações: a ressaca moral. Depois de uma missa na igreja São Gabriel, meu pai me levou a um churrasco numa cidade próxima de São Paulo. Eu fiquei fascinada quando vi um balde enorme de ponche, cheio de maçãs, laranjas, pêssegos, abacaxis e folhinhas de hortelã mergulhados num líquido de cor atraente. Experimentei e nem dei bola pro gosto do álcool. Quando ninguém estava prestando atenção, eu ia lá e me servia de uma concha generosa. Foram me encontrar, já no escuro, deitada no meio de uma estrada de terra secundária, olhando pra Lua cheia e cantando. 


[trilha sonora]


Antes que você pergunte: “Onde estavam os pais dessa criança?”, eu respondo que os tempos eram outros. A minha impressão é de que todas as elites, por terem farta ajuda para cuidar dos filhos, mantêm um certo distanciamento deles. Além disso, eu sou temporã, 6 e 7 anos mais nova que os meus irmãos, e sempre pude fazer mais ou menos o que me deu na telha. 


[trilha sonora]


Lá pelos 17 anos, eu comecei a beber sistematicamente. Eu não sei dizer os motivos que me levaram a adotar esse comportamento. Você pode especular o que bem entender. Que eu bebia porque sofri alguma negligência na infância, que eu usei a bebida pra me libertar da timidez ou por pura porra-louquice. Muita gente bebe pelos mesmos motivos, sem se tornar dependente de álcool por isso. 


Admito que a minha motivação nunca foi sentir o gosto da bebida, as sutilezas do vinho ou o malte do uísque. Eu só me importava mesmo com o efeito do álcool. Quatro cervejas ou três doses de uísque era o que eu tomava antes de sair para a igreja. Imagine, então, pra ir pra balada. Foi nessa época que a minha família começou a viver um calvário comigo.


[trilha sonora]


Pouco tempo depois que eu tirei carta de motorista, meu pai acordava no meio da noite e, quando não me encontrava em casa, mandava o meu irmão pro IML e a minha irmã pro Hospital das Clínicas pra me procurar. Imagina a barra pesada que não era?


[trilha sonora]


Mesmo sem quase nenhuma lembrança dos meus fins de noite, os barracos que eu causava ao voltar de madrugada continuam cravados na minha memória, três décadas e lá vai pedrada depois. O inferno se instalava assim que eu cambaleava pra dentro de casa. Ameaças, castigos infinitos, tapas, empurrões, objetos atirados contra a parede, móveis chutados e muitos berros. Sobrava pra mim em grande estilo. E eu fazia por merecer.


[trilha sonora]


Aos 24 anos, perdi uma das minhas vistas num acidente de carro causado por mim. Eu estava bêbada. Cruzei a avenida Paulista no sinal vermelho a toda velocidade, atingi um fusquinha bege e o meu Fiat 147 saiu rodando igual um buscapé. Eu estava sem cinto de segurança, que não era obrigatório em 1981, e mergulhei pelo vidro dianteiro no asfalto. O impacto do meu rosto arrancou o espelho retrovisor. Quando meu pai chegou no hospital e me viu com a cara estraçalhada, ele encostou na parede e desmaiou. Eu passei por uma operação de 6 horas pra reconstruir o meu rosto, e mais 3 numa tentativa frustrada de recuperar o meu olho direito. Esse foi só um dos cinco ou seis carros em que eu dei perda total. 


[trilha sonora]


A minha família não enxergava o alcoolismo como uma doença. Pra eles, o meu exagero era uma questão de força de vontade. Meu pai era um cara muito pé no chão e falava assim: “Cê tá com um problema? Vai trabalhar que resolve”. Ele não achava que a psicologia , a psiquiatria, pudessem ajudar uma pessoa a solucionar suas crises. Pra minha família, eu era louca e por isso eu bebia, mas na verdade era o contrário: eu bebia e ficava louca. Quando eu decidi me internar pela primeira vez pra tratar o alcoolismo, aos 30 anos de idade, eles foram contra.


Depois da minha primeira internação, eu passei dois anos e oito meses sem tomar um gole de álcool. Parei outras vezes também, de supetão, por conta própria, sempre depois de alguma ocorrência dramática. Toda vez que meus pais ficavam extremamente decepcionados com as consequências de um porre meu, tipo criar alguma confusão no Natal, terminar a madrugada com um meganha me apontando uma arma na entrada da favela do Buraco Quente, eu jurava que ia parar de beber. 


[trilha sonora] 


Nunca foi malandragem minha. Eu juro que eu  tentei 1 milhão de vezes, mas não beber quando sentia necessidade demandava uma energia além das minhas possibilidades. A uma certa altura, eu já não bebia mais por diversão, mas pra me entorpecer e fugir das consequências do meu próprio comportamento. Foi preciso que eu magoasse, profundamente, as pessoas ao meu redor pra eu me conscientizar de que não existe a possibilidade de acordo entre mim e o álcool. 


Eu bebi praticamente dos 17 aos 47 anos, com alguns intervalos de sobriedade. Não tenho a menor ideia de como consegui manter uma agenda mínima de compromissos, um emprego, dentes, a conta bancária e essas coisas que vêm no pacote da existência. Chegando aos 50 anos, eu intercalava surtos de medo e remorso. Fazia cálculos mentais, tipo um cacoete, da quantidade enorme de pessoas que morreu pela dependência, entre amigos, ex-colegas e gente que eu conheci no bar. Eu estava num ponto de ressaca moral tão grande, que eu passava o dia inteiro falando pra mim mesma: “Tiro na cabeça, tiro na cabeça, tiro na cabeça”, era um cacoete. 


[trilha sonora]. 


O gatilho pra me internar pela terceira, e última, e efetiva vez em uma clínica foi um telefonema da minha mãe. Ela me viu ao vivo na TV, achou que estava alcoolizada e, assim que o programa terminou, ela me ligou e perguntou: “Você estava bêbada?”. Bateu um frio na minha espinha, senti um impulso de sair gritando e arrancando os cabelos, pânico, vergonha, suadeira, vontade de sumir do mapa. A gente terminou de falar e, sem refletir, eu atravessei a redação da emissora e pedi pro editor-chefe do programa: “Posso tirar uma licença médica? Eu preciso me internar numa clínica de reabilitação, eu não tô mais segurando a barra”. 


[trilha sonora]


A pergunta da minha mãe foi a gota d’água e fez a represa transbordar. Dessa vez, eu não me internei com dúvidas, nem pesar, como se tivesse a caminho de um matadouro. Eu sabia que seria dureza, que teria de me confrontar com a abstinência e suas consequências, sabia da angústia, mas alguma coisa dentro de mim me dizia que aquela seria a minha última internação. 


Encontrei uma clínica que utiliza os 12 Passos dos Alcoólicos Anônimos como referência na minha orientação de tratamento, e lá fui eu. O primeiro passo é admitir que somos impotentes perante o álcool. Porque é assim: toda vez que eu entro em contato com essa substância, eu saio derrotada. O ciclo vicioso do crime e castigo só foi rompido quando eu assumi a minha parcela de responsabilidade e parei de beber de vez.


[trilha sonora]


Quando eu deixei a clínica, quem mais me amparou pra manter a sobriedade foram os colegas do grupo de apoio, o Narcóticos Anônimos e o Alcoólicos Anônimos. Essas pessoas são as mais adequadas e as mais preparadas pra ajudar quem tem um problema de dependência como o meu. No Brasil, a gente tem um preconceito ridículo com esses grupos. Quem frequenta o NA ou o AA é um vencedor, porque quem tá lá dentro quer parar de beber e quer parar de usar droga. O nosso olhar de pena deveria ser para quem tá no boteco e não consegue parar de dar mais um gole. 


Com a evolução do meu tratamento, passei a vivenciar uma condição que não tenho mais como refutar: eu não posso beber. Caso contrário, a minha estabilidade vai por água abaixo. Antes de parar completamente de beber, eu achava que a vida seria uma chatice sem álcool. Mas eu descobri que não só eu consegui ser feliz, muito feliz,  como eu tive outra chance de vida, muito melhor que a anterior. Eu quis escrever o livro pra que outras pessoas soubessem que é possível largar a bebida e ser feliz. Existe esperança de vida feliz após a sobriedade. Eu esperei meus pais morrerem antes de fazer isso, porque eu não queria que eles revivessem os traumas do passado. É muito barra pesada pra um pai, pra uma mãe, e eu me sentia responsável pelo sofrimento deles. 


[trilha sonora]


Enquanto eu escrevia, eu pensava assim: “Se uma única pessoa puder tirar proveito desse livro, eu já fiz um bom trabalho”. E eu vejo que a minha história tá conseguindo tocar muita gente. Um cara me contou que tava no carro, a caminho de um motel pra se matar, quando ele me ouviu falando no rádio sobre o meu livro. Ele parou no acostamento, começou a chorar e foi direto pros Narcóticos Anônimos. Eu ouço vários relatos como esse.


O Brasil é o país que mais tem acidente de trabalho, que mais tem violência doméstica, na maioria das vezes causada pelo álcool. A bebida favorece doenças sexualmente transmissíveis, gravidez indesejada, acidentes de trânsito e violência gratuita. O ônus da bebida pro país é mirabolante e a gente não saber disso é uma tragédia. Médicos, agentes sociais, professores, pais, alunos, autoridades, associações de bairro, a indústria precisam ouvir e precisam falar sobre esse assunto, porque a gente não conversa sobre álcool. Por isso, faço questão de compartilhar essa minha história.


[trilha sonora]


Eu, hoje, não sou mais refém de droga nenhuma. Quando eu completei 60 anos, a minha irmã me ligou para dar os parabéns e disse: “Você está entrando nos 60 muito melhor do que entrou nos 40 e nos 50”. Há mais de 15 anos eu não conheço a sensação da ressaca  física,  moral, não sinto medo, culpa ou desespero. Há 1 ano a minha história virou uma peça de teatro estrelada pela Marisa Orth, um monólogo. Foi um sucesso de público, um sucesso de crítica e vai retomar no segundo semestre de 2022. A gente vai rodar o Brasil com essa peça, e está chamando muito a atenção de todo mundo. Ou seja, o trabalho continua. 


Hoje, eu devo dizer que a serenidade caminha comigo e todo esforço feito em nome dela tem valido muito a pena. Só por hoje. 


[trilha sonora]


Marc Kirst: Como você se sente ao ouvir a história da Barbara? O alcoolismo é uma doença que abala não somente o indivíduo dependente da bebida, mas também as pessoas ao seu redor. Por isso, a união e resiliência dos familiares é fundamental para quem quer romper o ciclo do vício. Barbara nos conta que seus pais e irmãos condenavam seu comportamento e nunca entenderam o seu alcoolismo como uma doença. Mesmo assim, sempre estiveram ao seu lado e não desistiram dela, mesmo após décadas de tentativas e erros. 


As relações humanas têm um dos mais profundos poderes nos nossos processos de cura. Além do amor da família, Barbara recebeu o apoio de grupos, como os Alcoólicos Anônimos e Narcóticos Anônimos, para vencer de vez este desafio que parecia não ter fim. Nesses grupos, ela encontrou pessoas determinadas a contribuir com quem está passando pelo que já foi superado. Sem preconceito e julgamento, praticando a compaixão de quem já sentiu na própria pele. Qual é a sua rede de apoiadores da tua cura? 


Pra muitos de nós, o primeiro passo talvez seja admitir que precisamos do outro numa jornada que pode ser muito mais difícil quando estamos sozinhos. 


[trilha sonora]


Geyze Diniz: Nossas histórias não acabam por aqui. Confira mais dos nossos conteúdos em plenae.com e em nosso perfil no Instagram @portalplenae.


[trilha sonora]

 

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