Para Inspirar

Pai Denisson e Mãe Kelly em "Deus é uma energia que a gente acessa através do amor, não através do julgamento.”

O segundo episódio da décima sexta temporada ouve a história dos encontros da fé de Pai Denisson e Mãe Kelly.

11 de Agosto de 2024



[trilha sonora] 
 

Pai Denisson: Eu costumo perguntar: “Levanta a mão aí quem já fez uma oferenda”. As pessoas ficam com as mãos abaixadas.  Aí eu provoco: “Quem comeu peru no Natal?” O povo levanta a mão. “Quem já pulou sete ondas?”. De novo levanta a mão. “Vocês já usaram branco no réveillon? Já colocaram flores na praia? Já abriram espumante na virada do ano? Viu como vocês fizeram magia? Porque tudo isso é rito da umbanda”. 

[trilha sonora]
 

Geyze
Diniz:
A curiosidade e respeito por todas as formas de espiritualidade ajudaram o Pai Denisson e Mãe Kelly a entenderem que tinham um caminho espiritual para trilhar. Ambos se encontraram e se sentiram acolhidos na Umbanda. Hoje, eles estão à frente do Instituto CEU Estrela Guia que tem como objetivo o combate à fome e a desigualdade social. Eu sou Geyze Diniz e esse é o podcast Plenae. Ouça e reconecte-se. 

[trilha sonora]
 

Pai
Denisson:
Quando eu tinha 5 anos, uma senhora disse para minha mãe: “Seu filho leva jeito para palhaço. Ele inventa piadas, tem umas tiradas, diverte todo mundo. Leve ele num programa de palhaço. E olha, seu filho também tem uma mediunidade aflorada. Você precisa levar ele num centro espírita”.  

A minha mãe me levou num programa de palhaço, e o palhaço quis me contratar, mas ela não deixou. Depois, a minha mãe me levou no centro espírita kardecista, mesmo sendo ateia. Ela me deixou na porta e ficou do lado de fora. E a partir daquele momento, a religião entrou com força na minha vida.
 Um dia, numa véspera de Natal, o meu pai estava fazendo a barba no banheiro, e eu pedi para ele: “Pai, me leva ao centro espírita?”. 

Eu
sabia que ia ter um evento pra crianças. O meu pai estava se arrumando para levar um presente para o patrão dele, e ficou bravo. Ele parou e falou para minha mãe: “O que você colocou na cabeça desse menino? Tão fazendo lavagem cerebral nele?”
 Mesmo a contragosto, meu pai me levou no centro espírita, me batendo no caminho. Só que ele acabou ficando das 2h da tarde às 11h30 da noite, na véspera de Natal. Dali em diante, a minha família toda começou a frequentar o centro. 

[trilha sonora]
 

Mãe Kelly:
Eu nasci numa família católica. A minha mãe era tão religiosa, que por pouco eu não vim ao mundo. Ela queria ser freira e chegou a entrar num convento, mas o meu avô não permitiu que ela seguisse o seu sonho. Então, a minha mãe se casou, continuou seguindo a fé com muita devoção.  

Embora ela fosse católica praticante, a minha mãe gostava de estudar sobre espiritualidade e outras religiões também.
Ela tinha amigas da igreja evangélica, da umbanda, do budismo e do judaísmo. 
Eu não ia na igreja católica só por ser uma obrigação familiar. Eu ia porque adorava participar de tudo: das missas, dos encontros, das festas religiosas. Nos anos 90, eu era estudante de engenharia civil, quando conheci o movimento carismático.  

Eu fui a uma missa do padre Marcelo Rossi, n
a igreja onde ele começou e fiquei encantada. A música, a maneira de fazer a oração e o jeito do movimento me chamaram atenção. E eu me tornei voluntária da paróquia do padre Marcelo.  Em junho de 99, eu visitei o Santuário de Fátima, em Portugal. Foi algo que mexeu muito comigo. Apesar de ter vivido a minha vida inteira na igreja, eu nunca tinha passado pelo que eu passei lá.  

Assim que eu entrei
na cidade de
Fátima, comecei a chorar copiosamente, sem entender por quê. No santuário, eu me ajoelhei para rezar por todos que amo e pedi: se um dia eu me casasse, que fosse com um homem de Deus. Eu não determinei religião. Eu só queria uma pessoa que tivesse uma conexão com Deus. Meses depois, eu comecei a namorar com o Pai Denisson.

[trilha sonora]
 

Pai
Denisson:
Um dia, eu estava no centro espírita, e um médium incorporou um obsessor, que é um espírito que fica do nosso lado, impedindo o nosso crescimento, cerceando a nossa felicidade.  Esse obsessor me falou: “Eu indo embora da sua vida, porque eu percebo que você é uma pessoa amorosa, que faz o bem. Mas aqui não vai resolver. Você precisa procurar um centro de umbanda sério”. 

Eu saí de lá atordoado. Além do medo, obviamente, do desconhecido, eu tinha preconceito. Eu falei: “O que eu vou fazer numa religião de gente atrasada, que bebe, que fuma? E
u estudei a vida inteira os ensinamentos de Allan Kardec, e agora eu preciso ir para um centro de umbanda? Que retrocesso!”
 

Na mesma semana, eu fui visitar um cliente da minha empresa, e a secretária olha
pra mim e diz assim: “Você precisa procurar um centro de umbanda sério”. Não, de novo isso, não. Não é possível. Eu só rezava.
No dia seguinte, recebo uma pessoa no meu trabalho, que me fala: “Do lado da minha casa tem um centro de umbanda sério, e eu encaminho muitas pessoas pra lá”. Eu perguntei: “O senhor me leva lá? Mas, não pode falar para ninguém”. 

[trilha sonora]
 

Mãe Kelly:
Eu tinha um segredo, nem o Pai Denisson sabia. Desde criança, eu tinha visões e conversava com pessoas que tinham desencarnado. Quando eu tinha de 2 ou 3 anos, a minha avó paterna morreu. Um dia, eu comecei a contar para minha mãe e para minha tia coisas que tinham acontecido antes de eu nascer que só elas sabiam. A minha avó desencarnada me contava e eu repetia para elas. Eu também tinha uma habilidade que só mais tarde descobri que se chama mediunidade de efeitos físicos.  

Teve um dia, na faculdade, em que meus colegas
estavam fazendo aquela brincadeira do copo. Eu dizia para onde o copo ia se mexer, e o copo obedecia o meu comando. Eu falei para o pessoal: “Eu posso fazer as cadeiras se mexerem”. Aí eu olhei para uma das cadeiras que estava num canto da sala e ela se mexeu. E todo mundo saiu correndo.  E aí, na porta da sala, eu vi a figura de um homem com traços indígenas. Comentei isso com uma amiga, e ela disse: “Não tem ninguém ali”. Eu achava estranho, mas até então, acreditava que era um fenômeno psicológico. 

[trilha sonora]
 

Pai
Denisson:
A primeira vez que eu fui a um terreiro, eu cheguei com muito medo, já querendo ir embora. Eu fui participar de um ritual que se chama gira.  A gira tem esse nome porque ela faz a roda da vida girar, tira a pessoa da estagnação. A espiritualidade movimenta as ideias, o corpo, as células, todas as moléculas que estão ao redor, para que aquela pessoa tenha um novo campo de atuação, de amor, de fé, de desenvolvimento, de conhecimento, de senso de justiça.

Não existe uma gira igual a outra, porque mudam-se as pessoas, muda-se a vibração dos pensamentos e sentimentos.
É claro, naquele primeiro dia, eu não sabia de nada disso. Eu só estranhei aquela fumaceira de ervas defumadas e música tocando. Aí, uma pessoa começou a falar comigo. Mas não era exatamente uma pessoa. Era uma entidade espiritual que tinha traços indígenas falando através daquele médium.

E essa entidade começou a descrever tudo que estava acontecendo na minha vida, e disse assim: “A sua esposa é muito especial, ela vai vir aqui”.
 Só que ela nem sabia que eu estava ali. Eu passei três anos frequentando o centro de umbanda escondido da Mãe Kelly, com medo do julgamento dela, e arriscando o meu casamento. 

 
Mãe Kelly: Um dia, o Pai Denisson me trouxe sete velas marrons e disse que o padre tinha me mandado acender uma vela por semana, para me ajudar a conseguir um emprego. Eu não entendi direito, mas acreditei nas palavras dele, e arrumei um emprego quando acendi a terceira vela. Pouco tempo depois disso, eu o Pai Denisson estávamos em casa e eu tive uma visão, que me disse que o Pai Denisson estava frequentando um centro de umbanda. Eu descrevi como era o centro, sem nunca ter ido lá, e disse que queria ir também.  Até então, eu não sabia quase nada sobre a umbanda, só tinha ido na Festa de Cosme Damião.  

Na primeira vez que eu entrei no terreiro, eu falei em voz alta p
ara o Pai Denisson:
Eu me encontrei. O meu lugar é aqui”.  Como eu tenho mediunidade de clarividência, eu sentia e via as entidades presentes naquele terreiro. O mesmo homem de traços indígenas que eu vi na porta da sala da faculdade estava ali. Eu me assustei e descobri que aquele homem era o Caboclo das Sete Encruzilhadas, uma entidade que trabalha com as forças da natureza e com o conhecimento em todos os sentidos. 

Eu
sentei num banquinho de madeira e senti a espiritualidade à minha volta. Senti uma explosão de paz e alegria dentro de mim. Pela primeira vez, todas aquelas manifestações que aconteciam comigo desde criança me fizeram sentido. E a umbanda me completou naquele momento e me completa até hoje. 

[trilha sonora]
 

Pai
Denisson:
A umbanda me encantou pela forma como eu fui acolhido pelo terreiro. Nunca me perguntaram qual era a minha profissão, quanto eu ganhava. Nunca me pediram nenhuma contribuição. Eram pessoas muito simples, que me colocaram debaixo da asa, sem querer nada em troca. Era um altruísmo puro. Eu me senti visto como um ser humano, e esses valores me preencheram. 

Aos poucos, eu fui entendendo que a umbanda é a manifestação do espírito
para a prática da caridade. A gente entende a caridade da maneira mais vasta possível, no sentido de acolher, não julgar, propagar a fé, alimentar e socializar.
 A umbanda é como o povo brasileiro: miscigenado. Ela é a primeira religião considerada 100% brasileira, e ela mistura saberes indígenas, africanos e europeus.  

Se a gente pegar os povos originários, eles manifestam a espiritualidade através de ritos de passagem, de ervas, de vegetais e de minerais. Os africanos trouxeram o conhecimento das oferendas, da
boa fé, da liberdade, da música, dos orixás, que são forças da natureza. Dos europeus vieram a feitiçaria, as velas e o estudo da vida após a morte.
 

Mãe Kelly:
Na medida que a gente foi se envolvendo com os estudos da umbanda, começamos a explorar também outras formas de espiritualidade. Eu e o Pai Denisson viajamos em busca de conhecimento para o Tibete, Nepal, China, Índia, México, Egito, Israel, Peru e outros lugares sagrados. Buscamos conhecimento em contato com templos e os sacerdotes do budismo, do islamismo, do xintoísmo, do catolicismo, do judaísmo, do espiritismo e dos povos originários.  

Com estas
vivências, cada vez mais sentimos que as religiões tinham sinergia com a umbanda. E em vários lugares a gente recebeu sinais de que a gente tinha um caminho espiritual para trilhar.  Em 2015, nós fundamos o Instituto CEU Estrela Guia. Desde o primeiro dia, em nosso espaço sagrado, conhecido como terreiro, buscamos o equilíbrio entre a mente e o coração, entre a razão e a emoção e entre o pensar e o sentir, com o compromisso de buscar e compartilhar conhecimento. 

O trabalho s
ocial faz parte de todas as atividades do Instituto. Através de distribuição de alimentação de pessoas em vulnerabilidade alimentar e social. Hoje a gente doa diariamente comida para cerca de mil pessoas em situação de rua e em comunidades carentes. E a gente também desenvolve cursos de culinária, de reaproveitamento de alimentos para pessoas em vulnerabilidade social e alimentar. 

O desenvolvimento do corpo mental acontece por meio dos cursos de Teologia da Umbanda, vivências
de ervas e cristais.
 E o desenvolvimento do corpo espiritual, através dos ritos das giras, ritual para realização de trabalhos espirituais por meio de médiuns incorporando entidades 

[trilha sonora]
 

Pai
Denisson:
Junto com os nossos trabalhos, começaram também os episódios de intolerância religiosa, que hoje a gente chama de racismo. Eu sempre uso o filá, que é um tipo de chapéu que os sacerdotes de umbanda colocam na cabeça. O filá, na realidade, é um acessório do islamismo que foi incorporado por religiões de matrizes africanas. 

Só por causa desse chapéu, eu recebo olhares de reprovação. Quantas vezes a gente distribui comida e as pessoas falam assim: “Ah, é comida da macumba
. Não quero”. 
Uma vez, era dia 12 de outubro, e a gente estava distribuindo doces paras crianças na rua. A Polícia Militar abordou a gente com armas em punho. Do outro lado da rua, tinha um pastor evangélico dando marmitas sem ser incomodado. 

Em outra ocasião, o nosso terreiro foi invadido. Cortaram os fios da instalação elétrica, que são de alta tensão, e deixaram atrás de uma árvore. Quem tocasse morreria na hora.
Cortaram nossas plantas, que para a gente são sagradas, quebraram nossos objetos religiosos e destruíram nossas oferendas. 

[trilha sonora]
 

Mãe Kelly:
O meu primeiro episódio de intolerância religiosa foi dentro da minha família. Meus familiares não aceitaram a minha escolha. A minha mãe não chegou a saber que eu tinha me tornado umbandista. Em 2009, após uma cirurgia ela ficou em coma vegetativo, que durou 14 anos. Quando ela desencarnou, eu como Sacerdotisa me ofereci para fazer os ritos fúnebres, mas a minha família não permitiu.

Então, o Pai
Denisson pediu para o padre Júlio Lancellotti, que é nosso amigo, realizar esses ritos fúnebres, e ele aceitou o convite.
Eu acredito que a minha mãe não teria tido a mesma atitude. Afinal, foi ela quem me ensinou o conceito de tolerância. Minha mãe também me ensinou a fé, a lutar pelos meus propósitos de vida e a respeitar a todos...  A Umbanda é uma religião livre, nossos mentores e guias nos oferecem o que há de melhor para nossas vidas, respeitando nosso livre arbítrio. 

[trilha sonora]
 

Pai
Denisson:
 Quando a gente es aberto para o outro, a gente para de se prender às nossas crenças limitantes. As religiões são criações humanas. A vida nos dá chances de aprendizado de diversas formas, não somente pela religião. Deus é uma energia que a gente acessa através do amor, não através do julgamento. Se a Terra é só um pontinho no universo, quem sou eu para dizer que eu sou melhor do que o outro?  

Já passou da época
da gente superar conflitos religiosos. Imagina se Deus quer conflito em nome dele? Deus nos dá determinadas liberdades para que a gente tenha opções. Se a gente não tivesse liberdade, Deus seria um tirano. Os caminhos e as encruzilhadas servem pro nosso desenvolvimento. Todo ser humano tem algo a nos ensinar. 
 

[trilha sonora]
 

Geyze
Diniz
: Nossas histórias não acabam por aqui. Confira mais dos nossos conteúdos em plenae.com e em nosso perfil no Instagram @portalplenae. 

[trilha sonora]
 

 

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Para Inspirar

Uma viagem para dentro: como é consagrar a ayahuasca?

A experiência, que é antes de mais nada individual, se apoia na força do coletivo e a força de tudo aquilo que é natural

19 de Junho de 2024


“Esse é um relato pessoal de alguém que consagrou a Ayahuasca pela primeira vez. Trata-se, portanto, da experiência de uma pessoa que só pode falar sobre ela - sabendo que, para outras pessoas, a jornada pode ter sido diferente. É impossível generalizar os resquícios dessa prática, pois cada um irá colher diferentes aprendizados. 

A ayahuasca, antes de mais nada, é um chá com um sabor ácido e amargo e textura espessa, feito da combinação de um cipó - o mariri (Banisteriopsis caapi) - e de um arbusto – a chacrona (Psychotria viridis) ou a videira chagropanga (Diplopterys cabrerana). Essa bebida foi descoberta há muitos séculos atrás e é praticamente impossível cravar a data ou um único povo que tenha a autoria total. 

O que se sabe com certeza é que todos esses compostos que dão origem a essa mistura com propriedades alucinógenas são de origem da floresta Amazônica. Vale lembrar que, apesar de ter sua maior parte dentro dos limites brasileiros, a Amazônia também está presente em outros oito países: Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Venezuela e Suriname.

Outro dado muito difícil de cravar é quantos adeptos ao ritual da ayahuasca existem no mundo, já que não há um órgão que regulamente isso, como é o Vaticano para a Igreja Católica. O que se sabe com certeza é que ela tem um uso aplicado a vários dogmas diferentes, mas o mais famoso talvez seja o Santo Daime, reconhecido como religião e que usa o chá em seus rituais. 


Histórias à parte, minha curiosidade em relação às chamadas medicinas da floresta é antiga, desde que li o livro ‘A Erva do Diabo’, do antropólogo peruano Carlos Castaneda. O livro, publicado em 1960, foi um marco da contracultura da época e é um dos diários antropológicos mais importantes até hoje. Nele, o então mestrando Castaneda, acompanha o indígena Yaqui Dom Juan Matus, a fim de conhecer mais sobre a cultura daquele povo, e essa experiência invariavelmente passa pelo uso de substâncias enteógenas (que tem efeitos alteradores da consciência e da percepção).

Aquilo me marcou profundamente, mas como a maioria das pessoas, eu tinha muito receio. Estudei por muito tempo, li muito sobre o assunto e falei com pessoas que já tinham feito o ritual. Moro em São Paulo e não queria sair daqui para fazer, por medo de estar longe de casa, mas também queria algo que subvertesse a lógica das grandes cidades e oferecesse mesmo alguma conexão com a natureza em meio à selva de pedras. Achei o meio termo perfeito, a Casa Xamânica, localizada no bairro do Morumbi, um espaço de paz em meio ao caos. 

Depois de conversar com os responsáveis, me inscrevi para participar, paguei pelo meu espaço (é importante dizer que se trata de um ritual pago), preenchi um formulário de anamnese para que eles me conhecessem melhor até mesmo em relação às questões médicas e aguardei o dia chegar.

O processo começa ainda no preceito, que se dá nos dias que antecedem a consagração. Durante três dias, você não pode comer carne - o que não foi um problema para mim, que já sou vegetariana, mas pode ser difícil para muitos. Também não é estimulado o uso de álcool ou qualquer substância sintética e é recomendado evitar relações sexuais, trocas energéticas intensas, ambientes densos, noticiário e assuntos negativos.

O preceito é uma etapa muito importante porque no meu caso, evidenciou alguns péssimos hábitos que tenho. Essas instruções te fazem pensar sobre outras que não foram dadas por eles, mas que você acaba querendo fazer, como dormir melhor, se alimentar melhor, e tudo isso pode jogar luz ao seu dia a dia e como ele poderia ser mais saudável de várias maneiras. Além disso, te faz levar aquilo que está por vir mais a sério, realmente é como pavimentar o caminho que está para ser trilhado e hoje eu entendo completamente a importância desse preparo. 

Essa etapa também existe para que haja uma limpeza interna do corpo e para que assim você sofra menos durante o processo de limpeza. A limpeza pode ser especialmente difícil e pode se dar mais ou menos uma hora depois da ingestão do chá. Não é certo que ela acontecerá, mas caso aconteça, a pessoa pode sentir ânsia de vômito e efetivamente vomitar, ou sentir desconfortos intestinais (e efetivamente ter que usar o banheiro) ou somente chorar. 

O importante é que você esteja atento nesse momento até mesmo para conseguir “endereçar” aquilo que o seu corpo está querendo dizer e tirar aquilo de dentro. Mas voltando ao ritual, cheguei na Casa Xamânica, e, quando cheguei, fui recepcionada pelo dono da casa, que me levou até o quintal onde era feita a celebração. 

Em seguida, uma das guias - responsáveis por ajudar as pessoas que estão consagrando -, veio conversar comigo, pediu para eu tirar meu tênis, guardar meu celular e já ir me aconchegando no futon escolhido, uma espécie de colchonete, só que mais fofo. Eles pedem pra ir com roupas confortáveis e levar travesseiro e cobertor. Aqui, outro breve adendo: foi muito bom ter levado o meu, me senti em casa. 

As pessoas foram chegando e se acomodando, os iniciantes ficaram em um mesmo espaço, cada um em seu futon, mas concentrados nesse lado de forma que os guiar pudessem dar mais atenção. Depois de mais ou menos uma hora, o mesmo dono da casa que me recepcionou - e que é um guia também -, chamou todas as pessoas que estivessem consagrando pela primeira, segunda e terceira vez para conversar. 

Nessa conversa, ele explicou um pouco sobre as raízes do ritual, suas aplicações, quem nos guiaria naquele dia, o que é esperado que aconteça - como a limpeza -, e o que de inesperado poderia acontecer. Falou sobre a Peia, que é quando a pessoa pode entrar em alguma viagem interna ruim, e como fazer para voltar dela. Abriu espaço para perguntas e nos tranquilizou.

Meu ritual foi uma cerimônia indígena com o pajé Ikakuru Huni Kuin, ele chegou junto de uma acompanhante, se apresentou e falou como seriam aquelas próximas horas. Após essa fala, fizemos uma fila de mulheres para tomar o chá servido por ele - no meu caso, tomei uma dose de dois terços, por ser minha primeira vez. 

Ele deixou à vontade para quem quisesse tomar mais ou menos. Achei o gosto ruim inicialmente, mais fácil de se acostumar depois. Decidi tomar grande parte ali na frente do pajé, como todos faziam, mas depois levei o que restou para o futon comigo, de forma que eu conseguisse ir dosando. Não sei se isso era permitido, mas ninguém pareceu perceber ou se importar. 

Na sequência, os homens tomaram e cada um já foi se acomodando em seus lugares. O pajé e sua acompanhante começaram os rezos, que seriam “as rezas”, e foi um momento muito bonito que se estendeu por mais ou menos uma hora. No começo, a projeção da voz deles parece estranha, mas depois de um tempo ela passa a fazer totalmente sentido e eles parecem se tornar um só. Por todo o ritual, é indicado ficar de olhos fechados, afinal, a sua viagem é para dentro. 

Quando decidi abrir um pouquinho o meu, percebi que apesar de achar que o chá não tinha tido efeito em mim, ele tinha sim. Minha visão estava alterada, assim como minha audição e também a percepção da minha pele. Senti alguns cheiros e senti uma ânsia muito leve, mas não cheguei a vomitar. Meus pensamentos eram muitos e bem acelerados, mas não de uma forma ruim. 

Tive a total consciência de que tinha entrado “na força” - como eles chamam quando o chá começa a fazer efeito -, quando a música ao vivo tocou. O pajé e sua acompanhante começaram a tocar e cantar com o auxílio de alguns guias da casa e nesse momento eu chorei muito. A música ao vivo sempre exerceu efeitos potentes em mim e esse momento evidenciou isso ainda mais.

Comecei a deitar em diferentes posições no futon de forma que eu pudesse absorver mais daquele som, até que senti vontade de sentar mais perto deles e assim eu o fiz, era autorizado. Algumas pessoas dançaram também. Foi quando decidi tomar o resto que tinha sobrado no meu copo, aquele que eu guardei e levei comigo. 

Essa música se estendeu até o fim do ritual, por todas as próximas horas, a diferença é que depois de um tempo apenas os guias da casa tocaram e cantaram e o pajé e sua acompanhante consagraram o chá e silenciaram para poder também entrar na força. A segunda dose ficava a critério de cada um, não era oferecida, você pedia para tomar e eles davam. Eu não tomei. 

Lentamente fui saindo da força, me aproximei da fogueira que tinha no ambiente externo, olhei muito para o céu. Nesse momento, ainda não era recomendado conversar ou abrir os olhos, mas já era mais seguro fazer ambos e pouco a pouco todos foram voltando. Senti que eu voltei muito rápido dos outros e essa percepção me incomodou, até porque só estávamos todos liberados para a alimentação - que eram caldos -, e para ir embora quando todos estivéssemos bem. 

Estava marcado para terminar às 20h, mas se estendeu até às 21h, o tempo necessário para esse retorno coletivo. Essa última hora de espera me causou muita angústia, então acho necessário contar para quem pretende consagrar que isso pode acontecer: você pode estar fora da força há muito tempo, como era o meu caso, mas é preciso que todos encerrem suas viagens para o encerramento total. 

As conclusões todas que cheguei são muito pessoais e não cabe nesse texto, nem faria sentido. A ideia aqui é contar como se dá o ritual antes, durante e depois. O que posso dizer, para todos os efeitos, é que todo o processo exige entrega, e isso foi um desafio para mim, que sou controladora. É também um processo que exige muita espiritualidade, o que também foi um desafio para mim, que venho tentando trabalhar o pilar Espírito há tempos. Mas é lindo e vale muito a pena. 

Pode dar sim um medo antes, é normal que até mesmo pessoas mais acostumadas com o processo sintam isso a cada vez. E é justamente aí que a pessoa precisa estar disposta a abdicar um pouco do volante de sua vida e deixar que as forças naturais conduzam para você. Esteja aberto ao que você verá nessa jornada, porque ela nada mais é do que um passeio por dentro de si, são lugares seus que podem estar sendo pouco visitados e negligenciados. 

Me tocou muito a força do coletivo. Algumas pessoas choram, riem, se chacoalham. Outras parecem ficar imóveis o tempo todo. De qualquer forma, a sensação é que estamos indo em uma mesma direção. Achei que poderia ser incômodo tê-los ao meu redor e de fato, no começo estava incomodada, mas depois, fez todo o sentido. 

E essa é a minha conclusão final do processo: algumas coisas vão fazendo sentido com o tempo. Na vida e na ayahuasca. Não é imediato, demanda um tempo, e é preciso paciência e atenção para captar tudo isso. Pretendo consagrar mais uma vez porque agora sei de tudo isso. E esse saber tão precioso ninguém me tira.”

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