Para Inspirar

Pai Denisson e Mãe Kelly em "Deus é uma energia que a gente acessa através do amor, não através do julgamento.”

O segundo episódio da décima sexta temporada ouve a história dos encontros da fé de Pai Denisson e Mãe Kelly.

11 de Agosto de 2024



[trilha sonora] 
 

Pai Denisson: Eu costumo perguntar: “Levanta a mão aí quem já fez uma oferenda”. As pessoas ficam com as mãos abaixadas.  Aí eu provoco: “Quem comeu peru no Natal?” O povo levanta a mão. “Quem já pulou sete ondas?”. De novo levanta a mão. “Vocês já usaram branco no réveillon? Já colocaram flores na praia? Já abriram espumante na virada do ano? Viu como vocês fizeram magia? Porque tudo isso é rito da umbanda”. 

[trilha sonora]
 

Geyze
Diniz:
A curiosidade e respeito por todas as formas de espiritualidade ajudaram o Pai Denisson e Mãe Kelly a entenderem que tinham um caminho espiritual para trilhar. Ambos se encontraram e se sentiram acolhidos na Umbanda. Hoje, eles estão à frente do Instituto CEU Estrela Guia que tem como objetivo o combate à fome e a desigualdade social. Eu sou Geyze Diniz e esse é o podcast Plenae. Ouça e reconecte-se. 

[trilha sonora]
 

Pai
Denisson:
Quando eu tinha 5 anos, uma senhora disse para minha mãe: “Seu filho leva jeito para palhaço. Ele inventa piadas, tem umas tiradas, diverte todo mundo. Leve ele num programa de palhaço. E olha, seu filho também tem uma mediunidade aflorada. Você precisa levar ele num centro espírita”.  

A minha mãe me levou num programa de palhaço, e o palhaço quis me contratar, mas ela não deixou. Depois, a minha mãe me levou no centro espírita kardecista, mesmo sendo ateia. Ela me deixou na porta e ficou do lado de fora. E a partir daquele momento, a religião entrou com força na minha vida.
 Um dia, numa véspera de Natal, o meu pai estava fazendo a barba no banheiro, e eu pedi para ele: “Pai, me leva ao centro espírita?”. 

Eu
sabia que ia ter um evento pra crianças. O meu pai estava se arrumando para levar um presente para o patrão dele, e ficou bravo. Ele parou e falou para minha mãe: “O que você colocou na cabeça desse menino? Tão fazendo lavagem cerebral nele?”
 Mesmo a contragosto, meu pai me levou no centro espírita, me batendo no caminho. Só que ele acabou ficando das 2h da tarde às 11h30 da noite, na véspera de Natal. Dali em diante, a minha família toda começou a frequentar o centro. 

[trilha sonora]
 

Mãe Kelly:
Eu nasci numa família católica. A minha mãe era tão religiosa, que por pouco eu não vim ao mundo. Ela queria ser freira e chegou a entrar num convento, mas o meu avô não permitiu que ela seguisse o seu sonho. Então, a minha mãe se casou, continuou seguindo a fé com muita devoção.  

Embora ela fosse católica praticante, a minha mãe gostava de estudar sobre espiritualidade e outras religiões também.
Ela tinha amigas da igreja evangélica, da umbanda, do budismo e do judaísmo. 
Eu não ia na igreja católica só por ser uma obrigação familiar. Eu ia porque adorava participar de tudo: das missas, dos encontros, das festas religiosas. Nos anos 90, eu era estudante de engenharia civil, quando conheci o movimento carismático.  

Eu fui a uma missa do padre Marcelo Rossi, n
a igreja onde ele começou e fiquei encantada. A música, a maneira de fazer a oração e o jeito do movimento me chamaram atenção. E eu me tornei voluntária da paróquia do padre Marcelo.  Em junho de 99, eu visitei o Santuário de Fátima, em Portugal. Foi algo que mexeu muito comigo. Apesar de ter vivido a minha vida inteira na igreja, eu nunca tinha passado pelo que eu passei lá.  

Assim que eu entrei
na cidade de
Fátima, comecei a chorar copiosamente, sem entender por quê. No santuário, eu me ajoelhei para rezar por todos que amo e pedi: se um dia eu me casasse, que fosse com um homem de Deus. Eu não determinei religião. Eu só queria uma pessoa que tivesse uma conexão com Deus. Meses depois, eu comecei a namorar com o Pai Denisson.

[trilha sonora]
 

Pai
Denisson:
Um dia, eu estava no centro espírita, e um médium incorporou um obsessor, que é um espírito que fica do nosso lado, impedindo o nosso crescimento, cerceando a nossa felicidade.  Esse obsessor me falou: “Eu indo embora da sua vida, porque eu percebo que você é uma pessoa amorosa, que faz o bem. Mas aqui não vai resolver. Você precisa procurar um centro de umbanda sério”. 

Eu saí de lá atordoado. Além do medo, obviamente, do desconhecido, eu tinha preconceito. Eu falei: “O que eu vou fazer numa religião de gente atrasada, que bebe, que fuma? E
u estudei a vida inteira os ensinamentos de Allan Kardec, e agora eu preciso ir para um centro de umbanda? Que retrocesso!”
 

Na mesma semana, eu fui visitar um cliente da minha empresa, e a secretária olha
pra mim e diz assim: “Você precisa procurar um centro de umbanda sério”. Não, de novo isso, não. Não é possível. Eu só rezava.
No dia seguinte, recebo uma pessoa no meu trabalho, que me fala: “Do lado da minha casa tem um centro de umbanda sério, e eu encaminho muitas pessoas pra lá”. Eu perguntei: “O senhor me leva lá? Mas, não pode falar para ninguém”. 

[trilha sonora]
 

Mãe Kelly:
Eu tinha um segredo, nem o Pai Denisson sabia. Desde criança, eu tinha visões e conversava com pessoas que tinham desencarnado. Quando eu tinha de 2 ou 3 anos, a minha avó paterna morreu. Um dia, eu comecei a contar para minha mãe e para minha tia coisas que tinham acontecido antes de eu nascer que só elas sabiam. A minha avó desencarnada me contava e eu repetia para elas. Eu também tinha uma habilidade que só mais tarde descobri que se chama mediunidade de efeitos físicos.  

Teve um dia, na faculdade, em que meus colegas
estavam fazendo aquela brincadeira do copo. Eu dizia para onde o copo ia se mexer, e o copo obedecia o meu comando. Eu falei para o pessoal: “Eu posso fazer as cadeiras se mexerem”. Aí eu olhei para uma das cadeiras que estava num canto da sala e ela se mexeu. E todo mundo saiu correndo.  E aí, na porta da sala, eu vi a figura de um homem com traços indígenas. Comentei isso com uma amiga, e ela disse: “Não tem ninguém ali”. Eu achava estranho, mas até então, acreditava que era um fenômeno psicológico. 

[trilha sonora]
 

Pai
Denisson:
A primeira vez que eu fui a um terreiro, eu cheguei com muito medo, já querendo ir embora. Eu fui participar de um ritual que se chama gira.  A gira tem esse nome porque ela faz a roda da vida girar, tira a pessoa da estagnação. A espiritualidade movimenta as ideias, o corpo, as células, todas as moléculas que estão ao redor, para que aquela pessoa tenha um novo campo de atuação, de amor, de fé, de desenvolvimento, de conhecimento, de senso de justiça.

Não existe uma gira igual a outra, porque mudam-se as pessoas, muda-se a vibração dos pensamentos e sentimentos.
É claro, naquele primeiro dia, eu não sabia de nada disso. Eu só estranhei aquela fumaceira de ervas defumadas e música tocando. Aí, uma pessoa começou a falar comigo. Mas não era exatamente uma pessoa. Era uma entidade espiritual que tinha traços indígenas falando através daquele médium.

E essa entidade começou a descrever tudo que estava acontecendo na minha vida, e disse assim: “A sua esposa é muito especial, ela vai vir aqui”.
 Só que ela nem sabia que eu estava ali. Eu passei três anos frequentando o centro de umbanda escondido da Mãe Kelly, com medo do julgamento dela, e arriscando o meu casamento. 

 
Mãe Kelly: Um dia, o Pai Denisson me trouxe sete velas marrons e disse que o padre tinha me mandado acender uma vela por semana, para me ajudar a conseguir um emprego. Eu não entendi direito, mas acreditei nas palavras dele, e arrumei um emprego quando acendi a terceira vela. Pouco tempo depois disso, eu o Pai Denisson estávamos em casa e eu tive uma visão, que me disse que o Pai Denisson estava frequentando um centro de umbanda. Eu descrevi como era o centro, sem nunca ter ido lá, e disse que queria ir também.  Até então, eu não sabia quase nada sobre a umbanda, só tinha ido na Festa de Cosme Damião.  

Na primeira vez que eu entrei no terreiro, eu falei em voz alta p
ara o Pai Denisson:
Eu me encontrei. O meu lugar é aqui”.  Como eu tenho mediunidade de clarividência, eu sentia e via as entidades presentes naquele terreiro. O mesmo homem de traços indígenas que eu vi na porta da sala da faculdade estava ali. Eu me assustei e descobri que aquele homem era o Caboclo das Sete Encruzilhadas, uma entidade que trabalha com as forças da natureza e com o conhecimento em todos os sentidos. 

Eu
sentei num banquinho de madeira e senti a espiritualidade à minha volta. Senti uma explosão de paz e alegria dentro de mim. Pela primeira vez, todas aquelas manifestações que aconteciam comigo desde criança me fizeram sentido. E a umbanda me completou naquele momento e me completa até hoje. 

[trilha sonora]
 

Pai
Denisson:
A umbanda me encantou pela forma como eu fui acolhido pelo terreiro. Nunca me perguntaram qual era a minha profissão, quanto eu ganhava. Nunca me pediram nenhuma contribuição. Eram pessoas muito simples, que me colocaram debaixo da asa, sem querer nada em troca. Era um altruísmo puro. Eu me senti visto como um ser humano, e esses valores me preencheram. 

Aos poucos, eu fui entendendo que a umbanda é a manifestação do espírito
para a prática da caridade. A gente entende a caridade da maneira mais vasta possível, no sentido de acolher, não julgar, propagar a fé, alimentar e socializar.
 A umbanda é como o povo brasileiro: miscigenado. Ela é a primeira religião considerada 100% brasileira, e ela mistura saberes indígenas, africanos e europeus.  

Se a gente pegar os povos originários, eles manifestam a espiritualidade através de ritos de passagem, de ervas, de vegetais e de minerais. Os africanos trouxeram o conhecimento das oferendas, da
boa fé, da liberdade, da música, dos orixás, que são forças da natureza. Dos europeus vieram a feitiçaria, as velas e o estudo da vida após a morte.
 

Mãe Kelly:
Na medida que a gente foi se envolvendo com os estudos da umbanda, começamos a explorar também outras formas de espiritualidade. Eu e o Pai Denisson viajamos em busca de conhecimento para o Tibete, Nepal, China, Índia, México, Egito, Israel, Peru e outros lugares sagrados. Buscamos conhecimento em contato com templos e os sacerdotes do budismo, do islamismo, do xintoísmo, do catolicismo, do judaísmo, do espiritismo e dos povos originários.  

Com estas
vivências, cada vez mais sentimos que as religiões tinham sinergia com a umbanda. E em vários lugares a gente recebeu sinais de que a gente tinha um caminho espiritual para trilhar.  Em 2015, nós fundamos o Instituto CEU Estrela Guia. Desde o primeiro dia, em nosso espaço sagrado, conhecido como terreiro, buscamos o equilíbrio entre a mente e o coração, entre a razão e a emoção e entre o pensar e o sentir, com o compromisso de buscar e compartilhar conhecimento. 

O trabalho s
ocial faz parte de todas as atividades do Instituto. Através de distribuição de alimentação de pessoas em vulnerabilidade alimentar e social. Hoje a gente doa diariamente comida para cerca de mil pessoas em situação de rua e em comunidades carentes. E a gente também desenvolve cursos de culinária, de reaproveitamento de alimentos para pessoas em vulnerabilidade social e alimentar. 

O desenvolvimento do corpo mental acontece por meio dos cursos de Teologia da Umbanda, vivências
de ervas e cristais.
 E o desenvolvimento do corpo espiritual, através dos ritos das giras, ritual para realização de trabalhos espirituais por meio de médiuns incorporando entidades 

[trilha sonora]
 

Pai
Denisson:
Junto com os nossos trabalhos, começaram também os episódios de intolerância religiosa, que hoje a gente chama de racismo. Eu sempre uso o filá, que é um tipo de chapéu que os sacerdotes de umbanda colocam na cabeça. O filá, na realidade, é um acessório do islamismo que foi incorporado por religiões de matrizes africanas. 

Só por causa desse chapéu, eu recebo olhares de reprovação. Quantas vezes a gente distribui comida e as pessoas falam assim: “Ah, é comida da macumba
. Não quero”. 
Uma vez, era dia 12 de outubro, e a gente estava distribuindo doces paras crianças na rua. A Polícia Militar abordou a gente com armas em punho. Do outro lado da rua, tinha um pastor evangélico dando marmitas sem ser incomodado. 

Em outra ocasião, o nosso terreiro foi invadido. Cortaram os fios da instalação elétrica, que são de alta tensão, e deixaram atrás de uma árvore. Quem tocasse morreria na hora.
Cortaram nossas plantas, que para a gente são sagradas, quebraram nossos objetos religiosos e destruíram nossas oferendas. 

[trilha sonora]
 

Mãe Kelly:
O meu primeiro episódio de intolerância religiosa foi dentro da minha família. Meus familiares não aceitaram a minha escolha. A minha mãe não chegou a saber que eu tinha me tornado umbandista. Em 2009, após uma cirurgia ela ficou em coma vegetativo, que durou 14 anos. Quando ela desencarnou, eu como Sacerdotisa me ofereci para fazer os ritos fúnebres, mas a minha família não permitiu.

Então, o Pai
Denisson pediu para o padre Júlio Lancellotti, que é nosso amigo, realizar esses ritos fúnebres, e ele aceitou o convite.
Eu acredito que a minha mãe não teria tido a mesma atitude. Afinal, foi ela quem me ensinou o conceito de tolerância. Minha mãe também me ensinou a fé, a lutar pelos meus propósitos de vida e a respeitar a todos...  A Umbanda é uma religião livre, nossos mentores e guias nos oferecem o que há de melhor para nossas vidas, respeitando nosso livre arbítrio. 

[trilha sonora]
 

Pai
Denisson:
 Quando a gente es aberto para o outro, a gente para de se prender às nossas crenças limitantes. As religiões são criações humanas. A vida nos dá chances de aprendizado de diversas formas, não somente pela religião. Deus é uma energia que a gente acessa através do amor, não através do julgamento. Se a Terra é só um pontinho no universo, quem sou eu para dizer que eu sou melhor do que o outro?  

Já passou da época
da gente superar conflitos religiosos. Imagina se Deus quer conflito em nome dele? Deus nos dá determinadas liberdades para que a gente tenha opções. Se a gente não tivesse liberdade, Deus seria um tirano. Os caminhos e as encruzilhadas servem pro nosso desenvolvimento. Todo ser humano tem algo a nos ensinar. 
 

[trilha sonora]
 

Geyze
Diniz
: Nossas histórias não acabam por aqui. Confira mais dos nossos conteúdos em plenae.com e em nosso perfil no Instagram @portalplenae. 

[trilha sonora]
 

 

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Para Inspirar

Caio Bonfim em "Cruzando a linha de chegada"

Conheça a história dos caminhos que precedem um atleta olímpico e o levam até o pódio.

10 de Novembro de 2024



Leia a transcrição completa do episódio abaixo:

[trilha sonora] 

Caio Bonfim: Eu sou o tipo de pessoa que se alimenta da pressão. Quando eu jogava futebol já era assim. Quanto mais eu apanhava, quanto mais a torcida me xingava, melhor era o meu desempenho. É da minha personalidade. No segundo ano do Ensino Médio, eu escolhi trocar o futebol pela marcha atlética e aguentar os xingamentos na rua durante os treinos.  
 

[trilha sonora] 

Geyze Diniz: Os problemas de saúde na infância não impediram Caio Bonfim de se dedicar ao esporte. Filho de pai treinador e mãe atleta, Caio seguiu os passos da família e trouxe a medalha de prata para casa, uma conquista de todos e que deu luz a marcha atlética, esporte pouco conhecido no Brasil. Eu sou Geyze Diniz e esse é o Podcast Plenae. Ouça e reconecte-se. 
 

[trilha sonora] 

Caio Bonfim: A minha história com o esporte começa bem antes de eu nascer. Meu pai era professor de educação física e se apaixonou pelo atletismo ainda na faculdade. Ele tinha o sonho de ser professor e aí ele passou num concurso pra dar aula num colégio público em Brasília. Ele introduziu o atletismo nessa escola e formou um grupo de atletas, de onde saíram três campeões sul-americanos e duas atletas olímpicas. Nesse grupo estava a minha mãe.  
 

[trilha sonora] 

Os meus pais se apaixonaram, se casaram e fundaram um clube chamado Caso: Centro de Atletismo de Sobradinho. Sobradinho é uma cidade que fica de 20 a 25 quilômetros de Brasília. Foi lá que eu nasci. A minha chegada mudou a trajetória total da minha mãe no esporte. É que, antes dela ficar grávida, a especialidade dela eram as provas de 10.000 metros. Quando ela voltou da gravidez e queria competir, o meu pai foi sincero: “A gente só pode inscrever duas atletas por prova. E as meninas dos 10.000 metros são muito boas. Hoje não dá para tirar nenhuma delas e colocar você”.  

Uma dessas meninas era a Carmem de Oliveira. Ela competiu a Olimpíada de Barcelona e foi a primeira brasileira a ganhar a São Silvestre. A outra era a Solange Cordeiro, que foi pras Olimpíadas de Atlanta. Só que a minha mãe queria competir de qualquer jeito. E daí meu pai falou: “Tem uma prova aqui que ninguém faz e tem vaga sobrando. Você quer fazer?”. Essa prova era a marcha atlética.  

A minha mãe foi super bem, e meu pai incentivou ela a continuar na marcha. Ela começou a treinar, se dedicar e foi oito vezes campeã brasileira, campeã ibero-americana e campeã sul-americana. A primeira brasileira a ganhar uma medalha internacional na marcha atlética feminina 

[trilha sonora] 

Eu não sei qual foi o dia em que eu aprendi a marchar. Aconteceu naturalmente. A nossa casa respirava o atletismo e marcha atlética. Eu cresci acompanhando a rotina de treinos da minha mãe e as viagens dela. Só que se dependesse da minha saúde na infância, eu não teria sido atleta. Com apenas 7 meses de vida, eu tive uma meningite. Meus pais nem sabiam se eu sairia vivo do hospital.

Com 1 ano e 2 meses, eu comecei a andar e em poucas semanas as minhas pernas entortaram. Os médicos não sabiam
o porquê, mas as minhas pernas ficaram bem arqueadas pra fora, como se fosse um alicate. Eu fui operado e fiquei dois meses de gesso, a ideia era corrigir o problema daquele momento, mas os médicos alertaram que elas entortariam novamente à medida que eu crescesse. Só que, em mais um mistério que a medicina não explica, as minhas pernas nunca mais deram problema.
 

[trilha sonora] 

Nada disso impediu que eu praticasse o esporte. Em casa, o que não faltava era incentivo. Eu lembro que uma vez meu pai chegou em casa num sábado e encontrou eu e meu irmão dormindo. Era tipo meio-dia e ele ficou indignado. Tirou a gente da cama e levou pro estádio onde ele dava treino de atletismo. Com 8 anos de idade, eu já corria de 6 a 8 quilômetros com meu pai.  

A minha paixão era o futebol. Eu cheguei a ser atleta das categorias de base do Brasiliense. Eu não era ruim, não. Eu jogava na lateral esquerda, uma posição em que você precisa ter velocidade. O preparador físico do time viu que eu tinha potencial e começou a me passar uns treinos por fora. Quando eu tinha 15 anos, eu comentei com meu pai o que tava fazendo. Ele ficou surpreso e me falou: “Caio, no ano que vem vai ter a Copa Brasil de Marcha Atlética em Balneário Camboriú. Você vai se dar bem, filho. Vamos fazer um teste”. A minha história com a marcha começa nessa prova.  

[trilha sonora] 

Mesmo treinando só pro futebol, eu fiquei em terceiro lugar na categoria sub-18. A minha mãe ainda era atleta e competiu também. Os dois ficaram emocionados com o meu resultado. Isso foi num sábado. No dia seguinte, tinha a competição da categoria sub-20, e meu pai me inscreveu também. Eu não queria marchar mais 10 quilômetros, mas ele insistiu: “Caio, amanhã é uma prova diferente. Os cinco primeiros se classificam pra representar o Brasil no campeonato pan-americano. Vai que você consegue. Mas fica à vontade se você não quiser”. Mas eu fui. Melhorei 4 minutos do tempo de sábado pra domingo e fiquei em segundo lugar. No campeonato pan-americano, eu fiz índice pro campeonato mundial.

Um mês depois, eu
fui campeão brasileiro. Faz pouco tempo que eu perguntei pro meu pai porque que ele me incentivou a marchar e não a correr. E ele falou: “Quem é a criança que sabe fazer marcha atlética? Ninguém sabe, mas você e seu irmão sabiam. Então, se juntasse o preparo físico e a técnica de vocês com a bagagem que tinham, vocês largariam na frente”. Durante toda a infância, meu pai inscreveu eu e meu irmão em provas de marcha atlética. Mesmo sem treinar, a gente conhecia a técnica. Os resultados foram tão bons, que eu resolvi dar uma chance e trocar o esporte mais popular do país pro menos popular.
 

[trilha sonora] 
 
Só que uma decisão dessas traz algumas realidades difíceis de lidar.  

[trilha sonora] 

Uma delas é ver que a marcha atlética é pouco reconhecida dentro do atletismo. Aquilo me incomodava. A cada medalha que eu ganhava, eu queria mostrar que o meu trabalho também tinha valor. Essas coisas foram me alimentando, criando a minha identidade e aumentando a minha vontade de fazer parte da marcha atlética. 

Mas a pior parte era aguentar os xingamentos na rua. Toda vez que eu treinava na rua, passava um carro, buzinava e gritava alguma coisa. Já era difícil ser adolescente e lidar com a transformação do corpo e da cabeça. Era difícil sustentar a escolha de ser atleta, enquanto os meus amigos começavam a sair, curtir a vida. Mas aqueles xingamentos eram uma escala de agressão que eu não estava preparado.  
 

[trilha sonora] 

A marcha atlética, ela é uma competição de quem caminha mais rápido. Pra diferenciar da corrida, criaram duas regras. Uma é que o atleta não pode tirar os dois pés ao mesmo tempo do chão. A outra é que a perna precisa esticada no primeiro contato com o solo. Por causa disso, a marcha tem como característica um rebolado. Pra mim nunca foi estranho, porque era a profissão da minha mãe. Mas pra quem não tá acostumado, é esquisito. 

Na rua, o que eu mais ouvia era: “viado”, “vai trabalhar vagabundo”, “para de rebolar”, “vira homem”. Pras mulheres os xingamentos eram ainda mais fortes. Isso quando os motoristas não jogavam o carro na nossa direção, e a gente era obrigado a pular pro meio-fio. Agora, imagina você cansado, com sede, debaixo do sol quente e tendo que aguentar isso todos os dias? Eu não exagerando. Eram todos os dias.  

No começo, a gente marchava dentro do estádio. Ninguém queria sair pra ser humilhado. A gente treinava na rua no máximo no sábado, às 6 da manhã, pra ninguém ver. Eu fui quebrando isso dentro do clube. A gente não podia deixar a ignorância alheia limitar o nosso treino. Quantas pessoas não abandonaram a marcha por causa disso? E aí eu falava assim: “Hoje é a prova de fogo. 'Vamo' ter que treinar na rua”. 

[trilha sonora] 

Eu encontrava conforto nas pessoas que me apoiavam. Tinha gente que passava de carro e falava: “'Vamo' lá!”, “Bom treino!”. Mas acima de tudo eu tinha apoio em casa. Eu acho que, pra tudo na vida, o mais importante é ter suporte da família. Meus pais acreditavam em mim. Eles me davam confiança. Eu sempre fui elogiado como atleta pela minha parte mental. Mas na verdade a base dessa força eram os dois pilares que apanhavam junto comigo e absorviam algumas porradas que eu levava. Por causa da minha família, a caminhada não foi tão difícil. 

[trilha sonora] 

Com muita dedicação, os resultados foram chegando. A primeira Olimpíada foi a de Londres, em 2012. A minha mãe chegou a ter o índice pra disputar as Olimpíadas de Atlanta, mas não pode ir por causa de uma mudança na regra na última hora. Então, as Olimpíadas de Londres foi uma realização de um sonho coletivo. A família inteira viajou pra Inglaterra. A gente foi pra London Eye, aquela roda-gigante famosa, e passeou pela Abbey Road, em Liverpool, porque meu pai é fã dos Beatles. A minha colocação na prova não foi boa. Eu fiquei em 39º e saí carregado numa cadeira de rodas. Mas de qualquer jeito foi importante, porque mostrou que era possível estar entre os melhores do mundo. 

Nos Jogos Olímpicos do Rio, em 2016, o negócio ficou mais sério. Eu terminei em quarto lugar. É uma colocação ingrata, porque você quaaase chega no pódio. Mas foi um resultado que me fez acreditar no meu trabalho. Os meus pais eram meus treinadores e muita gente acreditava que essa relação não daria certo. Ninguém me pressionava, mas eu fazia questão de continuar desse jeito, porque eu confiava muito no trabalho do meu pai.

Meu pai revelou cinco atletas olímpicos, e todos trocaram de treinador quando ficaram grandes. Eu não queria fazer a mesma coisa. E aquele quarto lugar no Rio mostrou que a nossa parceria era boa
. E depois daquela Olimpíada eu brinco que o som da buzina mudou. Era sempre um “pã” e um xingamento, e hoje, é um “pan-pan”, 'vamo' lá campeão.” 
 

[trilha sonora] 

Em 2021, nas Olimpíadas de Tóquio, eu fiquei em 13º lugar. Esse resultado eu considerei um fracasso. A pandemia me interferiu muito, e eu percebi que algumas decisões erradas atrapalharam o meu rendimento. Mas foi ali que eu tive um papo comigo mesmo e decidi fazer algumas mudanças pras próximas Olimpíadas. Eu já sabia que eu era muito bom. Já treinava bem. Mas ainda tinha alguns pequenos detalhes que podiam fazer a diferença.  

coloquei no papel tudo que eu podia melhorar: me alimentar perfeitamente, dormir melhor e obedecer ainda mais todos os profissionais que estavam comigo. Se o fisioterapeuta me mandasse fazer os exercícios X, Y e Z, eu ia fazer exatamente o que ele mandou. O meu objetivo era terminar as provas de Paris e Los Angeles porque eu projetei duas Olimpíadas , olhar para trás e falar: “Cara, eu entreguei tudo que eu podia entregar. Se eu ficar em último lugar, eu tenho que ter muito orgulho, porque eu dei o máximo que eu podia”.  
 
2022 já começou o ano da obediência e da disciplina. No Campeonato Mundial, eu fiquei em sexto lugar. Eu tinha o que melhorar. No ano seguinte, ganhei a medalha de bronze e falei: “Agora eu tenho que manter esse padrão pra 2024”. E foi assim que eu ganhei a medalha de prata em Paris.  

[trilha sonora] 

Até hoje eu me emociono quando eu lembro disso. Quando eu cruzei a linha de chegada, me ajoelhei no chão. Alguém me entregou uma bandeira do Brasil, eu me enrolei nela e corri em direção à minha mãe. De longe eu falei: “Mãe, somos medalhistas olímpicos!”. O médico que estava do lado dela, porque ela estava passando mal, filmou esse momento. Aquela medalha não era só minha. Era da minha família inteira. 

Logo depois da prova, eu dei uma entrevista pra CazéTV que viralizou. Eu precisava desabafar. Mais difícil do que fazer uma prova de 20 quilômetros é viver de marcha atlética no Brasil. Uma vez meu pai me disse que com 25 anos ele tinha dois empregos, duas casas e dois carros. Ele me admirava porque eu não tinha nada, mas mesmo assim me dedicava ao esporte. Tem que ter coragem mesmo pra viver do atletismo e, ainda mais, de marcha atlética. 

A minha teoria é que todo mundo é uma estrelinha no céu. Existem alguns cometas Halleys brilhantes, que brilham mais do que tudo, tipo o Usain Bolt, Michael Phelps. A minha estrelinha lá brilhando e ela ia brilhar mesmo se eu não tivesse subido no pódio em Paris. Talvez o meu maior legado nem seja a medalha em si. O nosso projeto em Sobradinho, o Caso, hoje tem 35 marchadores. É uma garotada que pode marchar em paz na rua, sem sofrer a violência simplesmente por se dedicar à sua paixão. 

[trilha sonora]

Geyze
Diniz
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[trilha sonora]
 

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