Os caminhos paternos

Em uma viagem particularmente turbulenta, em um avião particularmente cheio

13 de Agosto de 2023


Em uma viagem particularmente turbulenta, em um avião particularmente cheio, havia um pai que não soltou a mão de sua filha por toda a uma hora e quarenta e cinco de trajeto. Observei-os por toda a viagem e foram muitos os assuntos conversados, a fim de distraí-la de um pequeno caos que parecia querer se instaurar. 

"Estamos indo em direção ao sol", disse ele quase que poeticamente, enquanto explicava a função das asas, o mecanismo dos motores, a quantos metros de altitude estávamos e qual o efeito das nem tão inocentes nuvens. Vez ou outra, escapava uma risada, mas o tom era calmo e professoral na maior parte do tempo. 

Pouco a pouco, a menina foi acalmando, assim como a chuva que causava o tumulto e que ficou abaixo das nuvens. Ali onde estávamos, havia um sol que começava a se despedir e um silêncio quase completo em toda a aeronave, não fosse a voz desse pai. Baixinho, ele não desistia de falar o que quer que fosse, só pra que a menina não esquecesse que ele estava ali.

Pensei: é impossível generalizar o papel paterno. Cada um o exerce à sua maneira, pois são infinitas e lindas as possibilidades. Mas, se fosse preciso definir um pai em uma só linha de raciocínio, seria essa: ainda que também esteja com medo da turbulência, ele não solta a mão de sua cria por todo o voo enquanto busca explicações que amenizem a dureza da realidade. E essa é, enfim, a sua linguagem de amor. 

Por um mundo onde o afeto seja universal e que todos os homens possam experimentar, ao menos uma vez, o contato com suas emoções mais profundas sem temê-las. E não há caminho mais bonito para isso se não o da paternidade. Feliz dia dos pais!

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29 de Novembro de 2019


Há dois séculos, passar dos 40 anos era algo incomum. Graças aos avanços médicos e sociais, porém, a expectativa de vida começou a aumentar num ritmo considerável no final do século 19. Hoje, chegar aos 80 anos é normal. E tudo indica que, dentro de pouco tempo, os centenários serão muitos. A ciência comemora o aumento da expectativa de vida como uma vitória na batalha da humanidade contra a morte. No entanto, como viver esses anos a mais? Vale a pena ter o luxo de ser mais longevo? Solidão e falta de recursos. O mundo acadêmico estuda essas questões na tentativa de prever como será a velhice dentro de meio século. Entre as investigações, descobrir como frear o aumento das desigualdades e da solidão, dois males especialmente associados às idades avançadas. Um caso extremo é o do Japão – proporcionalmente, o país com maior número de idosos, seguido da Espanha. A imprensa japonesa informou recentemente casos de idosos que cometem pequenos crimes, como roubos em lojas, para passar uma temporada na prisão. Ali, dizem, eles se sentem mais cuidados do que fora. Além de terem uma vida solitária, não têm dinheiro suficiente. No ensaio A Fin de Cuentas, Nuevo Cuaderno de La Vejez (Afinal de contas, novo caderno da velhice), ainda sem tradução no Brasil, o filósofo espanhol Aurelio Arteta propõe: “Assim como o jovem e o maduro costumam estabelecer fins e meios; metas; e o caminho até elas; não deveria o idoso sensato fazer algo parecido enquanto pode, e com maior razão ainda se esses fins e metas são, por definição, mais irrevogáveis que os percorridos pelas idades anteriores?” Por e-mail ao jornal El País , Arteta acrescentou: “Limito-me a imaginar que, em um número cada vez maior, os indivíduos transformarão a velhice prolongada em uma época de benefício para si, e não tanto de penosa espera da morte.” A vida se prolonga, e é preciso pensar o que fazer. Fonte: Cristina Galindo, para El País Síntese: Equipe Plenae Leia o artigo completo aqui .

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