Pensar na infância dos filhos é, principalmente, ouvi-la.
12 de Outubro de 2023
Pensar na infância dos filhos é, principalmente, ouvi-la. Ouvir seus sons característicos dos pratos batendo, o pulo na piscina, o grito de "o almoço está pronto!". Ouvir as risadas, a voz que ainda não firmou e não para de mudar, ouvir até mesmo as birras e brigas. Ouvir suas dúvidas, suas perguntas mirabolantes, suas frases desconexas que ganham um quê de doçura por serem ingênuas.
A infância ressoa, ela é mais do que um recorte no tempo, um período datado que se baseia na idade ou no desenvolvimento cerebral. A infância é, sobretudo, uma música. Ou várias músicas, que começam nas cantigas e vão até o pop pré-adolescente.
Ela é a composição sonora doméstica de roupas lavando enquanto o filho faz a lição de casa, das cadeiras arrastando, a bola rolando na sala de casa, o protesto para não tomar banho. A infância é o eterno barulho das chaves do carro para levar na casa do amigo, é a pergunta "posso dormir aqui? Deixa vai!".
E você deixa, mesmo sabendo que esses são os primeiros passos rumo a uma liberdade que não tem mais volta e só tende a crescer. E essa liberdade agridoce de se acompanhar. Ver um filho criar asas e ganhar o mundo com suas próprias pernas é como acompanhar um disco daquela banda que lançou vários álbuns premiados, mas começa a elaborar a sua turnê de despedida.
Isso porque agora, os integrantes dessa banda querem trabalhar seus projetos solo, "músicas mais maduras", eles costumam dizer. E iniciar um novo momento em suas próprias vidas onde a junção de notas continuará existindo, mas operando em outra frequência, com a participação de alguns convidados especiais, mas sendo, sobretudo, solo.
Nesse dia das crianças, esteja com seus ouvidos apurados para não perder nenhum som sequer dessa fase tão linda. Repleta de suas complexidades, é verdade, mas quando olhada de maneira integral, é um show à parte cujo camarote é reservado a vocês, pais. Não se distraia desse espetáculo pois, ao fechar das cortinas, não haverá bis. Ouça e, principalmente, sinta.
As primeiras notas da sanfona não nos deixam mentir: é tempo de festa junina!
24 de Junho de 2024
As primeiras notas da sanfona não nos deixam mentir: é tempo de festa junina! É tempo ainda de celebrar a união dos povos, de todos os santos e do nosso país, onde tudo vira motivo para semear a alegria e, por que não, uma boa comida. E afinal, quem é que não guarda no peito uma boa lembrança que envolva quermesse?
O barulho das biribinhas, acompanhados de risos estridentes das crianças travessas que ganharam muitas caixinhas dessas na pescaria. Suas primeiras coreografias dos primeiros anos, que procuram com seus olhinhos suas mães e pais orgulhosos e posam para as fotos ostentando suas pintinhas e bigodes falsos.
A cartinha inesperada que o correio elegante te entregou e que causou um sorriso instantâneo. Olhar a quadrilha se formando ao redor de uma fogueira - real ou fictícia - pouco importa, afinal, a sua presença ali é como um imã, cuja única finalidade é reunir, nunca separar.
O grito de "bingo", tão alto e tão vitorioso que corta até mesmo o sertanejo mais alto tocando na caixa de som. As roupas, as estampas xadrez e os chapéus, as botas e os cintos, a vontade de entrar na brincadeira e estar dentro do tema que mora um pouco em todos que frequentam esse espaço, até mesmo nos mais céticos. O cheiro do quentão que se espalha pelo ar e parece nos aquecer antes mesmo do primeiro gole. O milho em suas mais variadas formas, democrático como essa festa que é na rua, feita por todos e para todos.
E se dá seja dentro de uma escola, no pátio atrás de uma igreja e em uma rua sem saída, organizada por uma associação de moradores: são muitas as mãos envolvidas nessa celebração que dura um mês e deixa sempre um gosto de quero mais. Viva São João, a festa junina e as brasilidades todas que nos une e nos faz sentir um só!
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