Para Inspirar

O que estar entre a vida e a morte pode ensinar?

A experiência de quase-morte, também conhecida como EQM, pode deixar marcas profundas em que a viveu - mas lições igualmente profundas também

1 de Dezembro de 2023


No terceiro episódio da décima quarta temporada do Podcast Plenae, conhecemos a história transformadora de Aline Borges, que viu a morte mais perto do que gostaria, mas que viveu também uma conexão profunda e eterna com o divino. É por isso que ela representa o pilar Espírito nessa nova edição.

Acometida por uma condição raríssima - a síndrome de Guillain-Barré -, a enfermeira lutou pela sua vida desde o diagnóstico, quando os primeiros atendimentos ainda a descredibilizavam e não legitimavam os seus sintomas. Depois, lutou pela sua vida em coma, período de quase duas semanas e um grande apagão.

Por fim, lutou pela sua vida quando, ao tentar ser extubada - procedimento comum que visa tirar o tubo respiratório do paciente e fazê-lo respirar de forma natural - ela sofreu uma parada cardíaca. E foi nesse momento que Aline embarcou numa jornada que, no mundo terreno, teve apenas um minuto, mas no mundo espiritual, durou uma vida inteira.

Sua experiência consistiu em, principalmente, conhecer a figura que hoje ela acredita ser Jesus. Mas, mais do que isso, ela conta ter sido capaz de ver a sua vida toda passar como um filme, sobretudo os erros, para que ela pudesse aprender. Aline ainda revela ter sido expostas a acontecimentos que só se dariam no futuro - e que de fato se concretizaram com o tempo.

O que a nossa participante viveu não é inédito, apesar de ser único à sua maneira para quem vive. Diversas pessoas relatam ter visitado “o lado de lá” durante uma experiência de quase morte, as EQMs. Contamos um pouco mais sobre elas aqui, esse fenômeno cada dia mais observado também pela ótica da ciência, e não só pela ótica do sagrado.


Mas, afinal, qual o ensinamento que essas experiências deixam para quem as vive? Fomos atrás de relatos que pudessem nos dar algumas pistas!

“Tudo poderia ter acabado, mas não acabou”

A jornalista Tatiana Ferraz escorregou na escada de casa. O que parecia um acidente doméstico limitado foi o começo de uma outra jornada: no hospital, foi constatado um aneurisma cerebral, muito provavelmente causado pela queda. Isso a levou para a mesa de cirurgia, onde a morte era uma possibilidade clara. 

“Isso me modificou porque antes de entrar numa sala de cirurgia sabendo do risco, passa um filme na sua cabeça. Você lembra de tudo, lembra da infância, das pessoas, do marido, dos filhos. E isso faz com que, na hora que você acorda e vê que tudo passou e que você está bem e nada aconteceu, você olha pra tudo valorizando mais. Tudo poderia ter acabado, mas não acabou”, lembra.

No caso de Ferraz, não houve esse contato tão íntimo com o divino vivenciado por Aline. Mas houve um sonho. “Na véspera dessa cirurgia, eu sonhei com a minha mãe, que já é falecida. Ela veio no sonho, tocou meu coração e saiu andando. Eu acordei, lembrei muito desse sonho, imaginando que de onde quer que ela esteja, ela poderia me ajudar”, diz.

Para Tatiana, não é preciso que ninguém passe por essa experiência para valorizar mais a vida. “É uma vivência basicamente ruim, uma coisa de muito medo, angústia, apreensão. Mas ela ensina a ter paz, porque o que que tiver que acontecer, vai acontecer. É preciso esperar as coisas tomarem o seu rumo natural”, conclui.

“Eu queria que alguém tivesse me avisado”

Em um trecho de One More Time, música do trio californiano blink-182 que dá nome ao último álbum, o baixista e vocalista Mark Hoppus canta o seguinte trecho: “Eu gostaria que eles tivessem nos dito / Que não deveria ser preciso uma doença /

Ou aviões caindo do céu / Eu tenho que morrer para ouvir você dizer que sente minha falta? / Eu tenho que morrer para ouvir você dizer adeus?”.

A canção faz menção ao retorno da banda que, após algumas idas e vindas, resolveu entrar em uma turnê cuja essência é a nostalgia. Isso porque, mais do que uma banda, o trio é composto por amigos de longa data que se desencontraram em opiniões e preferências particulares. Esses desencontros não afetaram somente os rumos do grupo, como os rumos da amizade em si. 

Mas, em 2021, Hoppus foi diagnosticado com um tipo de câncer sanguíneo gravíssimo e em estágio avançado. Depois de uma longa jornada de tratamentos e contrariando algumas expectativas médicas, ele se curou e voltou a tocar. Mas, melhor do que isso: voltou a tocar com o blink-182.

A sua experiência de quase-morte, afinal, pode não ter sido tão súbita quanto a de Aline e de Tatiana, mencionadas anteriormente. Uma doença ameaçadora de vida traz ensinamentos igualmente poderosos e há ainda o agravante de se estender por dias, meses, mantendo o enfermo nessa condição reflexiva que é sim, muito angustiante, mas igualmente transformadora. 

“Para Hoppus, o ano passado não apenas aprofundou seu apreço por sua família e amigos, mas também o ensinou a lidar com o horror inesperado com humildade, graça, humor, e – esta é a novidade – um coração aberto que ainda está aprendendo a se sentir merecedor”, escreve Chris Gayomali, editor de artigos da GQ em sua entrevista com Mark Hoppus logo após a remissão de seu câncer. 

“Pensei muito sobre minha própria mortalidade, pensei muito sobre o que aconteceria quando eu partir”, disse ele. “E então tenho ouvido 'Adam's Song' e pensei: Sim, amanhã haverá dias melhores”, conta Hoppus na mesma entrevista, fazendo menção a uma música mais antiga de blink-182 que fala justamente sobre a morte. 

Esse foi meu chamado para despertar”

Vale dizer que o baterista da mesma banda, Travis Barker, também vivenciou uma experiência de quase morte em 2008, quando o jato particular em que ele voaria colidiu com um barranco ainda na decolagem, provocando um incêndio do qual somente ele e outro passageiro saíssem vivos. O acidente rendeu três meses de hospital, um livro de memórias com passagens marcantes sobre o acontecimento e mais de uma década sem voar. 

Um de seus principais aprendizados foi, na verdade, uma conquista: largar o vício em remédios. “As pessoas estão sempre tipo, ‘Você foi para a reabilitação?’”, comentou o artista em conversa com a revista Men’s Health. “E eu [digo] ,‘Não, eu estava em um acidente de avião’. Essa foi a minha reabilitação. Perder três de seus amigos e quase morrer? Essa foi a minha chamada para despertar. Se eu não estivesse em um acidente, provavelmente nunca teria desistido”. 

Hoje, superado o trauma, Travis olha para esses dias com profundo respeito, já que estar diante da morte de imediato o deu mais vontade de morrer. Ele conta que até mesmo ofereceu dinheiro para que terminassem com esse sofrimento e que a depressão na qual ficou mergulhado o fazia pensar no porquê de ter sobrevivido. E mesmo diante de toda essa carga emocional e física, ele conseguiu vencer o vício.

"Senti que a existência era aquilo. Como se o universo fosse aquele momento"

Uma reportagem do UOL Tab trouxe um relato impressionante e bonito de quase morte da jornalista Valéria Palma. Foi durante um acidente de carro, em 1991, que ela fez as pazes com a morte e realmente sentiu o momento chegar, ainda que ela tenha sobrevivido. "Foi o melhor momento da minha vida estar morta", conta ao site.

Na semana anterior, ela havia sonhado com um acidente de carro fatal. A lembrança desse sonho, que a tomou no momento em que estava presa às ferragens, soou como uma confirmação. “Senti que estava morrendo. Não era um raciocínio, mas uma consciência da morte. Percebi que estava indo embora", rememora. 

Seu único desejo era que a família soubesse que ela estava bem. Mas ao pensar nisso, em seguida foi sugada para um túnel extremamente branco. Seu corpo, como conta a reportagem, deslizou suavemente pelo túnel, onde não havia ninguém, e se dividiu em partículas que foram se diluindo na luz. Por fim, tornou-se parte dele. Mergulhou sem medo na sensação de leveza, paz e plenitude e quis ficar ali para sempre”.

 "Senti que a existência era aquilo. Como se o universo fosse aquele momento", recorda. Despertou numa maca do Hospital Municipal de Itanhaém, acreditando estar morta, pois não se viu voltando do túnel. Então ouviu vozes de dois médicos. "Ela acordou", disse um deles. Acabava ali a sua experiência de quase morte, experiência que a marcaria para sempre.

Apesar de não falar muito sobre o assunto, Valéria conta que a experiência de quase morte a acompanha o tempo inteiro — mesmo depois de 30 anos. Foi em um curso de tanatologia (estudo científico da morte), muitos anos depois, que ela ouviria pela primeira vez o termo EQM. Ela ainda conta que falar ajuda a afastar o desconforto inicial que o tema lhe causa. 

Ela não interpreta a experiência como sendo religiosa, mas sim espiritual, “por não ser desse mundo” - relato muito parecido com o de Aline. Mesmo sem saber onde esteve, ela abre um sorriso quando diz que era maravilhoso. "Na hora, tive a percepção de que ali era a origem da vida. A morte parecia ser a origem de tudo. É dali que tudo nasce. Portanto, é para lá que tudo vai", contou ao UOL. 

De lá para cá, ela trouxe o tema da morte à mesa e continua convivendo com a finitude. Há alguns anos foi voluntária na área de cuidados paliativos, que te contamos mais aqui, e também atua como terapeuta do luto. O segredo de não achar o trabalho pesado? Entender que partir é algo natural, uma viagem na qual todos nós embarcaremos. 

A gratidão que impera

Os relatos são infinitos, poderíamos trazer centenas deles aqui. Mas, o que parece comum a todos é uma sensação de gratidão que impera a todos que sobreviveram. Além disso, um outro ponto comum para aqueles que experimentaram “o lado de lá”, é retratá-lo como um lugar de paz, que dá vontade de ficar.


É certo que só saberemos o que há de fato na outra dimensão - se é que ela existe - quando a nossa hora chegar. Mas, fazer as pazes com a finitude pode ser um bom caminho para experimentar o que esses pacientes experimentaram sem ter que realmente correr risco de vida. Comece a praticar essa gratidão em estar vivo ainda hoje! Acredite: o amanhã não é garantido.

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Para Inspirar

Rafael Mantesso em “O meu melhor amigo é o meu cachorro”

Na quarta temporada do Podcast Plenae - Histórias para Refletir, conheça a relação intensa de Rafael Mantesso e seu cachorro, Jimmy

28 de Março de 2021


Leia a transcrição completa do episódio abaixo:

[trilha sonora]

Rafael Mantesso: A vida toda eu me forcei a fingir um personagem que consegue socializar. Eu tenho muita dificuldade de ler os sentimentos das pessoas, de identificar as emoções. Relacionamento é um desafio imenso pra mim. Mas, com o Jimmy, eu não tenho esse problema. Eu sei o que ele tá sentindo o tempo inteiro. Eu tenho por ele talvez um amor muito parecido ao de uma mãe por um filho. Mas o Jimmy não é meu filho, ele é meu cachorro. 

[trilha sonora]

Geyze Diniz: O ser humano vive para se relacionar e isso traz vínculos, pertencimento,  personalidade. Mas é engano nosso achar que essas relações para serem relevantes precisam ser estabelecidas somente entre pessoas. Hoje, trazemos o lindo relato de uma relação forte, inspiradora e cheia de afeto entre uma pessoa e seu cachorro.

 Vamos ouvir a história do Rafael Mantesso contando como sua relação com o Jimmy, um
bull terrier de 11 anos, faz dele mais do que um simples pet, e sim, seu melhor amigo, fonte de inspiração, afeto e muito amor. Ouça no final do episódio as reflexões da especialista em desenvolvimento humano, Ana Raia, para te ajudar a se conectar com a história e com você mesmo. Eu sou Geyze Diniz e esse é o Podcast Plenae. Ouça e reconecte-se.

[trilha sonora]

Rafael Mantesso: Quando eu me casei, minha ex-mulher e eu quisemos um cachorro. Eu pesquisei muito antes de escolher a raça. Se você jogar no Google: “Quero comprar um cachorro feliz pra minha família”, o primeiro resultado que aparece é o golden retriever. Não tem como não gostar de um golden.

Ele é maravilhoso, sem defeitos, a versão canina de uma loira correndo na praia de SOS Malibu. Mas eu prefiro bichos meio desajustados, esquisitos. Não é à toa. Vários estudos psicológicos relacionam donos e seus animais, inclusive na aparência. E eu sou um cara fora dos padrões considerados normais.

A minha pesquisa não deixou dúvida. O meu cachorro seria um bull terrier, uma mistura de buldogue com terrier inglês. Essa raça tem características que eu amo. Tem pelo curto, que é mais prático de cuidar e combina com o clima do Brasil. Late pouco, fundamental pra mim, que sou sensível a barulho. São teimosos, insistentes e obsessivos, um comportamento bem parecido com o meu. 

Os bull terriers foram geneticamente criados pra brigar com bois. Eles são muito resistentes e brutos, mas nem um pouco bravos. Na verdade, eles não economizam na demonstração de afeto. Eles têm uma característica de ficar girando e pulando ao redor do próprio rabo, tipo um touro de rodeio. É maravilhoso. São extremamente leais e cúmplices. Como todo cachorro, amam mais o dono do que a eles próprios. 

[trilha sonora]

A gente achou uma criadora responsável, que não faz cruzamentos consanguíneos, e escolheu um filhote macho. Eu queria colocar um nome bem estereotipado pra combinar com a fama injusta de agressivo que ele tem. Pensei em Kadafi, Shark, Killer, Massaranduba. A minha ex-mulher discordou. Ela achava que o nome tinha que ser o oposto da imagem que transmitia. Ela era estilista e adorava a marca de sapatos Jimmy Choo. Assim ele virou o Jimmy Choo.

[trilha sonora]

Durante 5 anos, o Jimmy foi o cachorro da casa. 

[trilha sonora]

Ele não era meu, era do casal. A minha ex passeava com ele de manhã e eu à noite. Ela era mais ligada aos bens materiais, por isso ela não deixava ele subir no sofá, nem na cama. Ele tinha que ficar lá na varanda. A minha relação com ele começou a se estreitar quando o meu casamento acabou, depois de 12 anos de relacionamento.

Comprei a parte da minha ex do apartamento e, na partilha, escolhi ficar com os quadros. São obras sem valor comercial, mas de muito valor emocional. Meu pai pinta e me deu uma réplica maravilhosa da Guernica, do Picasso. É um quadro de 4 metros, incrível. Nessa de escolher telas, ela ficou com os móveis. Quando fez a mudança, só sobrou pra mim no apartamento uma geladeira, uma poltrona... e o Jimmy.

[trilha sonora]

Eu gosto quando eu entro num imóvel que acabei de alugar ou comprar. Dá uma sensação de começar algo do zero. Mas, no divórcio, não foi isso que eu senti. Eu tinha um apartamento cheio, que de repente ficou vazio. Era um imóvel de quatro quartos, 90 metros quadrados. A sala fazia eco. Para diminuir esse incômodo, eu ia ao supermercado, pegava caixas de papelão e espalhava pela sala. 

Na mesma época, eu fiquei desempregado. Então, eu tinha bastante tempo livre e um cachorro cheio de energia, querendo atenção o tempo inteiro. Eu duvido que alguém tenha passado tanto tempo na vida brincando com um cachorro, sem mais nada pra fazer, sem mais nada pra olhar.

[trilha sonora]

Naquele apartamento vazio, a minha sensação é que eu tinha voltado pro meu quarto na casa dos meus pais, lá em Carangola, no interior de Minas Gerais. O quarto era um refúgio, um lugar onde eu não me sentia julgado, onde eu podia ser eu mesmo. Eu desenhava nas paredes pra extravasar meus sentimentos, porque o desenho sempre foi a minha melhor forma de expressão. Senti vontade de resgatar esse hobby pra ocupar o vazio que eu sentia por dentro e via por fora. 

E o que que eu ia desenhar? O meu único objeto de atenção naquele momento, o Jimmy. Eu acho que ele é o cachorro mais lindo do universo. Ele é branco, com umas orelhas marrons e a ponta do focinho com um formato de coração preto. Ele tem olhos pequenos e pretos, focinho comprido e um olhar delicado. Tem formas extremamente minimalistas, sem nenhuma quina, sem nenhuma curva. Ele parece que foi desenhado pela Apple.

[trilha sonora]

 Comprei carvão pra rabiscar as paredes e caneta de quadro branco pra pintar o chão, porque era fácil de apagar. Decidi criar cenários e fotografar o Jimmy dentro deles, com o meu celular. Eu passava a manhã inteira desenhando, pra ter a imagem pronta na melhor luz do dia, que eram umas 4 ou 5 da tarde. Eu desenhava, por exemplo, a cena da
Dama e o Vagabundo comendo espaguete. O Jimmy, claro, fazia o papel do Vagabundo. Desenhava uma bicicleta e fotografava o Jimmy numa posição em que parecia pedalar. 

A primeira foto que eu postei no Instagram foi do Jimmy posicionado atrás de uma caixa de papelão da altura dele. No papelão, eu desenhei as costelinhas dele e o coração vermelho no meio, como se ele tivesse passando por um raio-x. A imagem que viralizou foi a dele cantando. Na verdade, quando eu fiz essa foto, ele tava deitado de lado, meio que dormindo, abriu a boca pra bocejar e eu fiz o clique.

Desenhei um microfone e postei. Fui dormir com 10 mil seguidores e acordei com 60 mil, e uns 16 mil e-mails na minha caixa de entrada.  O post rodou o mundo inteiro e mudou a minha vida. O hobby passou a ser um trabalho e uma fonte de renda. A CEO da Jimmy Choo me convidou pra assinar uma coleção de acessórios com a imagem do Jimmy.

Foi a primeira vez que uma marca de grife fez uma coleção com um cachorro estampado. Publiquei um livro, fiz uma coleção pro cachorro da Donatella Versace, uma linha de pets pra Monclair. Fiquei amigo do Marc Jacobs, que também tem um bull terrier, e até ganhei um green card, como artista. Sem o Jimmy, nada disso teria acontecido. 

[trilha sonora]

 Quando o Jimmy já estava estourando na internet, uma neuropsicóloga da Nova Zelândia entrou em contato comigo pedindo permissão pra usar as imagens num trabalho com autistas. 

[trilha sonora]

Ela fez um teste que confirmou o que eu já tinha descoberto sozinho: eu tenho Síndrome de Asperger, um estado do espectro autista. No passado, eu achava que todo autista era igual ao personagem do Dustin Hoffman no filme
Rain Man. Alguém extremamente limitado, com dificuldade de fala. E não é assim, existem vários estados do espectro.

No meu caso, por exemplo, eu tenho bastante problema para interpretar linguagens não verbais, eu tenho dificuldade de me relacionar com pessoas, tenho intolerância ao barulho, hiperfoco e um apego muito grande à rotina.
No teste, eu descobri também que eu tenho transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, o famoso TDAH.

O diagnóstico encaixou um monte de peça na minha vida. Eu tenho motivos neurológicos pra ser do jeito que eu sou. Não é esquisitice, não é chatice, não é frescura, como um monte de gente costuma julgar. 

[trilha sonora]

Autistas têm uma proximidade muito grande com animais. É estatístico. Mais ainda não existem estudos que expliquem o porquê disso. No meu caso, um dos motivos é o hiperfoco. Eu sou obcecado pelo Jimmy. Outro motivo é que eu tenho mais facilidade de me relacionar com os cachorros do que com os humanos.

Eu entendo os sentimentos do Jimmy, e ele os meus. Quando eu tô triste, ele quer ficar sentado em cima de mim. Imagina um cachorro de 30 quilos no seu colo? É assim. Ele sabe que a presença física dele me acalma. Pra mim, ele funciona como um carregador de bateria. Ele faz a minha bateria ficar mais verde.

[trilha sonora]

O Jimmy não guarda mágoas. Se eu brigo com ele agora, daqui 5 minutos ele vem abanando o rabo e eu já perdoo ele na hora. Nós respeitamos o espaço um do outro. Quando ele quer ficar sozinho, eu não chamo ele. Pra mim as relações devem ser diretas e objetivas, mas os seres humanos, eles não são assim.

As pessoas dissimulam, dizem uma coisa querendo dizer outra, dão indireta. As pessoas mentem. São linguagens que eu não consigo decifrar. Com cachorro, não tem esse jogo. É óbvio que eu adoro conversas longas e profundas com amigos e namoradas e isso o Jimmy nunca vai me dar. Mas, a minha necessidade de afeto ele supre completamente. 

Parece que toda vez que eu chego em casa sou um beatle entrando num show. O Jimmy fez uma cirurgia na perna e tem dificuldade pra andar. Mas mesmo assim, ele não segura a explosão de felicidade. Ele vem derrubando tudo, me dando cabeçada. E o que ele expressa é exatamente o que eu sinto quando eu vejo ele. A troca é intensa dos dois lados. 

[trilha sonora]

Os bull terriers são muito mal compreendidos. Me incomodava demais as pessoas terem medo do Jimmy na rua. Descer com ele num elevador e ninguém entrar. Ele nunca nem sequer esboçou um latido ou um rosnado pra alguém, tanto é que é uma raça super indicada pra família com filhos. Criança enfia o dedo no olho do bicho, puxa o rabo, morde a orelha, sobe em cima... Os bull terriers adoram esse tipo de brincadeira.

Uma das bandeiras do meu trabalho é mudar a visão negativa que as pessoas têm da raça. Graças ao alcance global que o Jimmy ganhou, a gente conseguiu evitar que a raça fosse banida na Dinamarca e hoje as pessoas atravessam a rua para fazer carinho nele.

Eu uso a minha audiência pra conscientizar as pessoas de algo que elas não sabem. Meu trabalho não é mais sobre mim, é sobre os bull terriers e o autismo. Os autistas têm estatisticamente seis vezes mais chance de se matar na vida adulta do que uma pessoa neurotípica.

Na adolescência, o risco é 13 vezes maior. Eu calculo que já ajudei umas 150 pessoas a receberem diagnóstico tardio de Asperger, só por falar de vez em quando sobre a minha condição. Elas nunca tinham ouvido falar da síndrome. Pesquisaram sobre o assunto, foram atrás de psiquiatras e psicólogos e a vida delas começaram a fazer sentido.

[trilha sonora] 

Em algum momento da vida, eu acho que todo mundo se pergunta: o que que eu tô fazendo aqui? De onde eu vim? Pra onde eu vou? Eu tenho esses devaneios. Antes do Jimmy, eu não sabia com o que eu queria trabalhar, não sabia se eu era bom em alguma coisa. Ele me trouxe muitas respostas.

Se eu passar o resto dos meus dias mostrando pro mundo o tanto que ele me deu de amor, eu não vou conseguir retribuir o que eu já recebi dele. Sem o Jimmy, eu não teria parado pra pensar 1 minuto nos outros, eu estaria focado só pensando nos meus problemas. Ele é mais do que meu cachorro.

Ele é meu escudo, ele é uma inspiração, ele é meu alterego, ele é meu meio de expressão. Sem o Jimmy, eu nunca teria tido coragem de dar opinião e falar sobre mim, porque eu detesto holofote. Mas de alguma maneira ele me blinda, porque ele é a estrela do show. O Jimmy faz a minha vida valer a pena. 

[trilha sonora]

Ana Raia: Muitas vezes, a vida traz obstáculos enormes, tira nossos pilares afetivos e materiais, nos deixa sem chão. São momentos de ruptura em que a vida nos tira algo, mas também cria espaço para o novo. Nos convida para novas possibilidades e novas experiências.

Grandes rupturas são terríveis e benéficas, na mesma proporção. E quem escolhe aceitar a ruptura ao invés de resistir, costuma construir e viver bonitas narrativas de travessia. Sempre escutei, e acho que você também, que o amor cura e transforma, que o amor move montanhas, desperta coragem e alegra o coração.

É fato que quando o amor entra em nossas vidas ele traz movimento, consciência, afeto e propósito. Desperta em nós a vontade de sermos melhores, de fazer melhor. Ele expande a nossa vida. E Rafael exemplifica bem esse cenário que tem um tanto de amor e outro tanto de ruptura. Sem muita clareza do que fazia, apenas entregue ao flow da vida.

Depois de um clique, um desenho e uma postagem, ele viu e fez sua vida mudar. Nessa travessia ele se conheceu, encontrou significado em sua vida e transformou seu trabalho em causas. O amor e as rupturas, aparentemente tão antagônicas, podem ser as pontes para bonitas travessias. Só precisamos estar abertos para receber as rupturas e os amores em suas mais diversas formas.

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Geyze Diniz: Nossas histórias não acabam por aqui. Confira mais dos nossos conteúdos em plenae.com e em nosso perfil no Instagram @portalplenae.

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