Para Inspirar
O processo é individual e pode ser esclarecedor para questões tanto estruturais quanto do agora. Conheça um pouco mais sobre o assunto!
21 de Dezembro de 2022
O autoconhecimento é um processo lento, que demanda imersões intensas e muito comprometimento. Contudo, não há um único caminho possível para alcançar essa etapa tão importante para a experiência humana com qualidade. Uma vez dominado, o autoconhecimento abre portas para que você encaminhe sua vida com mais assertividade para onde se quer chegar, além de trazer mais equilíbrio para seus dias.
Um dos muitos possíveis caminhos para isso é fazer um Mapa do Nascimento.
“Os fundamentos desta metodologia estão na constatação de que todo problema pode ser resolvido na sua origem, pela raiz”, diz Adriano Calhau, especialista em Psicologia Perinatal e criador do Mapa do Nascimento, um processo que consiste em buscar autoconhecimento pelo seu próprio nascimento.
“O trabalho do Mapa do Nascimento primeiramente é um diagnóstico de como essas circunstâncias iniciais da vida programaram em nós uma espécie de roteiro que tendemos a repetir e atrair para sempre. Estudar as circunstâncias do nosso nascimento nos possibilita identificar a dor raiz e os ciclos viciosos criados pelo sistema de defesa do ego para evitar a todo custo sentir novamente essa dor. É um mapa da nossa primeira impressão, que depois no período da infância, contribui para a criação das nossas principais crenças sobre nós e também sobre o que é a vida”, continua.
Quando nascemos, estamos inermes, ou seja, “aquele que não tem armas ou meios de defesa”, segundo o dicionário. Essa “inermia” que sentimos nos primeiros minutos de vida é justamente o foco dos estudiosos do Mapa do Nascimento. “Nós fazemos a leitura da primeira impressão, da programação primária. Os atendimentos individuais comigo são feitos a partir de um questionário aberto, que contém aproximadamente 30 questões. Nele, a pessoa descreve fatos e circunstâncias de como aconteceram sua concepção, gestação, parto e as primeiras horas”, diz.
A quem se destina
É a partir dessas informações que é possível compreender as causas de muitos sentimentos e sensações que as pessoas muitas vezes carregam dentro de si, segundo ele. A maioria desses sentimentos e repetições estão ligados ao nosso período primário da relação, aquela que é feita somente com mãe e pai. Entre os sentimentos mais comuns estão:
Sentimentos de não merecimento
Dificuldade de criar relacionamentos íntimos
Dificuldade de conexão com os pais
Dificuldades em se aceitar
Não se sentir pleno na vida (não queria estar nesse mundo)
Sentimentos de solidão, abandono e vazio da vida
A partir dessas sensações, partimos para ação, e muitas delas são bastante nocivas. As pessoas que apresentam os sentimentos mencionados acima costumam agir com:
Medo do futuro e preocupação
Dificuldade de fazer as coisas sozinho ou de receber ajuda
Procrastinação e estagnação
Padrões persistentes de ansiedade
Medos profundos e paralisantes (claustrofobia, morte, medo do escuro, medo de não dar conta da vida)
“Existe essa padronização e percepção geral, mas é apenas com a leitura individual do Mapa do Nascimento e algumas sessões da Terapia do Nascimento, que é possível conhecer a fundo as causas e particularidades de cada um e iniciar um processo de ressignificação, focando nas forças e aprendizados”, diz.
Segundo Adrix, há diferentes públicos alvo possíveis. São eles:
Pessoas traumatizadas no início da vida com concepção não desejada, gravidez conturbada, prematuros, cesariana ou parto difícil;
Pais e mães que querem conhecer melhor seus filhos e descobrir como ajudá-los a superar desafios;
Mulheres que querem engravidar ou que tem muito medo de engravidar;
Grávidas que querem conhecer melhor o processo de nascimento para ter uma boa gravidez e parto;
Todos aqueles que querem conhecer melhor a si mesmo e já tentaram muitos tipos de terapias, mas não conseguiram encontrar as principais causas de sua dor e sofrimento.
A ciência na jogada
“Por algum motivo, muitos profissionais da saúde não se dedicam a estudar os impactos do nascimento na vida das pessoas. O justificado motivo científico seria o fato de que a mielina (substância que protege os neurônios) ainda não está formada. Constantemente, isso é utilizado para justificar o fato de não haver lembranças sobre o nascimento”, conta Adrix.
Porém, há sim alguns estudos feitos na área. A própria concepção de “inermia”, que mencionamos lá no começo, foi cunhada pelo psicanalista David Zimerman, em sua obra mais famosa, “Fundamentos Psicanalíticos: teoria, técnica e clínica”. Para ele, a palavra “trauma” vem do grego e significa algum tipo de ferida infligida precocemente ao psiquismo da criança e que pode levá-la a um estado de desamparo. Além disso, os conceitos de trauma e de desamparo aparecem com significados equivalentes e a repercussão dos traumas no psiquismo da criança é proporcional à precocidade de seu estado de inermia (a falta de defensividade).
Ou seja, esses traumas psicológicos ficam representados no ego da criança, de modo que acontecimentos posteriores, aparentemente banais, podem evocar essas representações traumáticas, trazendo desamparo, pânico desproporcional ao que aconteceu e intensa angústia. Vale dizer que todos os traumas estão ligados - de uma forma ou de outra - a violência cometida contra o ser humano.
“No ano 2000, o neurocientista austríaco Eric Kandel recebeu o prêmio Nobel de Medicina por ter estudado o mecanismo de memória em um caracol. Ou seja, ficou comprovado de que sequer é preciso ter um córtex cerebral para que se tenha memória. Durante a última década, descobertas revolucionárias na área da neurociência e da psicologia também abalaram teorias antigas a respeito das primeiras fases do desenvolvimento, demolindo nossas mais respeitáveis tradições sobre como somos formados e também para a criação de filhos”, explica o especialista.
Universidades como Yale, Princeton e Rockefeller tiveram seus estudos sobre o tema alcançados internacionalmente. Todas elas revelaram que, a partir do momento da concepção, o cérebro da criança é conectado ao seu meio ambiente, e essa interação não é apenas um aspecto do desenvolvimento do cérebro, como se pensava, mas sim, um requisito absoluto que faz parte do processo desde os primeiros dias no útero.
“Até recentemente, a maioria dos psicólogos concordava que, antes dos três anos de idade, a experiência tem uma influência limitada sobre a inteligência, as emoções e a estrutura do cérebro. Porém, as últimas descobertas da neurociência provam que essas ideias são incorretas. O cérebro é sensível à experiência ao longo de toda a vida, mas são as experiências tidas durante os períodos críticos da vida pré-natal e imediatamente seguinte ao parto que organizam o cérebro”, diz.
Nosso cérebro e, por extensão, nossa personalidade, emerge dessa interação complexa entre os genes com que nascemos e as experiências que temos. Ou seja, a genética entra sim no balaio do que nos compõe, mas não é a única determinante. Todo processo biológico deixa uma impressão psicológica e todo evento psicológico modifica a arquitetura do cérebro.
“É sabido que o nosso DNA é 50% da mãe e outros 50% do pai, mas a ciência nos últimos anos descobriu algo tão importante como os nossos genes que se chama Epigenética. Esse novo estudo comprova a influência do ambiente sobre os genes, no momento em que eles são transmitidos. Por isso é tão importante conhecer qual foi o ‘terreno’ e qual foi a ‘intenção’ de como a nossa semente foi plantada. Agora sabemos o que sempre nos pareceu verdade intuitivamente – que a separação entre psique e corpo, ou natureza e educação, é impossível”, completa.
Em resumo, são as primeiras experiências que determinam em grande parte a arquitetura do cérebro e a natureza e extensão das faculdades mentais dos adultos. E a Psicologia Pré e Perinatal já está de olho nisso. Ela, que começou dar seus primeiros passos na década de 70, e incorpora pesquisa e experiência clínica em áreas de ponta, como epigenética, embriologia, saúde mental infantil, apego, trauma precoce, neurociências do desenvolvimento, estudos da consciência e outras novas ciências - e recentemente foi assunto da importante revista americana - a Time Magazine - com a capa "Como os 9 meses moldam o resto da sua vida".
Sua base defende que todo feto possui a capacidade de transformar experiências em “memórias”; essa memória é arquivada na mente inconsciente do feto, mesmo que ela ainda esteja em desenvolvimento; e todos esses registros farão parte de sua bagagem inconsciente para o resto da vida do ser e exercerão influência sobre a sua personalidade, sobre sua conduta e sobre seu comportamento.
Depois do diagnóstico
Para realizar o Mapa do Nascimento, ainda não há uma formação específica, mas a psicologia, como você pode perceber, é um bom caminho para iniciar nessa trajetória. Após a sua consulta, o método Mapa do Nascimento possui etapas bem claras de ressignificação que são:
Diagnóstico da dor original surgidas nas circunstâncias do seu nascimento
Compreender o surgimento das crenças raízes e também da forma de sentir, agir e reagir
Utilizar a dor original para descobrir dons e virtudes capazes de transformar as crenças em novas experiências
Ter uma visão clara do aprendizado essencial de Vida e qual o foco da ação correta.
“Isso pouco a pouco vai criar no sistema cerebral novos caminhos sinápticos e um novo modo de ver e agir diante do mundo”, conclui Adrix. Uma dica de ouro é, após o diagnóstico, absorver aquelas informações - lembrando que nenhum campo de estudo no mundo é uma verdade absoluta e incontestável - e levar para a sua terapia. Com a ajuda de um especialista, você conseguirá lidar melhor com aquelas informações e aplicá-las em seu comportamento de maneira efetiva. Bom mergulho!
Para Inspirar
Inspire-se com o episódio de Propósito da décima oitava temporada do Podcast Plenae - Histórias para Refletir!
1 de Dezembro de 2024
Aline Bertolozzi: Quando eu coloquei os pezinhos do Léo na areia pela primeira vez e a onda do mar bateu em nossas pernas, eu falei no ouvido dele: “Filho, lembra que eu te contava na UTI como era a praia? Lembra que eu falava como a vida era boa?”. Ele abriu o maior sorriso.
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Geyze Diniz: Aline Bertolozzi lutou pela sobrevivência de seu filho, Léo, desde a barriga. Léo ainda precisa de aparelhos para viver, o que o manteve dentro de quatro paredes por muito tempo. Percebendo os benefícios de viver a vida “lá fora”, a família de Aline criou a ‘Outcare’, uma mochila que permite incluir socialmente pessoas eletrodependentes e seus cuidadores. Eu sou Geyze Diniz e esse é o Podcast Plenae. Ouça e reconecte-se.
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Aline Bertolozzi: No primeiro ultrassom da gravidez, estava tudo normal. Então, eu e meu marido programamos fazer uma viagem pro exterior pra fazer o enxoval do Léo nos Estados Unidos. A gente já até sabia que era um menino, mas me deu algo que eu não sei explicar. Eu fiquei pensando: e se o exame tivesse errado? E se fosse uma menina? Não sei por que.
Foi então que eu pedi pro médico repetir o ultrassom antes da viagem. E aí, com 17 semanas de gestação, o resultado mostrou que o nosso bebê tinha várias alterações sérias. A gente começou a investigar todas as possíveis síndromes e doenças que poderiam ter causado aquelas deformações. E um dos exames mostrou que ele tinha uma síndrome raríssima, chamada Síndrome de Chaos.
O Chaos, ele é só uma má formação nas vias aéreas do bebê. Ele é uma obstrução em dos aneizinhos que a gente tem na traqueia. Apesar de parecer simples, os médicos me explicaram que a qualquer momento eu teria um aborto, porque um feto com essa síndrome não chega a nascer com vida. O coração do Léo estava esmagado por um acúmulo de líquido e ia parar de bater.
Naquele momento, os médicos me deram duas escolhas. Eu podia entrar na Justiça e conseguir uma autorização pra um aborto legal. Ou eu podia fazer de tudo pro Léo sobreviver o máximo de tempo possível. Eu não tive dúvida. Eu escolhi deixar a minha vida em função da vida do Léo.
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Os médicos que me acompanhavam naquele momento me disseram que havia um médico especialista em medicina fetal e que talvez ele pudesse nos acompanhar. Havia sido ele quem tinha feito a primeira cirurgia do mundo de traqueostomia intraútero. E talvez, se meu filho fizesse essa cirurgia, ele teria uma única chance de sobreviver. Essa cirurgia inédita aconteceu só 15 dias antes da gente receber o nosso diagnóstico. Eu achei tão curioso duas grávidas terem a mesma síndrome raríssima na mesma época, no mesmo lugar com os mesmos médicos.
A gente procurou esse médico de medicina fetal e ele falou que não podia fazer a nossa cirurgia. Ele explicou que precisava esperar o outro bebê nascer pra saber se tinha dado certo. Ele não queria fazer duas cirurgias experimentais uma atrás da outra. Mas eu implorava pra ele me operar. Eu insisti tanto, que ele falou pra gente fazer uma reunião com a equipe médica pra então decidir se ele faria essa cirurgia ou não.
Só que, no dia do exame, não deu pra ver nada. O Léo estava virado de cabeça pra baixo, ele estava bem encolhido e não se mexia. O médico, que era super experiente, tentou diversas formas, diversas manobras pra mudar o Léo de posição, mas ele não conseguiu. E aí, o médico, meio desapontado me disse: “Filha, vai para o quarto hoje. Amanhã, às 9 horas da manhã, a gente faz uma reunião com os médicos”.
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Eu queria muito ter o Léo. Eu nunca tive problema em aceitar que ele seria uma criança com deficiência. A minha única dificuldade era entender o porquê ele não ia nascer. Mas eu não queria ser egoísta e pensar só em mim. E naquela noite, eu rezei muito e eu pedi muito pro Léo: “Filho, se você quer uma chance de nascer, me dê um sinal”. E pela primeira vez, em toda gravidez, eu senti minha barriga mexer. O Léo nunca tinha se mexido, porque o coraçãozinho dele não tinha forças pra mais nada.
No dia seguinte, a gente voltou pra sala de ultrassom. E quando o médico colocou o aparelho na minha barriga, na hora ele falou: “Eu não acredito. O Léo virou. Ele tá na posição que eu precisava”. E então ele disse: “Léo, agora só falta você levantar o pescoço”. E o Léo levantou o pescoço e ficou parado. O médico se emocionou e na hora ele afastou a cadeira, sem nem perguntar a opinião dos outros médicos, e disse: “Eu opero esse bebê”.
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E foi assim que, com 24 semanas de gestação, nós nos tornamos a segunda família no mundo a passar pela traqueostomia intraútero.
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A cirurgia foi um sucesso. No dia seguinte, o corpinho do Léo já estava todo normal. O problema foi que eu peguei uma infecção, e o parto do Léo aconteceu com 25 semanas. E ele nasceu com pouco mais de 5 meses de gestação, pesando apenas 630 gramas. Da sala de parto, ele foi levado direto pra UTI neonatal. Estava indo tudo bem, mas com 1 mês de vida ele foi acometido por uma infecção no intestino e precisou ser levado às pressas para uma cirurgia.
Os médicos saíram super desanimados do centro cirúrgico e liberaram a minha família pra se despedir dele na UTI. Até então, só eu e o meu marido podíamos estar com o Léo. Eu não queria aceitar que o Léo que tinha lutado tanto pra sobreviver estava indo embora, eu me neguei a dizer que seria uma despedida. Então eu falei pra minha família que agora eles podiam finalmente conhecer o Léo. Eu queria que o clima na incubadora fosse de alegria e não de tristeza.
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O Léo sobreviveu às primeiras 24 horas depois da cirurgia. Dois dias se passaram, três dias, uma semana… Os médicos nem sabiam explicar muito bem o que estava acontecendo, que ele continuava vivo. Eu sempre buscava alguma coisa positiva pra contar pro Léo. Teve um dia que uma moça que tava limpando a janela da UTI, ela esqueceu uma frestinha aberta e um raio de sol batia na incubadora do Léo. Então, eu abri a incubadora dele e falei: “Filho, você não vai acreditar. O dia tá lindo. Um dia nós vamos sair daqui e eu vou te levar na praia”.
E aí todos os dias eu passei a contar pro Léo como era a praia, como era a areia, como era o vento. Os médicos, nessa época, começaram a duvidar da minha sanidade. Achavam que eu não estava entendendo a gravidade da situação. Teve uma que me falou assim: “Aline, você não está sendo egoísta? Se ele sobreviver, ele vai ser só um vegetal, qual a condição você quer esse filho?”. E eu falei: “Doutora, hoje ele tá vivo? Então vamos pensar no hoje, porque se ele vai morrer, nem adianta imaginar o futuro”.
No meio desse caos, teve um dia em que os médicos finalmente deram uma notícia boa: os exames estão estáveis. A gente ficou muito feliz só de saber que o Léo não tinha piorado. E aí meu marido decidiu ir embora do hospital um pouco mais cedo, pra assistir o jogo do São Paulo na TV. Só que, na esquina de casa, ele foi assaltado e levou um tiro no pescoço.
A bala atravessou a traqueia, a laringe, a faringe e queimou as cordas vocais. Foram 10 dias em coma e os médicos disseram que a condição dele era muito grave. Se ele sobrevivesse, ele ia ficar tetraplégico, porque o tiro trincou os ossos das duas vértebras. Talvez nunca mais ele falasse e ainda tivesse sequelas neurológicas.
A minha reação foi a mesma que eu tive quanto eu tive o diagnóstico do Léo: façam tudo que a medicina puder pra salvar a vida dele. Se eu tivesse que empurrar duas cadeiras de rodas, pra mim tava tudo bem. Eu só queria os meus meninos vivos, não importava em qual condição.
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Nesse período, eu nem voltava mais pra casa. Eu ficava indo de um hospital pro outro, dormindo em qualquer poltrona, comendo qualquer comida. Eu repeti a mesma estratégia que eu usava com o Léo. Quando eu visitava o Léo eu falava: “Filho, o papai tá morrendo de saudade de você. O papai ficou muito feliz que você melhorou”.
Ia visitar o Rodrigo e falava: “Ro, você não vai acreditar, o Léo tá lindo, ele engordou. Ele tá morrendo de saudade de você. Fica tranquilo e descansa, que com a gente tá tudo bem”. É óbvio que nos corredores e dentro do táxi eu chorava, mas eu só passava mensagem positiva pros dois.
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Dez dias depois do assalto, os médicos tiraram meu marido do coma induzido. Todos os médicos ficaram surpresos porque ele acordou falando. Ele contou que tinha tido um sonho, que sonhou com a gente, nós estávamos no aeroporto, o Léo estava grandinho, e tinha muitas pessoas dando tchau para a gente E não foi só isso. No primeiro dia, o meu marido se levantou e tomou banho de pé.
A neuro que acompanhou o caso falou pra gente: “Eu não sei qual é a religião de vocês. Mas a medicina não explica o que aconteceu aqui”. O meu marido não ficou com nenhuma sequela do tiro. Ele teve alta 14 dias depois do assalto e no décimo quinto dia já estava de volta pro trabalho. O sonho que o meu marido teve em coma e a recuperação dele deixaram bem claro pra nós que a gente tinha uma missão a cumprir. Só que, enquanto isso, a situação do Léo continuava grave.
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Ele teve um sangramento na retina por nascer prematuro e acabou ficando cego. Ele teve uma hemorragia cerebral que o deixou com paralisia cerebral. Depois de 6 meses nessa UTI Neonatal, nós transferimos ele de hospital. E depois de 11 meses pudemos levar o Léo para a casa de home care. Com 1 ano e 8 meses, meu filho só tinha passado alguns meses em casa, em home care. E a minha vida só girava em torno dos cuidados dele.
Até que um dia, ele teve uma febre e a gente levou ele pro hospital sem saber o que ele tinha. E ele então foi diagnosticado com uma infecção generalizada e foi levado às pressas pra a UTI. Foram 4 meses e diversas complicações. E foi um dia, eu falei pra médica: “Doutora, eu sei que a situação do Léo é grave. Mas, se ele for morrer, eu queria que ele morresse na minha casa”.
A médica concordou e a gente optou por um sistema inédito no Brasil que é a desospitalização sem home care. Eu e meu marido fomos treinados pela equipe do hospital pra fazer todos os cuidados que o Léo precisava. Chegamos em casa e o Léo teve uma piora da parte respiratória, A médica aconselhou que a gente levasse o Léo de volta pro hospital, mas eu pedi pra ela: “Doutora, me dá 24 horas. Se em 24 horas o Léo não melhorar, eu levo ele de volta pra UTI”. Ela ficou na dúvida, mas acabou aceitando o meu pedido.
Eu estava sozinha em casa nessa hora. Olhei pro Léo e pensei: o que que a gente vai fazer com essas 24 horas? Então, eu decidi levar ele no parquinho do prédio. Eu amarrei o respirador, a bomba de infusão, o oxímetro, o oxigênio. Coloquei algumas malas nas minhas costas, montei uma UTI naquele carrinho e desci no parquinho. E foi então, que o Léo ouviu vozes de crianças e ele abriu o maior sorriso. E depois desse dia, o Léo nunca mais teve nenhuma internação hospitalar prolongada. Já faz 8 anos que ele tá em casa.
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Naquele dia, eu descobri que viver cura e decidi fazer tudo diferente a partir dali. Eu diminuí as terapias do Léo e parei de buscar mais médicos e mais especialistas. A gente começou a passear, primeiro bem perto de casa, e depois um pouco mais longe. Um ano depois, nós precisávamos fazer uma viagem pro Rio e a gente levou o Léo pra passar 48 horas na cidade.
Quando a gente chegou no Rio de Janeiro, decidimos subir o Cristo Redentor. Lá em cima a gente precisou aspirar a traqueia do Léo, um procedimento que necessita de energia elétrica, mas o segurança proibiu que a gente usasse a tomada. A gente precisou descer correndo para o carro para usar a bateria e voltamos para o hotel indignados.
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Eu falei pro meu marido, a gente não pode ficar dependente de pessoas e tomadas, nem todos serão bons e disponíveis em ajudar, e se a gente pegasse uma bateria de caminhão, será que a gente não conseguiria fazer uma adaptação? Aí o meu marido, que estudou engenharia elétrica, falou que a gente podia pegar simplesmente uma bateria de moto, colocar numa mala e não depender de mais tomadas.
E eu achei a ideia incrível.
Quando a gente chegou em casa, o meu marido arranjou a bateria, a minha mãe costurou uns velcros na mala pra prender e o meu irmão comprou as peças que faltavam para montar a nossa mochila. Depois disso, a gente não dependia mais de energia elétrica. Nós fomos pro parque, nós fomos pra praia e voltamos a aceitar convites pra eventos sociais, pra show, pra estádio de futebol...
Eu contei essa história no Facebook e as minhas seguidoras apelidaram a mala de “mochila do amor”. Com aquela mala, nós podíamos fazer o que queríamos, o nosso problema estava bem resolvido, mas eu sabia que não éramos as únicas pessoas naquela situação. Tem no mínimo 300 mil pessoas eletrodependentes no Brasil. São adultos e crianças com ou sem deficiência presos a aparelhos. E pra cada uma dessas pessoas, existem famílias inteiras trancadas em casa, doentes e/ou deprimidas.
Um dos meus posts sobre isso na rede social viralizou, e uma agência de publicidade me convidou pra transformar a mochila em um produto. Eu chamei a médica que cuida do Léo e assim nasceu a Outcare, um projeto para incluir socialmente as pessoas eletrodependentes e seus cuidadores. A gente passou um ano testando o protótipo da Outcare. A gente tomou chuva, sol, foi pra praia e até fizemos uma viagem de motorhome nos Estados Unidos.
Em dezembro de 2023, 50 famílias receberam uma mochila, doadas pelo Hospital Samaritano. O hospital tá acompanhando essas crianças em um estudo clínico pra ver e avaliar o impacto na qualidade de vida antes e depois da Outcare. O nosso projeto está só começando e a gente já ganhou 20 prêmios internacionais. Em 2024, nós fomos o único case brasileiro entre os finalistas do Festival de Publicidade de Cannes, na categoria farmacêutica.
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O meu objetivo é que mais empresas abracem essa ideia e que a OutCare chegue também ao SUS, pra que todas as famílias com pessoas eletrodependentes, com ou sem dinheiro, possam conquistar autonomia e a liberdade, e voltar a sorrir. Assim como a minha.
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Geyze Diniz: Nossas histórias não acabam por aqui. Confira mais dos nossos conteúdos em plenae.com e em nosso perfil no Instagram @portalplenae.
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