Para Inspirar

Nizan Guanaes em "Redescobrindo a religião"

Na décima primeira temporada do Podcast Plenae, ouça o relato de fé e gratidão do publicitário Nizan Guanaes.

10 de Abril de 2023



Leia a transcrição completa do episódio abaixo:

[trilha sonora]

Nizan Guanaes: Eu tenho trabalhado bastante o conceito de gratidão. Uma pessoa competitiva e ambiciosa como eu tem a tendência de ficar só vendo o copo vazio, o que falta. Ao acordar, eu canto uma musiquinha que eu mesmo compus. Os primeiros pensamentos da manhã te dão uma sintonia do dia. A música é assim: “Eu agradeço, meu Deus, por mais este dia de vida, por tanta graça recebida, ó, Deus da minha vida. Eu agradeço, meu Deus, por tudo que me destes ou tirastes. E prometo fazer a minha parte neste dia de vida”.

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Geyze Diniz: Após sofrer as consequências de ter se dedicado muito ao trabalho e ao seu sucesso, Nizan Guanaes retomou o rumo da sua vida e voltou a cuidar do seu corpo e da sua alma. Após se reorganizar, Nizan redescobriu sua religiosidade e hoje busca resgatar cada vez mais a sua espiritualidade. Eu sou Geyze Diniz e esse é o Podcast Plenae. Ouça e reconecte-se.

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Nizan Guanaes: A minha história é um giro de 360 graus. Ou seja, como alguém dá uma volta completa para retornar a si mesmo. Eu nasci em Salvador, dentro da Bahia barroca, na frente de duas igrejas: a Ordem Terceira e a Nossa Senhora do Carmo. A religião me atraiu desde cedo. Eu sou descendente de libaneses católicos, por parte da minha mãe. A minha avó era muito religiosa. Mas não foi a família que me levou pra igreja. O meu avô, que me influenciava muito mais do que minha avó, era completamente ateu. A minha mãe sempre foi comunista, então ela também nem acreditava em Deus. A espiritualidade é algo da minha natureza. 

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Durante a juventude, eu me envolvi ativamente com a igreja católica. Compus mais de 50, 60 músicas religiosas, cantei no coral. Mas depois eu fui mergulhando cada vez mais no trabalho e saí do eixo. Eu perdi minha identidade pra valer depois que eu mudei pra São Paulo, em 1985. Quando a gente muda de cidade, ganha um monte de coisas boas, mas perde outras também, se não cultivar o vínculo com o lugar da origem. E eu não cultivei. Eu me afastei da Bahia, me afastei dos amigos, me afastei de mim. Isso não acontece só com o Nizan. Boa parte das pessoas na vida moderna cai de cabeça no trabalho e larga o resto. Eu alcancei o sucesso profissional muito cedo. Sucesso é um troço maravilhoso e perigoso. O meu me trouxe mais problema dos que eu já tinha. Eu ganhei tudo no Festival Internacional de Publicidade de Cannes. Só que em vez de celebrar a vitória, sofria por antecipação, pensando se ia ganhar de novo na próxima edição. Fui um dos caras mais vencedores nas premiações de publicidade no mundo. A minha agência foi eleita a melhor do planeta em 1997 e de novo em 1998. Só que eu nunca fui feliz em Cannes. Ficava alegrinho, mas não feliz. Odiava Cannes porque eu não tinha inteligência emocional pra aguentar a pressão.

[trilha sonora]

Eu comecei a descarregar a ansiedade na comida, no álcool, no cigarro, no café. 

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Precisava tomar remédio pra dormir e obviamente não fazia um pingo de exercício físico. Enquanto eu perseguia o sucesso, eu fui esquecendo do meu corpo, das minhas relações e do meu espírito. Quando você se perde, a casa cai. [trilha sonora] Eu engordei imensamente, de maneira mórbida. O Nizan de 150 quilos era um vendaval de emoções. Uma pessoa mercurial, explosiva. Com pouco autocontrole no garfo e na vida. [trilha sonora] O meu pai morreu de infarto aos 45 anos e eu não podia continuar com aquele peso. Eu fiz uma bariátrica de uma maneira muito atabalhoada, como tudo que eu estava fazendo naquele momento. Tomei a medida certa, da maneira errada, sem o menor planejamento antes, sem os cuidados que eu deveria ter depois, como apoio psicológico, um programa de esporte e acompanhamento de um nutricionista. E aí eu tive um problema muito comum entre as pessoas que fazem essa cirurgia. Eu só não virei alcoólatra, porque eu não gosto de beber. [trilha sonora] Com a bariátrica, o efeito do álcool era elevado à décima potência. No início, é um porrezinho numa festa. Aí depois começa a ser um porre num jantar de negócios na quarta-feira. Um ano depois da operação, aquilo começa a afetar o casamento, a família, a empresa.  Às vezes a gente tem que tomar um chacoalhão pra corrigir a rota. O meu cardiologista, Roberto Kalil, me falou: “Nizan, você tá fumando demais, bebendo demais, comendo demais, trabalhando demais. Com o seu histórico familiar, isso não vai dar certo. Você vai morrer”. Foi ele que me apresentou pro Arthur Guerra, psiquiatra que me ajudou a mudar o estilo de vida. [trilha sonora]

Quando conheci o Arthur, ele me disse na lata uma frase demolidora: “Nizan, você é tão bem sucedido e tem uma vida tão pobre”. Durante muitos anos, eu vesti o personagem do sucesso e o que é pior: acreditei demais nele. Era um sujeito arrogante, de coração bom, mas desagradável. O Arthur me ajudou a desconstruir essa criatura que eu inventei. Me ajudou a perceber que eu tinha deixado de ser uma pessoa física pra me tornar uma pessoa jurídica.  O Arthur tem uma abordagem holística, muito parecida com os pilares do Plenae. Ele transformou a minha rotina me entupindo de esportes e tirando os remédios que eu tomava. Com ele, eu converso sobre o corpo. E com uma analista da clínica dele, sobre a alma. O esporte cuida muito bem do corpo. O corpo cuida muito bem da alma. É um ciclo. O Arthur me botou pra fazer triatlo e maratona. Ele me fez descobrir um mundo que acorda às 5h da manhã e dorme, exausto e feliz, às 10h da noite. Como diz o maravilhoso escritor japonês Haruki Murakami, que é também maratonista, toda alma doente precisa de um corpo são. Com a psicanálise e a psiquiatria, eu fui me organizando, juntando meus pedaços e abrindo espaço para resgatar a minha religiosidade. Aos poucos, fui voltando a ser uma pessoa mais próxima do Nizan que nasceu em Salvador. [trilha sonora] Por ser baiano, eu tenho uma ligação com o candomblé, que não é uma religião, é um culto à natureza.  [trilha sonora] Se você perguntasse à Mãe Menininha do Gantois qual era a religião dela, ela ia dizer católica. Essa mistura faz parte da Bahia. Não é muito racional, mas eu gosto dela. Eu sou filho de Xangô, um orixá gordo, festeiro, que gosta de dançar, que é mais estourado e compra brigas. Hoje eu sou um Xangô domado. [trilha sonora] As pessoas têm muito preconceito com o candomblé, por ser o culto de uma raça, entre aspas, vencida. Mas ele é belo, ele é ecológico, ele é diverso. Ele aceita todo mundo. Nesse sentido, o candomblé sempre foi muito mais avançado que a própria igreja católica. Não a igreja que Jesus construiu. A igreja de Jesus aceitava cobrador de imposto, Maria Madalena, e era aberta a qualquer um. Eu faço vários questionamentos à igreja. Não ao cerne dela, a Jesus, ao evangelho e à Bíblia, mas à maneira como a instituição se comunica. Eu tenho muito orgulho da minha ligação com o terreiro do Gantois, embora hoje o que me guia seja a religião católica. Nós vivemos num mundo negativamente fluido. Uma sociedade onde todo mundo é tudo. Quem diz que segue todas as religiões, na realidade, não segue nenhuma.  [trilha sonora] Eu cuido cada vez mais do meu lado espiritual, mas ainda menos do que preciso. Voltei a frequentar a missa, voltei a rezar, voltei a ler a Bíblia. Sou um católico que estuda como um evangélico. Porque tem católico que não vai à missa, não lê nada. É como um corintiano que não sabe o hino do Corinthians, nem acompanha os jogos do time. Esse ano, eu me fiz uma promessa de frequentar a missa duas vezes por semana. A cerimônia me organiza internamente. Assim como o exercício, a alimentação, o trabalho e o sono, a espiritualidade entrou na minha rotina. Eu sou de uma geração que desprezava a rotina, só que a rotina liberta. Nessa minha redescoberta da religião, eu aprendi que a Bíblia não é só um texto. Ela é uma palavra viva. Você lê uma passagem num dia e ela não te diz nada. De repente, você lê o mesmo trecho em outro dia e… abracadabra! Parece que a cabeça se expande. A Bíblia é quase um metaverso.  Nessas leituras, eu me identifico muito com o apóstolo Pedro, porque tem horas que eu nego três vezes. Eu tenho crises de acreditar se Jesus é de fato Deus. Embora, quanto mais eu leio a Bíblia, mais eu acredito nela e Nele. Se o texto é mentiroso, a mentira foi orquestrada no detalhe.  Às vezes, eu abro a minha Bíblia aleatoriamente. Recentemente, em três dias consecutivos apareceu uma passagem de quando Jesus entrou em Jerusalém. Ele fala assim pros discípulos: “Vocês vão encontrar um jumentinho na entrada de Jerusalém. Soltem o jumentinho e tragam aqui pra mim. Se alguém perguntar por que vocês estão fazendo isso, respondam que o Senhor precisa dele e em breve devolverá”. Os discípulos vão e acontece exatamente o que Jesus falou. Aí eu fico pensando o seguinte: “É muito, muito, muito detalhe pra ser mentira”. São quatro evangelistas contando as mesmas histórias por ângulos diferentes. Toda equipe de cinema tem um profissional chamado continuísta, a pessoa responsável pela coerência da narrativa. Os caras que escreveram a Bíblia deviam trabalhar com o Spielberg, porque tem muita continuidade. Tudo tem nexo. [trilha sonora] Com essa minha busca por Deus, eu não pretendo ser o que eu não sou. Não vou me transformar em Dalai Lama. Eu não quero virar nuvem. Eu continuo gostando de dinheiro, continuo gostando de trabalhar e me desafiar. Eu só quero ser uma pessoa melhor. [trilha sonora] O Dalai Lama, a propósito, diz em um livro que 20% das pessoas já nascem felizes, com o sol na cabeça. A Donata, minha mulher, é uma delas. Ela é equilibrada, moderada de fábrica. Nós, que fazemos parte dos outros 80%, só seremos felizes por mérito, correndo atrás. Eu fui um gordinho feliz na infância, já prenunciando um neurótico na adolescência e, depois, completamente desfocado e descuidado na vida adulta.

Com a ajuda do Arthur Guerra e de sua equipe, e com obstinação, disciplina e mérito meu, hoje eu desfruto mais da vida. Foram as minhas pernas que me levaram ao consultório do Arthur e foi o meu arbítrio de seguir suas recomendações pra valer, meu arbítrio.

É preciso ter disciplina pra vencer todo dia a si mesmo. A felicidade é uma conquista diária. Ela é feita de estabelecer prioridades, tem método e inclui dizer não. Portanto, bom dia, boa tarde, boa noite e boa vida. Todo santo dia. E aí, deixo aqui uma pergunta: na sua agenda sobra tempo pra ser feliz? [trilha sonora] Geyze Diniz: Nossas histórias não acabam por aqui. Confira mais dos nossos conteúdos em plenae.com e em nosso perfil no Instagram @portalplenae. [trilha sonora]

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Para Inspirar

Flores para os Refugiados em “A beira da praia pode ser um lugar seguro”

Na quarta temporada do Podcast Plenae - Histórias para Refletir, conheça o trabalho inspirador de Gabi e Kety, em Flores para os Refugiados

25 de Abril de 2021


Leia a transcrição completa do episódio abaixo: 

[trilha sonora]

Gabriela Shapazian: Ninguém escolhe ser refugiado. São pessoas como eu, como você, com a diferença que sofreram um trauma que a gente nem consegue imaginar o tamanho. Eles perderam tudo: os bens, a dignidade, muitas vezes a família. Eles saem de casa e vão pra outro lugar desconhecido recomeçar a vida do zero. E ainda são mal recebidos quando chegam. Um homem do Iêmen me disse que era a primeira pessoa que olhava ele no olho, sem ar de superioridade. Eu trato os refugiados de igual pra igual, porque é assim que eu gostaria de ser tratada se tivesse no lugar deles. Quem disse que um dia eu não posso ser uma refugiada também? Eu não sei o que vai acontecer com o mundo daqui a 10, 30, 50 anos. Se eu tiver que entrar num bote de borracha pra fugir da guerra ou da miséria, eu quero que do outro lado do mar tenha alguém pra me receber com um abraço.  [trilha sonora]

Geyze Diniz: A ativista Gabriela Shapazian se dedica a ajudar refugiados desde os 16 anos. Ela se apaixonou pela causa quando trabalhou como voluntária na Grécia ao lado da mãe, Kety. As duas recepcionavam pessoas que atravessavam o mar em condições precárias vindos do Oriente Médio, da África e da Ásia. Nessa viagem, Gabi mudou a sua visão de mundo. A vida confortável que ela levava em São Paulo deixou de fazer sentido pra ela. E para financiar o trabalho da filha nessa missão humanitária, Kety criou um negócio: o Flores para os Refugiados. Ouça no final do episódio as reflexões da especialista em desenvolvimento humano, Ana Raia, para te ajudar a se conectar com a história e com você mesmo. Eu sou Geyze Diniz e esse é o Podcast Plenae. Ouça e reconecte-se.

[trilha sonora]

Kety Shapazian: Em 2015, as notícias sobre a crise dos refugiados na Europa me abalaram muito. Eu me sentia impotente vendo milhares de pessoas atravessando o mar em barcos precários. Vendo crianças morrendo afogadas. Vendo autoridades de braços cruzados. A minha filha, Gabriela, de tanto me ouvir reclamar, falou: “Faz alguma coisa, mãe, compra a passagem e vai pra lá ajudar”. 

A gente começou a pesquisar sobre o assunto. Encontramos no Facebook um grupo de voluntários na ilha de Lesbos, na Grécia. Comprei uma passagem pra dezembro e reservei um hotelzinho numa praia chamada Skála Sykamineas. Naquela época, a maioria dos barcos com refugiados chegava naquele ponto. 

Na mesma época em que eu ia pra Grécia, a Gabi tava de viagem marcada pra Itália. Ia passar duas semanas de férias em Roma e Milão, com a minha mãe. Mas ela começou a se empolgar muito mais com a minha viagem do que com a dela. Queria ir comigo de qualquer jeito. 

Eu não estava pronta pro que eu ia ver na Grécia. E me perguntava: será que era certo levar uma menina de 16 anos junto comigo? Mas Gabi me convenceu e eu resolvi arriscar. Ela foi passear na Itália e depois pegou um voo sozinha pra me encontrar em Lesbos. O plano era a gente passar 10 dias juntas trabalhando. [trilha sonora]  Gabriela Shapazian: Skála Sykamineas é uma vila de pescadores, com cerca de 100 moradores, a maioria idosos. Fica só a 10 quilômetros de distância da Turquia. Quando você olha pro mar, dá pra ver a Turquia do outro lado. A vila tem uma ruazinha com um hotel pequeno, um café, um restaurante e um mercadinho. Essa rua termina na praia e, à esquerda, vira uma estradinha paralela à costa. A vila estava lotada, o que não era normal, por ser inverno.

Eu cheguei num fim da tarde. E na manhã seguinte, me vi no meio da linha de frente da maior crise humanitária desde a Segunda Guerra Mundial. Os voluntários estavam divididos em dois grupos. Uma parte ficava na terra e outra em barcos de resgate. Era ilegal tirar os refugiados do bote e colocar eles no barco de resgate. Voluntários já foram presos por salvar pessoas que estavam morrendo afogadas. Então, o jeito era encontrar o barco clandestino no meio do caminho e acompanhar ele até a praia. 

Eu fiquei no grupo da terra. Por rádio, o pessoal do mar avisava: “Tem um barco vindo pra praia de Skala. Vai chegar daqui a 20 minutos. Tem outro indo pra praia tal”. Eu lembro quando vi meu primeiro barco. Na verdade, foram dois, que chegaram quase ao mesmo tempo. Primeiro, vi um pontinho preto lá longe. Depois, outro. Quando chegaram mais perto, identifiquei que eram botes de borracha. Escutei grito, chora, reza. Era uma média de 100 pessoas em um barco feito pra caber umas 20. Na primeira vez que eu vi essa cena, eu quase comecei a chorar. 

Quando o barco chegou, não sei muito como explicar, bateu um negócio em mim que aquela emoção se transformou em foco. Eu não podia entrar em desespero. A meta era tirar o povo do barco o mais rápido possível, sem que ninguém caísse na água. No nervosismo, as pessoas pulavam do barco e ficavam 100% encharcadas. Muita gente chegava literalmente morrendo de frio, com hipotermia. A temperatura variava entre 5 e 10 graus. Em alguns dias, fazia 0 graus, menos 1, menos 2. Por ser ilha, ventava muito, um vento gelado.  Fui lá e ajudei a tirar primeiro as crianças, depois as mulheres e por último os homens. O procedimento é colocar todo mundo em terra firme e checar se alguém precisa de médico. Depois, ajudar a tirar os coletes salva-vidas e acalmar as pessoas, porque elas chegam super nervosas. Quando todo mundo percebe que tá bem, que os filhos estão bem, a mulher, o marido, os irmãos... É uma felicidade muito grande. Eu nunca vi felicidade que nem aquela e provavelmente nunca mais vou ver.  [trilha sonora]

Kety Shapazian: Em um dos meus primeiros barcos, uma família chegou e quando viu que estava em terra firme, eles se abraçaram. E eu estava ali do lado e fui abraçada junto com eles, pai, mãe e filho. Eles choravam, gritavam, agradeciam a Deus por estarem vivos. Foi um momento lindo. Muita gente falava: “Vocês são as primeiras pessoas boas que a gente encontra no caminho”. A trajetória deles é longa. Esses refugiados não saíram da Turquia, eles saíram da Síria, saíram do Afeganistão, atravessaram todo o Irã e depois atravessaram a Turquia. Saíram do Paquistão, que é mais longe ainda. Tinha gente que chegava do Sri Lanka, de Bangladesh, de países africanos. As pessoas demoravam meses pra chegar naquela praia onde nós estávamos e finalmente pisar em solo europeu. [trilha sonora]

Gabriela Shapazian: Na cabeça dos refugiados, atravessar o mar era a parte mais difícil. E a gente sabia que eles ainda iam ter muitos desafios pela frente. 

[trilha sonora]

Eles iam ter que ir pro campo de refugiados, que é um lugar horrível. Iam ter que dormir lá, passar frio, esperar autorização, depois atravessar não sei quantas fronteiras a pé até chegar na Alemanha, onde pediam asilo. É uma jornada longa. Mas, naquele momento, eles estavam muito felizes e aliviados por estarem vivos.

A nossa prioridade, depois de tirar todo mundo do barco, era levar as pessoas para um campo de transição, construído pelos voluntários no meio da estrada, e dar roupa e sapato seco para todo mundo. Depois a gente distribuía comida, água e chá. Os refugiados ficavam ali umas 2 ou 3 horas, antes de serem levados pro campo onde podiam se registrar. 

Enquanto um grupo de voluntários cuidava de quem tinha acabado de chegar, outro já corria pra receber os barcos. Eu olhava pro mar e dava pra contar: um, dois, três, quatro, tudo ao mesmo tempo. A gente chegou a receber dez barcos, com cem pessoas dentro de cada um, no intervalo de uma hora, em uma praia minúscula. Minha mãe e eu acabamos ficando 45 dias, não dez. Não tinha a menor possibilidade de eu ir embora e passar janeiro inteiro de férias em casa, fazendo nada.

Por mim, eu largava a escola e nem voltava pro Brasil. Mas a minha mãe fez questão que eu terminasse o Ensino Médio. Eu voltei pra casa chorando e decidida a retornar para Europa na primeira oportunidade que eu tivesse. A minha cabeça tinha virado do avesso. Eu estava 100% focada na causa dos refugiados e só pensava em voltar para a Grécia. 

[trilha sonora]

Kety Shapazian: Quando a Gabi falou: “É isso que eu quero fazer da minha vida”, eu comecei a pensar numa forma de ganhar dinheiro pra bancar o sonho dela. Ser voluntário é caro, porque você paga pra trabalhar. Eu tinha saído de um emprego e estava perdida, procurando o que fazer. Até que o destino se encarregou de me dar uma luz. 

A Gabi estava enlouquecida em São Paulo, querendo ajudar os refugiados. Aí a gente foi até uma ocupação de palestinos e sírios, no centro da cidade. Na primeira porta que a gente bateu, conheceu um rapaz e a mulher dele, grávida de 6 meses. Ela não estava fazendo pré-natal, não tinha enxoval. Aí eu levei ela no médico, organizei um chá de bebê na minha casa. E nesse chá de bebê, eu ganhei uma garrafinha com umas florzinhas. Na hora eu falei: “Nossa, é isso que eu vou fazer. Eu vou vender flor."  [trilha sonora]

Só que eu não sabia nada sobre arranjo de flor. As únicas vezes que eu comprei flor na vida foi pra enfeitar numa casa em festa de Natal. Eu não sabia quanto pagar, quanto cobrar, nem onde vender. Aí eu comprei umas garrafinhas, umas florzinhas, montei os arranjos e fui vender por 15 reais num farol perto de cada. Aí pronto. Por causa disso, a minha mãe parou de falar comigo. O rapaz que passeava com os cachorros me viu e perguntou se eu estava bem. Um menino da escola comentou com a Gabi que tinha me visto vendendo flor na rua. A Gabi achava o máximo, e foi isso que me deu força. Porque estar no farol foi uma experiência alucinante. As pessoas fechavam o vidro na minha cara, faziam sinal de “não” com a mão. Eu me sentia muito mal. Hoje, eu tenho receio de fechar a janela do carro e magoar alguém na rua. 

[trilha sonora]

Muita coisa aconteceu dessa experiência pra cá. Os arranjos viraram um negócio oficial. Eu criei uma marca chamada Flores para os Refugiados. A Gabi é minha sócia na empresa e parte do lucro financia o trabalho dela. Transformei a minha casa num ateliê, formei uma clientela, criei uma identidade própria, usando folhagens diferentes, cores vibrantes.

Eu sempre falo: eu preciso fazer um arranjo tão bonito quanto o trabalho da minha filha. O Flores para os Refugiados não existe sem a Gabi. E o trabalho dela não existe sem o Flores para os Refugiados. São duas coisas que andam de mãos dadas. Tem cliente que nem quer saber sobre o projeto. Mas também tem gente que compra e fala: “O arranjo é lindo, mas o trabalho da sua filha é maravilhoso e eu quero apoiar”.

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Gabriela Shapazian: Eu voltei pra Europa várias vezes. Muitas das pessoas que foram pra Grécia em 2015 fundaram organizações não-governamentais. Como eu conheço elas, sou convidada pra vários projetos. Já trabalhei em escolas, dei aulas de inglês, ajudei os refugiados a fazer currículo, dei informações, organizei logística para receber doações… Enfim, várias atividades. 

Em 2017, trabalhei em campos de refugiados na Sérvia. As pessoas eram torturadas pela polícia quando tentavam cruzar a fronteira para sair do país. Elas chegavam com braço, perna, costela quebrados, com mordidas de cachorro no corpo inteiro. A maioria era formada de menores desacompanhados. Eu não aguentei ficar lá. Nessa viagem, descobri que eu preciso fazer pausas, de tempos em tempos. Tenho que sair de cena pra esfriar a cabeça. Tudo isso é muito pesado emocionalmente. [trilha sonora] Mesmo com todas as dificuldades, eu sou muito feliz no meu trabalho. Os meus valores mudaram completamente. Fico super brava quando a minha mãe reclama que não tem dinheiro. Penso 6 meses antes de comprar qualquer coisa. Eu reflito: “Preciso mesmo disso?” Vi famílias prontas pra atravessar a Europa a pé com uma sacola de plástico, porque perderam absolutamente tudo. E dentro da sacola tinha uma garrafa de água e uma fruta.

Trabalhar com refugiados abriu o meu olhar para todo o resto, como o morador de rua que mora perto da minha casa desde sempre. A gente nunca tinha conversado com ele. E quando voltamos de Lesbos pela primeira vez, minha mãe foi perguntar se ele precisava de alguma coisa. No convívio com pessoas tão diferentes de mim, eu aprendi que o estranho não é ruim. Ele é só desconhecido.

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Kety Shapazian: Uma vez me perguntaram: “A Gabi não vai pra faculdade? Não vai um dia dar entrada no apartamento? Comprar carro? Ficar noiva?” Eu falei: “Não sei, pode ser. Mas isso não tem importância pra gente”. Eu me sinto muito sortuda de ser mãe da Gabi, mas eu também permiti que ela se tornasse esse ser humano maravilhoso que ela é. Eu vejo muito pai e mãe reclamando de filho, mas só exige do filho que ele vá pra faculdade. E de repente o futuro daquele jovem não tá numa sala de aula. 

A coisa mais certa que eu fiz na vida foi ter levado a Gabi comigo pra Grécia. Eu me arrependeria profundamente se ela não tivesse ido. Hoje, eu vejo que era ela que tinha que estar lá, não eu. [trilha sonora]

Ana Raia: Se colocar nos sapatos de outra pessoa, compreender os sentimentos e perspectivas alheias e usar isso para guiar nossas ações é o real significado de empatia. E empatia cria um lugar sem julgamentos, é capaz de promover grandes transformações individuais e sociais. Há quem defina a empatia como a habilidade mais valiosa e funcional do nosso século e eu concordo. A história de Gabriela é um bom exemplo da potência da empatia. A jornada empática que ela trilha começou com a mãe e se estendeu para o mundo. A mãe de Gabriela, a Kety, é empática com os sentimentos e desejos da filha e na empatia encontra coragem para desviar de padrões e alimentar o propósito de sua filha. Já a Gabriela, ao se colocar no lugar dos refugiados e sentir com eles os seus roteiros de vida, se permitiu mudar a rota de sua vida. A empatia dela salva o mundo que salva o mundo dela. Pesquisas mostram que nascemos com empatia, mas precisamos praticá-la ao longo da vida e sabe como? Uma dica é praticar a escuta ativa, sem julgamentos e livre de preconceitos. Eu gosto muito dessa frase: Você julga a dor do outro como tempestade em copo d'água porque não viu como essas nuvens se formaram. Você só pode entender as pessoas e ajudá-las se senti-las na pele e entender de onde elas veem, como pensam e pelo que passaram. Nesse lugar, a conexão verdadeira floresce e soluções ativas podem surgir para reparar qualquer conflito. E Gabriela confirma isso. Com a sua vivência, ela experimenta a verdadeira conexão com o outro e com o mundo. Por onde passa, gera transformação social, revoluciona as relações humanas porque empatia é amor.  [trilha sonora]

Geyze Diniz: Nossas histórias não acabam por aqui. Confira mais dos nossos conteúdos em plenae.com e em nosso perfil no Instagram @portalplenae. [trilha sonora]

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