Para Inspirar

Luciana e Marcella Tranchesi em "A espiritualidade é qualquer caminho que te aproxima de Deus"

O terceiro episódio da décima quinta temporada do Podcast Plenae é das influenciadoras digitais Luciana e Marcella Tranchesi, representando o pilar Espírito

14 de Abril de 2024



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Marcella: Quando você é criança, você segue rituais religiosos porque te ensinaram a fazer aquilo. Depois que você cresce, incorpora ou não aquilo que faz sentido para você. O meu amadurecimento aconteceu junto com a doença da minha mãe. No meu momento de maior fragilidade, fui entendendo o que é a espiritualidade.

Luciana: Eu lembro que eu pedia muito, muito pra Deus me tirar tudo e devolver a minha mãe. Eu tinha 22 anos, eu sabia que isso não era possível, mas eu pedia como se fosse. Eu me imaginava morando na rua, mas com a minha mãe ao meu lado.

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Geyze Diniz: As irmãs Luciana e Marcella Tranchesi sempre foram muito unidas. Entre os muitos assuntos em comum, a fé também é um deles. A dupla foi criada em um ambiente católico e aprendeu desde cedo com a sua mãe, Eliana, que a espiritualidade tem que estar nas ações e não só nos pensamentos. Eu sou Geyze Diniz e esse é o podcast Plenae. Ouça e reconecte-se.

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Luciana: A espiritualidade pautou a minha vida desde o minuto em que eu nasci. Eu venho de uma família muito católica. A minha avó materna, Lúcia, era uma mulher de tanta fé, que ela quase não se casou pra ser freira. Ela só mudou de ideia porque foi convencida pelo meu avô, o Carlão, de que ela poderia continuar fazendo o bem e ensinando sobre Deus, mesmo sendo casada.

Eles tiveram 6 filhos: 5 homens e a minha mãe, Eliana. Todos sempre foram super espiritualizados. A minha mãe teve três filhos. Eu, Luciana, sou a do meio. Quando eu tinha nove meses, eu me afoguei na banheira da casa onde a gente morava. Eu entrei em coma por 5 horas, mas eu saí do coma sem nenhuma sequela. A minha tia foi me visitar no hospital e viu a imagem de Nossa Senhora. Minha mãe, super devota de Nossa Senhora das Graças, ficou ainda mais religiosa.

Marcella: A nossa família é muito unida. A gente vivia com os nossos tios e primos. Em qualquer celebração, tipo o aniversário de alguém, tinha uma missa ou uma benção pra agradecer a saúde, a família e mais um ano de vida. A gente se juntava também nos cenáculos, que são como uns grupos para rezar o terço de uma maneira mais completa. Nas férias do meio do ano, eu viajava com as minhas primas e minhas tias pra ficar uns 15 dias num convento, em Jauru, uma cidadezinha no interior do Mato Grosso.

A mamãe ensinou a gente a rezar. Todo santo dia a gente rezava com ela. Domingo era dia de missa, onde quer que estivéssemos. É engraçado que, quando a gente conversa com pessoas que não cresceram numa família religiosa, elas se lembram da primeira vez que elas participaram de algum ritual, tipo uma missa. Eu não tenho essa lembrança, assim como eu não lembro a primeira vez que eu pulei numa piscina. A fé foi crescendo com a gente de uma forma muito normal. Não era um grande acontecimento, era só parte da nossa rotina.

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Luciana: Na minha opinião, religião e espiritualidade são duas coisas um pouco diferentes, que não necessariamente andam juntas. Eu cresci religiosa, mas a minha noção de espiritualidade mesmo veio quando a minha mãe foi diagnosticada com câncer. Eu tinha 15 anos. E ela só tinha 50.

Eu me lembro de procurar, mais do que a religião, a espiritualidade em todas as religiões. Eu queria achar uma explicação pro que estava acontecendo. Essa busca foi também uma influência da minha mãe. Ela, apesar de sempre ter sido super católica, buscava acima de tudo a espiritualidade e a devoção incondicional a Deus.

Marcella: O meu amadurecimento aconteceu simultaneamente com a doença da mamãe. Eu sou um pouco mais nova que a Lu, tinha 13 anos na época e, claro, menos entendimento da real situação. Mas como o tratamento foi um processo longo, a gente cresceu na fé e na espiritualidade. Quando as coisas saem do nosso controle, a gente percebe que talvez não faça sentido se prender a conceitos tão racionais.

A mamãe sabia que ia morrer. Lógico, todo mundo sabe disso, mas ela sabia com uma precisão maior. Então, ela foi preparando a gente pra esse momento, espiritualmente falando. A minha mãe expandiu pra gente o conceito de religião. Ela mostrou que a espiritualidade tem que tá nas nossas ações, não só no nosso pensamento. É fazer o bem, é ser grato, é olhar no olho, é ser educado, é doar o seu tempo, o seu dinheiro e o seu carinho pra quem precisa.

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Luciana: O tratamento da mamãe durou 6 anos.

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Logo que ela morreu, eu tive uma depressão durante um ano e meio, dois. Eu só queria ficar deitada, fugindo de tudo que estava acontecendo, fugindo do tempo que parecia ser meu maior inimigo. Quanto mais ele passava, mais distante a lembrança, o cheiro e o toque da minha mãe ficavam.

Eu lembro que eu perguntei pro meu irmão: “Quanto tempo eu posso ficar aqui na cama?”. Ele falou: “Um mês”. Eu achei que seria suficiente mas eu passei muito mais tempo assim. Eu dormia o dia inteiro, que é um sintoma clássico de depressão, e eu comia muito. Eu não tinha energia pra nada. Até tomar banho era difícil. Eu não perdi a fé em Deus. Pelo contrário. Eu botei tanta fé Nele, que eu pedia algo impossível. Sem Ele teria sido muito mais difícil. Eu estava num fundo do poço tão grande e Ele era meu maior aliado, nunca deixei de rezar, de agradecer e de pedir força.

Marcella: Um ano antes da mamãe falecer, eu quase fui morar fora do Brasil. Não deu certo. Na época eu não entendi muito bem, mas foi a melhor coisa que aconteceu, porque senão eu teria passado os últimos oito meses de vida da minha mãe longe dela. Fiquei no Brasil e passei no vestibular. A mamãe morreu numa sexta-feira, 24 de fevereiro, numa emenda de Carnaval.

As aulas voltaram na segunda. Eu não tinha a menor vontade de ir, mas eu pensei: “Se eu me permitir folgar uma semana, eu já vou me permitir o primeiro mês. Se eu perder o primeiro mês, eu vou perder o primeiro semestre”. Ninguém falou nada, mas eu senti que a minha mãe gostaria que eu assumisse aquela responsabilidade. Eu faltei na segunda, mas na terça-feira eu fui pra faculdade. Foi um semestre insuportável. Como as aulas tinham acabado de começar, eu não conhecia ninguém.

A morte da mamãe repercutiu na mídia. Ela era uma empresária famosa, dona de uma butique também famosa, a Daslu, que ela herdou da mãe dela. Só que na minha classe ninguém sabia que eu era filha daquela mulher que apareceu no Fantástico. Eu não tinha com quem conversar, exceto a irmã do meu namorado na época que estudava em outra sala, e uma amiga do cursinho. Eu já tinha uma ideia de que eu não podia chegar pra pessoas de 18 anos e jogar no colo delas: “Oi! Minha mãe morreu tem três dias”.

Então, eu fiquei muda e fui sobrevivendo. Eu ia todo dia pra faculdade e assistia às aulas. E aí reparei que os professores iam lendo meu nome na chamada e percebendo quem era a minha mãe. Eu ia chorar no banheiro e fingia um resquício de vida normal que eu ainda tinha, pelo menos na parte da manhã, porque o resto do dia eu passava na frente da TV.

Fui me arrastando, fingindo que estava tudo bem e meio que engolindo aquele luto. Eu cheguei no final do semestre esgotadíssima de encenar aquele teatro que eu mesma criei. E aí a Dani, nossa querida madrasta, me levou no psiquiatra, e eu comecei a melhorar. Não foi a melhor forma de lidar com o luto, mas foi a que eu consegui pra não perder a faculdade.

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Luciana: A minha depressão estava se arrastando, mas a minha sorte é que eu tinha uma família, que sempre foi o alicerce da minha vida. Eu tinha meus dois irmãos, eu tinha meu pai e eu tinha minha madrasta. Eu e meus irmãos continuamos morando na casa da mamãe por uns seis, sete, oito meses, só nós três. Até que um dia meu pai falou: “Não, vocês precisam vir morar comigo”.

Foi nessa época que eu comecei a ir ao médico. A minha madrasta que marcava a consulta e me levava pela mão. Eu estava no fundo do poço, mas eu queria continuar ali. Eu não queria ir no médico. Eu não queria tomar remédio. Eu fingia que tomava o remédio e parava de tomar por minha conta. Eu dei muito trabalho pra minha família durante quase dois anos, entre altos e baixos que foram ficando cada vez menos extremos, até que eu engravidei. E aí, a minha vida voltou a ter sentido.

Ficar grávida do Antonio foi o que me deu razão pra viver. Ele foi uma virada de chave na minha vida, uma conexão espiritual muito grande, porque eu tenho certeza absoluta que a minha mãe e Deus me enviaram ele. Quando o Antonio tinha 2 anos, ele falou que ele tinha visto a vovó Eliana. Eu falei: “Filho, que legal! Foi um sonho?” Ele: “Não, mamãe, antes de vir para cá, pra esse mundo”. Esse é só um exemplo, mas tiveram vários episódios assim. Ele fala de uma conexão com ela, ele tem saudade dela, chora por ela.

Ele sempre se interessou muito pela minha mãe, perguntou muito por ela. Não acho que foi uma influência minha porque, inclusive quando ele era menor, eu nem trazia tanto a memória dela com receio de não conseguir segurar a emoção. Eu mal conseguia falar dela sem chorar. Na verdade, eu fui me acostumando a falar sobre luto pra conseguir suprir essa demanda do Antonio de querer saber tudo sobre ela.

Por isso que eu acredito muito que a alma dele foi escolhida e me foi enviada por Deus e pela minha mãe. O Antonio não é um simples acaso na minha vida. O Antonio pra mim é o meu propósito de vida.

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Marcella: Depois da morte da mamãe, não demorou muito pra gente retomar os rituais católicos. Eu levo muito a espiritualidade pro lado de fazer o bem, de ajudar o próximo, de buscar ser uma pessoa melhor, de não julgar o outro. Procuro também entender as mensagens bíblicas não necessariamente de maneira literal. Por exemplo, a gente ouvi muito que o mandamento mais fácil de seguir é “não matar”. Mas ele não diz respeito somente à morte física. É também não matar a reputação, a esperança de alguém.

Quando falamos da promessa de casamento de ser pra sempre, nossa mãe saiu das quatro linhas. Ela se separou do meu pai, mas eles continuaram amigos até a morte dela. Pra uma pessoa muito caxias, ela tava errada. Mas quando você olha sob a ótica da espiritualidade, que é de fazer o bem pro próximo, ela tirou de letra. Se o que uma pessoa faz é pecado ou não, não é um problema nosso. Cada um carrega Deus dentro de si. Mesmo com o julgamento alheio, eu me mantenho fiel à minha espiritualidade e à minha fé.

Luciana: Amai ao próximo como a ti mesmo é uma lição linda de amor e também de tolerância. Ela fala sobre amar o outro de maneira inteira, sobre ter compaixão e empatia pelo outro. Independente se a maneira do outro pecar é diferente da sua. E essa lição sempre foi muito falada e praticada durante a nossa infância. Eu cresci ouvindo que precisamos amar as pessoas independente das suas escolhas, religião, semelhanças ou diferenças. O amor e o respeito ao próximo pautaram nossa vida e estão presentes até hoje.

Procuro não julgar escolhas diferentes das minhas ou apontar os pecados dos outros. Eu seria incapaz de tirar uma pessoa da fila de comunhão apontando seus pecados, como uma vez aconteceu com a minha mãe por ter se divorciado e depois também comigo. Hoje eu entendo que cada um lida com as regras da Igreja de uma maneira, mas que nada pode me afastar de Deus. Somos todos humanos, da mesma maneira que eu tenho meus pecados e converso com Deus sobre eles, o outro também peca mas talvez de um maneira só diferente.

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Marcella: Eu me casei, formei um novo núcleo familiar e o meu marido passou a gostar de frequentar a missa. Era uma coisa que não fazia parte da vida dele. Diferente da gente que cresceu nesse ambiente religioso e como adulta escolhe ir à missa, ele nunca teve esse hábito. Mas isso passou a fazer sentido pra ele. Para mim foi muito bom, porque eu ganhei mais uma companhia. Eu faço as rezas católicas e me interesso por todos os credos. Eu sempre vou estar aberta a conversar com um sacerdote de outra religião. Sempre vou estar aberta a ouvir uma história de fé.

Luciana: Meu marido também aprendeu a gostar de missa, igual o marido da Ma. Ele não tinha essa rotina na família dele, e aí é um pouquinho mais desafiador. Mas eu jamais falaria: “Temos que ir na missa todo domingo”. Eu fui indo. Ele foi indo quando ele sentia que estava a fim. E eu acho que, por ser tão natural, ele começou a ir com prazer.

Aí ele começou a perceber todas as vezes que ele estava lá o quão bem fazia, ele se via inspirado pela fala do Padre, pelas passagens da Bíblia. São reflexões trazidas para a vida cotidiana que nos nutrem muito. A reza coletiva tem uma energia mais forte e eu percebi que meu marido também sente isso. Hoje em dia, muitos domingos a iniciativa de ir à missa parte dele.

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Todos os dias eu rezo com o Antonio. E além disso, a nossa família tem algumas fases de práticas mais intensas, de fazer novenas, que são coisas muito presentes na fé católica. Eu acredito que espiritualidade é, junto com a família, a coisa mais importante das nossas vidas.

Esses dois pilares são os guias que movem a gente, que guiam a nossa vida. A religião pautou a nossa infância e hoje, ela pauta a nossa vida adulta, porque a gente escolheu assim. Mas a espiritualidade é muito maior do que uma regra, um dogma. A espiritualidade é qualquer caminho que te aproxima de Deus.

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Geyze Diniz: Nossas histórias não acabam por aqui. Confira mais dos nossos conteúdos em plenae.com e em nosso perfil no Instagram @portalplenae.

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Para Inspirar

Gustavo Ziller em "Não precisa escalar o Everest para se sentir no topo do mundo”

Conheça a história do escritor que revolucionou a sua vida depois que o seu corpo o obrigou a parar e recalcular.

27 de Outubro de 2024



Leia a transcrição completa do episódio abaixo:

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Gustavo Ziller: Eu não sou um atleta que nasceu em cima de uma prancha de surfe ou de um skate. Eu sou um cara normal que começou a treinar para valer aos 38 anos. Então, quando eu apresentei para o mercado publicitário o projeto de escalar as maiores montanhas de cada continente, eu sentia que a maioria esmagadora das pessoas tinha uma dúvida. “Será que o Ziller vai fazer esse trem mesmo?” 

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Geyze Diniz: Após ter um apagão devido a rotina acelerada, Gustavo Ziller procurou se reconectar consigo mesmo e busca uma vida com mais qualidade. Virou atleta profissional e ao escalar várias montanhas, descobriu que não é necessário ir tão longe para ter a sensação de estar no topo do mundo. Eu sou Geyze Diniz e esse é o Podcast Plenae. Ouça e reconecte-se. 

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Gustavo Ziller: Eu desmaiei um dia no meio do trânsito, em 2012. Eu não lembro direito o que aconteceu, mas sei o que me contaram. Eu tava num evento chamado Social Media Week, em São Paulo, falando sobre o futuro das redes sociais. Aí eu saí desse evento, que foi no Morumbi, peguei meu carro, atravessei a ponte Cidade Jardim e em cima da ponte comecei a dirigir meio em ziguezague.

Quando eu fui entrar numa ruazinha à direita
para pegar a Avenida Faria Lima, eu apaguei. O João, o taxista que estava dirigindo atrás de mim, disse que eu comecei a diminuir a velocidade até parar no meio da rua. Ele estacionou o meu carro e me levou para o hospital.
 
 

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Eu acordei num quarto com vários médicos ao redor. Descobri que meus exames estavam alterados. Aos 36 anos, eu tinha colesterol alto, triglicérides alto, pressão alta e pré-diabetes. Tava pesando 112 quilos. Não foi exatamente uma surpresa, claro, porque eu sabia que o meu estilo de vida não estava legal. Mas, de alguma maneira, aquele apagão, cara, foi um choque, porque você nunca acha que vai acontecer com você. Até que acontece.  

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Fazia três anos e pouco que eu tinha mudado de Belo Horizonte pra São Paulo. Eu era sócio de uma empresa de produção de conteúdo com clientes gigantes. Eu tinha uma rotina repetitiva, e a minha função era basicamente resolver pepino. Eu tenho muita facilidade para desenrolar coisas encalacradas. E quando você vira um polo de solução de problemas para as pessoas, elas te demandam pra tudo. 
 

Eu lembro direitinho que eu dormia cansado, sentindo muito desânimo, e acordava exausto. Não tinha nenhum hobby. Não fazia exercício. Não tinha tempo de qualidade com os meus três filhos. Por outro lado, eu fazia muito dinheiro e proporcionava um padrão de vida altíssimo para minha família. Então, de alguma maneira, eu achava que estava valendo o sacrifício. Nessa cilada eu não caio mais. 
 

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Era uma fase em que eu acreditava no sonho da meritocracia. Achava que se eu trabalhasse duro, dormisse pouco e acordasse antes dos outros, ia construir um império. O mercado profissional vende um discurso que, na verdade, funciona para uma minoria. Pouquíssimas pessoas vão conseguir ficar milionárias seguindo essa fórmula. Menos pessoas ainda vão ficar bilionárias. A maioria só vai ficar doente. 

[trilha sonora] 

Os médicos no hospital disseram que eu estava com Burnout, uma síndrome causada por excesso de trabalho, e que era pouco conhecida naquela época. O neurologista falou que o remédio era eu me afastar da empresa e tirar uns 30 ou 40 dias para pensar na vida. Foi um período em que eu fiquei meio desorientado profissionalmente, vamos colocar dessa forma, mas algumas coisas foram voltando pro eixo.

Eu passei a buscar e levar as crianças na escola. Voltei a ter tempo de qualidade com a Patrícia, minha
companheira, e fiquei refletindo sobre os próximos passos. Conversei com vários amigos, e um deles, o Caio Vilela, um super fotógrafo, me falou: “Cara, você tem que fazer uma coisa que você nunca fez para buscar novas referências”. E ele me sugeriu ir pro Nepal.
 

[trilha sonora] 

O Nepal fica na encosta do Himalaia e, por isso, seu maior atrativo é essa cadeia de montanhas. Eu fiz escalada quando prestei o serviço militar. Mas, desde então, não tinha tido mais nenhum contato com esse universo. Eu precisava, no mínimo, melhorar o meu condicionamento físico pra encarar um trekking na altitude.  Eu treinei firme por alguns meses, e essa disciplina foi me ajudando a restabelecer o bem-estar e a organizar as ideias.

No dia 9 de abril do ano seguinte, eu embarquei
pro Nepal. Fiz sozinho um trekking até o campo base de uma montanha chamada Annapurna. Foram 35 dias de muita reflexão sobre a minha saúde, o meu trabalho, o meu relacionamento e a paternidade. Eu tinha pensamentos que flutuavam na minha cabeça como se fossem uma constelação de planetas que precisava de alinhamento, sabe?
 

No Nepal, ficou claro que eu precisava mudar a minha vida radicalmente. Trabalhar menos não seria suficiente. Praticar exercício também não. O que mais me incomodava era perceber que a minha família fazia parte de um grupo minúsculo de pessoas que se dava bem em São Paulo porque tinha dinheiro, enquanto o resto todo se ferrava. Como a grana tava entrando, eu fui me deixando levar por esse modus operandi. E foi assim que eu me desconectei da minha essência. 
 

[trilha sonora] 

Pat e eu decidimos voltar a morar em Belo Horizonte. A essa altura, as nossas economias já tinham ido embora. O nosso padrão de vida não dava mais pra ser três carros na garagem, motorista e duas viagens internacionais por ano. Nós cinco fomos morar com a minha sogra num apartamento de dois quartos. A minha sogra dormia com uma das crianças no quarto dela. Eu, Pat e os outros dois ficamos no outro quarto.  

Depois do Annapurna, eu publiquei o livro "Escalando Sonhos", que es esgotado, na verdade, com fotos e reflexões sobre essa história que eu contei aqui. O processo de escrita foi muito legal, porque eu fui tendo outras ideias. E uma dessas ideias foi o roteiro de um programa de TV sobre um cara comum que decide escalar as montanhas mais altas de cada continente. É um roteiro clássico do montanhismo chamado Sete Cumes, que inclui a Antártida.  
 

O Canal Off topou a ideia, e eu consegui financiar 80% da primeira expedição. Aos 40 anos, eu subi o ponto mais alto da América do Sul, o Monte Aconcágua, um colosso de 6.961 metros de altitude. A partir da segunda escalada, que foi o Kilimanjaro, a montanha mais elevada na África, eu já não precisei mais tirar dinheiro do bolso. Em 2021, foi o ponto alto do projeto, literalmente alto, quando eu cheguei no topo do mundo, o Monte Everest.  
 

[trilha sonora] 

Depois disso, eu virei atleta profissional. É claro que eu não sou um atleta olímpico nem de performance. Sou atleta no sentido de alguém que ganha grana pelo esporte. Alguém que executa desafios e é reconhecido por isso. E para ser um atleta eu tive que adotar uma rotina que não caberia na agenda de uma pessoa comum.

O meu programa tem cinco pilares: cardio, força, mente, nutrição e fisiológico. O meu treinamento nutritivo
, por exemplo, não se resume a comer direito. Pelo contrário. Ele inclui às vezes comer em horários errados, porque na montanha a gente come quando é possível. Então, de 15 em 15 dias, eu faço jejum intermitente, por exemplo
 

O treinamento fisiológico caminha junto com nutritivo. A minha última refeição do dia é até às 7h30 da noite. Eu costumo dormir cedo e acordar cedo, mas de vez em quando passo uma noite em claro, pedalo de madrugada, por exemplo, ou saio à meia-noite para fazer um trekking. Na montanha muitas vezes a gente precisa seguir horários estranhos. 

Tem o lado mental também. Eu faço terapia e tenho um encontro mensal com um cara que eu admiro muito, que é o Fernando Gonçalves, meu treinador de cérebro. Sim, isso existe. Apesar de eu ser um cara extrovertido, eu tenho dificuldade de extravasar as minhas emoções, os meus medos. A minha melhor amiga é a minha companheira. Com a Patrícia eu converso bastante sobre temas mais profundos. Mas uma pessoa só é pouco, entende? Então, os terapeutas me ajudam a elaborar as minhas emoções. 

A parte física inclui os treinos de cardio e de força, seis vezes por semana, duas vezes por dia. Então, eu pedalo, escalo, corro, faço musculação, pilates e às vezes yoga. No dia de descanso, eu alongo.  

[trilha sonora] 

A mudança no estilo de vida causou um impacto profundo não só na minha saúde e no meu trabalho, mas nas minhas conexões familiares também. A minha filha mais velha, a Joana, é produtora executiva e trabalha comigo e com grandes artistas. A nossa relação es sendo construída de uma forma muito bonita.

A gente es
aprendendo a não exigir um do outro coisas que não fazem sentido e que podem direcionar para um esgotamento. Se eu trabalho num fim de semana, fico preocupado de não estar dando um bom exemplo pra Joana. Nós dois temos tendência de absorver muitas demandas.
Eu me curei no Burnout, mas sempre tomando cuidado pra não escorregar de novo.  
 

Já com a Iara, a do meio, eu me conecto muito pelo esporte. A escalada em si causa essa conexão, a começar pelo fato de que as pessoas ficam amarradas umas às outras numa corda. É um mecanismo de segurança porque, se alguém cai, os outros ajudam a segurar aquela pessoa. Todo mundo tem que muito atento a cada passo.

Na primeira vez que a Iara subiu uma montanha acima de 5 mil metros, foi nesse esquema. A gente es
tava na Bolívia. Um escalador boliviano mais experiente, que conhecia a montanha, foi na frente. A Iara no meio e eu, por último. Quando a gente chegou no topo, Iaia ajoelhou e começou a chorar de emoção.
 

Com o Mateus, o caçula, eu tive que buscar outro caminho. Quando ele completou 18 anos, a gente viajou junto
pro Alasca. Eu fiquei tão empolgado que fiz um roteiro com vários programas na natureza, coisas que eu gosto. Até que a Iara me perguntou: “Pai, você já perguntou pro Mateus se ele quer fazer isso tudo?
E quando a gente chegou no Alasca, o que ele mais me pediu foi pra ir ao museu e à biblioteca. Eu demorei pra perceber que o universo dele é outro, e eu continuo nesse aprendizado. A gente se conecta com os nossos filhos de formas diferentes, e eu aprendendo a me conectar com ele na forma dele, não na minha.  

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No dia 9 de abril de 2023, fez exatamente dez anos que eu embarquei pro Nepal, em busca de algo que eu nem sabia o que era. Pois nesse mesmo dia nasceu a minha neta, Amora, filha da Jojo. E a chegada da Amora chacoalhou a minha vida. Ela é uma criança PCD, com uma condição cerebral raríssima que se chama lisencefalia. A gente ainda não sabe exatamente qual vai ser o impacto desse diagnóstico na vida dela. Mas eu resolvi fazer a minha parte pra poder ajudar o máximo que eu puder. Se ela precisar ser carregada pelo avô aos 15 anos de idade, eu vou ser esse avô. 

Eu parei de beber e voltei pra terapia pra ter mais lucidez nessa reviravolta. A minha cabeça funciona como a de um arquiteto que vê um espaço qualquer e já consegue imaginar a sala, o quarto, o banheiro, sabe como? Na minha mente, eu visualizo projetos que se conectam e formam uma estrutura maior lá na frente. Foi assim quando eu fiz o primeiro trekking no Nepal e, de lá, nasceu um livro e um programa de TV. Com a chegada da Amora, é a mesma coisa. Eu me preparo hoje pra com ela daqui a 10 anos.  

[trilha sonora] 

Nesse novo capítulo da minha biografia, os meus trekkings devem se concentrar no Brasil, para eu ficar mais pertinho dela. A essa altura da vida, eu já entendi que a gente não precisa escalar o Everest para sentir o que eu senti lá em cima. Eu tive a mesma sensação de plenitude quando abracei a Iara no topo da montanha na Bolívia. Senti a mesmíssima coisa quando visitei um museu com o Mateus, no Alasca.

Fui inundado pela mesma sensação ao pegar a Amora no colo pela primeira vez. E eu nem acho que os acontecimentos precisam ser tão grandiosos assim
pra gente alcançar a plenitude. Eu sinto paz, por exemplo, quando faço uma prova de bicicleta. Ou até mesmo quando  passando um cafézinho na cozinha lá de casa.
 

A gente desaprendendo a sentir. E parar de sentir é a última etapa antes da barbárie. Mas eu acredito que dá pra recuperar essa capacidade e retomar a sensação de plenitude no nosso dia a dia. É por isso que o meu novo desafio é um programa de TV chamado "Viver pra Valer". A gente entrevista pessoas inspiradoras e explora a sensação de que a vida realmente acontece quando a gente vive o nosso cotidiano intensamente. O topo do Everest está dentro de cada um de nós. 
 

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Geyze
Diniz
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