Para Inspirar

Luciana e Marcella Tranchesi em "A espiritualidade é qualquer caminho que te aproxima de Deus"

O terceiro episódio da décima quinta temporada do Podcast Plenae é das influenciadoras digitais Luciana e Marcella Tranchesi, representando o pilar Espírito

14 de Abril de 2024



[trilha sonora]

Marcella: Quando você é criança, você segue rituais religiosos porque te ensinaram a fazer aquilo. Depois que você cresce, incorpora ou não aquilo que faz sentido para você. O meu amadurecimento aconteceu junto com a doença da minha mãe. No meu momento de maior fragilidade, fui entendendo o que é a espiritualidade.

Luciana: Eu lembro que eu pedia muito, muito pra Deus me tirar tudo e devolver a minha mãe. Eu tinha 22 anos, eu sabia que isso não era possível, mas eu pedia como se fosse. Eu me imaginava morando na rua, mas com a minha mãe ao meu lado.

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Geyze Diniz: As irmãs Luciana e Marcella Tranchesi sempre foram muito unidas. Entre os muitos assuntos em comum, a fé também é um deles. A dupla foi criada em um ambiente católico e aprendeu desde cedo com a sua mãe, Eliana, que a espiritualidade tem que estar nas ações e não só nos pensamentos. Eu sou Geyze Diniz e esse é o podcast Plenae. Ouça e reconecte-se.

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Luciana: A espiritualidade pautou a minha vida desde o minuto em que eu nasci. Eu venho de uma família muito católica. A minha avó materna, Lúcia, era uma mulher de tanta fé, que ela quase não se casou pra ser freira. Ela só mudou de ideia porque foi convencida pelo meu avô, o Carlão, de que ela poderia continuar fazendo o bem e ensinando sobre Deus, mesmo sendo casada.

Eles tiveram 6 filhos: 5 homens e a minha mãe, Eliana. Todos sempre foram super espiritualizados. A minha mãe teve três filhos. Eu, Luciana, sou a do meio. Quando eu tinha nove meses, eu me afoguei na banheira da casa onde a gente morava. Eu entrei em coma por 5 horas, mas eu saí do coma sem nenhuma sequela. A minha tia foi me visitar no hospital e viu a imagem de Nossa Senhora. Minha mãe, super devota de Nossa Senhora das Graças, ficou ainda mais religiosa.

Marcella: A nossa família é muito unida. A gente vivia com os nossos tios e primos. Em qualquer celebração, tipo o aniversário de alguém, tinha uma missa ou uma benção pra agradecer a saúde, a família e mais um ano de vida. A gente se juntava também nos cenáculos, que são como uns grupos para rezar o terço de uma maneira mais completa. Nas férias do meio do ano, eu viajava com as minhas primas e minhas tias pra ficar uns 15 dias num convento, em Jauru, uma cidadezinha no interior do Mato Grosso.

A mamãe ensinou a gente a rezar. Todo santo dia a gente rezava com ela. Domingo era dia de missa, onde quer que estivéssemos. É engraçado que, quando a gente conversa com pessoas que não cresceram numa família religiosa, elas se lembram da primeira vez que elas participaram de algum ritual, tipo uma missa. Eu não tenho essa lembrança, assim como eu não lembro a primeira vez que eu pulei numa piscina. A fé foi crescendo com a gente de uma forma muito normal. Não era um grande acontecimento, era só parte da nossa rotina.

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Luciana: Na minha opinião, religião e espiritualidade são duas coisas um pouco diferentes, que não necessariamente andam juntas. Eu cresci religiosa, mas a minha noção de espiritualidade mesmo veio quando a minha mãe foi diagnosticada com câncer. Eu tinha 15 anos. E ela só tinha 50.

Eu me lembro de procurar, mais do que a religião, a espiritualidade em todas as religiões. Eu queria achar uma explicação pro que estava acontecendo. Essa busca foi também uma influência da minha mãe. Ela, apesar de sempre ter sido super católica, buscava acima de tudo a espiritualidade e a devoção incondicional a Deus.

Marcella: O meu amadurecimento aconteceu simultaneamente com a doença da mamãe. Eu sou um pouco mais nova que a Lu, tinha 13 anos na época e, claro, menos entendimento da real situação. Mas como o tratamento foi um processo longo, a gente cresceu na fé e na espiritualidade. Quando as coisas saem do nosso controle, a gente percebe que talvez não faça sentido se prender a conceitos tão racionais.

A mamãe sabia que ia morrer. Lógico, todo mundo sabe disso, mas ela sabia com uma precisão maior. Então, ela foi preparando a gente pra esse momento, espiritualmente falando. A minha mãe expandiu pra gente o conceito de religião. Ela mostrou que a espiritualidade tem que tá nas nossas ações, não só no nosso pensamento. É fazer o bem, é ser grato, é olhar no olho, é ser educado, é doar o seu tempo, o seu dinheiro e o seu carinho pra quem precisa.

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Luciana: O tratamento da mamãe durou 6 anos.

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Logo que ela morreu, eu tive uma depressão durante um ano e meio, dois. Eu só queria ficar deitada, fugindo de tudo que estava acontecendo, fugindo do tempo que parecia ser meu maior inimigo. Quanto mais ele passava, mais distante a lembrança, o cheiro e o toque da minha mãe ficavam.

Eu lembro que eu perguntei pro meu irmão: “Quanto tempo eu posso ficar aqui na cama?”. Ele falou: “Um mês”. Eu achei que seria suficiente mas eu passei muito mais tempo assim. Eu dormia o dia inteiro, que é um sintoma clássico de depressão, e eu comia muito. Eu não tinha energia pra nada. Até tomar banho era difícil. Eu não perdi a fé em Deus. Pelo contrário. Eu botei tanta fé Nele, que eu pedia algo impossível. Sem Ele teria sido muito mais difícil. Eu estava num fundo do poço tão grande e Ele era meu maior aliado, nunca deixei de rezar, de agradecer e de pedir força.

Marcella: Um ano antes da mamãe falecer, eu quase fui morar fora do Brasil. Não deu certo. Na época eu não entendi muito bem, mas foi a melhor coisa que aconteceu, porque senão eu teria passado os últimos oito meses de vida da minha mãe longe dela. Fiquei no Brasil e passei no vestibular. A mamãe morreu numa sexta-feira, 24 de fevereiro, numa emenda de Carnaval.

As aulas voltaram na segunda. Eu não tinha a menor vontade de ir, mas eu pensei: “Se eu me permitir folgar uma semana, eu já vou me permitir o primeiro mês. Se eu perder o primeiro mês, eu vou perder o primeiro semestre”. Ninguém falou nada, mas eu senti que a minha mãe gostaria que eu assumisse aquela responsabilidade. Eu faltei na segunda, mas na terça-feira eu fui pra faculdade. Foi um semestre insuportável. Como as aulas tinham acabado de começar, eu não conhecia ninguém.

A morte da mamãe repercutiu na mídia. Ela era uma empresária famosa, dona de uma butique também famosa, a Daslu, que ela herdou da mãe dela. Só que na minha classe ninguém sabia que eu era filha daquela mulher que apareceu no Fantástico. Eu não tinha com quem conversar, exceto a irmã do meu namorado na época que estudava em outra sala, e uma amiga do cursinho. Eu já tinha uma ideia de que eu não podia chegar pra pessoas de 18 anos e jogar no colo delas: “Oi! Minha mãe morreu tem três dias”.

Então, eu fiquei muda e fui sobrevivendo. Eu ia todo dia pra faculdade e assistia às aulas. E aí reparei que os professores iam lendo meu nome na chamada e percebendo quem era a minha mãe. Eu ia chorar no banheiro e fingia um resquício de vida normal que eu ainda tinha, pelo menos na parte da manhã, porque o resto do dia eu passava na frente da TV.

Fui me arrastando, fingindo que estava tudo bem e meio que engolindo aquele luto. Eu cheguei no final do semestre esgotadíssima de encenar aquele teatro que eu mesma criei. E aí a Dani, nossa querida madrasta, me levou no psiquiatra, e eu comecei a melhorar. Não foi a melhor forma de lidar com o luto, mas foi a que eu consegui pra não perder a faculdade.

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Luciana: A minha depressão estava se arrastando, mas a minha sorte é que eu tinha uma família, que sempre foi o alicerce da minha vida. Eu tinha meus dois irmãos, eu tinha meu pai e eu tinha minha madrasta. Eu e meus irmãos continuamos morando na casa da mamãe por uns seis, sete, oito meses, só nós três. Até que um dia meu pai falou: “Não, vocês precisam vir morar comigo”.

Foi nessa época que eu comecei a ir ao médico. A minha madrasta que marcava a consulta e me levava pela mão. Eu estava no fundo do poço, mas eu queria continuar ali. Eu não queria ir no médico. Eu não queria tomar remédio. Eu fingia que tomava o remédio e parava de tomar por minha conta. Eu dei muito trabalho pra minha família durante quase dois anos, entre altos e baixos que foram ficando cada vez menos extremos, até que eu engravidei. E aí, a minha vida voltou a ter sentido.

Ficar grávida do Antonio foi o que me deu razão pra viver. Ele foi uma virada de chave na minha vida, uma conexão espiritual muito grande, porque eu tenho certeza absoluta que a minha mãe e Deus me enviaram ele. Quando o Antonio tinha 2 anos, ele falou que ele tinha visto a vovó Eliana. Eu falei: “Filho, que legal! Foi um sonho?” Ele: “Não, mamãe, antes de vir para cá, pra esse mundo”. Esse é só um exemplo, mas tiveram vários episódios assim. Ele fala de uma conexão com ela, ele tem saudade dela, chora por ela.

Ele sempre se interessou muito pela minha mãe, perguntou muito por ela. Não acho que foi uma influência minha porque, inclusive quando ele era menor, eu nem trazia tanto a memória dela com receio de não conseguir segurar a emoção. Eu mal conseguia falar dela sem chorar. Na verdade, eu fui me acostumando a falar sobre luto pra conseguir suprir essa demanda do Antonio de querer saber tudo sobre ela.

Por isso que eu acredito muito que a alma dele foi escolhida e me foi enviada por Deus e pela minha mãe. O Antonio não é um simples acaso na minha vida. O Antonio pra mim é o meu propósito de vida.

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Marcella: Depois da morte da mamãe, não demorou muito pra gente retomar os rituais católicos. Eu levo muito a espiritualidade pro lado de fazer o bem, de ajudar o próximo, de buscar ser uma pessoa melhor, de não julgar o outro. Procuro também entender as mensagens bíblicas não necessariamente de maneira literal. Por exemplo, a gente ouvi muito que o mandamento mais fácil de seguir é “não matar”. Mas ele não diz respeito somente à morte física. É também não matar a reputação, a esperança de alguém.

Quando falamos da promessa de casamento de ser pra sempre, nossa mãe saiu das quatro linhas. Ela se separou do meu pai, mas eles continuaram amigos até a morte dela. Pra uma pessoa muito caxias, ela tava errada. Mas quando você olha sob a ótica da espiritualidade, que é de fazer o bem pro próximo, ela tirou de letra. Se o que uma pessoa faz é pecado ou não, não é um problema nosso. Cada um carrega Deus dentro de si. Mesmo com o julgamento alheio, eu me mantenho fiel à minha espiritualidade e à minha fé.

Luciana: Amai ao próximo como a ti mesmo é uma lição linda de amor e também de tolerância. Ela fala sobre amar o outro de maneira inteira, sobre ter compaixão e empatia pelo outro. Independente se a maneira do outro pecar é diferente da sua. E essa lição sempre foi muito falada e praticada durante a nossa infância. Eu cresci ouvindo que precisamos amar as pessoas independente das suas escolhas, religião, semelhanças ou diferenças. O amor e o respeito ao próximo pautaram nossa vida e estão presentes até hoje.

Procuro não julgar escolhas diferentes das minhas ou apontar os pecados dos outros. Eu seria incapaz de tirar uma pessoa da fila de comunhão apontando seus pecados, como uma vez aconteceu com a minha mãe por ter se divorciado e depois também comigo. Hoje eu entendo que cada um lida com as regras da Igreja de uma maneira, mas que nada pode me afastar de Deus. Somos todos humanos, da mesma maneira que eu tenho meus pecados e converso com Deus sobre eles, o outro também peca mas talvez de um maneira só diferente.

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Marcella: Eu me casei, formei um novo núcleo familiar e o meu marido passou a gostar de frequentar a missa. Era uma coisa que não fazia parte da vida dele. Diferente da gente que cresceu nesse ambiente religioso e como adulta escolhe ir à missa, ele nunca teve esse hábito. Mas isso passou a fazer sentido pra ele. Para mim foi muito bom, porque eu ganhei mais uma companhia. Eu faço as rezas católicas e me interesso por todos os credos. Eu sempre vou estar aberta a conversar com um sacerdote de outra religião. Sempre vou estar aberta a ouvir uma história de fé.

Luciana: Meu marido também aprendeu a gostar de missa, igual o marido da Ma. Ele não tinha essa rotina na família dele, e aí é um pouquinho mais desafiador. Mas eu jamais falaria: “Temos que ir na missa todo domingo”. Eu fui indo. Ele foi indo quando ele sentia que estava a fim. E eu acho que, por ser tão natural, ele começou a ir com prazer.

Aí ele começou a perceber todas as vezes que ele estava lá o quão bem fazia, ele se via inspirado pela fala do Padre, pelas passagens da Bíblia. São reflexões trazidas para a vida cotidiana que nos nutrem muito. A reza coletiva tem uma energia mais forte e eu percebi que meu marido também sente isso. Hoje em dia, muitos domingos a iniciativa de ir à missa parte dele.

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Todos os dias eu rezo com o Antonio. E além disso, a nossa família tem algumas fases de práticas mais intensas, de fazer novenas, que são coisas muito presentes na fé católica. Eu acredito que espiritualidade é, junto com a família, a coisa mais importante das nossas vidas.

Esses dois pilares são os guias que movem a gente, que guiam a nossa vida. A religião pautou a nossa infância e hoje, ela pauta a nossa vida adulta, porque a gente escolheu assim. Mas a espiritualidade é muito maior do que uma regra, um dogma. A espiritualidade é qualquer caminho que te aproxima de Deus.

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Geyze Diniz: Nossas histórias não acabam por aqui. Confira mais dos nossos conteúdos em plenae.com e em nosso perfil no Instagram @portalplenae.

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Para Inspirar

Barbara Gancia em “Depois da saideira“

A sétima temporada do Podcast Plenae está no ar! Confira a história da jornalista Barbara Gancia. Aperte o play e inspire-se!

13 de Março de 2022


Leia a transcrição completa do episódio abaixo:


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Barbara Gancia: Os meus pais se mudaram sozinhos da Itália pro Brasil. Eu nunca tive avós, avôs, tios e primos presentes. A nossa família era pequena: só meu pai, minha mãe, meus dois irmãos e eu. A gente sempre foi muito unido, com uma relação de afeto forte. Mesmo não concordando com o meu comportamento, eles estavam do meu lado. O apoio da minha família foi fundamental pra eu conseguir vencer a dependência no álcool.


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Geyze Diniz: Profissional consagrada e jornalista reconhecida nacionalmente por suas análises cirúrgicas, Barbara Gancia abriu seu passado no livro “A saideira” onde, além de resgatar memórias dolorosas, também busca ajudar pessoas e famílias inteiras a lidar com o alcoolismo. Bárbara foi alcoólatra por 30 anos e conseguiu vencer a dependência depois de várias tentativas. O apoio da família e de outras pessoas que enfrentam o mesmo problema foi crucial para ela dar a volta por cima. Conheça todo o aprendizado que Barbara Gancia reuniu ao longo dos últimos anos. 


Ao final do episódio, você ainda encontra reflexões do especialista em desenvolvimento humano Marc Kirst, para te ajudar a se conectar com a história e com você mesmo. Eu sou Geyze Diniz e esse é o podcast Plenae, ouça e reconecte-se.


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Barbara Gancia Eu tinha 3 anos de idade quando provei álcool pela primeira vez. Isso mesmo, 3 anos. Foi numa das tantas festas que meus pais deram na nossa casa da avenida República do Líbano, no Jardim Paulista, em São Paulo. A minha mãe contava que o Alberto, um copeiro que trabalhava com a gente, me pescou no chão da copa, tomando restos de bebida dos copos que ele havia empilhado num carrinho, desses que também servem de bar.


Me disseram que a minha segunda experiência com álcool foi aos 6 anos. A marca de chocolates Kopenhagen fabricava, e ainda fabrica, um bombom recheado com uma cereja banhada num vinho bem doce e licoroso. A minha mãe comprava uma caixa desses bombons e deixava no quarto de vestir dela, em cima de um pufe quadrado. Nunca me esqueço da embalagem: era vermelha e redonda, com chocolates embrulhados num papel prateado. Eu desenvolvi uma técnica de desembrulhar o doce e, ao mesmo, deixar a impressão de que ele estava intacto. Eu abria o papel laminado e fazia um furinho junto ao talo da cereja que saía de dentro do bombom. Depois, virava o doce feito um shot de uísque e bebia o líquido. Daí eu fechava de novo e colocava na caixa. Alguém me viu trançando as pernas no corredor, e foi assim que descobriram o meu delito.


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Teve um terceiro episódio, quando eu tinha 9 anos, e desse eu me lembro muito bem. Aconteceu num domingo e, no dia seguinte, pela primeira, de muitas e muitas vezes, senti a mais terrível das sensações: a ressaca moral. Depois de uma missa na igreja São Gabriel, meu pai me levou a um churrasco numa cidade próxima de São Paulo. Eu fiquei fascinada quando vi um balde enorme de ponche, cheio de maçãs, laranjas, pêssegos, abacaxis e folhinhas de hortelã mergulhados num líquido de cor atraente. Experimentei e nem dei bola pro gosto do álcool. Quando ninguém estava prestando atenção, eu ia lá e me servia de uma concha generosa. Foram me encontrar, já no escuro, deitada no meio de uma estrada de terra secundária, olhando pra Lua cheia e cantando. 


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Antes que você pergunte: “Onde estavam os pais dessa criança?”, eu respondo que os tempos eram outros. A minha impressão é de que todas as elites, por terem farta ajuda para cuidar dos filhos, mantêm um certo distanciamento deles. Além disso, eu sou temporã, 6 e 7 anos mais nova que os meus irmãos, e sempre pude fazer mais ou menos o que me deu na telha. 


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Lá pelos 17 anos, eu comecei a beber sistematicamente. Eu não sei dizer os motivos que me levaram a adotar esse comportamento. Você pode especular o que bem entender. Que eu bebia porque sofri alguma negligência na infância, que eu usei a bebida pra me libertar da timidez ou por pura porra-louquice. Muita gente bebe pelos mesmos motivos, sem se tornar dependente de álcool por isso. 


Admito que a minha motivação nunca foi sentir o gosto da bebida, as sutilezas do vinho ou o malte do uísque. Eu só me importava mesmo com o efeito do álcool. Quatro cervejas ou três doses de uísque era o que eu tomava antes de sair para a igreja. Imagine, então, pra ir pra balada. Foi nessa época que a minha família começou a viver um calvário comigo.


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Pouco tempo depois que eu tirei carta de motorista, meu pai acordava no meio da noite e, quando não me encontrava em casa, mandava o meu irmão pro IML e a minha irmã pro Hospital das Clínicas pra me procurar. Imagina a barra pesada que não era?


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Mesmo sem quase nenhuma lembrança dos meus fins de noite, os barracos que eu causava ao voltar de madrugada continuam cravados na minha memória, três décadas e lá vai pedrada depois. O inferno se instalava assim que eu cambaleava pra dentro de casa. Ameaças, castigos infinitos, tapas, empurrões, objetos atirados contra a parede, móveis chutados e muitos berros. Sobrava pra mim em grande estilo. E eu fazia por merecer.


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Aos 24 anos, perdi uma das minhas vistas num acidente de carro causado por mim. Eu estava bêbada. Cruzei a avenida Paulista no sinal vermelho a toda velocidade, atingi um fusquinha bege e o meu Fiat 147 saiu rodando igual um buscapé. Eu estava sem cinto de segurança, que não era obrigatório em 1981, e mergulhei pelo vidro dianteiro no asfalto. O impacto do meu rosto arrancou o espelho retrovisor. Quando meu pai chegou no hospital e me viu com a cara estraçalhada, ele encostou na parede e desmaiou. Eu passei por uma operação de 6 horas pra reconstruir o meu rosto, e mais 3 numa tentativa frustrada de recuperar o meu olho direito. Esse foi só um dos cinco ou seis carros em que eu dei perda total. 


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A minha família não enxergava o alcoolismo como uma doença. Pra eles, o meu exagero era uma questão de força de vontade. Meu pai era um cara muito pé no chão e falava assim: “Cê tá com um problema? Vai trabalhar que resolve”. Ele não achava que a psicologia , a psiquiatria, pudessem ajudar uma pessoa a solucionar suas crises. Pra minha família, eu era louca e por isso eu bebia, mas na verdade era o contrário: eu bebia e ficava louca. Quando eu decidi me internar pela primeira vez pra tratar o alcoolismo, aos 30 anos de idade, eles foram contra.


Depois da minha primeira internação, eu passei dois anos e oito meses sem tomar um gole de álcool. Parei outras vezes também, de supetão, por conta própria, sempre depois de alguma ocorrência dramática. Toda vez que meus pais ficavam extremamente decepcionados com as consequências de um porre meu, tipo criar alguma confusão no Natal, terminar a madrugada com um meganha me apontando uma arma na entrada da favela do Buraco Quente, eu jurava que ia parar de beber. 


[trilha sonora] 


Nunca foi malandragem minha. Eu juro que eu  tentei 1 milhão de vezes, mas não beber quando sentia necessidade demandava uma energia além das minhas possibilidades. A uma certa altura, eu já não bebia mais por diversão, mas pra me entorpecer e fugir das consequências do meu próprio comportamento. Foi preciso que eu magoasse, profundamente, as pessoas ao meu redor pra eu me conscientizar de que não existe a possibilidade de acordo entre mim e o álcool. 


Eu bebi praticamente dos 17 aos 47 anos, com alguns intervalos de sobriedade. Não tenho a menor ideia de como consegui manter uma agenda mínima de compromissos, um emprego, dentes, a conta bancária e essas coisas que vêm no pacote da existência. Chegando aos 50 anos, eu intercalava surtos de medo e remorso. Fazia cálculos mentais, tipo um cacoete, da quantidade enorme de pessoas que morreu pela dependência, entre amigos, ex-colegas e gente que eu conheci no bar. Eu estava num ponto de ressaca moral tão grande, que eu passava o dia inteiro falando pra mim mesma: “Tiro na cabeça, tiro na cabeça, tiro na cabeça”, era um cacoete. 


[trilha sonora]. 


O gatilho pra me internar pela terceira, e última, e efetiva vez em uma clínica foi um telefonema da minha mãe. Ela me viu ao vivo na TV, achou que estava alcoolizada e, assim que o programa terminou, ela me ligou e perguntou: “Você estava bêbada?”. Bateu um frio na minha espinha, senti um impulso de sair gritando e arrancando os cabelos, pânico, vergonha, suadeira, vontade de sumir do mapa. A gente terminou de falar e, sem refletir, eu atravessei a redação da emissora e pedi pro editor-chefe do programa: “Posso tirar uma licença médica? Eu preciso me internar numa clínica de reabilitação, eu não tô mais segurando a barra”. 


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A pergunta da minha mãe foi a gota d’água e fez a represa transbordar. Dessa vez, eu não me internei com dúvidas, nem pesar, como se tivesse a caminho de um matadouro. Eu sabia que seria dureza, que teria de me confrontar com a abstinência e suas consequências, sabia da angústia, mas alguma coisa dentro de mim me dizia que aquela seria a minha última internação. 


Encontrei uma clínica que utiliza os 12 Passos dos Alcoólicos Anônimos como referência na minha orientação de tratamento, e lá fui eu. O primeiro passo é admitir que somos impotentes perante o álcool. Porque é assim: toda vez que eu entro em contato com essa substância, eu saio derrotada. O ciclo vicioso do crime e castigo só foi rompido quando eu assumi a minha parcela de responsabilidade e parei de beber de vez.


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Quando eu deixei a clínica, quem mais me amparou pra manter a sobriedade foram os colegas do grupo de apoio, o Narcóticos Anônimos e o Alcoólicos Anônimos. Essas pessoas são as mais adequadas e as mais preparadas pra ajudar quem tem um problema de dependência como o meu. No Brasil, a gente tem um preconceito ridículo com esses grupos. Quem frequenta o NA ou o AA é um vencedor, porque quem tá lá dentro quer parar de beber e quer parar de usar droga. O nosso olhar de pena deveria ser para quem tá no boteco e não consegue parar de dar mais um gole. 


Com a evolução do meu tratamento, passei a vivenciar uma condição que não tenho mais como refutar: eu não posso beber. Caso contrário, a minha estabilidade vai por água abaixo. Antes de parar completamente de beber, eu achava que a vida seria uma chatice sem álcool. Mas eu descobri que não só eu consegui ser feliz, muito feliz,  como eu tive outra chance de vida, muito melhor que a anterior. Eu quis escrever o livro pra que outras pessoas soubessem que é possível largar a bebida e ser feliz. Existe esperança de vida feliz após a sobriedade. Eu esperei meus pais morrerem antes de fazer isso, porque eu não queria que eles revivessem os traumas do passado. É muito barra pesada pra um pai, pra uma mãe, e eu me sentia responsável pelo sofrimento deles. 


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Enquanto eu escrevia, eu pensava assim: “Se uma única pessoa puder tirar proveito desse livro, eu já fiz um bom trabalho”. E eu vejo que a minha história tá conseguindo tocar muita gente. Um cara me contou que tava no carro, a caminho de um motel pra se matar, quando ele me ouviu falando no rádio sobre o meu livro. Ele parou no acostamento, começou a chorar e foi direto pros Narcóticos Anônimos. Eu ouço vários relatos como esse.


O Brasil é o país que mais tem acidente de trabalho, que mais tem violência doméstica, na maioria das vezes causada pelo álcool. A bebida favorece doenças sexualmente transmissíveis, gravidez indesejada, acidentes de trânsito e violência gratuita. O ônus da bebida pro país é mirabolante e a gente não saber disso é uma tragédia. Médicos, agentes sociais, professores, pais, alunos, autoridades, associações de bairro, a indústria precisam ouvir e precisam falar sobre esse assunto, porque a gente não conversa sobre álcool. Por isso, faço questão de compartilhar essa minha história.


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Eu, hoje, não sou mais refém de droga nenhuma. Quando eu completei 60 anos, a minha irmã me ligou para dar os parabéns e disse: “Você está entrando nos 60 muito melhor do que entrou nos 40 e nos 50”. Há mais de 15 anos eu não conheço a sensação da ressaca  física,  moral, não sinto medo, culpa ou desespero. Há 1 ano a minha história virou uma peça de teatro estrelada pela Marisa Orth, um monólogo. Foi um sucesso de público, um sucesso de crítica e vai retomar no segundo semestre de 2022. A gente vai rodar o Brasil com essa peça, e está chamando muito a atenção de todo mundo. Ou seja, o trabalho continua. 


Hoje, eu devo dizer que a serenidade caminha comigo e todo esforço feito em nome dela tem valido muito a pena. Só por hoje. 


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Marc Kirst: Como você se sente ao ouvir a história da Barbara? O alcoolismo é uma doença que abala não somente o indivíduo dependente da bebida, mas também as pessoas ao seu redor. Por isso, a união e resiliência dos familiares é fundamental para quem quer romper o ciclo do vício. Barbara nos conta que seus pais e irmãos condenavam seu comportamento e nunca entenderam o seu alcoolismo como uma doença. Mesmo assim, sempre estiveram ao seu lado e não desistiram dela, mesmo após décadas de tentativas e erros. 


As relações humanas têm um dos mais profundos poderes nos nossos processos de cura. Além do amor da família, Barbara recebeu o apoio de grupos, como os Alcoólicos Anônimos e Narcóticos Anônimos, para vencer de vez este desafio que parecia não ter fim. Nesses grupos, ela encontrou pessoas determinadas a contribuir com quem está passando pelo que já foi superado. Sem preconceito e julgamento, praticando a compaixão de quem já sentiu na própria pele. Qual é a sua rede de apoiadores da tua cura? 


Pra muitos de nós, o primeiro passo talvez seja admitir que precisamos do outro numa jornada que pode ser muito mais difícil quando estamos sozinhos. 


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