Para Inspirar
Na décima segunda temporada do Podcast Plenae, se inspire a ser melhor e ajudar o outro com o propósito do bombeiro Leo Farah.
11 de Junho de 2023
Leia a transcrição completa do episódio abaixo:
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Léo Farah: Antes da gente embarcar no helicóptero, eu dei um tapa nas costas de cada bombeiro. Olhei nos olhos de cada um. Ninguém sorria, ninguém falava. Eu nunca tinha presenciado um clima tão tenso no quartel. Antes de perder o sinal do celular, eu consegui abrir uma imagem que me apavorou. Era uma vista aérea da barragem que havia se rompido, em Mariana. A gente não estava preparado pro que vinha.
Geyze Diniz: Léo Farah acredita que ajudar os outros ressignifica vidas, e é por isso que já arriscou a sua várias vezes. Trabalhando como bombeiro há 19 anos, Léo participou e coordenou grandes operações, como Mariana, Brumadinho e São Sebastião.
O tamanho do seu impacto é enorme e hoje ele continua sua missão através da ONG Humus, que atua em comunidades em áreas de risco de desastres relacionados a eventos naturais extremos. Conheça essa história de entrega, adrenalina e muito trabalho em equipe. Eu sou Geyze Diniz e esse é o Podcast Plenae. Ouça e reconecte-se.
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Léo Farah: Era um dia tranquilo no quartel, em Belo Horizonte, sem nenhuma ocorrência. Já passava das 4 da tarde, quando o celular do tenente Tiago tocou. Ele me mostrou a tela do aparelho. Quem chamava era o coordenador do Centro de Operações dos Bombeiros. Se uma pessoa disca 193, é nessa central que a ligação cai. Não era comum o coordenador ligar pro celular do oficial do nosso quartel. O Tiago atendeu e, pela cara dele, deu pra perceber que alguma coisa terrível tinha acontecido.
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Ele deu dois tapas no meu ombro e falou: “Rompeu uma barragem da Samarco!”. Eu não podia acreditar naquela notícia. Fazia um ano que a gente tinha atendido um rompimento de barragem em Itabirito, com três vítimas fatais. E agora outra? Entre as notícias desencontradas que chegavam, uma delas era de uma escola infantil com mais de 100 crianças tinha sido atingida. Um silêncio terrível tomou conta da gente.
Por mais experiente que um bombeiro possa ser, ele nunca está preparado pra encontrar uma escola soterrada. Eu pedi apoio inicial de 15 militares, incluindo os que estavam de folga, e dois helicópteros. Reuni a tropa e falei: “Se preparem pro pior. Parece que soterrou uma cidade inteira e são barragens em cascata, o que significa que outras podem se romper. Ah, mais um aviso: o rejeito é tóxico. Vocês não podem entrar em contato com ele em hipótese alguma”.
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Quando a gente começou a nos aproximar do local do acidente, eu vi uma poeira densa no horizonte. Aquilo não era normal. O helicóptero Carcará, que ia na nossa frente, começou a perder altitude e foi engolido pela nuvem de pó. Não podia ser verdade. O Carcará estava caindo! Na melhor das hipóteses, as pessoas que estavam a bordo ficariam feridas.
Mas, felizmente, segundos depois, o helicóptero recuperou a altitude e saiu da nuvem de poeira. Mal deu tempo de recompor do susto e logo veio uma imagem que eu nunca vou esquecer: um mar de lama. No meio daquela imensidão de poeira, surgiu um vale coberto de rejeito, com um cheiro muito forte.
Quando a gente chegou perto de Bento Rodrigues, só dava pra ver umas casas na parte alta da cidade. Na parte mais baixa, eram vários telhados, carros e tratores sendo arrastados pelo lamaçal. A força da lama era tão grande que, mesmo de dentro do helicóptero, dava pra ouvir o barulho de árvores sendo arrancadas do chão. Eu não consegui guardar o meu pensamento só pra mim. E pensei: “Nossa, morreu gente demais.”
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Os cursos preparam a gente para lidar com o medo e com as incertezas da profissão. A gente vai ao extremo do frio, da fome, da privação de sono pra tentar simular uma situação de verdade. Só que, por mais casca grossa que seja um treinamento, a realidade consegue ser pior.
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A gente simulava, por exemplo, o soterramento de uma casa com quatro pessoas, numa piscina de 10 metros por 20. Eram quatro bonecos, móveis, eletrodomésticos, todos enterrados numa profundidade de 1 metro e meio. Pra se ter uma ideia, com 20 militares, a gente demorava umas 30 horas pra encontrar os bonecos. Agora, imagina quanto tempo a gente demoraria pra localizar e desenterrar moradores de uma cidade inteira?
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O Carcará conseguiu pousar no campo de futebol de Bento Rodrigues, enquanto o helicóptero Pégasus, aonde eu estava, foi sobrevoar um pouco a região, pra ver aonde estava o lamaçal e qual era a rota que ela estava fazendo. O sol já estava se pondo e, por isso, o tempo de voo era pequeno. Operações de resgate sem a luz do sol são muito perigosas.
Quando a gente ultrapassou a lama, avistamos um outro povoado bem na linha da destruição. De cima, deu pra ver algumas pessoas acenando pra gente num campo de futebol. Quando a gente foi se aproximando, eu me dei conta de que era algo terrível. As crianças estavam brincando. Elas não faziam a mínima ideia do que estava acontecendo.
A gente tinha que avisar aqueles moradores, só que a avalanche de lama estava vindo logo atrás de nós. Daria tempo de pousar e dar o alerta, voltar pra aeronave e decolar de novo? O major a bordo se recusou a tomar essa decisão sozinho. Basicamente, ele queria saber se a gente estava preparado pra morrer. Eu pensei no juramento que eu fiz na formatura do Corpo de Bombeiros, que tem uma frase assim: “Mesmo com o sacrifício da própria vida”.
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Eu não pensei duas vezes e respondi: “A gente tem que descer”. Olhei pra minha equipe e eu sabia, estava todo mundo comigo. Procurei no bolso da farda o terço que minha mãe tinha trazido de Aparecida do Norte. Tirei o terço do bolso e enrolei na mão. Nós descemos do helicóptero, quatro bombeiros e dois policiais, com a missão de evacuar uma cidade inteira em 10 minutos.
Eu percebi que o lugar mais alto daquele povoado era um cemitério e saí gritando: “Corre, corre, todo mundo pro alto do cemitério! Corre que a barragem rompeu!” Quando olhei pro lado, vi dois militares arrombando as portas das casas e tirando as pessoas à força. Não dava tempo de explicar, só dava tempo de correr. Um homem passou de carro e a gente colocou o maior número de pessoas possível lá dentro. Outro homem subiu de moto com a mulher e dois filhos na garupa.
No meio da multidão, eu vi uma menina de uns 3 anos que chorava, procurando alguém. Do meu lado, uma senhora mal conseguia andar. Peguei a menina no colo, um colega amparou a idosa e a gente subiu o morro. Quando eu cheguei no cemitério, eu vi aquela nuvem de poeira se aproximando. Comecei a correr ladeira abaixo, em direção ao mar de lama.
Parecia que eu não ouvia nada ao meu redor, só o esforço da minha respiração ofegante e o som abafado da minha própria voz mandando todo mundo correr. Eu entrei no helicóptero e vi a nuvem de poeira aumentando na traseira da aeronave. Nós conseguimos decolar e só então eu descobri o nome daquele distrito, Paracatu de Baixo. Será que a gente tinha conseguido salvar todo mundo?
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Pelo rádio, chegou um alerta: “A barragem de Germano tá na iminência de romper! Toda a área deve ser evacuada”. Faltavam 20 minutos pra escurecer e o Pégasus ainda tinha que voltar pra Belo Horizonte. Eu pedi pro comandante me deixar em Bento Rodrigues, antes de retornar pra capital. Era uma decisão suicida. Se a outra barragem rompesse, não dava tempo de correr. Mas, eu não podia deixar aquelas pessoas sozinhas lá embaixo.
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Trabalhar com salvamento em desastre não é pra qualquer um. Porque, basicamente, você tem que ser capaz de agir contra o seu instinto natural. Numa situação de perigo, o cérebro se prepara e fala para o corpo lutar ou fugir. O coração acelera. O sangue sai das extremidades e vai pros grandes músculos, pra que você consiga correr. Dá uma tremedeira, por conta da descarga de adrenalina. As pessoas que sofreram um assalto, por exemplo, sabem muito bem disso. Muita gente nem se lembra do que aconteceu, porque o cérebro está pouco irrigado, preparando o corpo pro modo de combate.
Por isso, pra trabalhar comigo, eu escolho pessoas que têm habilidades humanas. Que colocam o interesse coletivo acima do individual. É aquele cara que ao invés de pegar um café só para ele, pega pra todo mundo. É aquele que, quando vê alguém com muito sono, fala: “Vai dormir, eu fico acordado para você”. Se a pessoa não for desse jeito, ela não aguenta o tranco. O meu time era assim. Naquele dia, todos os bombeiros tiveram a oportunidade de ir embora. E todos decidiram ficar.
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Assim que eu desembarquei em Bento Rodrigues, me contaram que o soldado Magalhães tinha se pendurado no esqui do helicóptero Carcará pra salvar uma senhora que estava sendo arrastada pela lama. Mas o neto dela, de 10 anos, infelizmente não conseguiu escapar. O líder comunitário do distrito, seu Zezinho, me disse que umas 500 pessoas moravam ali.
Sempre circulou o boato de que a barragem poderia se romper. Mas, ninguém acreditava que isso fosse acontecer. Até que, naquela tarde, uma moradora chamada Paula pegou a moto dela e saiu avisando todo mundo sobre a tragédia. As pessoas subiram pra parte mais alta da cidade e viram aquele mar de lama de cima. Graças à Paula, os alunos da escola se salvaram.
Na nossa contagem inicial, 54 pessoas estavam desaparecidas. Escureceu, não tinha água, não tinha comida, energia elétrica nem sinal de celular. Começou a chover e a sensação de frio aumentou. O mar de lama tinha destruído a cidade, a estrada que dava acesso ao povoado. A gente estava ilhado. Se a outra barragem se rompesse, todo mundo ia morrer.
Não dava pra ficar de braços cruzados esperando os helicópteros voltarem na manhã seguinte. Eu pedi pro sargento Ferreira procurar uma retroescavadeira. A ideia era remover a lama e abrir uma passagem pra uma estrada. Na outra margem do lamaçal, os bombeiros que chegaram por terra começaram a fazer o mesmo trabalho, no sentido inverso. Se tudo desse certo, as máquinas se encontrariam no meio do caminho.
Durante toda a madrugada, eu via os faróis se movendo. Quando as luzes pareciam mais fracas, eu esfreguei os olhos pra ver se o sono estava me confundindo. Mas, eu ouvi os pássaros e percebi que, na verdade, estava amanhecendo. Do alto do morro, eu vi uma fila indiana de mulheres com crianças no colo, pessoas com seus animais de estimação e, lá na frente, duas retroescavadeiras se encontrando no meio do caminho. Eu não consegui segurar as lágrimas de gratidão por ter conseguido tirar todo mundo dali.
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Depois de Mariana, eu não acreditava que existiria outro desastre nesse nível. Não imaginava que eu participaria de um resgate de outro rompimento de barragem. Mas aí, quatro anos depois, veio Brumadinho. E foi muito pior. A lama percorreu uma área menor do que a de Mariana, mas muitas pessoas estavam muito próximas ao local do rompimento, principalmente os funcionários da mineradora.
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Em 2023, depois de 19 anos como bombeiro, eu decidi sair da corporação. Criei uma ONG especializada no resgate e na prevenção de desastres relacionados aos eventos naturais extremos. A ONG se chama Humus, uma sigla pra “humanitarian us”. Nós somos humanitários, buscamos resgatar o caráter humano das pessoas. Fora do Corpo de Bombeiros, eu vou conseguir ajudar vítimas em outros países também.
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A vida se encaixa de uma maneira tão sincronizada que não fazia nem 10 dias que eu tinha pedido baixa dos bombeiros quando aconteceu o terremoto da Turquia. E aí, 48 horas depois da tragédia, eu estava lá, ajudando a localizar as vítimas soterradas. Da Turquia, eu fui pra São Sebastião, no litoral de São Paulo.
Eu fiquei mais de um mês na cidade, trabalhando na primeira na fase da emergência, depois na fase de reconstrução, com o Instituto Verde Escola. Mesmo fora do Bombeiros, eu continuo cumprindo o meu propósito de vida.
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Quando alguém está perdido, sem saber o que fazer, eu falo: “Tenta ajudar alguém. Você vai ver como isso vai ressignificar a sua vida”. Eu acredito tanto nisso, que eu já arrisquei a minha própria vida várias vezes pra ajudar os outros. Eu desmaiei durante um mergulho, tentando tirar um corpo d'água. Um teto desabou sobre mim num incêndio e rompeu todos os ligamentos do meu joelho. Em uma outra ocorrência, tentando salvar dois bombeiros soterrados num deslizamento, a laje da casa caiu no meu peito. Eu trinquei uma costela e fiquei preso com as pessoas que eu estava tentando resgatar.
Em todas as vezes que eu me deparei com a morte, eu só pensava assim: “Se chegou esse momento, tudo que eu fiz valeu a pena”. Tem gente que morre com 15 anos e impacta uma quantidade enorme de pessoas. Outros vão viver 100 e causar zero impacto. Pra mim, o que importa não é o número de anos que eu vou viver, mas a quantidade de vidas que eu vou impactar. O sentido da nossa existência é ajudar o outro.
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Geyze Diniz: Nossas histórias não acabam por aqui. Confira mais dos nossos conteúdos em plenae.com e em nosso perfil no Instagram @portalplenae.
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Para Inspirar
O male que já atinge até 4% da população mundial, segundo a OMS, em sua maioria jovens, ainda pode estar cercada de tabus e preconceitos.
9 de Setembro de 2022
No quarto episódio da nona temporada do Podcast Plenae, conhecemos um lado da cantora Wanessa que nem todo mundo conhece: as profundezas de sua mente. Não por acaso, é esse o pilar que ela representa nesta edição. Em seu relato, a artista divide momentos pessoais da infância que criaram nela um profundo medo da morte.
E esse medo evoluiu para a chamada Síndrome do Pânico, um quadro muito mais agravado e até mesmo clínico do que um simples “medo”. Mas do que se trata essa síndrome afinal? É importante começar pelos seus sintomas: ela é caracterizada por crises de ansiedade repentina e intensa com forte sensação de medo ou mal-estar, acompanhadas de sintomas físicos, como explica a biblioteca de saúde do Ministério da Saúde brasileiro.
Ele pode ocorrer a qualquer momento do dia, possui uma duração média de 15 a 30 minutos e nem sempre possui um gatilho evidente, a ponto do paciente conseguir identificar o que desencadeou aquela crise. Um fato curioso e triste é que, muitas vezes, as crises que sucedem a primeira se dão justamente pelo medo de sentir aquilo de novo.
Ou seja, a experiência é tão desconfortável e até traumática, que as outras crises podem se dar pelo simples medo de experimentar toda essa montanha-russa de sentimentos novamente. É o medo de passar por isso que pode levá-lo a passar, por assim dizer.
Mas isso não é uma regra, afinal, como foi dito, nem sempre o gatilho é evidente e ele pode ser múltiplo. O de Wanessa, por exemplo, era o medo de morrer acarretado de uma infância marcada por acidentes que, de certa forma, expuseram sua fragilidade humana desde muito jovem.
E falando em jovens, eles são os mais atingidos: segundo a Organização Mundial da Saúde, a Síndrome do Pânico (ou Transtorno do Pânico, conhecido como TP) já atinge de 2 a 4% da população, uma parcela bastante alta, com pico entre os 20 e 24 anos de idade, sendo que normalmente acomete pessoas acima dos 14 anos.
O cérebro
Apesar de gerar sintomas físicos, quando os pacientes portadores da síndrome são submetidos a exames clínicos, geralmente nada é encontrado - e daí é que vem a frustração. Como assim eu não tenho nada se me senti à beira de um precipício? Pois é, porque todo esse desdobramento aconteceu somente em seu cérebro, mais especificamente na região central dele.
Segundo o psiquiatra Cyro Masci, nosso cérebro foi sendo formado aos poucos, seguindo o processo de evolução de todos os seres vivos. "É como se fosse uma casa que foi ganhando "puxadinhos" para atender às necessidades que foram surgindo." A ansiedade, por exemplo, é um mecanismo de defesa natural muito utilizado por nossos antepassados para se prevenir de ataques, ou seja, era seu corpo avisando para que ele ficasse alerta.
Seguindo a explicação de Cyro, a primeira parte do cérebro surgiu para atender às necessidades básicas de sobrevivência e exigia poucas funções essenciais. "Por exemplo, colocar o corpo em movimento para ir em busca de alimento e também disparar um alarme de emergência diante de perigos no ambiente, como fugir de outros animais para não virar comida”.
Mas com o passar do tempo, a sociedade evoluiu e ganhou novos ares e até novas ameaças. Nosso cérebro, portanto, foi tendo que adaptar-se às mudanças e, em um processo evolutivo, desenvolveu uma nova região do cérebro, mais sofisticada por assim dizer: a amígdala cerebral.
Trata-se de um grupo de neurônios localizados nas profundidades do lobo temporal (lateral), de tamanho pequeno e que fazem parte do sistema límbico, processando as emoções. A Síndrome do Pânico ocorre quando essa região está desregulada e emite falsos sinais de perigo. "Imagine um carro que possua alarme contra ladrões, que é a nossa amígdala cerebral. Esse dispositivo tem que existir para proteger o veículo”, diz o psiquiatra ao Terra,
Quando esse alarme estiver desregulado, ele irá reagir a estímulos errados ou então tocará 'do nada', sem motivo algum. "O sistema de alarme desregula, toca por motivos errados ou sem motivo algum e gera informação errada de que há um grande perigo acontecendo", complementa Cyro Masci.
É mais ou menos isso que acontece na Síndrome do Pânico: o seu cérebro entende que está sob ameaça e coloca todo o seu corpo para reagir diante dessa ameaça, ainda que ela não exista de fato ou esteja sendo superestimada. Mas como e por que essa espécie de alarma desregula?
Em geral, por excesso de estímulos, o que não seria uma grande novidade em uma sociedade tão acelerada. Mas ele pode ter sido acionado diversas vezes na infância, seja por excesso de situações traumáticas ou estressantes, como foi o caso de Wanessa, ou em outro período da vida. "A genética também contribui, mas até o momento a ciência não sabe exatamente qual gene está alterado", diz Cyro.
Na fase aguda, o indivíduo pode sentir até mesmo pontadas no peito e falta de ar, o que o leva a crer que está tendo um infarto, por exemplo. Há ainda outros sintomas, como sudorese excessiva, tontura acompanhado de náusea, formigamentos e tremores, sensação de pernas bambas, calafrios ou ondas de calor e, nos piores casos, até mesmo um desmaio pode acontecer.
O tratamento é completamente individual, e precisa fazer sentido para a pessoa que sofre desse mal. Há diferentes abordagens psicoterapêuticas, com sessões de terapias específicas para isso, como a hipnose, ou uma abordagem psicanalítica para entender a origem do medo.
Há ainda as abordagens medicamentosas e, para isso, é preciso o acompanhamento de um médico psiquiatra. São muitas as opções de remédios no mercado e também não há uma resposta certeira de qual fará melhor para você, é preciso testar ao lado de um profissional.
Importante reforçar que, no caso da abordagem psiquiátrica, é sempre proveitoso ter um psicólogo acompanhando junto pois, enquanto o paciente não entender a origem dos seus medos e identificar os primeiros sinais de uma crise e seus gatilhos, ele não conseguirá lidar de forma mais profunda com a situação, somente irá gerenciar crises.
Ter uma rotina, sobretudo do seu sono, não só deve como pode te ajudar e muito a manter seu corpo mais controlado. Exercícios físicos, como sempre, ajudam principalmente na liberação de hormônios importantes para a sua sensação de bem-estar e também para fortalecer ainda mais sua rotina.
Para alguns pacientes, se afastar de substâncias como álcool e outras drogas será necessário, pois elas podem agir como gatilhos para novas crises. Vale ressaltar, ainda, que alguns medicamentos como anfetaminas (usados em dietas de emagrecimento) ou drogas (cocaína, maconha, crack, ecstasy, etc) podem aumentar a atividade e o medo, promovendo alterações químicas que podem levar ao transtorno do pânico, como ressaltou a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva em seu site.
Não tenha vergonha de procurar ajuda, pois sem tratamento, a Síndrome só tende a piorar. É preciso estar acompanhado de bons profissionais e reconhecer seus gatilhos. Saúde mental é tão importante quanto a saúde física, como sempre reforçamos por aqui, e é parte do processo que pode te levar a uma qualidade de vida e, porque não, a uma longevidade.
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