Para Inspirar

Konrad Dantas em "Hoje eu vivo do meu sonho"

O sexto episódio da décima quinta temporada do Podcast Plenae é do produtor Konrad Dantas, representando o pilar Contexto

5 de Maio de 2024



Leia a transcrição completa do episódio abaixo:

[trilha sonora] 

Konrad Dantas: Começar a vida do zero é fácil. Eu comecei do menos 100. Eu sou negro. Não tenho sobrenome italiano. Não estudei em faculdade renomada. Eu aprendi a filmar fazendo alguns cursos livres. Nas aulas, eu era o único moleque que não tinha morado fora do Brasil. O único que ainda não falava inglês fluente. Era o mais jovem da turma. Na minha cabeça, eu tinha que arrepiar. 


[trilha sonora] 


Geyze Diniz: Konrad Dantas foi um dos grandes responsáveis por fazer o funk sair da bolha e se tornar o movimento cultural que representa nos dias de hoje. Dono do maior canal do Youtube da América Latina, Kond, como é conhecido, acumula diversas produções de sucesso e prêmios, se tornando exemplo e provando que não existe o impossível. Eu sou Geyze Diniz e esse é o Podcast Plenae. Ouça e reconecte-se. 


 [trilha sonora] 


Konrad Dantas: Meu nome é Konrad, mas me chamam de Kond. O apelido veio porque o meu irmão mais novo, Kauê, não conseguia pronunciar o meu nome. 


Eu nasci em Santos e cresci na Vila Santo Antônio, na periferia do Guarujá, litoral de São Paulo. A minha mãe é professora da educação infantil, e o meu pai fez de tudo um pouco: pintor, pedreiro, cozinheiro, encanador… A gente morava num conjunto habitacional da CDHU. 


Quando eu era criança, eu sonhava em mudar a realidade da minha família. Mas, eu não acreditava que tinha capacidade intelectual de passar num vestibular de uma faculdade pública. E eu também sabia que a minha família não tinha condição de pagar uma boa faculdade privada pra mim. Então, eu achava que a música seria o meio pra eu ganhar dinheiro.  


[trilha sonora] 


Com 11 anos de idade, eu comecei a cantar rap e abri uma gravadora. E eu era o CEO e o único artista dessa empresa. Eu escrevi o nome da gravadora na porta do meu armário, no meu quarto. Coisa de moleque. Eu não lembro muito o que eu escrevi, assim, mas era alguma coisa, do tipo, o nome do meu bairro, sei lá. Tipo Quebrada Santo Antônio, alguma coisa assim.  


O meu nome artístico era KondZilla, uma mistura do meu apelido com o personagem Godzilla, o primeiro filme que eu assisti no cinema. O plano de virar cantor de rap não deu certo. Eu era muito tímido e, pra mim, não fazia sentido ser um artista tímido. Eu também não sabia tocar nenhum instrumento então era um pouco mais difícil eu fazer os instrumentais. E aí, eu entendi que eu era um apertador de botão. Um apertador de botão com um bom ouvido, eu diria. 


[trilha sonora] 


Eu acho que uma das minhas maiores habilidades, desde cedo, é corrigir a rota quando um caminho tá indo pra uma direção errada. Eu aprendi com a minha mãe a ser pragmático. Não tenho tempo a perder.  


Na adolescência, eu percebi que eu tinha um pouco de aptidão pra design. Com 16 anos, a minha mãe comprou pra mim um gravador de CD. E eu fazia coletânea das músicas da época na Baixada Santista e criava capa dos CDS e vendia por 5 reais. Olhando pra trás, eu acho que eu fazia um pouco do trampo que eu faço hoje, que é de produção executiva.   


Aí, eu comecei a trabalhar como web designer numa faculdade e ganhava 915 reais por mês. Eu sabia que precisava estudar, se eu quisesse crescer. Eu encontrei um curso bom pesquisando na internet, mas meus pais não tinham condição de pagar. E eu falei: “Mãe, assim que eu tiver uma oportunidade, eu vou estudar cinema 3D em São Paulo”. 


[trilha sonora] 


Uns dois ou três meses depois dessa conversa, a minha mãe faleceu.  


[trilha sonora] 


Ela teve um aneurisma cerebral, ela tinha só 46 anos. Eu nunca tinha visto nem ela ficar gripada. Quando a minha mãe morreu, a gente tava sem se falar, assim, por que a gente tinha tido um desentendimento. Na minha cabeça, a gente ia se falar em breve, assim, voltar a fazer as pazes. Mas não deu tempo.  


Ela ficou em coma 10 dias. E eu fui todos os dias ao hospital conversar com ela. Tenho certeza que, no meu coração, que ela me perdoou por tudo que eu fiz de errado, e eu também conversei muito com ela e falei muitas vezes que eu tinha liberado o perdão pra ela. Tenho certeza que um dia a gente ainda vai se encontrar e alinhar tudo que ficou desalinhado aqui nesse plano espiritual. 


Acho que a negrona era visionária. Sabia que ia partir cedo porque ela tinha feito três seguros de vida. E aí, no dia do enterro dela, aconteceu algo muito curioso. Eu lembro que as amigas dela falaram assim pra mim e pro meu irmão: “Bom, sua mãe trabalhou a vida toda pra realizar um sonho que era comprar um apartamento em frente à praia de Santos, no Gonzaga.”  


Aí eu pensei: “Se eu comprar o apartamento, eu não vou ter dinheiro pra pagar nem o condomínio”. Então, eu e meu irmão, a gente decidiu correr atrás do nosso sonho, e não do sonho da minha mãe. E eu e meu irmão usamos essa grana pra estudar. Meu irmão virou dentista. Eu comprei a minha primeira câmera e fui pra São Paulo estudar computação gráfica e cinema 3D.   


Na época, eu tava focado em trabalhar com pós-produção. Então, eu não me dediquei em duas disciplinas: direção de cena e direção de fotografia. Quando o curso acabou, eu me senti em dívida com a minha mãe. E eu comecei a estudar essas matérias por conta própria. O resultado foi que eu acabei me apaixonando por essas duas áreas que, hoje, são o core business da minha empresa. 


Aí eu comecei a tatear pra ver pra onde que eu ia, aonde seria mais fácil eu trabalhar como videomaker. Eu queria fazer vídeo de música, mas não conhecia ninguém nessa área. Achei que seria impossível. Daí, eu fui fazer vídeo de esportes radicais.  


Como eu sou do litoral, eu tenho muitos amigos surfistas e skatistas. Eles são patrocinados por marcas e as marcas queriam me pagar com bermuda e camiseta. Não fazia sentido eu montar uma loja de roupa pra eu pagar as minhas próprias contas. Eu vi que não ia rolar no esporte e decidi tentar na música.   


[trilha sonora]  


Quando eu vi um cara chamado MCLon, que fez um clipe com um celular Motorola V3 em cima de uma laje, batendo na palma da mão. O vídeo tinha 7 milhões de views no Youtube. Eu pensei: “Se o cara faz isso com um Motorola V3 e teve 7 milhões de views, ​com o que eu aprendi nas aulas, o vídeo vai ficar muito melhor e, provavelmente, vai dar mais audiência​”. Eu já sabia da importância do funk pras pessoas que vivem na favela. Na comunidade que eu cresci tocava muito funk. E eu sabia também que só os artistas grandes, apoiados pelas gravadoras que tinham clipes bons.  


Eu achava, e continuo achando, que a música tem um papel fundamental no entretenimento pra quem é de comunidade. No começo dos anos 2000, a classe C tava vivendo um momento de ascensão econômica. Os jovens tavam tentando entrar na universidade, as famílias tavam comprando carro pela primeira vez. O consumismo foi parar na música, em um movimento chamado de funk ostentação.  


Quando eu cheguei em São Paulo, eu vi que a periferia daqui era diferente da periferia do litoral. Na capital rola muito mais grana, e eu fui filmando tudo que me chamava atenção na favela. Um óculos de 2 mil reais. Uma moto de 80 mil. 


O primeiro clipe que eu fiz que bombou foi o do MC Boy do Charmes, que deu 1 milhão de views em 28 dias. Eu não sabia se era competência ou sorte de principiante. Eu não me deslumbrei. E o meu terceiro clipe de funk foi do MC Guimê, que deu 1 milhão de views em duas semanas. Aí eu achei que tinha um pouco de talento pra fazer aquilo ali. 


E aí, eu comecei a fazer mais clipes e a investir no meu canal do Youtube, que eu chamei de Canal KondZilla. Em 2016, a gente fez videoclipe da música do MC João, 'Baile de Favela'. Foi o primeiro clipe de funk a bater 100 milhões de visualizações. 


O MC João foi ao programa da Fátima Bernardes, e ela falou assim pra ele: “Cara, a sua música é muito legal. Mas, se não você não tivesse falado aquele palavrãozinho, talvez a sua música ia um pouquinho mais longe”. 


E a gente ficou pensando: “Será que ela ia mais longe mesmo?” A linha entre retratar a realidade e promover um tipo de cultura é tênue. Mas a gente decidiu experimentar. Tirou os palavrões das músicas e decidiu também não filmar mais mulher de lingerie, nem armas nos vídeos. 


Todo mundo falou que eu ia falir a KondZilla e afundar o funk. Só que foi ao contrário. A gente fez o clipe da música ''Deu Onda, do MC G15, e o vídeo foi o segundo vídeo mais assistido do mundo no Youtube. O funk saiu da bolha da periferia. O número de inscritos do canal no Youtube pulou de 8 pra 22 milhões, em um ano.  


[trilha sonora] 


Eu sabia que quem tinha capacidade técnica e artística pra desenvolver um trabalho de audiovisual pro público de comunidade não queria trampar com funk. Então, eu decidi me dedicar nesse gênero, e pra esse público. O Brasil ainda tem muito preconceito com o funk. É um gênero de origem periférica, marginal, no sentido de tá à margem da sociedade ideal, de um comportamento vendido como o sonho. Só que o funk já é um movimento cultural, e não apenas um gênero. 


Eu sempre fui muito observador. E sempre gostei de tentar entender o comportamento das pessoas. Na periferia que eu cresci, eu via algumas coisas acontecendo. E ouvia algumas histórias. E eu pensava: “Bom, se um dia eu tiver a oportunidade de contar uma história dento de uma obra de audiovisual, eu quero contar a história desse cara, daquele cara, daquele outro cara”. 


E eu fui juntando essas informações e comecei a pensar numa história de três moleques, amigos de infância, que queriam comprar um tênis, um Adidas Springblade, que na época era o tênis mais bombado, que toda molecada queria comprar. Eu pensei em fazer um curta que representasse a galera da periferia de São Paulo, né. O povo quer se ver representado nas telas. E a quebrada de São Paulo não tem nada a ver com a quebrada de Nova York.  


E aí, quando eu comecei a contar essa história pra um amigo fotógrafo, ele me apresentou pra um roteirista. E aí, esse roteirista falou assim: “Cara, isso não é um filme, nem um curta. Isso é uma série”.  


A gente desenvolveu um projeto e apresentou pra Netflix. Em 2019, o Sintonia foi a séria mais assistida da plataforma. E hoje, a nossa empresa trabalha com música, com produção de conteúdo pra internet, pra publicidade, documentário, ficção. Só o nosso canal do Youtube tem mais de 67 milhões de inscritos e hoje, é o maior canal do Brasil e da América Latina.    


[trilha sonora] 


Quando eu penso na minha trajetória, eu comparo com a de um árbitro de futebol. Um árbitro provavelmente queria ser um artilheiro ou então, um goleiro. Mas ele vive de futebol. Aconteceu isso comigo também.  


Eu queria viver de música. Achava que seria eu cantando. Depois, eu achava que ia ser produzindo as batidas. Hoje eu vivo do meu sonho, mas não na atividade que eu imaginei. Hoje sou empresário, produtor fonográfico e produtor audiovisual. Eu alcancei o mesmo objetivo, mas por estradas diferentes, conseguindo dar uma vida mais confortável pra minha família. 


[trilha sonora] 


Ano passado, inaugurei o Instituto Kondzilla, uma ONG pra capacitar o jovem de periferia no Guarujá porque eu tinha percebido que tinha um déficit na mão de obra especializada no audiovisual. E os cursos são uma oportunidade para galera descobrir novos talentos, né? 


E eu quero mostrar pra molecada que não existe o impossível, desde que dependa apenas de você. Ninguém me ensinou que era impossível. Tudo dá para fazer, desde que a gente trabalhe duro. A sorte é a soma de um monte de circunstâncias que acontecem ao mesmo tempo. Quanto mais preparado você tiver, mais você vai conseguir aproveitar as oportunidades quando ela bater na sua porta​​​​. E isso não significa que você tenha que ficar contando apenas com a sorte. Você pode desenvolver estratégias pra criar a sua própria sorte. Ou então, como dizem os evangélicos, a sua sorte de bênçãos. 


[trilha sonora] 


Geyze Diniz: Nossas histórias não acabam por aqui. Confira mais dos nossos conteúdos em plenae.com e em nosso perfil no Instagram @portalplenae. 


[trilha sonora] 

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Para Inspirar

Isabella Fiorentino em “Meu melhor amigo é Deus”

Na quarta temporada do Podcast Plenae - Histórias para Refletir, conheça a jornada espiritual da modelo e apresentadora Isabella Fiorentino

21 de Março de 2021


Leia a transcrição completa abaixo:

[trilha sonora] Isabella Fiorentino: Dizem que a gente vai pra Deus por amor ou pela dor. Eu fui pelo segundo caminho. A religião fazia parte da minha vida, mas eu me voltei de verdade a Deus, a Nossa Senhora, à oração e à meditação católica na minha gravidez. Ser mãe era tudo que eu mais queria na vida. Só que eu nunca imaginei engravidar de trigêmeos univitelinos! Eu passei a gestação em repouso absoluto, correndo um risco enorme de perder um, dois ou até mesmo os três bebês. Foi um período de muita introspecção e quietude, em que a fé se tornou a minha melhor amiga, minha companheira.  Geyze Diniz: A apresentadora Isabella Fiorentino sempre teve a fé como uma presença constante em sua vida. Mas foi durante a gravidez de seus três filhos que ela percebeu que mesmo quando a vida prepara alguns percalços a fé pode te manter no prumo com força e serenidade. Acompanhe o lindo relato da Isabella dividindo com a gente as suas percepções sobre espiritualidade e fé. Ouça no final do episódio as reflexões da especialista em desenvolvimento humano, Ana Raia, para te ajudar a se conectar com a história e com você mesmo. Eu sou Geyze Diniz e esse é o Podcast Plenae. Ouça e reconecte-se. Isabella Fiorentino: Eu venho de uma família católica praticante. Desde pequena, eu sou acostumada a agradecer a Deus, a rezar antes de comer e à noite. Em momentos difíceis, eu peço: “Deus, eu preciso da Tua ajuda”. E foi assim quando o meu irmão Fábio morreu de leucemia, aos 15 anos. Eu tinha 17. Ele era meu melhor amigo, a gente estudava na mesma escola, ficávamos juntos no recreio. Foi uma tragédia. Naquela época, eu já estava trabalhando como modelo e quis desistir da minha carreira. Eu só tinha vontade de ficar em casa com a minha mãe, com minhas irmãs e meu outro irmão. Até hoje, a religião é o que segura a minha mãe. E foi o que me deu gás pra voltar à vida.  Eu carreguei a espiritualidade dentro de mim durante toda minha carreira. Teve uma época que eu morei em Milão e dividi um quarto com várias meninas. Enquanto elas escutavam música pop, eu ouvia um CD do Padre Marcelo Rossi. Na época, ele tava começando a ficar famoso. As minhas amigas me zoavam: “O que que você tá ouvindo, Isabella!?” E eu falava: “Gente, eu amo!”. Eu realmente me sentia bem escutando música religiosa.  [trilha sonora] Com 20 e poucos anos, eu fui diagnosticada com anorexia. Eu não conseguia comer, eu não salivava e eu enxergava a comida como inimiga. Eu não queria ganhar peso, porque eu dependia daquele corpo magro pra trabalhar. O meu psiquiatra me ajudou muito quando perguntou qual era o maior sonho da minha vida. Eu disse, sem pestanejar, que era ser mãe. Ele falou que, com aquela alimentação dificilmente eu conseguiria engravidar. O alerta dele foi crucial pra eu querer me tratar.  Eu me curei com remédio e com terapia. Uns dez anos depois, já casada, eu tomei hormônios para ativar a ovulação, mas eu não engravidei. Eu estava numa época muito importante de trabalho, renovando um contrato muito bom com o SBT e falei: “Quer saber? Não é a minha hora de ser mãe”. Então eu desencanei e achei melhor esperar mais alguns meses. No momento em que eu desisti de tentar, não é que eu fiquei grávida… Eu descobri num teste de farmácia, mas eu pulava de alegria na hora e agradeci tanto a Deus pela realização daquele sonho. No primeiro ultrassom, eu já descobri que eu estava esperando trigêmeos univitelinos. Eu tinha uma placenta pra três bebês idênticos, um acontecimento raríssimo na natureza. A gestação fazia parte do meu sonho de ser mãe. Eu tinha vontade de apresentar o Esquadrão da Moda grávida, de falar sobre moda gestante, de exibir meu barrigão na praia... E eu sonhava, claro, com um parto natural. Só que saiu tudo diferente do que eu tinha imaginado.  [trilha sonora] Pra começar, a gravidez durou menos de seis meses. E no segundo mês, eu já entrei em repouso absoluto. Eu, que sou uma pessoa tão ativa, de repente tive que me ver numa cama. Eu só levantava pra ir ao banheiro e tomar um banho com a ajuda da minha mãe, claro. Eu me sentia fraca, com falta de ar, porque meu pulmão já estava sendo espremido pelos bebês. Na época, não tinha Instagram, nem um canal de comunicação que eu pudesse compartilhar o que estava acontecendo comigo. Eu passei muito tempo sozinha, porque embora meu marido, minha mãe, minha sogra e minhas irmãs ficassem comigo, todo mundo tinha suas coisas pra fazer. Deitada, em silêncio, eu me tornei mais introspectiva, mais reflexiva. Naturalmente, a fé aflorou dentro de mim e se tornou a minha maior companheira. Eu conversava com Deus e Nossa Senhora e perguntava: “Por que eu fui escolhida pra ser mãe de trigêmeos?” Na décima segunda semana de gravidez, eu fiz um exame e o médico disse que meus filhos poderiam ter síndrome de down. Tirando a morte do meu irmão, foi o momento mais difícil da minha vida.  [trilha sonora] Apesar de toda aquela angústia, eu me senti muito poderosa. Porque estava nas minhas mãos que esses meninos nascessem. Eu disse pros três dentro na minha barriga que eu seria uma mãe maravilhosa pra eles, não importava como eles viessem. A minha bolsa estourou com 27 semanas de gestação. Eram 3 horas da manhã, eu estava deitada, dormindo, quando senti o líquido vazando. Meus filhos nasceram às 6h da manhã. Mas, eu não consegui nem colocá-los no meu colo. Eu só vi as cabecinhas minúsculas e pretinhas passando bem rápido, porque eles foram levados direto pra UTI e entubados. O primeiro que chegou foi o Bernardo, com 1 kg, depois o Lorenzo, com 1,2 kg, e por último o Nicholas, com 800 gramas. Era praticamente um saquinho de açúcar. O meu marido estava muito emocionado e repetia: “Eles são muito pequenos, eles são muito pequenos”. Eles eram mesmo. Eles cabiam na palma da minha mão. Os três passaram 90 dias na UTI, um período que foi um grande teste pra minha fé. Porque imagina, eu tive três filhos, mas voltei pra casa sem nenhum deles. Eles foram meus companheiros durante a gravidez. Naquele momento eu me senti muito sozinha.  [trilha sonora] Eu ficava no hospital das 7h da manhã até meia noite. O Bernardo teve uma infecção e suspeita de meningite. O Lorenzo, com três dias de vida, sofreu uma hemorragia cerebral, por causa de uma pressão de ar no pulmão que estourou uma veia do lado direito do cérebro. Ele passou por uma cirurgia pra colocar uma válvula na cabecinha e o médico já avisou: foi uma hemorragia extensa, provavelmente, vai deixar sequela. E ele realmente ficou com um atraso motor.  [trilha sonora] Foi muito duro, mas naqueles três meses, eu nunca tive uma expressão de “não aguento mais, tô cansada ou coitada de mim”.  [trilha sonora] Eu falava: “Deus, não quero saber, eles têm que ficar bem, eu quero esses moleques na minha casa. Eu preciso deles comigo, não importa como nem com que sequela”. E foi Deus quem me segurou pra eu não enlouquecer e não perder as esperanças. Eu não fiz promessa, porque pra mim fé não é barganha: “Eu não como isso, você me dá aquilo”. O que eu faço são mortificações, que são rituais de oferecer a Deus algo que eu não goste de fazer e que eu precise fazer. Por exemplo, se eu preciso acordar muito cedo e não tenho vontade, eu falo: “Deus, eu ofereço esse sacrifício pra você, porque eu te amo muito”. Mas, sem esperar nada em troca. Eu aceito as coisas na minha vida como elas são, porque eu entendo que tudo é pra minha evolução. Se algo não sai conforme os meus planos, eu não me revolto, não reclamo, eu não fico perguntando o porquê. A minha pergunta é pra quê. O que eu posso fazer para tirar algo bom daquela situação?  Eu conheço muitas religiões e entendo um pouco a história da energia e da lei da atração. Eu concordo que é importantíssimo ter pensamento positivo, mas colocar na nossa conta tudo que acontece na vida, acho cruel. Na minha visão, as coisas boas e as coisas ruins podem acontecer com qualquer um de nós. A diferença é que a espiritualidade e a fé dão forças pra gente enfrentar momentos de dor, de dificuldade. E Deus pra mim é uma pessoa, que conversa comigo, que sabe o meu nome, que sabe todos os fios de cabelo da minha cabeça. Ele não é uma coisa, não é uma estrela, uma energia. Nos momentos de angústia com as crianças, fez uma grande diferença na minha vida ter uma pessoa ao meu lado, não uma energia.  [trilha sonora] Os meninos foram pra casa com uma semana de intervalo cada um. Primeiro, chegou o Nicholas. Mas eu sentia uma culpa enorme de ver um deles quentinho, no silêncio do berço, enquanto os outros estavam cheios de furos, fios e com um monte de apito no ouvido. Foram semanas de vai-volta, vai-volta de casa pro hospital. Eu tenho até uma foto de quando, finalmente, o Bernardo, o último a ter alta, chegou em casa. Foi um alívio! Aquele período difícil tinha definitivamente ficado pra trás. [trilha sonora] Eu sou muito fiel e grata a Deus. Espiritualidade é algo que se sente, não precisa ter explicação. Tem até aquela frase durante a missa, na hora da consagração, onde o padre diz: eis o mistério da fé. Várias coisas do catolicismo eu não entendo, mas eu não questiono. Eu converso com Deus em vários momentos do dia. De manhã, eu faço uma oração de agradecimento e oferecimento de obras. Ao meio-dia, eu rezo o Angelus, que é uma tradição que celebra o momento em o Anjo anunciou a Nossa Senhora a vinda do menino Jesus. Às 3 da tarde eu rezo o Terço da Misericórdia. E às seis da tarde, eu rezo o rosário. Eu não sou muito apegada a santo, amuleto, nem tenho superstição. Eu carrego o terço na minha bolsa só pra poder rezar sem perder a conta. Toda semana, eu participo da missa e também recebo em casa por volta de dez amigas para um grupo de oração. A gente reza o terço, medita e estuda a palavra sagrada com a ajuda da nossa diretora espiritual. Hoje, eu procuro transmitir a espiritualidade e a fé pros meus filhos de uma maneira bem orgânica. À noite, antes de dormir, faço uma atividade com eles que se chama exame de consciência. Primeiro, a gente reza o Pai Nosso, a Ave Maria e agradecemos pelo dia. Aí eu pergunto: “O que vocês gostariam de agradecer a Deus pelo dia de hoje?” Eles respondem e em seguida eu pergunto: “E o que vocês fizeram hoje que poderiam ter feito melhor?” E aí eles analisam as atitudes deles, como falar alto com alguém ou esquecer de agradecer antes de comer, por exemplo. Mas é um ensinamento leve e amoroso. E eu digo pra eles: Deus é teu Pai. Deus é teu amigo. Deus é amor. [trilha sonora] Ana Raia: A vida é uma experiência de movimentos e mudanças constantes. Fazemos muitos planos, temos grandes sonhos, muitas expectativas. Mas, a real é que muitos desses eventos são inesperados e inevitáveis. Alguns deles são bênçãos, outros pedem muito protagonismo e alguns nos tiram o chão e nos deixam sem ar. E esses, que muitas vezes são os mais difíceis de aceitar, muitas vezes nos tiram do caminho esperado e nos levam para onde realmente devemos estar. E a fé, quando escolhida pra lidar com essas situações, nos conecta com os mistérios da vida, traz compreensão, clareza, faz a ligação entre o conhecido e o desconhecido, nos aproxima do sagrado e nos motiva a continuar adiante. E a história de Isabella não foge dessa realidade. Segundo Immanuel Kant, que foi um filósofo alemão: "Avalia-se a inteligência de um indivíduo pela quantidade de incertezas que ele é capaz de suportar". Não podemos ter controle de tudo, mas podemos escolher como enfrentar o inesperado e a fé é uma dessas escolhas. A fé, não importa qual, tem o potencial de ser a ponte da travessia que nos guia com confiança até o desconhecido. E, no momento atual, frágil, incompreensível, em que prevalece a ansiedade e não linearidade dos eventos, a fé se torna uma ferramenta essencial em nossas vidas. Pois a fé é sobre isso, sobre acreditar e confiar. Segundo o escritor inglês William Shakespeare: "Há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia". [trilha sonora] Geyze Diniz: Nossas histórias não acabam por aqui. Confira mais dos nossos conteúdos em plenae.com e em nosso perfil no Instagram @portalplenae. [trilha sonora]

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