Para Inspirar

Itamar Vieira em "A literatura é um instrumento de humanização"

A oitava temporada do Podcast Plenae está no ar! Confira a história do autor Itamar Vieira. Aperte o play e inspire-se!

15 de Maio de 2022


Leia a transcrição completa do episódio abaixo:


Itamar Vieira Junior: Ninguém na minha família tinha o hábito de ler. Mãe, pai, avós, tios, primos, muito menos os meus irmãos, que são mais novos do que eu. O único livro que existia em casa era a Enciclopédia do Estudante, que ficava numa prateleira baixa, de fácil acesso pra mim.

Quando aprendi a ler, eu pegava esse livro e lia e relia os verbetes com muito interesse. Aprendi sobre Madame Curie, sobre os planetas do Sistema Solar, sobre um quadro de Repin, que é “Ivan, o Terrível e seu filho Ivan”, sobre a biblioteca de Alexandria, sobre o mapa do Brasil e de outros países. Aquela enciclopédia era o meu refúgio, e foi o meu primeiro contato com um livro. 

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Geyze Diniz: O premiado escritor baiano Itamar Vieira Junior, com seu olhar e sensibilidade, transformou em romance a Bahia que poucos conhecem. Na sua premiada obra “Torto Arado”, traduziu em páginas como o contexto ao redor pode ter muitas nuances.

Conheça a história do soteropolitano Itamar Vieira Junior. Ouça no final do episódio as reflexões do rabino, escritor e dramaturgo Nilton Bonder para te ajudar a se conectar com a história e com você mesmo. Eu sou Geyze Diniz e esse é o Podcast Plenae. Ouça e reconecte-se.

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Itamar Vieira Junior: Eu nasci na Cidade Baixa, um bairro histórico e portuário de Salvador, onde fica o Mercado Modelo. Depois, morando próximo ao centro da cidade,  vizinho à nossa casa, existia um armazém de secos e molhados, que parecia saído da década de 1940. Ele tinha cestos de ovos no teto, uma caixa registradora antiquíssima, fardos de feijão e arroz no chão, com uma canequinha que pegava pra pesar o grão naquelas balanças bem rudimentares. A filha do dono desse armazém era a professora Marlene, e foi ela quem me alfabetizou, quando eu tinha 5 anos.  


Na minha escola, não tinha biblioteca. Mas, um vizinho que estudava numa escola melhor que a minha fazia empréstimo de livros pra mim. Eu lia a obra num dia e devolvia, aí ele trazia outra coisa. Virou quase um vício naquele período. Um desses livros foi O Caso da Borboleta Atíria, de Lúcia Machado de Almeida. Eu fiquei fascinado pela história em que borboletas, grilos e outros animais que eu via no bairro e em casa falavam.

Como aquilo era possível? Eu entendi que aquele livro tinha sido escrito por alguém. Fiquei tão inspirado, que escrevi uma história que emulava a da Lúcia Machado de Almeida, só que mudando os insetos. Esse foi o primeiro texto que eu escrevi, aos 7 anos, e nunca mais parei. Mas esse hábito virou um segredo que eu guardaria até dos meus amigos.


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Na infância, eu li muito Luiz Puntel, Marcos Rey e outros autores da Coleção Vaga-Lume, uma série de livros infanto-juvenis que formou uma geração de escritores e leitores. Por falta de conhecimento e de alguém que me indicasse leituras, eu comecei muito cedo a ler autores maduros. Com 10, 11 anos, eu li Machado de Assis. Fiquei tão impactado, que eu queria devorar tudo dele, inclusive as obras que hoje as pessoas não dão muita importância, como Iaiá Garcia e Helena.

O meu exemplar de
Helena eu comprei juntando o dinheiro que meu pai dava para o lanche, quando ele podia. Foi nessa época também que eu conheci Eça de Queiroz e fiquei impressionado com O Primo Basílio, que eu ainda considero um dos grandes romances de língua portuguesa. Depois, descobri Jorge Amado, Érico Veríssimo e o meu primeiro livro de poesia, do João Cabral de Melo Neto. 


Eu só fui saber da importância dessas pessoas, quando comecei a ter aula de literatura na escola, lá pelos 15 anos. A minha professora, Teresinha Accioly, era apaixonada pelo tema e falava sobre os livros com paixão, com brilho nos olhos. Por influência dela, eu li Graciliano Ramos e Raquel de Queiroz. Esses autores me apresentaram o mundo rural, que eu só conhecia pelas memórias do meu pai, criado no campo até os 15 anos.

Nessa época, eu escrevi 80 páginas do que seria o primeiro esboço de
Torto Arado, uma história sobre duas irmãs que viviam numa propriedade rural e tinham o pai como uma figura importante. O manuscrito se perdeu numa mudança de casa, mas o enredo ficou na minha cabeça até se tornar um livro, 25 anos depois.

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A situação em casa era tão difícil, em termos financeiros, que eu achava que eu não conseguiria fazer universidade e que a minha vida ia ser igual à dos meus pais. 

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Minha mãe estudou somente até a oitava série do Ensino Médio, e o meu pai era técnico em contabilidade. Mas aí, quando eu estava no 3º ano, agora em uma escola melhor, eu descobri na biblioteca, depois de ler tudo o que tinha de literatura, os livros de geografia e história. Eu gostei muito da ideia de conhecer outros lugares e culturas, ainda que de maneira teórica, e prestei vestibular para geografia, com o intuito de me tornar professor.

Durante a universidade, o meu interesse pela literatura permaneceu. Eu continuava escrevendo e acumulando histórias pra talvez contar algum dia no futuro, mas já sem a esperança de me tornar um escritor. Depois da graduação, prossegui com um mestrado e quis seguir carreira como professor universitário.

Fui chamado para ensinar na Bahia e em Sergipe, mas na época eu prestei um concurso para o Incra, o
Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, e dei preferência para essa vaga. O trabalho parecia desafiador, sem rotina e com a chance de sempre conhecer lugares e pessoas novas. 


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Como servidor do Incra, acompanhei muito de perto a vida de mulheres e homens em assentamentos de reforma agrária e também em terras quilombolas e indígenas. Eu descobri que as histórias que meu pai contava sobre a infância dele eram reais e atuais. O campo ainda tem uma certa natureza preservada, uma paisagem social e econômica que se modificou pouco ao longo do tempo. Até hoje, estão lá o conflito entre a modernidade e a tradição e as relações sociais que remontam, muitas vezes, o período do Brasil Colônia.

Sempre que eu conversava com as pessoas da zona rural, elas manifestavam uma espécie de declaração de amor à terra. Muitas se recusavam a ir pra cidade, porque achavam que não conseguiriam sobreviver sem as coisas que a terra proporciona. É um ambiente de amor e ódio, porque há muita violência, mas também há muita solidariedade.


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Já estava trabalhando no Incra, quando publiquei um livro de contos, em 2012. Foi só aí que meus amigos e minha família souberam que eu tinha o hábito da escrita. As vivências acumuladas como servidor foram crescendo dentro de mim e serviram de material pra construir a narrativa de Torto Arado.

A história das duas irmãs e da relação delas com o pai ainda estava muito viva em minha mente. À medida que eu fui mergulhando no campo e conhecendo as batalhas d
as pessoas, as personagens que eu criei na adolescência ganharam densidade e profundidade.


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Sempre me perguntam se eu me inspirei em alguém para criá-las. Eu digo: sim e não. Não, porque não é uma pessoa só, e sim, porque muitos indivíduos que eu conheci atravessaram as personagens de alguma maneira. Torto Arado também reúne elementos da minha formação acadêmica como geógrafo. Eu nunca penso que as personagens estão num palco, num cenário inanimado.

Elas interagem com as construções, com o vento, com a chuva, com o sol, com a estiagem. No doutorado, eu me aproximei da antropologia, e esse conhecimento me deu repertório, como autor, pra eu me despir da minha moral, da minha ética e compreender que as personagens são seres autônomos. 


Quando o livro ficou pronto, em 2018, eu não tinha editora nem muito conhecimento a respeito do meio editorial. Fiz uma pesquisa na internet sobre concursos literários e o primeiro resultado que apareceu foi o Prêmio Leya, que eu nem conhecia. Mandei o arquivo faltando cinco dias pra encerrar as inscrições, e só depois fui pesquisar sobre o prêmio. Olhei os vencedores, o júri e vi que o concurso era voltado para o público português.

Não acreditei que ia dar em nada, nada mesmo, mas aí, seis meses depois, recebi um telefonema do poeta Manoel Alegra, dizendo que o livro era o vencedor. 
Eu fiquei surpreso. Enquanto eu escrevia Torto Arado, imaginava em contar uma história pras pessoas à minha volta, as pouquíssimas pessoas que já liam as pouquíssimas coisas que eu escrevia. Nunca passou pela minha cabeça que o livro venceria prêmios, conquistaria público e teria boa vendagem. Nunca, nunca, nunca. Tudo isso foi surpresa, uma boa e grata surpresa.

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É muito difícil, pra alguém que escreve, responder porque uma obra sua faz sucesso. Eu já tentei ler entrevistas de pessoas do mercado editorial, agentes literários e editores falando sobre o sucesso de livros. Nenhum deles tem uma explicação plausível. No caso de Torto Arado, eu me baseio no que os leitores me dizem. A história é muito brasileira, mesmo para um país bastante diverso. A memória do campo é recente no Brasil, porque o país se urbanizou tardiamente. Então, você não viveu no campo, seus pais não viveram no campo, mas é possível que seus avós ou bisavós tenham vivido. De alguma maneira, a história captura o leitor por esse lado afetivo.


O livro toca em traumas que não foram superados por nossa sociedade, como a chaga da escravidão. A gente costuma pensar que esse assunto está no passado, mas na realidade, é muito presente no nosso cotidiano. A gente vê toda semana, na imprensa, notícias sobre o resgate de trabalhadores em situações de escravidão. A população negra ainda persiste como a mais vulnerável e mais pobre, um resquício de uma falta de política que integre essas pessoas concretamente a sociedade. Essa é a única razão que eu encontro para o percurso que o livro vem fazendo. 

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A literatura é uma arte com uma expressão muito poderosa. Por isso, eu procuro fazer com as crianças ao meu redor o mesmo que professores fizeram comigo. Eu dei de presente pra minha sobrinha O Caso da Borboleta Atíria, a obra que tanto me fascinou na infância. Ela leu, fez até uma resenha, e passou pra outra sobrinha mais nova. As duas adoraram a história, mesmo tendo sido escrita há tanto tempo. 

Aos 40 anos, eu penso que minha vida não basta pra mim, ela é pouca. Eu preciso viver outras coisas, e a leitura me proporciona esse contato com o mundo, com personagens, com dilemas humanos, com tanta coisa que a minha existência nunca alcançará. A literatura é um poderoso instrumento de humanização, porque quando nos engajamos em  uma leitura, vivemos a vida dessas personagens.

A história se desenrola em nossa imaginação, não numa tela de TV, nem de cinema, nem em um palco de teatro. A gente imagina pessoas, lugares, situações. Isso é de tanta força, que é inevitável não se colocar no lugar do outro, não sentir empatia. Como leitor, eu me sinto pleno e realizado. Ler um livro e embarcar numa história e descortinar novos mundos, pessoas e coisas que na minha vida não irão ocorrer, mas que eu vou viver, porque a literatura me permitiu. 


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Nilton Bonder: Esse relato, do percurso de Itamar a sua obra, é tão rico em emoções e contemplações quanto sua escrita. Arar a literatura em um campo assim árido, seja pela falta de modelos, ou pelo contexto onde o consumo é tão precário, admitindo apenas itens de necessidade básica e imediata, nos revela um improvável processo para colher este celebrado fruto. Algo que tanto o surpreende. Por tudo isso, a humildade de Itamar ganha outro quilate, pois não é a mera humildade da simplicidade, mas a humildade de princípios.

Essa, que vê mais relevância em presentear uma leitora infantil, introduzindo-a na literatura, do que ao próprio leitor, que celebra sua obra. 
Muito diferente do processo de imaginar um público alvo, de customizar o seu trabalho a algum agrado ou objetivo qualquer, há uma lição sobre a legítima criação aqui, aquela que escuta a si e a suas sensibilidades, e o outro, o leitor, deixa de ser um freguês, para tornar-se um cúmplice do mesmo amor. 


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Geyze Diniz: Nossas histórias não acabam por aqui. Confira mais dos nossos conteúdos em plenae.com e em nosso perfil no Instagram @portalplenae.


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Desmistificando conceitos: o que é o Canabidiol e quais são seus benefícios?

Matéria-prima natural, ela é benéfica para diferentes fins - como é o caso da Olívia, filha do chef Henrique Fogaça -, mas segue enfrentando preconceitos culturais

3 de Junho de 2022


No terceiro episódio da oitava temporada do Podcast Plenae, conhecemos o lado paterno do renomado chef Henrique Fogaça. Representando o pilar Relações, ele contou a história de sua filha, Olívia, que aos 14 anos segue sem ter sua síndrome diagnosticada.


Sua condição a inibe de levar uma vida típica, como andar ou até mesmo falar. A adolescente, filha de um cozinheiro premiado, se alimenta por sonda e passa grande parte dos seus dias em uma cadeira de rodas. 


O que ela não poderia imaginar é que seu pai, Fogaça, seria incansável em busca de melhorar sua qualidade de vida. E em uma dessas buscas, ele se deparou com o canabidiol, substância natural amplamente estudada, mas que ainda enfrenta grande preconceito cultural no Brasil e no mundo.


 “A conhecida maconha e haxixe são todos produtos feitos a partir da planta cannabis sativa. Essa planta contém mais de 500 produtos químicos. Desses, mais de 100 apresentam uma estrutura similar, chamadas de canabinoides. O canabidiol é um desses canabinóides, mas ele não é o responsável pelos efeitos conhecidos da maconha, não produz barato ou dependência química. Isso quem produz é o THC, outra substância e que pode ser isolada”, explica Francisco Silveira Guimarães, médico e professor de farmacologia na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, que pertence à USP.


Seus caminhos foram levados aos estudos da cannabis há mais de 30 anos. “Foi basicamente devido ao meu orientador de doutorado, Antonio Zuardi, um dos grandes pesquisadores dessa área e hoje já premiado. Ele que implementou essa linha de pesquisa aqui e criou um grupo de outros psiquiatras no Hospital das Clínicas. Quem o incentivou foi Elisardo Carlini, falecido recentemente, e que foi o grande pioneiro dessa área de pesquisa em canabinóides aqui no Brasil”, resume. 


O Brasil é referência na pesquisa da substância. A USP ocupa o primeiro lugar como a instituição que mais publicou artigos sobre o canabidiol no mundo de 1940 até 2019, segundo o estudo Global Trends in Cannabis and Cannabidiol Research, publicado em 2020 na revista Current Pharmaceutical Biotechnology.


"Existem no momento, em várias partes no mundo, várias preparações contendo canabidiol, em alguns países são vendidos até como suplementos alimentares. As quantidades são bastante variadas, isso é até um pouco preocupante porque os estudos mostram que em mais de 30% dos casos aquelas quantidades que estão descritas nos rótulos não são reais. Por outro lado, ele também é muito usado como medicamento, inclusive aqui no Brasil. Aí é muito melhor classificado, você pode comprar ele puro, ou em spray, e em formatos que contém metade canabidiol e metade THC.


Para quê usar? 


Antes de definir essa pergunta, é preciso entender o processo de um estudo e os níveis de evidência. O primeiro estágio é chamado de cultura de célula, seguido pelo estágio pré-clínicas, quando ainda não começou a ser testado em seres humanos. Depois, há os primeiros estudos nos seres humanos (inicialmente chamado de estudos abertos, onde não tem um controle), e depois finalmente os ensaios clínicos, que são estudos grandes, com controle.


Nessa última etapa, os participantes não recebem a substância, chamado de “duplo cego”, ou seja, a pessoa pode receber a substância estudada ou um placebo - qualquer substância ou tratamento inerte (ou seja, que não apresenta interação com o organismo) empregado como se fosse ativo. Nem a pessoa e nem o avaliador, no caso um médico, sabem. Esse último estágio é chamado padrão ouro, que vai realmente cravar se aquele tratamento ou substância possuem efetividade.


“No momento, esse padrão ouro só foi atingido para o tratamento de crianças com epilepsia de difícil controle, em síndromes mais raras, ou então combinado com o THC no tratamento sintomático da Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA). Agora, do ponto de vista pré-clínico, o canabidiol tem um potencial enorme, principalmente do ponto de vista psiquiátrico e neurológico e até para câncer. Já temos evidências de muitos outros usos, por exemplo, para ansiedade e Síndrome de Burnout. Até mesmo Parkinson, insônia e dores crônicas também já apresentaram evidências”, conta o pesquisador.


É o caso de Olívia, filha de Henrique Fogaça, mencionado no começo deste artigo. Graças às pesquisas do pai e da luta para conseguir informação e acesso, ele passou a medicá-la e viu efeitos incríveis. Hoje, ela já consegue sorrir, olhar nos olhos, dar seus primeiros passos com a ajuda de uma prótese e, para a alegria do chefe, comer papinhas eventuais feitas, claro, por ele. 


“Nas primeiras pesquisas feitas com a substância em ratos, observou-se que ele oferecia o mesmo efeito que ansiolíticos já conhecidos no mercado, como o Diazepam, ou Valium no nome comercial. A diferença principal é que ele não produz tanta sedação quanto esses remédios tarjados”, explicou o mesmo pesquisador, mas ao podcast da Revista Gama. 


Assim como qualquer outro fármaco, ele oferece algum efeito adverso, que no caso, ainda vem sendo estudado. Novamente: isso vale para qualquer remédio. O que intriga os pesquisadores é justamente a baixa quantidade de efeitos adversos em comparação com o grande poder terapêutico do canabidiol. “A pessoa usar ao seu bel prazer não é uma coisa que seja recomendado pra nada”, pontua.


Em termos de inovação e modernidade, as áreas que estão mais avançadas em termos terapêuticos e caminhando para se tornarem padrão ouro, segundo Francisco, são no tratamento do estresse e da dor crônica. “E sabemos que o canabidiol oferece um efeito neuroprotetor que talvez possa ser útil em transtornos neurodegenerativos a longo prazo, como Alzheimer, Parkinson e até autismo, que não é neurodegenerativo, mas pode se beneficiar. Isso traz esperança, nós conseguimos entender que talvez seja possível desenvolver outros medicamentos a partir dele”. 


A cannabis e a sociedade


Para que seja possível avançar nos estudos, é preciso investimento e autorizações. Segundo a revista Exame, que trouxe dados da consultoria especializada BDSA, o mercado global de cannabis legal atingiu o patamar de vendas de 21,3 bilhões de dólares em 2020, o que representa um crescimento de 48% em relação ao ano anterior. A estimativa agora é de um aumento de cerca de 17% ao ano até 2026, levando o faturamento a 55,9 bilhões de dólares em cinco anos.


A reportagem ainda conta que, em um relatório recém-lançado, Gabriel Casonato, analista do BTG Pactual digital, explica que se considerarmos que o avanço na regulação e legalização da cannabis para fins medicinais ou recreativos deve avançar em países como Israel e Alemanha, a cifra prevista para os próximos anos beira os 100 bilhões de dólares. O montante é superior ao movimentado pela indústria de refrigerantes nos Estados Unidos ou de cervejas no Canadá.


Economicamente falando, o destaque vai para o uso terapêutico, mas a cannabis ainda pode ser usada na indústria têxtil, alimentar, recreativa e até automotiva. 

Por aqui, demos um passo importante em 2019 com a liberação pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) da venda de produtos à base de cannabis em farmácias. 


Porém, os preços ainda são altos, o cultivo e a manipulação da substância no país seguem proibidos, e a compra dos fármacos só pode ser feita com a apresentação de uma prescrição médica. Um dos grandes entraves que o tema encontra não só aqui no Brasil, como em muitos lugares do mundo, é o preconceito. 


“Isso é uma ignorância geral sobre o que é a maconha, ela foi muitas vezes vendida como uma droga do inferno pela sociedade. Por outro lado, a juventude a enxerga como uma droga leve que não produz efeitos adversos, e isso também é ruim, pois ignora seus efeitos adversos. Mas já está muito melhor do que era há uns anos”, comenta Francisco.


Para sanar esse problema, é preciso esclarecimento à população. Campanhas potentes, como a do antifumo no começo dos anos 2000, pode ser uma solução importante na visão de Francisco. Mas, para que isso aconteça, é preciso que as entidades governamentais estejam comprometidas e determinadas a olhar para o tema com a seriedade que ele demanda. Muitas coisas boas podem vir a partir disso. 

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