Para Inspirar

Flores para os Refugiados em “A beira da praia pode ser um lugar seguro”

Na quarta temporada do Podcast Plenae - Histórias para Refletir, conheça o trabalho inspirador de Gabi e Kety, em Flores para os Refugiados

25 de Abril de 2021


Leia a transcrição completa do episódio abaixo: 

[trilha sonora]

Gabriela Shapazian: Ninguém escolhe ser refugiado. São pessoas como eu, como você, com a diferença que sofreram um trauma que a gente nem consegue imaginar o tamanho. Eles perderam tudo: os bens, a dignidade, muitas vezes a família. Eles saem de casa e vão pra outro lugar desconhecido recomeçar a vida do zero. E ainda são mal recebidos quando chegam. Um homem do Iêmen me disse que era a primeira pessoa que olhava ele no olho, sem ar de superioridade. Eu trato os refugiados de igual pra igual, porque é assim que eu gostaria de ser tratada se tivesse no lugar deles. Quem disse que um dia eu não posso ser uma refugiada também? Eu não sei o que vai acontecer com o mundo daqui a 10, 30, 50 anos. Se eu tiver que entrar num bote de borracha pra fugir da guerra ou da miséria, eu quero que do outro lado do mar tenha alguém pra me receber com um abraço.  [trilha sonora]

Geyze Diniz: A ativista Gabriela Shapazian se dedica a ajudar refugiados desde os 16 anos. Ela se apaixonou pela causa quando trabalhou como voluntária na Grécia ao lado da mãe, Kety. As duas recepcionavam pessoas que atravessavam o mar em condições precárias vindos do Oriente Médio, da África e da Ásia. Nessa viagem, Gabi mudou a sua visão de mundo. A vida confortável que ela levava em São Paulo deixou de fazer sentido pra ela. E para financiar o trabalho da filha nessa missão humanitária, Kety criou um negócio: o Flores para os Refugiados. Ouça no final do episódio as reflexões da especialista em desenvolvimento humano, Ana Raia, para te ajudar a se conectar com a história e com você mesmo. Eu sou Geyze Diniz e esse é o Podcast Plenae. Ouça e reconecte-se.

[trilha sonora]

Kety Shapazian: Em 2015, as notícias sobre a crise dos refugiados na Europa me abalaram muito. Eu me sentia impotente vendo milhares de pessoas atravessando o mar em barcos precários. Vendo crianças morrendo afogadas. Vendo autoridades de braços cruzados. A minha filha, Gabriela, de tanto me ouvir reclamar, falou: “Faz alguma coisa, mãe, compra a passagem e vai pra lá ajudar”. 

A gente começou a pesquisar sobre o assunto. Encontramos no Facebook um grupo de voluntários na ilha de Lesbos, na Grécia. Comprei uma passagem pra dezembro e reservei um hotelzinho numa praia chamada Skála Sykamineas. Naquela época, a maioria dos barcos com refugiados chegava naquele ponto. 

Na mesma época em que eu ia pra Grécia, a Gabi tava de viagem marcada pra Itália. Ia passar duas semanas de férias em Roma e Milão, com a minha mãe. Mas ela começou a se empolgar muito mais com a minha viagem do que com a dela. Queria ir comigo de qualquer jeito. 

Eu não estava pronta pro que eu ia ver na Grécia. E me perguntava: será que era certo levar uma menina de 16 anos junto comigo? Mas Gabi me convenceu e eu resolvi arriscar. Ela foi passear na Itália e depois pegou um voo sozinha pra me encontrar em Lesbos. O plano era a gente passar 10 dias juntas trabalhando. [trilha sonora]  Gabriela Shapazian: Skála Sykamineas é uma vila de pescadores, com cerca de 100 moradores, a maioria idosos. Fica só a 10 quilômetros de distância da Turquia. Quando você olha pro mar, dá pra ver a Turquia do outro lado. A vila tem uma ruazinha com um hotel pequeno, um café, um restaurante e um mercadinho. Essa rua termina na praia e, à esquerda, vira uma estradinha paralela à costa. A vila estava lotada, o que não era normal, por ser inverno.

Eu cheguei num fim da tarde. E na manhã seguinte, me vi no meio da linha de frente da maior crise humanitária desde a Segunda Guerra Mundial. Os voluntários estavam divididos em dois grupos. Uma parte ficava na terra e outra em barcos de resgate. Era ilegal tirar os refugiados do bote e colocar eles no barco de resgate. Voluntários já foram presos por salvar pessoas que estavam morrendo afogadas. Então, o jeito era encontrar o barco clandestino no meio do caminho e acompanhar ele até a praia. 

Eu fiquei no grupo da terra. Por rádio, o pessoal do mar avisava: “Tem um barco vindo pra praia de Skala. Vai chegar daqui a 20 minutos. Tem outro indo pra praia tal”. Eu lembro quando vi meu primeiro barco. Na verdade, foram dois, que chegaram quase ao mesmo tempo. Primeiro, vi um pontinho preto lá longe. Depois, outro. Quando chegaram mais perto, identifiquei que eram botes de borracha. Escutei grito, chora, reza. Era uma média de 100 pessoas em um barco feito pra caber umas 20. Na primeira vez que eu vi essa cena, eu quase comecei a chorar. 

Quando o barco chegou, não sei muito como explicar, bateu um negócio em mim que aquela emoção se transformou em foco. Eu não podia entrar em desespero. A meta era tirar o povo do barco o mais rápido possível, sem que ninguém caísse na água. No nervosismo, as pessoas pulavam do barco e ficavam 100% encharcadas. Muita gente chegava literalmente morrendo de frio, com hipotermia. A temperatura variava entre 5 e 10 graus. Em alguns dias, fazia 0 graus, menos 1, menos 2. Por ser ilha, ventava muito, um vento gelado.  Fui lá e ajudei a tirar primeiro as crianças, depois as mulheres e por último os homens. O procedimento é colocar todo mundo em terra firme e checar se alguém precisa de médico. Depois, ajudar a tirar os coletes salva-vidas e acalmar as pessoas, porque elas chegam super nervosas. Quando todo mundo percebe que tá bem, que os filhos estão bem, a mulher, o marido, os irmãos... É uma felicidade muito grande. Eu nunca vi felicidade que nem aquela e provavelmente nunca mais vou ver.  [trilha sonora]

Kety Shapazian: Em um dos meus primeiros barcos, uma família chegou e quando viu que estava em terra firme, eles se abraçaram. E eu estava ali do lado e fui abraçada junto com eles, pai, mãe e filho. Eles choravam, gritavam, agradeciam a Deus por estarem vivos. Foi um momento lindo. Muita gente falava: “Vocês são as primeiras pessoas boas que a gente encontra no caminho”. A trajetória deles é longa. Esses refugiados não saíram da Turquia, eles saíram da Síria, saíram do Afeganistão, atravessaram todo o Irã e depois atravessaram a Turquia. Saíram do Paquistão, que é mais longe ainda. Tinha gente que chegava do Sri Lanka, de Bangladesh, de países africanos. As pessoas demoravam meses pra chegar naquela praia onde nós estávamos e finalmente pisar em solo europeu. [trilha sonora]

Gabriela Shapazian: Na cabeça dos refugiados, atravessar o mar era a parte mais difícil. E a gente sabia que eles ainda iam ter muitos desafios pela frente. 

[trilha sonora]

Eles iam ter que ir pro campo de refugiados, que é um lugar horrível. Iam ter que dormir lá, passar frio, esperar autorização, depois atravessar não sei quantas fronteiras a pé até chegar na Alemanha, onde pediam asilo. É uma jornada longa. Mas, naquele momento, eles estavam muito felizes e aliviados por estarem vivos.

A nossa prioridade, depois de tirar todo mundo do barco, era levar as pessoas para um campo de transição, construído pelos voluntários no meio da estrada, e dar roupa e sapato seco para todo mundo. Depois a gente distribuía comida, água e chá. Os refugiados ficavam ali umas 2 ou 3 horas, antes de serem levados pro campo onde podiam se registrar. 

Enquanto um grupo de voluntários cuidava de quem tinha acabado de chegar, outro já corria pra receber os barcos. Eu olhava pro mar e dava pra contar: um, dois, três, quatro, tudo ao mesmo tempo. A gente chegou a receber dez barcos, com cem pessoas dentro de cada um, no intervalo de uma hora, em uma praia minúscula. Minha mãe e eu acabamos ficando 45 dias, não dez. Não tinha a menor possibilidade de eu ir embora e passar janeiro inteiro de férias em casa, fazendo nada.

Por mim, eu largava a escola e nem voltava pro Brasil. Mas a minha mãe fez questão que eu terminasse o Ensino Médio. Eu voltei pra casa chorando e decidida a retornar para Europa na primeira oportunidade que eu tivesse. A minha cabeça tinha virado do avesso. Eu estava 100% focada na causa dos refugiados e só pensava em voltar para a Grécia. 

[trilha sonora]

Kety Shapazian: Quando a Gabi falou: “É isso que eu quero fazer da minha vida”, eu comecei a pensar numa forma de ganhar dinheiro pra bancar o sonho dela. Ser voluntário é caro, porque você paga pra trabalhar. Eu tinha saído de um emprego e estava perdida, procurando o que fazer. Até que o destino se encarregou de me dar uma luz. 

A Gabi estava enlouquecida em São Paulo, querendo ajudar os refugiados. Aí a gente foi até uma ocupação de palestinos e sírios, no centro da cidade. Na primeira porta que a gente bateu, conheceu um rapaz e a mulher dele, grávida de 6 meses. Ela não estava fazendo pré-natal, não tinha enxoval. Aí eu levei ela no médico, organizei um chá de bebê na minha casa. E nesse chá de bebê, eu ganhei uma garrafinha com umas florzinhas. Na hora eu falei: “Nossa, é isso que eu vou fazer. Eu vou vender flor."  [trilha sonora]

Só que eu não sabia nada sobre arranjo de flor. As únicas vezes que eu comprei flor na vida foi pra enfeitar numa casa em festa de Natal. Eu não sabia quanto pagar, quanto cobrar, nem onde vender. Aí eu comprei umas garrafinhas, umas florzinhas, montei os arranjos e fui vender por 15 reais num farol perto de cada. Aí pronto. Por causa disso, a minha mãe parou de falar comigo. O rapaz que passeava com os cachorros me viu e perguntou se eu estava bem. Um menino da escola comentou com a Gabi que tinha me visto vendendo flor na rua. A Gabi achava o máximo, e foi isso que me deu força. Porque estar no farol foi uma experiência alucinante. As pessoas fechavam o vidro na minha cara, faziam sinal de “não” com a mão. Eu me sentia muito mal. Hoje, eu tenho receio de fechar a janela do carro e magoar alguém na rua. 

[trilha sonora]

Muita coisa aconteceu dessa experiência pra cá. Os arranjos viraram um negócio oficial. Eu criei uma marca chamada Flores para os Refugiados. A Gabi é minha sócia na empresa e parte do lucro financia o trabalho dela. Transformei a minha casa num ateliê, formei uma clientela, criei uma identidade própria, usando folhagens diferentes, cores vibrantes.

Eu sempre falo: eu preciso fazer um arranjo tão bonito quanto o trabalho da minha filha. O Flores para os Refugiados não existe sem a Gabi. E o trabalho dela não existe sem o Flores para os Refugiados. São duas coisas que andam de mãos dadas. Tem cliente que nem quer saber sobre o projeto. Mas também tem gente que compra e fala: “O arranjo é lindo, mas o trabalho da sua filha é maravilhoso e eu quero apoiar”.

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Gabriela Shapazian: Eu voltei pra Europa várias vezes. Muitas das pessoas que foram pra Grécia em 2015 fundaram organizações não-governamentais. Como eu conheço elas, sou convidada pra vários projetos. Já trabalhei em escolas, dei aulas de inglês, ajudei os refugiados a fazer currículo, dei informações, organizei logística para receber doações… Enfim, várias atividades. 

Em 2017, trabalhei em campos de refugiados na Sérvia. As pessoas eram torturadas pela polícia quando tentavam cruzar a fronteira para sair do país. Elas chegavam com braço, perna, costela quebrados, com mordidas de cachorro no corpo inteiro. A maioria era formada de menores desacompanhados. Eu não aguentei ficar lá. Nessa viagem, descobri que eu preciso fazer pausas, de tempos em tempos. Tenho que sair de cena pra esfriar a cabeça. Tudo isso é muito pesado emocionalmente. [trilha sonora] Mesmo com todas as dificuldades, eu sou muito feliz no meu trabalho. Os meus valores mudaram completamente. Fico super brava quando a minha mãe reclama que não tem dinheiro. Penso 6 meses antes de comprar qualquer coisa. Eu reflito: “Preciso mesmo disso?” Vi famílias prontas pra atravessar a Europa a pé com uma sacola de plástico, porque perderam absolutamente tudo. E dentro da sacola tinha uma garrafa de água e uma fruta.

Trabalhar com refugiados abriu o meu olhar para todo o resto, como o morador de rua que mora perto da minha casa desde sempre. A gente nunca tinha conversado com ele. E quando voltamos de Lesbos pela primeira vez, minha mãe foi perguntar se ele precisava de alguma coisa. No convívio com pessoas tão diferentes de mim, eu aprendi que o estranho não é ruim. Ele é só desconhecido.

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Kety Shapazian: Uma vez me perguntaram: “A Gabi não vai pra faculdade? Não vai um dia dar entrada no apartamento? Comprar carro? Ficar noiva?” Eu falei: “Não sei, pode ser. Mas isso não tem importância pra gente”. Eu me sinto muito sortuda de ser mãe da Gabi, mas eu também permiti que ela se tornasse esse ser humano maravilhoso que ela é. Eu vejo muito pai e mãe reclamando de filho, mas só exige do filho que ele vá pra faculdade. E de repente o futuro daquele jovem não tá numa sala de aula. 

A coisa mais certa que eu fiz na vida foi ter levado a Gabi comigo pra Grécia. Eu me arrependeria profundamente se ela não tivesse ido. Hoje, eu vejo que era ela que tinha que estar lá, não eu. [trilha sonora]

Ana Raia: Se colocar nos sapatos de outra pessoa, compreender os sentimentos e perspectivas alheias e usar isso para guiar nossas ações é o real significado de empatia. E empatia cria um lugar sem julgamentos, é capaz de promover grandes transformações individuais e sociais. Há quem defina a empatia como a habilidade mais valiosa e funcional do nosso século e eu concordo. A história de Gabriela é um bom exemplo da potência da empatia. A jornada empática que ela trilha começou com a mãe e se estendeu para o mundo. A mãe de Gabriela, a Kety, é empática com os sentimentos e desejos da filha e na empatia encontra coragem para desviar de padrões e alimentar o propósito de sua filha. Já a Gabriela, ao se colocar no lugar dos refugiados e sentir com eles os seus roteiros de vida, se permitiu mudar a rota de sua vida. A empatia dela salva o mundo que salva o mundo dela. Pesquisas mostram que nascemos com empatia, mas precisamos praticá-la ao longo da vida e sabe como? Uma dica é praticar a escuta ativa, sem julgamentos e livre de preconceitos. Eu gosto muito dessa frase: Você julga a dor do outro como tempestade em copo d'água porque não viu como essas nuvens se formaram. Você só pode entender as pessoas e ajudá-las se senti-las na pele e entender de onde elas veem, como pensam e pelo que passaram. Nesse lugar, a conexão verdadeira floresce e soluções ativas podem surgir para reparar qualquer conflito. E Gabriela confirma isso. Com a sua vivência, ela experimenta a verdadeira conexão com o outro e com o mundo. Por onde passa, gera transformação social, revoluciona as relações humanas porque empatia é amor.  [trilha sonora]

Geyze Diniz: Nossas histórias não acabam por aqui. Confira mais dos nossos conteúdos em plenae.com e em nosso perfil no Instagram @portalplenae. [trilha sonora]

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Para Inspirar

Os novos evangélicos

Quem são os jovens evangélicos que buscam quebrar a imagem conservadora atrelada ao dogma e deixar velhos preconceitos no passado

31 de Janeiro de 2024


A Igreja Evangélica possui uma força ímpar em um país como o Brasil: de um lado, reúne hordas de seguidores, ocupa cadeiras políticas importantes e não para de crescer. Por outro, gera desconfiança, é constantemente atrelada a preconceitos e conservadorismos e levanta dúvidas quanto às suas correntes. 

Neste artigo, vamos te explicar um pouco mais sobre o surgimento dessa religião e como os jovens evangélicos estão buscando quebrar velhos paradigmas e revolucionar a imagem dessa filosofia. 


Como surgiu a Igreja Evangélica?

 

A história da Igreja Evangélica é longa, porque caminha junto com a história da reforma protestante ainda no século 16, como conta esse artigo da BBC. Mesmo aqui no Brasil, as diferentes correntes também começaram a chegar na mesma época, mas se consolidaram de verdade no século 19 graças à abertura dos portos brasileiros às nações amigas e maior liberdade religiosa. 

Da reforma protestante mencionada, surgiram os chamados protestantes, pois protestavam contra as imposições da Igreja Católica na época. De lá para cá, essa grande vertente se dividiu em três outras menores: os protestantes históricos, os pentecostais e os neopentecostais. 
 

Ainda segundo a BBC, no Brasil, os protestantes históricos incluem as igrejas Luterana, Batista, Presbiteriana, Metodista, Episcopal, entre outras. Os pentecostais tem entre seus integrantes Assembleia de Deus, Deus é Amor, Evangelho Quadrangular e Congregação Cristã do Brasil. Por fim, os neopentecostais incluem Renascer em Cristo, Igreja Universal do Reino de Deus, Sara Nossa Terra, Igreja Internacional da Graça de Deus e Igreja Mundial do Poder de Deus.

Atualmente, segundo dados do Datafolha de 2016, a cada 100 evangélicos, 44 são ex-católicos. Desses 100, 34 são da Assembleia de Deus, 17 são de igrejas que não pertencem a nenhuma grande denominação, 11 da Igreja Batista, oito da Universal, seis da Congregação Cristã do Brasil, cinco da Quadrangular, três da Deus é Amor, dois da Adventista e dois da Presbiteriana, entre outros.


Um estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) feito em 2021 revelou que as 87,5 mil igrejas evangélicas com CNPJ representavam sete em cada dez estabelecimentos religiosos formalizados no país, enquanto católicas eram 11% do total. 

Isso representa um aumento imenso em relação a 1998, primeiro ano contemplado na pesquisa.

Os locais de culto evangélicos somavam então 26,6 mil, ou 54,5% do todo. O pentecostalismo e sua variante neopentecostal dominam o bolo religioso. São as pequenas igrejas, "aquelas de bairro", que puxam o crescimento - como conta o jornal Folha de São Paulo.

A (r)evolução

 

Como você pôde perceber, a religião evangélica evoluiu muito em pouco tempo, principalmente se comparada à história do catolicismo, que se mantém bastante uniforme há centenas de anos. O primeiro deputado evangélico brasileiro, para se ter uma ideia, foi o pastor da Igreja Metodista, Guaracy Silveira.

 

Ele chegou à Assembleia Constituinte em 1930, ou seja, há menos de cem anos, com o objetivo de defender os interesses dos protestantes e sua participação na política. Mas, suas bandeiras eram bem modernas, por assim dizer, quando pensamos nos deputados evangélicos atuais, declaradamente conservadores. 

 

Guaracy Silveira era a favor do divórcio e de aulas religiosas no ensino público, além de ter sido contra o uso do nome de Deus na Constituição. De lá para cá, as pautas mudaram - e muito! -, bem como a representação dos evangélicos na política: eles são 30% dos eleitores e 20% da Câmara dos Deputados.

 

Se Guaracy apresentava ideias hoje consideradas progressistas, nas últimas 9 décadas os evangélicos buscaram se atrelar à pautas conservadoras. Mas, como toda história é cíclica na história do mundo, ela parece estar girando novamente. Os jovens evangélicos têm buscado criar um ambiente e um caminho livre de preconceitos e de exclusões sem abandonar a palavra de seu Deus.

 

Um termo que ganhou força nos últimos tempos é o de “webcrente”, que se inspirou em um outro termo mais antigo: “webamizade”. Os dois trazem o prefixo web pois trata-se de relações que se dão no ambiente virtual. A diferença é que o webcrente ainda tem um outro objetivo, que é aproximar a comunidade jovem evangélica que busca se encontrar nas redes sociais. 

 

A hashtag nasceu em 2020, quando o evento norteamericano "The Send" desembarcou em terras brasileiras pela primeira vez. O movimento, como explica aGazeta do Povo, tem uma premissa bastante literal: engajar e “enviar” cristãos “comprometidos a transformar universidades, escolas e nações”.

 

O evento ficou entre os assuntos mais comentados no Twitter durante os seus três dias de duração e ainda levantou expressões específicas da teologia evangélica, além de comentários sobre as atrações que estiveram presentes. Foi a partir daí que essa grande comunidade evangélica, que buscava espaço para debater temas de seu interesse no ambiente online, tomou impulso. 

 

Apesar de ser difícil estabelecer, exatamente, quando a expressão webcrente foi cunhada, a sua criação é atribuída à mercadóloga Sara Fabiane, de 22 anos, frequentadora da Igreja Batista da Lagoinha. “Eu sempre gostei de K-pop (pop coreano) e, graças ao Twitter, encontrei outras meninas evangélicas que são fãs. Onde, além da internet, eu encontraria crente que ouve K-pop? (...) [A hashtag] é só um jeito de nos encontrarmos na rede. A gente não se encaixa no estereótipo do crente de saia”, explicou ela à Gazeta do Povo. 

 

Em uma pesquisa rápida no Instagram, a hashtag apresenta mais de 50 mil resultados que vão de memes, frases de efeito e até vídeos e um lifestyle cristão. Todos eles possuem a juventude como centro. No TikTok não é diferente: são milhares de adeptos ao termo e por lá, as trends (vídeos que são tendência e copiados pelos usuários) são uma febre.

 

O Twitter, por fim, por ser provavelmente o mais veloz de todos eles - afinal, não demanda grandes produções ou edições de vídeo, - alavancou a presença evangélica a ponto de impactar transformações no mercado - e no dia a dia das igrejas, explica o jornal.

 

“Quem está vendo de dentro tem a sensação de que é uma comunidade. Eu sempre insisto no Twitter que não é mais necessário ser um pastor ou alguém com títulos para compartilhar sua experiência, e isso abriu a porta para várias pessoas que estão ali e são cabeças pensantes. Às vezes, a comunidade webcrente faz mais barulho do que as personalidades cristãs que têm milhões de seguidores”, diz Bruna Santini, uma das influenciadoras mais populares desse universo.


Um novo momento

 

Além de atraírem novos fiéis, uma parte - e não toda, vale dizer - ainda busca trazer renovação para velhos ensinamentos. Pastores como Henrique Vieira, deputado conhecido por debater pautas sociais e apoiar governos de esquerda, é um dos nomes mais influentes nessa movimentação. Gregory Rodrigues, pastor e homossexual, também é um nome influente.  

 

Outros nomes são o da atriz  Bruna Marquezine e da cantora Priscila Alcântara - que chegou a se apresentar no The Send e ter uma carreira toda focada na música gospel. Ambas rejeitam as velhas diretrizes do movimento evangélico e já até foram alvos de duras críticas de grandes figurões da religião. 

 

Bruna contou a um podcast que deixou de ir à igreja, mas continua com a sua fé. Priscila também buscou se desatrelar do universo gospel, mas defende sempre que essa ruptura em nada abalou a sua conexão com o divino. Movida por essa falta de identificação, a cantora Ludmilla criou suaprópria célula, nome dado a um encontro promovido para expressar a fé e compartilhar leituras e a palavra de Deus.

 

A comunidade webcrente não é homogênea, mas seus principais representantes buscam se desvencilhar de política ou de dualidades como esquerda e direita, ao passo que buscam discutir temas atuais como racismo, homofobia e outros tipos de representatividade. 

 

Essa postura é conhecida como “movimento calvinista reformado”, nascido nos Estados Unidos entre 2000 e 2010 e que busca combater os excessos das igrejas pentecostais e neopentecostais. Os webcrentes são profundamente ortodoxos na essência. Este crente contemporâneo não rejeita o debate moderado, então sempre haverá conflito se um pastor fizer o antigo combo de reacionarismo e fé”, avalia Eric Balbinus, ex-integrante do Movimento Brasil Livre (MBL), à Gazeta do Povo.

 

“O crente tende a ser mais conservador, mas o progressismo está ganhando espaço. Eu sou um cara de direita que sei que tenho que tomar muito cuidado com o que digo porque a galera pode se ofender. A maioria defende pautas sociais a partir de forças do governo, defende redistribuição de renda, entre outras medidas; mas aceita dialogar com quem tem uma produção teológica respeitável” pontua Yago Martins, 28, pastor e dono do canal Dois Dedos de Teologia ao mesmo jornal. 

 

Em 2020, a Aliança Nacional LGBTI+, movimento que reúne entidades políticas e religiosas, informou que acionou Ana Paula Valadão na Justiça por homofobia, comparando a fala da pastora, que defendia ser a Aids uma punição divina para a união homoafetiva, aos discursos de Adolf Hitler, como contou o jornal El País.

 

Nesse mesmo ano, movimentos de evangélicos progressistas, como "Cristãos Contra o Fascismo" e "Evangélicxs pela Diversidade", articularam candidaturas coletivas em várias cidades buscando fazer oposição ao fundamentalismo religioso.  Em São Paulo, o pastor batista Marco Davi de Oliveira coordena um grupo de estudos sobre raça e evangelho com o objetivo de combater o racismo dentro da igreja, enquanto a pastora metodista Lídia Maria de Lima organiza eventos religiosos para fazer um alerta sobre a violência doméstica e praticar o que chama de "teologia feminista”, como conta a BBC

Os exemplos são muitos e não param de crescer. O fato é que esse despertar parece ter vindo para ficar e, porque não, renovar os ares dessa filosofia que tem a fé como principal combustível, mas que ainda possui velhos preconceitos em suas engrenagens. Há espaço para todas as crenças, contanto que elas não sejam excludentes a nenhum público. E os jovens, como sempre, irão comandar essa verdadeira revolução crente!

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