Para Inspirar

Fernanda Souza em "Não existe coincidência. Existe Deus"

Comece a procurar Deus em você e em todas as coisas do mundo. É o que acredita a atriz Fernanda Souza. Confira no Podcast Plenae

20 de Setembro de 2020


Leia a transcrição completa do episódio abaixo:

[trilha sonora]

Fernanda Souza: A espiritualidade é algo que não está completamente lapidado dentro de mim. Não tem um modo definitivo no que eu sei, no que eu busco, por isso eu não consigo seguir apenas uma religião apenas. A espiritualidade, pra mim, é algo que conduz ao melhor que eu tenho e não a um lugar específico.  Geyze Diniz: A espiritualidade para mim é uma ferramenta estruturante e sempre achei que o que importava era ter fé, independente de qual. Eu me identifico muito com a visão da Fernandinha Souza e me encantei com a jornada de autoconhecimento dela e a vontade de querer praticar o melhor de diferentes religiões. No final do episódio, você ouvirá reflexões do doutor Victor Stirnimann para te ajudar a se conectar com a história e com você mesmo. Eu sou Geyze Diniz e esse é o Podcast Plenae. Aproveite este momento, ouça e reconecte-se. [trilha sonora] Fernanda Souza: Eu sinto que minha espiritualidade é composta por uma série de acontecimentos, fatos vividos, momentos que me trouxeram até aqui. E eu tive essa certeza quando eu vi uma entrevista da Monja Coen e, ao ser questionada sobre qual momento específico ela sentiu que havia se tornado uma monja, ela disse que não teve um momento assim, que várias coisas foram acontecendo ao longo da vida pra que ela se tornasse o que é hoje.  [trilha sonora] E pra mim é isso, eu sou hoje tudo o que eu vivi até aqui! [trilha sonora] Minha primeira ligação com o que eu posso chamar de espiritualidade é uma lembrança que eu tenho da minha mãe e a relação dela com a fé, com Deus. Nessa época eu não tinha muito entendimento sobre o assunto, era uma criança, tinha uns 10 anos. Mas eu lembro de ver a minha mãe sempre com uma Bíblia por perto e nessa Bíblia ela escrevia recadinhos pra Deus. Era como se fosse um diário, uma conversa íntima, onde ela sempre agradecia graças recebidas, pedia aquilo que precisava no momento, e tudo aquilo era datado. São várias Bíblias que minha mãe tem, porque essa conversa com Deus já dura há anos.  [trilha sonora] Apesar de ter sido criada por pais evangélicos, a minha mãe não foi batizada e nunca frequentou a igreja, então talvez por isso, a gente nunca teve o costume de praticar rituais religiosos, ir à missa. A religião da minha mãe sempre foi essa conversa particular dela com Deus. E aí, foi nesse convívio e nessa admiração que eu percebi pela primeira vez que a fé independe de um lugar, de religião, da sua situação econômica... A fé você sente. Ela não se ensina, não se impõe, ela é uma certeza que vem de dentro do seu coração, você não precisa ver para acreditar, é uma certeza que eu tenho que Deus existe.  [trilha sonora] Essa conversa com Deus eu aprendi com a minha mãe. Eu aprendi a falar sobre meus desejos, meus sonhos e sobre a minha gratidão. E talvez pelo fato da minha mãe não ter uma religião específica, isso tenha deixado a minha cabeça tão aberta como é hoje, sempre aberta a conhecer novos rituais, novas religiões, novas crenças e tentar aprender com o melhor de cada uma delas. E aí então que começa a minha trajetória de espiritualidade, que acaba se misturando com a minha trajetória de autoconhecimento. São como pedras que vão construindo o meu muro espiritual e meu muro do autoconhecimento.  [trilha sonora] Depois desse meu primeiro contato com a fé, com Deus através da minha mãe, veio logo em seguida um contato com o espiritismo. Eu tinha uns 15 anos e me lembro de ler vários livros da Zibia Gasparetto e de amar muito todos aqueles assuntos. E aí eu fui buscar mais informações lendo e conversei muito com a minha tia Edna, que é espírita e me falou sobre os conceitos de vida após a morte, reencarnação, alma, espírito. E aqueles conceitos fizeram muito sentido pra mim, eles me deram respostas para muitas perguntas que eu tinha.   [trilha sonora] Alguns anos depois, eu tive meu primeiro contato com a Cabala, mas não foi exatamente aí que eu comecei a estudar a doutrina. Foi depois de uma coincidência, que na verdade as pessoas costumam chamar de coincidência, mas eu não acredito que elas existam.  Eu ganhei o livro "O poder da Cabala" de um amigo, esse é o livro inicial, é o primeiro livro que você tem que ler quando decide estudar sobre Cabala – foi exatamente naquela época que a Madonna começou a divulgar. Mas eu não li de primeira, guardei no quarto e eu nem lembrava onde é que tava, quando num dia na casa de um amigo, eu estava em uma conversa com a Julia, uma amiga minha e ela disse: "Fe, tudo isso que você fala tem tanto a ver com a Cabala, acho que você deveria estudar sobre isso". E na hora eu lembrei que eu tinha um livro sobre Cabala, falei isso pra ela e disse que assim que chegasse em casa eu ia ler o livro.  Cheguei em casa e esse livro tava num móvel na frente da minha cama, ele sempre esteve ali. Peguei o livro, comecei a ler e eu tive outro encontro com a minha fé. Mais um pedaço de mim foi preenchido porque foi uma quantidade enorme de respostas pra perguntas que eu nem sabia que tinha. E essas respostas se encaixavam perfeitamente no meu coração. [trilha sonora] E aí, logo depois disso eu fui procurar mais informações, eu queria saber se tinham outros livros, eu queria encontrar editora. E aí eu só encontrei o endereço da editora e, quando eu olhei pra esse endereço, ele era no Rio de Janeiro, no mesmo prédio em que eu estava naquela noite, na casa desse meu amigo, onde a Julia me falou que eu deveria estudar sobre a Cabala. Eu tava no 21º andar e o escritório da Cabala era no sétimo. Eu achei isso tão, tão especial que eu falei: "Eu tenho que estudar sobre Cabala, eu realmente tenho que estudar porque eu nunca vou a esse prédio, eu nunca vou pra essa parte da cidade, e de repente eu estava lá no mesmo lugar. Foi uma informação muito mágica. O que chamam de coincidências que, pra mim, não existe. [trilha sonora] No dia seguinte, eu liguei pra editora, queria saber sobre livros, se havia algum curso e eles disseram que até tinha um curso, mas que pra isso eu tinha que ler o livro "O Poder da Cabala" primeiro. (risos) E eu lembro de falar: "Moço, você não sabe, eu já li o livro. Ontem eu estava aí nesse prédio e uma amiga minha falou sobre a Cabala. E eu cheguei em casa e eu já tinha o livro. Eu li e agora quero muito fazer esse curso. E ele falou: "Tá bom, a gente vai ver se consegue uma vaga porque o grupo tá fechado, mas se alguém desistir, você pode entrar." E aí, depois disso uma pessoa desistiu, eu entrei. Mais um momento que as pessoas chamam de coincidência, que eu só consigo chamar de Deus. [trilha sonora] Alguns anos depois de estudar Cabala, eu comecei a estudar sobre Zen Budismo. Eu me interessei vendo os vídeos da Monja Coen e fiquei completamente apaixonada por aqueles preceitos. Aí logo depois disso, eu descobri o access consciousness, que é uma ferramenta com uma pegada mais física quântica. E o access consciousness prega que todas as respostas pra todas as perguntas estão dentro da gente, que a gente não tem ideia do quão infinito é, do quão sábio é e de como a gente pode usar a nossa mente para alcançar tudo aquilo o que a gente deseja. Eu gostei tanto de access consciousness que eu já fiz três cursos. E inclusive o último, que se chama Fundamento, mudou completamente a minha vida. Eu aprendi muitas ferramentas sobre a expansão da consciência.

E aí, recentemente, eu comecei a estudar sobre filosofia hermética. E aprendi que primeiro a gente cria tudo no mundo mental e depois aquilo se materializa no mundo físico. Essa é a primeira lei da filosofia hermética: a lei do "mentalismo". E de alguma maneira, eu acho que desde criança eu fui embutida a ter esse tipo de fé, que não é muito diferente do que minha mãe desejava quando escrevia os recadinhos dela na Bíblia. Só que hoje eu consigo entender isso através desses conceitos e eles me deram muitas respostas.

De um ano para cá, eu consigo ver que esse mergulho pra dentro de mim, pras minhas crenças, pros meus estudos, tá muito presente no meu dia a dia. Eu me sinto realmente como uma estudante (risos). Sempre buscando novos conteúdos, conceitos que me ajudem a me conhecer melhor, a me conectar mais com o universo, com Deus, com o meu eu superior. Trabalhar a minha espiritualidade é estar completamente conectada a fonte criadora. As coisas vão aparecendo no caminho e eu vou buscando um pouco mais de cada uma delas, tentando juntar tudo isso e colocando aquelas pedrinhas naquele mural lá, que eu falei.   [trilha sonora] Uma coisa que me ajudou muito na busca de autoconhecimento, sem dúvida nenhuma, foi a decisão de tirar um ano sabático.  [trilha sonora] Eu não tinha programação nenhuma, eu só queria mesmo descansar a mente. Mas é incrível, né? Quando você coloca a roda pra girar as coisas simplesmente começam a aparecer. E aí, nesse período, além de buscar mais conhecimento, eu comecei também a colocar em prática o conhecimento. Eu vi uma vez a Monja Coen falando que "não adianta nada vocês assistirem todos os meus vídeos e não colocarem em prática tudo o que eu tô falando”.

E como a maioria das pessoas, eu achava normal viver ansiosa, angustiada com a correria do dia a dia. E aí, neste período sabático, eu percebi que não quero viver assim, eu não preciso viver assim. Eu quero jogar luz nas minhas sombras, aprender a viver com elas. Eu quero ter ferramentas pra cuidar da minha vida, das minhas angústias, das minhas inseguranças e de todo e qualquer sentimento desconfortável. Conseguir sustentar o meu estado de paz e plenitude, pra mim, é o estado mais próximo de Deus.  [trilha sonora] Eu sou uma mistura de tudo isso e eu sempre me senti muito confortável pra falar de tudo que me tocava em cada uma das religiões, das filosofias de vida que eu conheci. De alguma maneira, desde criança, eu fui cercada pela fé e, hoje em dia, eu consigo entender através desses conceitos que, pra mim, não faz sentido me restringir a apenas uma religião. Eu não consigo pensar muito diferente disso, eu sempre me senti muito amparada, protegida, conectada e, por isso, muito agradecida. Eu não sei te explicar direito o porquê, mas pra mim é uma coisa muito básica, muito normal, natural na minha vida. Foi assim desde criança, eu sempre fui ensinada a acreditar e confiar em Deus. E é essa fé que eu trouxe pra minha vida que mudou a minha relação com tudo, até a maneira como eu acordo e me olho no espelho hoje em dia é diferente de como era um tempo atrás. [trilha sonora] Durante muito tempo, eu achei que pra encontrar Deus teria que ser em algum lugar fora de mim, que eu precisava estar na igreja, em contato com a natureza. Por exemplo, eu amava ir à praia pra rezar, eu me sentia conectada com Deus. E depois de um tempo, eu descobri que eu sou filha de Iemanjá, então faz todo sentido amar aquele lugar. Eu lembro que quando eu saia da praia, depois de rezar muito lá, eu ainda passava na igreja, ajoelhava no banco e rezava de novo.  Neste último ano, eu aprendi que existem inúmeras ferramentas de conexão com Deus, com o universo, com o todo, com a fonte criadora. E também aprendi que posso chamar Deus por inúmeros nomes. Eu sempre estarei falando com a mesma Energia. Talvez, também eu tenha sido criada para buscar um Deus fora de mim, que é um Deus que está no Céu, que está distante, que me pune por algo que eu tenha feito, pelo meu erro. Só que hoje em dia não, eu enxergo Deus de outra maneira. Enxergo Deus como essa energia que me acolhe, que me ama incondicionalmente, que ama as minhas qualidades, que ama meus defeitos e que me ajuda, todos os dias, a construir a versão melhor de mim mesma. Hoje em dia, eu sei que Deus está na Bíblia, na igreja, na praia, na árvore, em qualquer lugar na natureza, dentro do meu quarto, principalmente, dentro de mim. E eu faço a minha conexão com Deus através do meu eu superior, a cada meditação. Hoje em dia, eu acho que isso é o que faz mais diferença no meu dia a dia: entender que a minha busca pela fé não é um caminho que me leva pra fora, mas sim um caminho que me leva pra dentro de mim.  [trilha sonora] Victor Stirnimann: Os sábios sempre nos explicam sobre a importância do olhar para dentro de si, para a riqueza da vida interior, para a necessidade de buscarmos a nós mesmos. Às vezes vem até a pergunta: se eu já sou eu, porque eu precisaria me encontrar? Justamente, muitas vezes não somos nós mesmos de verdade em nossos pensamentos e ações. O ser humano é complicado assim. Ficamos misturados com nosso ambiente, com as opiniões dos outros, com nossos medos e nossas ilusões. Precisamos aprender a sair dessa mistura e escutar, sempre que possível, nossa voz interior. Como fazer isso? Essa voz, apesar de clara, é muito sutil e fala bem baixinho. É complicado conseguir escutá-la sem recolhimento, sem baixar o volume do ruído do mundo. Outra pista é que ela traz sempre um sabor de surpresa, apesar de dizer coisas que no fundo a gente já sabia, porque esse é o supremo mistério. O contato com a fonte, com o divino, com o sagrado acontece com a mais íntima das experiências. Meditei, busquei, até que o criador apareceu. E o rosto dele era o meu. Na Cabala que Fernanda tanto ama, aprendemos que as perguntas, as dúvidas, a sede de compreender são janelas que abrem nossa mente para a luz espiritual. Por isso, a espiritualidade é o próprio caminho e a fé se alimenta da profunda gratidão pela beleza e variedade da vida. [trilha sonora] Geyze Diniz: As nossas histórias não acabam por aqui. Acompanhe semanalmente nossos episódios e confira nossos conteúdos em plenae.com e no perfil @portalplenae no Instagram.  [trilha sonora]

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Para Inspirar

Pedro Pimenta em "De 1% de chance de sobrevivência a 100% de independência"

Na décima primeira temporada do Podcast Plenae, ouça os caminhos de superação trilhados por Pedro Pimenta.

20 de Março de 2023



Leia a transcrição completa do episódio abaixo:


[trilha sonora] Pedro Pimenta: Quando eu acordei do coma, eu fui entendendo, mesmo dopado com um monte de remédios, que eu teria que ser amputado. Eu tinha sentimentos mistos sobre isso. Por um lado, eu queria que cortassem logo os meus braços e minhas pernas, pra eu poder ir pra casa. Mas, por outro, eu me agarrava a uma falsa esperança de que aquilo não fosse acontecer, sabe.  [trilha sonora] Geyze Diniz: A mudança no corpo de Pedro Pimenta não só o fez sobreviver, mesmo com poucas chances, mas o fez ressignificar e colocar em perspectiva o que de fato é importante. Sua busca pela reabilitação e resgate da autoestima hoje é exemplo para muitas pessoas. Eu sou Geyze Diniz e esse é o Podcast Plenae. Ouça e reconecte-se.

[trilha sonora]

Pedro Pimenta: O dia amanheceu ensolarado, meus pais viajavam de férias e eu estava sozinho em casa com o meu irmão do meio, o Lucas, e a então namorada dele. Eu acordei antes que eles e fui pro cursinho. Tinha 18 anos e estava estudando pra seguir os passos dos meus irmãos: entrar numa faculdade pública de engenharia. Às sextas-feiras, eu e alguns amigos do cursinho saíamos pra dar uma descomprimida no almoço. Só que nesse dia eu não consegui terminar de almoçar. Eu me senti bem mal. Pedi a conta, peguei o carro e voltei para casa. Quando eu cheguei, fui direto pro banho e vomitei dentro do chuveiro. Meus sintomas pareciam de dengue: dor de cabeça forte, febre, náusea, desconforto nas extremidades. Naquela noite, a gente ia sair pra comemorar o aniversário do Lucas. Mas como eu estava mal, o meu irmão mudou os planos e chamou os amigos pra irem lá em casa.

Eu não consegui me divertir naquela festa. Eu fui me deitar e acordei lá pelas 3 da madrugada, com dificuldade até pra me mexer. Logo eu chamei o Lucas. A namorada dele é médica e na época fazia residência em pediatria. Na hora que ela viu as pintinhas roxas nos meus braços e pernas, ela começou a gritar. Disse que a gente precisava ir correndo pro pronto-socorro. Os dois me colocaram no carro e me levaram pro hospital.  [trilha sonora] Já estava amanhecendo no dia 12 de setembro, quando eu fui transferido de ambulância pra outro hospital, em São Paulo. A essa altura, o meu irmão mais velho, o Daniel, também apareceu. E eu lembro que os três ficaram ali chorando, desesperados. Eu, que já estava com uma confusão mental, não entendi o porquê de tanto desespero. A ambulância seguiu muito rápido, varando os sinais de trânsito e o pessoal estava lá conversando comigo, tentando me manter acordado, mas uma hora eu desmaiei. Eu acordei em um lugar estranho, com meus braços e pernas enfaixados. Eu senti que eu estava amarrado na cama. Mas, na verdade, eu é que não tinha força para levantar o braço. E se eu tentava erguer um membro, vinha uma força gravitacional que parecia 10 vezes maior que a normal e me puxava pra baixo. Meu tio me explicou que já fazia uma semana que eu estava na UTI. Eu tinha contraído uma meningite meningocócica muito grave. A meningite é uma doença causada por bactéria, vírus ou fungo. O meu caso, pela gravidade, foi bacteriana, transmitida de pessoa pra pessoa pelas vias aéreas. Eu vinha de um ritmo muito intenso de estudos pro vestibular e estava dormindo muito pouco. O meu sistema imunológico enfraqueceu e a bactéria se instalou. Quando eu entrei no pronto-socorro, eu estava num quadro de choque séptico já, ou seja, de infecção generalizada.  Só o fato de eu ter despertado do coma já foi considerado um milagre. A minha chance de sobrevivência ali era menor que 1%. Eu só fui ter noção da gravidade do meu quadro na minha primeira troca das bandagens dos braços e das pernas. Eu vi meu braço todo preto. Tinha uma parte com o osso já carcomido. E eu acho que ali as drogas que os médicos me davam também tinham o objetivo de me deixar meio zonzo. Eu não estava 100% consciente. E, sinceramente, eu acho que era melhor assim. [trilha sonora] Mais ou menos depois de um mês de internação, veio a notícia que eu tanto temia. Eu seria amputado nos dois braços e nas duas pernas. A véspera da operação foi muito esquisita, porque eu tive meio que me despedir da minha família. Eu tinha plena consciência de que a minha chance de sobrevivência ali não era muito alta. E a família toda aquele dia veio me visitar. Tios, primos, estava todo mundo rezando pelo sucesso da operação. Mas o clima era de velório.  [trilha sonora] A cirurgia correu surpreendentemente bem. Mas o primeiro mês do pós-operatório foi o mais difícil. [trilha sonora] Teve as outras incontáveis cirurgias de enxerto, a depressão, o choque identitário de recuperar a consciência ali e perceber que o contorno do meu corpo tinha mudado. As minhas pernas amputadas acima dos joelhos. E os braços, acima dos cotovelos.  [trilha sonora] A ficha ainda estava caindo, quando o meu irmão me contou que ia ter um show do AC/CD em São Paulo. Eu sou muito fã da banda e estava internado num hospital que, por coincidência, é vizinho ao estádio do Morumbi, local do show. Eu infernizei os médicos e eles me autorizaram a ir. Só que não tinha mais ingresso. Aí a minha família entrou em contato com a organização e implorou pra liberarem a nossa entrada. Deu tudo certo. Eu entrei no estádio de ambulância e assisti ao show deitado numa maca. A família toda e toda uma equipe do hospital, que o médico fez questão de ter, foram juntos, incluindo até psicóloga. Naquelas duas horas, pela primeira vez em quase 3 meses, eu esqueci do meu problema. Pra muitos foi apenas um show de rock. Mas, pra mim foi o primeiro sinal de que ainda tinha muita vida a ser vivida pela frente.

[trilha sonora]

Eu voltei pro hospital e ainda passei lá o Natal, ano novo e o meu aniversário de 19 anos. Foram cinco meses e meio até a alta. Quando eu finalmente voltei pra casa, o meu pensamento era: “Beleza, resolvi o maior problema que eu tinha, que era não morrer. Mas agora eu tenho um problema gigante pro resto da minha vida. Como é que eu vou viver assim?”. Como eu ia escovar os dentes sozinho? Me trocar? Comer? Fazer as atividades mais básicas do dia a dia.  Durante o processo de reabilitação com próteses, eu procurei o máximo de informação possível. Porém o prognóstico dos médicos era de zero independência. Segundo eles, eu teria que usar cadeira de rodas e precisaria de cuidador em tempo integral. Pra sempre. Eu queria usar próteses pra caminhar pô, mas, sem as articulações - joelhos e cotovelos -, os médicos diziam que seria impossível. Segundo eles, se eu conseguisse dar alguns passos com próteses, já seria uma vitória. Então, a gente contratou um cuidador de segunda a sexta no horário comercial, que era o Silvio, e meus irmãos e meus pais se revezam no resto do tempo. Eu não tinha força nem pra me sentar sozinho. Colocaram uma campainha eletrônica ao lado da minha cama. E quando eu acordava, eu tocava essa campainha pro Silvio vir, me colocar de pé, me vestir e me botar numa cadeira. [trilha sonora] A perda de um membro é muito parecida com a perda de um ente querido. Aliás, os passos do luto são os mesmos nos dois casos. Tem a negação, barganha, raiva, depressão e só então a aceitação. Comigo foi igualzinho. No início, quando eu acordava de manhã, eu tinha aquele 1 segundo de paz, antes do mundo colapsar em cima de mim e eu voltar à realidade. Os fins de semana eram ainda mais difíceis. Os meus amigos iam muito lá em casa, mas eles também saíam pra balada, viajavam e chegavam contando aquelas histórias e eu ficava triste por não poder participar desses momentos. Eu alternava dias de bom humor com outros de: “poxa, quem que eu tô tentando enganar? Eu tô aqui tentando me manter feliz o máximo possível, mas a verdade é que eu tô parado e o resto do pessoal tá andando”.

[trilha sonora]

Eu procurei ocupar o tempo estudando produção de música eletrônica no computador. Eu sempre gostei de tocar instrumentos, e essa era uma maneira de continuar conectado à música. Eu estudava umas 8 horas por dia. Também peguei firme na fisioterapia e, três vezes por semana, eu ia pra clínica lá com o Silvio. Rapidinho, eu já conseguia me sentar sem precisar de ajuda. Foi uma baita vitória. 

[trilha sonora]

Na reabilitação, o pessoal da clínica comentou sobre um congresso de próteses e órteses, o maior do mundo, que aconteceria na semana seguinte. Eu fui pro congresso, peguei vários cartões de visita, entre eles o de um americano, o Kevin Carroll, vice-presidente de uma empresa chamada Hanger. Ele me falou: “Cara, a gente tá reabilitando pessoas que perderam as duas pernas acima do joelhos. A gente tem um protocolo que tá colocando a galera para andar e inclusive dirigir carros sem adaptação. 'Cê' tem tudo para dar certo. E se você fizer um esforço descomunal, vai conseguir”.


Eu nem dei bola, porque muita gente me prometeu maravilhas nesse congresso. Os caras querem vender, né? Então eu desconfiei, porque eu sabia que na época não existiam casos de sucesso com amputações iguais às minhas. Então, peguei o cartãozinho dele, guardei na mala, junto com os outros, e voltei pro Brasil. Seis meses depois, numa última tentativa, eu fui pra Chicago, nos Estados Unidos, pra me reabilitar numa clínica de lá. Eu continuava inconformado com a ideia de não caminhar. Passei três meses lá me reabilitando.

Faltava pouco tempo pra eu voltar pro Brasil, e eu ainda estava numa cadeira de rodas, quando eu vi na internet um vídeo que mudou a minha vida. Eram imagens de um californiano, o Cameron, que perdeu três membros num acidente de trem. Ele também teve as pernas amputadas acima dos joelhos. Só que não só andava, como descia uma rampa no vídeo com próteses nas pernas. Uma coisa inimaginável. Os joelhos são como dobradiças com um pistão hidráulico. Sabe aquelas portas que você abre e ela fecha devagar? Essa é a função dos joelhos protéticos. Você chuta o pé pra frente, a perna estende e dobra devagar, porque ela tem esse pistãozinho hidráulico. Porém, mesmo com esse sistema, é muito difícil caminhar. Quanto mais descer uma rampa! E o meu irmão, que estava ali comigo, achou que era uma montagem. Mas eu fiquei muito intrigado.

A empresa do vídeo era a mesma do cara que tinha me entregado aquele cartão, o tal do Kevin. Lembra dele? E eu liguei umas três vezes pra ele. Nas duas primeiras, caiu na caixa postal direto. Na terceira, ele atendeu. E por uma dessas coincidências no universo, ele tinha acabado de pousar em Chicago. Nesse mesmo dia, uma sexta-feira, às 10 da noite, ele foi lá no apartamento onde eu estava hospedado. E ele veio e disse: “Na semana que vem, vai ter um campeonato de triathlon pra amputados em San Diego, lá na Califórnia. E esse menino do vídeo vai tá lá. Você pode ir e ver com os seus olhos. Eu tô te dando o caminho das pedras. Se você não for, a escolha é sua”. 

[trilha sonora]

O meu irmão não queria ir. Ele tinha medo de eu alimentar falsas esperanças, talvez. Mas mesmo assim eu decidi ir a San Diego. E assim eu conheci o Cameron. Realmente… O cara fazia tudo que tava no vídeo! E com o incentivo dele eu consegui caminhar com as próteses, mesmo sentindo muita dor.

Eu mudei a data da passagem de volta pro Brasil e fui pra clínica de amputados onde o Cameron se reabilitou, em Oklahoma. Era aquela que o Kevin tinha comentado no congresso. Os caras têm um sistema bem radical, baseado em treinamento militar. Tanto é que eles chamavam de bootcamp. Quando a gente passa por uma amputação ou algo assim, é comum que vire o coitadinho da família. Mas lá em Oklahoma não tinha nada disso. Eles eram extremamente duros. Colocavam a gente para descer rampas mesmo sabendo que a gente ia cair. A ideia era aprender a levantar e continuar tentando. 


Não foi fácil encarar aquele treinamento, porque era muito doloroso andar. O enxerto de pele sangrava. Os músculos das costas doíam pra caramba. E eu comecei usando próteses baixinhas, dando passos bem curtos. Eu fui progredindo até chegar a quase 1 metro e 70 de altura. Quando eu voltei pro Brasil, eu doei a minha cadeira de rodas.

O segredo da minha reabilitação foi o resgate da sensação de pertencimento, de saber que eu não estava sozinho. Até conhecer o Cameron, eu não conseguia caminhar mais do que 20 passos com as próteses. Mas alguma coisa destravou na minha cabeça e eu encontrei uma energia extra dentro de mim. O ser humano é um ser social, ele precisa pertencer a alguma coisa, a algum lugar. Em Oklahoma, eu conheci um monte de gente sem um, dois ou até três membros. Várias pessoas tinham perdido duas pernas, acima dos joelhos também. E eu via que elas estavam em pleno crescimento na vida: nos estudos, no trabalho, no relacionamento… Algumas até tendo filhos. E aí eu percebi: “Opa, peraí. Eu também posso”. 

[trilha sonora]

Em pouco tempo, eu me tornei 100% independente. Passei a usar as próteses nos braços e a dirigir carro até sem adaptação. A partir daí, com muito esforço, claro, minha vida deslanchou. Eu me mudei pros Estados Unidos pra fazer faculdade. Me tornei um caso de tanto sucesso pra Hanger que eles me fizeram uma proposta de trabalho. No fim das contas, acabei ficando por lá sem previsão de voltar pro Brasil. Eu amava a vida que eu tinha. Eu estava feliz, trabalhando… Mas aí veio a pandemia. Como eu tive que migrar pro home office, eu acabei preferindo voltar pro Brasil e ficar perto dos amigos de infância e da família novamente.

[trilha sonora] 

Aqui no país, eu percebi que estávamos muito atrasados em relação a reabilitação de pessoas amputadas. E me veio um sentimento muito forte de que eu poderia contribuir para mudar esse cenário. Refleti muito e acabei pedindo demissão da Hanger. Abri a minha própria clínica e me casei com a Marcela, que eu tinha conhecido lá nos Estados Unidos. Escrevi um livro sobre a minha história e me tornei palestrante.

Eu digo que todos nós temos um super-herói dentro da gente. Todos nós temos uma força que a gente nem imagina que tem, e que pode superar barreiras inimagináveis. Ninguém precisa passar pelo que eu passei pra ter uma ótica diferente na vida. Com a minha história, eu sinto que eu sou pra outros amputados e até mesmo pessoas sem amputações o que um dia o Cameron e os veteranos de guerra foram pra mim. Eu quero fazer a diferença na vida do próximo. Porque assim eles também podem passar adiante a mensagem do poder da reabilitação e do resgate da autoestima. Quando eu chegar no fim da vida, eu quero olhar pra trás e ter uma boa sensação de missão cumprida.

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