Para Inspirar

Fernanda Ribeiro em "O meu trabalho é construir pontes"

Na décima segunda temporada do Podcast Plenae, se emocione e reflita com a história do empreendedorismo de Fernanda Ribeiro

28 de Maio de 2023



Leia a transcrição completa do episódio abaixo:

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Fernanda Ribeiro: A jornada de um empreendedor preto é totalmente diferente da jornada de um empreendedor não preto. A pista é a mesma, mas os obstáculos não são. O empreendedor preto já começa o negócio devendo pra algum familiar, porque ele não tem acesso a crédito. A rede de relacionamentos dele também é totalmente diferente da rede do pessoal da Faria Lima. A Conta Black e AfroBusiness surgiram justamente pra fortalecer a inclusão social e econômica da população preta.

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Geyze Diniz: A partir da constatação e indignação de que os empreendedores negros possuem mais dificuldades para colocarem seus negócios de pé, Fernanda Ribeiro co-fundou duas iniciativas que buscam reverter este cenário: a rede AfroBusiness e a fintech Conta Black.

Conheça essa história de inclusão social e econômica que faz a diferença na vida de muitas pessoas. 
Eu sou Geyze Diniz e esse é o Podcast Plenae. Ouça e reconecte-se.

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Fernanda Ribeiro: Minha mãe engravidou de mim aos 47 anos, usando DIU. Eu brinco que eu queria muito nascer. Os meus pais já tinham quatro filhas quando eu vim ao mundo. A mais nova era uma adolescente de 16 anos e a mais velha, uma jovem de 20. Então eu cresci sem crianças por perto. Nem na rua eu podia brincar, porque a nossa casa ficava numa avenida muito movimentada, em São Paulo. Eu passava o dia inteiro na companhia da minha tia-avó, a Dadinha, que também vivia com a gente.

O fato de eu ser uma criança sozinha me tornou uma pessoa curiosa, observadora e criativa. E até hoje eu sou assim. Eu não gostava muito dos programas de TV infantis da época. De uma maneira até arrogante, achava que eles eram bobos. Eu tinha que usar a imaginação pra encontrar um espaço lúdico naquele universo tão adulto. Eu criei o meu mundinho.

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Pra eu poder conviver com outras crianças, eu entrei na escola bem cedo. Quando eu cheguei ao colégio, eu já estava um pouquinho avançada em relação aos demais alunos, porque a Dadinha já tinha me ensinado muita coisa em casa. Eu fui a única das cinco filhas que estudou em escola particular. Os meus pais tiveram que fazer alguns sacrifícios pra conseguir pagar as mensalidades. Eles de fato investiram na minha educação.

No colégio, eu convivia com meninas e meninos mais ricos que eu. Mas, fora de lá, eu também conhecia uma realidade mais pobre do que a minha. A minha mãe sempre trabalhou em uma área da saúde ligada à assistência social. Às vezes, ela trazia pra casa crianças que estavam em processo de adoção na creche. Trazia também adolescentes grávidas que foram expulsas de casa.

A gente hospedava esses menores de idade por um período. 
A minha mãe me levava pra muitas vivências que ela fazia em favelas. Quando eu chegava na escola, eu compartilhava com as minhas amiguinhas o que eu tinha visto. Desde pequena, eu fui criando esse mindset de estabelecer pontes entre as pessoas de mundos distintos. 

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Quando chegou na época de escolher uma profissão, eu tive certeza que queria trabalhar com aviação. O meu pai se aposentou como funcionário público em um órgão do governo que faz a gestão dos aeroportos. Na infância, ele me levava pra ver pousos e decolagens das aeronaves. Às vezes, ele passeava comigo pelos bastidores de Congonhas, onde ele trabalhava. E aí nasce a minha paixão por aviação.

Eu me formei em turismo e trabalhei em duas companhias aéreas. O meu primeiro emprego foi na Varig, na área de fidelidade. Eu peguei o finalzinho da empresa. Quando eu vi que o negócio tava dando ruim, mudei pra outra. Comecei no setor de vendas e depois passei pra área de comunicação interna. À medida que eu ia crescendo na companhia aérea, eu ia percebendo que cada vez tinha menos pessoas parecidas comigo.

Não havia mulheres pretas, principalmente, em cargos de liderança. Aí, vinha aquele pensamento: “Eu preciso entregar mais”. Eu me esfolava de trabalhar pra fazer valer aquela oportunidade. A minha carga horária era de 16 horas por dia. Naquele ritmo, eu sabia que uma hora o corpo ia espanar. E ele espanou num domingo à noite. 

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Eu fui levada pro hospital com enjoo, dores, mal-estar, todos os sintomas de um infarto. Só que não era um infarto. Eu fiquei internada por dias fazendo exames. Mas, mesmo na cama de um hospital, meu celular não parava de tocar. Era uma época de bastante trabalho, por conta de uma transição de sistemas. Eu recebi várias vezes a ligação do meu chefe questionando: “E aí, quando você volta?” Era tipo assim: “Eu sei que você tá doente, mas eu preciso da entrega”.

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Quando saíram os resultados dos exames, os médicos disseram que eu não tinha nenhuma doença física. Como na época não se falava muito de burnout, eles explicaram que o meu problema era stress. Recomendaram então que eu tirasse férias, praticasse exercício físico, me alimentasse melhor e que fizesse terapia.

Aquele piripaque, junto com as cobranças do meu gestor insensível, foram um baque pra mim. Ficou claro que eu era somente um número na empresa. E se eu morresse, eu seria substituída em horas. Ainda no hospital, eu decidi: "Eu não quero mais essa vida". Quando eu contei que eu ia pedir demissão, as pessoas ao redor me disseram: "Você tá louca."

E realmente, pra quem olha de fora pode parecer loucura. Eu ganhava um bom salário. Eu tinha o benefício de poder viajar praticamente de graça, como funcionária. E além do mais, aquele emprego era a realização de um sonho de infância. Só que aquele sonho tinha se transformado num pesadelo.

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Eu peguei firme na terapia e, antes de pedir demissão, comecei a desenhar um processo de transição de carreira.

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Eu juntei dinheiro e decidi que iria tirar um ano sabático. A ideia era me dedicar a novos conhecimentos, dos mais óbvios aos mais estranhos. Eu fiz curso de matemática, de jardinagem, de cerâmica, de idioma e de direitos humanos. E foi num desses cursos que eu conheci o terceiro setor e comecei a gostar desse universo. 

Nesse ano, eu me dediquei também pra ampliar a minha rede de relacionamentos. Eu marcava cafés com pessoas aleatórias, só pra conhecer outras realidades. Porque às vezes a gente pode achar assim: “Eu sou uma pessoa preta, então eu conheço a realidade das pessoas pretas”. Mas não é assim. Eu conheço a especificidade de uma mulher preta que teve acesso a uma realidade Y e que mora num lugar X.

O bairro onde uma pessoa reside pode mudar totalmente a percepção de mundo dela. Como desde nova eu já vivenciava cenários diferentes aos meus, eu entendia que era importante potencializar essa visão no meu dia a dia. E tentar gerar conexões entre esses mundos acabou se tornando o meu propósito de vida. 

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Meu ano sabático acabou antes do previsto, junto com dois sócios, o Sérgio e o Márcio, fundamos uma rede de empreendedores, intraempreendedores e profissionais liberais pretos. A ideia surgiu porque o Sérgio, que já era meu namorado na época, trabalhava como publicitário e precisava de um advogado.

O Márcio era advogado e que também precisava de um publicitário. Eles, que são dois homens pretos, perceberam que não conheciam tantas pessoas pretas fazendo negócios entre si. Naquela época, o Linkedin não era tão forte como é hoje. Daí eles pensaram: “E se a gente juntasse o nosso networking?”

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A gente criou uma rede exatamente pra proporcionar oportunidades de trabalho, renda e negócios pra pessoas pretas. O Sérgio conhecia outros empreendedores como ele. O Márcio atuava na área tributária e tinha muitos contatos com profissionais liberais. E eu entrei com a minha bagagem corporativa. Juntos, montamos uma plataforma. Em pouco tempo, essa plataforma foi finalista da premiação de uma big tech.

E, por causa dessa premiação, a gente foi parar na mídia e nossa rede cresceu. Atualmente, a AfroBusiness tem mais de 9 mil empreendedores espalhados pelo Brasil inteiro. Quando um empreendedor passa por uma formação nossa ele entra numa rede de conexão e tem um faturamento oito vezes maior, comparado com quem não fez o mesmo caminho.

Nesse processo, a gente descobriu que a população preta tem demandas financeiras específicas. Por exemplo, um empreendedor preto tem o crédito negado quatro vezes mais comparado a um empreendedor branco exatamente nas mesmas condições. O Sérgio tinha passado por essa situação muito tempo antes.

Ele era dono de uma agência de publicidade que estava indo muito bem com 30 funcionários. E ele sempre foi um maníaco por tecnologia, dado momento, quis mudar o parque tecnológico da agência. Mas quando ele foi ao banco, o gerente negou o empréstimo.


E o Sérgio perguntou: “Mas por quê? Eu tenho o nome limpo. Eu consumo todos os produtos de vocês. A minha folha de pagamento tá aqui. Você sabe onde eu ganho e onde eu gasto”. E não adiantou. Naquela época, o Sérgio saiu do banco e profetizou: “Um dia, eu vou abrir um banco”. 

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A gente entendeu que aquilo era uma oportunidade de negócio e fundamos a Conta Black, com o objetivo de proporcionar a inclusão e educação financeira. Hoje, eu trabalho pra construir pontes e atrair investimentos pra empreendedores pretos. 

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Nesse processo de transformação do futuro, é fundamental ter aliados. Quando uma pessoa não negra investe conosco pode ajudar a gerar microcrédito pra pessoas pretas. Mas é preciso ter intenção. A gente conhece cases de empreendedores brancos que receberam investimentos com a startup só no PPT. Eles não tinham sequer um produto validado, só uma ideia de negócio e uma boa rede de relacionamentos.

Pro empreendedor preto, até mesmo quando ele está inserido no universo das startups, não é assim. A gente já passou por diversas conversas com fundos, onde o nosso produto já estava rodando, com cliente utilizando a plataforma e ainda assim a gente ouvia questionamento do tipo: “Ai, eu sinto que esse negócio não vai dar certo, que ele não vai parar de pé”. Tem um problema estrutural por trás de tudo isso. As pessoas que estão do outro lado da mesa normalmente são brancas.

E ali tem o viés de dar crédito para quem é parecido com elas, como aconteceu com o Sérgio lá atrás. Existem estudos que falam sobre isso. Se a gente sair do recorte de raça e olhar o recorte de gênero, é exatamente a mesma coisa. As startups lideradas por homens recebem mais investimento, quando comparadas as startups lideradas por mulheres.


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Desde que a AfroBusiness nasceu lá atrás, em 2015, algumas coisas mudaram. Eu vejo de uma maneira positiva as ações afirmativas. Hoje, existem fundos de investimento focados em startups lideradas por pessoas pretas. O Google tem um fundo desses aqui no Brasil. Inclusive, a Conta Black recebeu um aporte dele.

Mas, o empreendedor preto segue passando pelos mesmos desafios. E a gente só consegue modificar um cenário quando olha pra ele com uma lente de aumento. Eu ouço muito: “Ah, Fernanda, o crédito que foi negado pro Sérgio lá atrás hoje não seria, porque a análise não passa mais pelo gerente, ela é sistêmica”.

Eu entendo, mas por trás do sistema ainda existem pessoas. Hoje, os grandes bureaus que fazem análise de crédito olham fatores estruturais que ainda são excludentes. Um exemplo simples é que dos 9 critérios para determinar a concessão de crédito um deles é o CEP.

Então, uma pessoa que reside na Avenida Paulista vai ter muito mais oportunidades do que aquele que vive no Capão Redondo, na periferia de São Paulo. Se não tiver intenção, se não tiver uma lente de aumento, as diferenças sociais vão continuar sendo reproduzidas, inclusive pela tecnologia. 

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Geyze Diniz: Nossas histórias não acabam por aqui. Confira mais dos nossos conteúdos em plenae.com e em nosso perfil no Instagram @portalplenae.

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Para Inspirar

Rafael Mantesso em “O meu melhor amigo é o meu cachorro”

Na quarta temporada do Podcast Plenae - Histórias para Refletir, conheça a relação intensa de Rafael Mantesso e seu cachorro, Jimmy

28 de Março de 2021


Leia a transcrição completa do episódio abaixo:

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Rafael Mantesso: A vida toda eu me forcei a fingir um personagem que consegue socializar. Eu tenho muita dificuldade de ler os sentimentos das pessoas, de identificar as emoções. Relacionamento é um desafio imenso pra mim. Mas, com o Jimmy, eu não tenho esse problema. Eu sei o que ele tá sentindo o tempo inteiro. Eu tenho por ele talvez um amor muito parecido ao de uma mãe por um filho. Mas o Jimmy não é meu filho, ele é meu cachorro. 

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Geyze Diniz: O ser humano vive para se relacionar e isso traz vínculos, pertencimento,  personalidade. Mas é engano nosso achar que essas relações para serem relevantes precisam ser estabelecidas somente entre pessoas. Hoje, trazemos o lindo relato de uma relação forte, inspiradora e cheia de afeto entre uma pessoa e seu cachorro.

 Vamos ouvir a história do Rafael Mantesso contando como sua relação com o Jimmy, um
bull terrier de 11 anos, faz dele mais do que um simples pet, e sim, seu melhor amigo, fonte de inspiração, afeto e muito amor. Ouça no final do episódio as reflexões da especialista em desenvolvimento humano, Ana Raia, para te ajudar a se conectar com a história e com você mesmo. Eu sou Geyze Diniz e esse é o Podcast Plenae. Ouça e reconecte-se.

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Rafael Mantesso: Quando eu me casei, minha ex-mulher e eu quisemos um cachorro. Eu pesquisei muito antes de escolher a raça. Se você jogar no Google: “Quero comprar um cachorro feliz pra minha família”, o primeiro resultado que aparece é o golden retriever. Não tem como não gostar de um golden.

Ele é maravilhoso, sem defeitos, a versão canina de uma loira correndo na praia de SOS Malibu. Mas eu prefiro bichos meio desajustados, esquisitos. Não é à toa. Vários estudos psicológicos relacionam donos e seus animais, inclusive na aparência. E eu sou um cara fora dos padrões considerados normais.

A minha pesquisa não deixou dúvida. O meu cachorro seria um bull terrier, uma mistura de buldogue com terrier inglês. Essa raça tem características que eu amo. Tem pelo curto, que é mais prático de cuidar e combina com o clima do Brasil. Late pouco, fundamental pra mim, que sou sensível a barulho. São teimosos, insistentes e obsessivos, um comportamento bem parecido com o meu. 

Os bull terriers foram geneticamente criados pra brigar com bois. Eles são muito resistentes e brutos, mas nem um pouco bravos. Na verdade, eles não economizam na demonstração de afeto. Eles têm uma característica de ficar girando e pulando ao redor do próprio rabo, tipo um touro de rodeio. É maravilhoso. São extremamente leais e cúmplices. Como todo cachorro, amam mais o dono do que a eles próprios. 

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A gente achou uma criadora responsável, que não faz cruzamentos consanguíneos, e escolheu um filhote macho. Eu queria colocar um nome bem estereotipado pra combinar com a fama injusta de agressivo que ele tem. Pensei em Kadafi, Shark, Killer, Massaranduba. A minha ex-mulher discordou. Ela achava que o nome tinha que ser o oposto da imagem que transmitia. Ela era estilista e adorava a marca de sapatos Jimmy Choo. Assim ele virou o Jimmy Choo.

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Durante 5 anos, o Jimmy foi o cachorro da casa. 

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Ele não era meu, era do casal. A minha ex passeava com ele de manhã e eu à noite. Ela era mais ligada aos bens materiais, por isso ela não deixava ele subir no sofá, nem na cama. Ele tinha que ficar lá na varanda. A minha relação com ele começou a se estreitar quando o meu casamento acabou, depois de 12 anos de relacionamento.

Comprei a parte da minha ex do apartamento e, na partilha, escolhi ficar com os quadros. São obras sem valor comercial, mas de muito valor emocional. Meu pai pinta e me deu uma réplica maravilhosa da Guernica, do Picasso. É um quadro de 4 metros, incrível. Nessa de escolher telas, ela ficou com os móveis. Quando fez a mudança, só sobrou pra mim no apartamento uma geladeira, uma poltrona... e o Jimmy.

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Eu gosto quando eu entro num imóvel que acabei de alugar ou comprar. Dá uma sensação de começar algo do zero. Mas, no divórcio, não foi isso que eu senti. Eu tinha um apartamento cheio, que de repente ficou vazio. Era um imóvel de quatro quartos, 90 metros quadrados. A sala fazia eco. Para diminuir esse incômodo, eu ia ao supermercado, pegava caixas de papelão e espalhava pela sala. 

Na mesma época, eu fiquei desempregado. Então, eu tinha bastante tempo livre e um cachorro cheio de energia, querendo atenção o tempo inteiro. Eu duvido que alguém tenha passado tanto tempo na vida brincando com um cachorro, sem mais nada pra fazer, sem mais nada pra olhar.

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Naquele apartamento vazio, a minha sensação é que eu tinha voltado pro meu quarto na casa dos meus pais, lá em Carangola, no interior de Minas Gerais. O quarto era um refúgio, um lugar onde eu não me sentia julgado, onde eu podia ser eu mesmo. Eu desenhava nas paredes pra extravasar meus sentimentos, porque o desenho sempre foi a minha melhor forma de expressão. Senti vontade de resgatar esse hobby pra ocupar o vazio que eu sentia por dentro e via por fora. 

E o que que eu ia desenhar? O meu único objeto de atenção naquele momento, o Jimmy. Eu acho que ele é o cachorro mais lindo do universo. Ele é branco, com umas orelhas marrons e a ponta do focinho com um formato de coração preto. Ele tem olhos pequenos e pretos, focinho comprido e um olhar delicado. Tem formas extremamente minimalistas, sem nenhuma quina, sem nenhuma curva. Ele parece que foi desenhado pela Apple.

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 Comprei carvão pra rabiscar as paredes e caneta de quadro branco pra pintar o chão, porque era fácil de apagar. Decidi criar cenários e fotografar o Jimmy dentro deles, com o meu celular. Eu passava a manhã inteira desenhando, pra ter a imagem pronta na melhor luz do dia, que eram umas 4 ou 5 da tarde. Eu desenhava, por exemplo, a cena da
Dama e o Vagabundo comendo espaguete. O Jimmy, claro, fazia o papel do Vagabundo. Desenhava uma bicicleta e fotografava o Jimmy numa posição em que parecia pedalar. 

A primeira foto que eu postei no Instagram foi do Jimmy posicionado atrás de uma caixa de papelão da altura dele. No papelão, eu desenhei as costelinhas dele e o coração vermelho no meio, como se ele tivesse passando por um raio-x. A imagem que viralizou foi a dele cantando. Na verdade, quando eu fiz essa foto, ele tava deitado de lado, meio que dormindo, abriu a boca pra bocejar e eu fiz o clique.

Desenhei um microfone e postei. Fui dormir com 10 mil seguidores e acordei com 60 mil, e uns 16 mil e-mails na minha caixa de entrada.  O post rodou o mundo inteiro e mudou a minha vida. O hobby passou a ser um trabalho e uma fonte de renda. A CEO da Jimmy Choo me convidou pra assinar uma coleção de acessórios com a imagem do Jimmy.

Foi a primeira vez que uma marca de grife fez uma coleção com um cachorro estampado. Publiquei um livro, fiz uma coleção pro cachorro da Donatella Versace, uma linha de pets pra Monclair. Fiquei amigo do Marc Jacobs, que também tem um bull terrier, e até ganhei um green card, como artista. Sem o Jimmy, nada disso teria acontecido. 

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 Quando o Jimmy já estava estourando na internet, uma neuropsicóloga da Nova Zelândia entrou em contato comigo pedindo permissão pra usar as imagens num trabalho com autistas. 

[trilha sonora]

Ela fez um teste que confirmou o que eu já tinha descoberto sozinho: eu tenho Síndrome de Asperger, um estado do espectro autista. No passado, eu achava que todo autista era igual ao personagem do Dustin Hoffman no filme
Rain Man. Alguém extremamente limitado, com dificuldade de fala. E não é assim, existem vários estados do espectro.

No meu caso, por exemplo, eu tenho bastante problema para interpretar linguagens não verbais, eu tenho dificuldade de me relacionar com pessoas, tenho intolerância ao barulho, hiperfoco e um apego muito grande à rotina.
No teste, eu descobri também que eu tenho transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, o famoso TDAH.

O diagnóstico encaixou um monte de peça na minha vida. Eu tenho motivos neurológicos pra ser do jeito que eu sou. Não é esquisitice, não é chatice, não é frescura, como um monte de gente costuma julgar. 

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Autistas têm uma proximidade muito grande com animais. É estatístico. Mais ainda não existem estudos que expliquem o porquê disso. No meu caso, um dos motivos é o hiperfoco. Eu sou obcecado pelo Jimmy. Outro motivo é que eu tenho mais facilidade de me relacionar com os cachorros do que com os humanos.

Eu entendo os sentimentos do Jimmy, e ele os meus. Quando eu tô triste, ele quer ficar sentado em cima de mim. Imagina um cachorro de 30 quilos no seu colo? É assim. Ele sabe que a presença física dele me acalma. Pra mim, ele funciona como um carregador de bateria. Ele faz a minha bateria ficar mais verde.

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O Jimmy não guarda mágoas. Se eu brigo com ele agora, daqui 5 minutos ele vem abanando o rabo e eu já perdoo ele na hora. Nós respeitamos o espaço um do outro. Quando ele quer ficar sozinho, eu não chamo ele. Pra mim as relações devem ser diretas e objetivas, mas os seres humanos, eles não são assim.

As pessoas dissimulam, dizem uma coisa querendo dizer outra, dão indireta. As pessoas mentem. São linguagens que eu não consigo decifrar. Com cachorro, não tem esse jogo. É óbvio que eu adoro conversas longas e profundas com amigos e namoradas e isso o Jimmy nunca vai me dar. Mas, a minha necessidade de afeto ele supre completamente. 

Parece que toda vez que eu chego em casa sou um beatle entrando num show. O Jimmy fez uma cirurgia na perna e tem dificuldade pra andar. Mas mesmo assim, ele não segura a explosão de felicidade. Ele vem derrubando tudo, me dando cabeçada. E o que ele expressa é exatamente o que eu sinto quando eu vejo ele. A troca é intensa dos dois lados. 

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Os bull terriers são muito mal compreendidos. Me incomodava demais as pessoas terem medo do Jimmy na rua. Descer com ele num elevador e ninguém entrar. Ele nunca nem sequer esboçou um latido ou um rosnado pra alguém, tanto é que é uma raça super indicada pra família com filhos. Criança enfia o dedo no olho do bicho, puxa o rabo, morde a orelha, sobe em cima... Os bull terriers adoram esse tipo de brincadeira.

Uma das bandeiras do meu trabalho é mudar a visão negativa que as pessoas têm da raça. Graças ao alcance global que o Jimmy ganhou, a gente conseguiu evitar que a raça fosse banida na Dinamarca e hoje as pessoas atravessam a rua para fazer carinho nele.

Eu uso a minha audiência pra conscientizar as pessoas de algo que elas não sabem. Meu trabalho não é mais sobre mim, é sobre os bull terriers e o autismo. Os autistas têm estatisticamente seis vezes mais chance de se matar na vida adulta do que uma pessoa neurotípica.

Na adolescência, o risco é 13 vezes maior. Eu calculo que já ajudei umas 150 pessoas a receberem diagnóstico tardio de Asperger, só por falar de vez em quando sobre a minha condição. Elas nunca tinham ouvido falar da síndrome. Pesquisaram sobre o assunto, foram atrás de psiquiatras e psicólogos e a vida delas começaram a fazer sentido.

[trilha sonora] 

Em algum momento da vida, eu acho que todo mundo se pergunta: o que que eu tô fazendo aqui? De onde eu vim? Pra onde eu vou? Eu tenho esses devaneios. Antes do Jimmy, eu não sabia com o que eu queria trabalhar, não sabia se eu era bom em alguma coisa. Ele me trouxe muitas respostas.

Se eu passar o resto dos meus dias mostrando pro mundo o tanto que ele me deu de amor, eu não vou conseguir retribuir o que eu já recebi dele. Sem o Jimmy, eu não teria parado pra pensar 1 minuto nos outros, eu estaria focado só pensando nos meus problemas. Ele é mais do que meu cachorro.

Ele é meu escudo, ele é uma inspiração, ele é meu alterego, ele é meu meio de expressão. Sem o Jimmy, eu nunca teria tido coragem de dar opinião e falar sobre mim, porque eu detesto holofote. Mas de alguma maneira ele me blinda, porque ele é a estrela do show. O Jimmy faz a minha vida valer a pena. 

[trilha sonora]

Ana Raia: Muitas vezes, a vida traz obstáculos enormes, tira nossos pilares afetivos e materiais, nos deixa sem chão. São momentos de ruptura em que a vida nos tira algo, mas também cria espaço para o novo. Nos convida para novas possibilidades e novas experiências.

Grandes rupturas são terríveis e benéficas, na mesma proporção. E quem escolhe aceitar a ruptura ao invés de resistir, costuma construir e viver bonitas narrativas de travessia. Sempre escutei, e acho que você também, que o amor cura e transforma, que o amor move montanhas, desperta coragem e alegra o coração.

É fato que quando o amor entra em nossas vidas ele traz movimento, consciência, afeto e propósito. Desperta em nós a vontade de sermos melhores, de fazer melhor. Ele expande a nossa vida. E Rafael exemplifica bem esse cenário que tem um tanto de amor e outro tanto de ruptura. Sem muita clareza do que fazia, apenas entregue ao flow da vida.

Depois de um clique, um desenho e uma postagem, ele viu e fez sua vida mudar. Nessa travessia ele se conheceu, encontrou significado em sua vida e transformou seu trabalho em causas. O amor e as rupturas, aparentemente tão antagônicas, podem ser as pontes para bonitas travessias. Só precisamos estar abertos para receber as rupturas e os amores em suas mais diversas formas.

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Geyze Diniz: Nossas histórias não acabam por aqui. Confira mais dos nossos conteúdos em plenae.com e em nosso perfil no Instagram @portalplenae.

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