Para Inspirar
O empresário conta como ressignificou toda sua vida e seus valores depois de sobreviver a dois acidentes de carro,
7 de Novembro de 2022
Leia a transcrição completa do episódio abaixo:
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Felipe Dib: Eu pesquisei os princípios da prosperidade nas escrituras sagradas das três maiores religiões do mundo: o hinduísmo, o cristianismo e o islamismo. O princípio número um é a gratidão. E eu descobri que a gratidão deve ser demonstrada não só com pensamento e palavras. Mas, principalmente, com atitudes. É na atitude que mostramos a gratidão.
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Geyze Diniz: O professor Felipe Dib aprendeu desde jovem a importância de ser grato por estar vivo. Depois de sofrer dois acidentes de carro, ele mudou a sua maneira de enxergar o mundo. O sonho de criança de se tornar milionário foi substituído pelo desejo de retribuir as bênçãos que recebeu na vida.
Ouça no final do episódio as reflexões do Historiador Leandro Karnal para te ajudar a se conectar com a história e com você mesmo. Eu sou Geyze Diniz e esse é o Podcast Plenae. Ouça e reconecte-se.
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Felipe Dib: Hello, my friend! Desde pequeno, eu tinha uma meta na vida: ser milionário. Eu sonhava grande, queria comprar um avião, relógios caros… Só coisas assim. Eu me dediquei muito pra isso acontecer. Comecei a trabalhar aos 13 anos, no restaurante dos meus pais, lavando copos, servindo bebidas, às vezes cuidando do caixa. Nessa época, eu ainda ganhava dinheiro como comerciante informal. Eu vendia bonés, que uma amiga da minha mãe trazia dos Estados Unidos e também vendia tacos de "bet" em sociedade com meu primo. "Bet" é um jogo de rua que a gurizada de Campo Grande gostava muito. Nós passávamos fita isolante no cabo de um pedaço de madeira e oferecíamos aos vizinhos que quisessem comprar. Tudo que entrava, eu juntava.
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Aos 16 anos, fui pra Nova Zelândia fazer intercâmbio depois de reprovar no curso de inglês e já cheguei trabalhando. Dei aula de capoeira na escola, cuidei do jardim da diretora do colégio, lavei pratos num café e varri cimento em obras. Para economizar, meu gasto diário eram 2 miojos por dia.
Quando eu voltei pro Brasil, fui dar aulas de inglês. Prestei vestibular para Relações Internacionais e, no primeiro semestre, comecei a lecionar no centro de idiomas da universidade. Eu seguia no meu plano de ser milionário, juntando dinheiro sem parar. Até que um acontecimento mudou meu jeito de pensar. Na verdade, foram dois eventos: dois acidentes de carro no intervalo de um mês. Eu tinha 24 anos e, a partir dali, a minha vida tomou outro rumo.
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No primeiro acidente, eu estava dirigindo sozinho de Campo Grande a Três Lagoas, uma cidade no interior daqui de Mato Grosso do Sul. Eu ia participar de uma troca de cordas de capoeira para receber a minha graduação de professor. Eram umas 5h15 da manhã. O céu estava cinza, meio amarronzado, começando a amanhecer. Eu dirigia a 180 quilômetros por hora, quando, de repente, eu vi uma moto a uns 100 metros na minha frente. Naquele segundo, minha decisão foi frear, porque se não, eu passava por cima do cara.
Eu freei com tanta força que o carro derrapou e começou a girar. O movimento parecia em câmera lenta. Enquanto o carro capotava naquele asfalto duro, eu grudei no volante e comecei a falar uma frase em árabe que toda família de muçulmanos conhece: "Bismi lérri rahmane rahim", que significa “Em nome de Deus, Clemente, Misericordioso”.
Eu aprendi essa frase com o meu pai, Elias Gazal Dib, e com a minha avó, Rosa, mãe dele. A minha sitê, como se diz avó em árabe, nasceu no Líbano. E meu vô veio da Síria, fugindo de uma perseguição. Eu cresci acordando todos os dias da minha vida ouvindo meu pai rezar. Todas as manhãs, todos os dias, não importa qual seja, ele amanhece lendo em voz alta o Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos. Isso é constante até hoje. Eu me levanto às 5h30 da manhã pra treinar. Depois da academia, eu passo na casa dos meus pais e, quando eu chego, meu pai está lendo o Alcorão. Ele lê o livro de capa a capa, várias e várias vezes ao ano.
O muçulmano usa em diversas situações aquela frase que eu falei no momento da batida, em momentos tensos, para entrar em casa, para sair de casa, para começar uma oração, para fazer uma refeição, para ter uma conversa importante, antes de começar um jogo… Essa frase "Bismi lérri" é a mesma frase que começa as 114 suratas, ou capítulos, do Alcorão.
Eu não sei se foi o poder dessas palavras, mas o fato é que eu não me machuquei no acidente. O carro capotou várias vezes e parou com as rodas pra cima, a uns 100 metros da pista, do outro lado da rodovia. Minha porta não abria, eu consegui sair pelo lado do passageiro e eu ficava pensando: “Meu Deus do céu, o que foi isso? Obrigado, Senhor!”.
Aí eu escuto uma voz vindo lá da beira da rodovia: “Cê tá vivo?”. Era o cara da moto! Ele ouviu o barulho da pancada e voltou pra ver o que tinha acontecido. Eu falei pra ele: “Meu irmão, você tá com o farol apagado!”. Aí ele falou pra mim: “Cê quer carona?”. Eu perguntei pra ele: “Cê tem outro capacete?”. Aí ele falou pra mim: “Não tenho, mas não dá nada não, vambora”. Eu comecei a balançar a cabeça e dar risada. Falei pra ele: “Oh, meu irmão… Deus acabou de me livrar de uma, eu não vou pedir outra chance agora, não”.
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Peguei carona com um caminhoneiro de volta até Campo Grande e, quando eu cheguei em casa, meus pais ainda estavam dormindo, tranquilos da vida. Eu pensei comigo: "Obrigado, meu Deus". Dei um beijo neles e eles estranharam minha presença ali. "Ué, você ainda não foi?". Quando eu falei que já tinha ido e capotado o carro, os dois se levantaram da cama. Fomos pro hospital e eu fiz um monte de exames… E eu realmente não tinha machucado nada.
Naquele dia eu senti que eu precisava retribuir aquela bênção de alguma maneira. Eu estudei nas escrituras sagradas das três maiores religiões do mundo quais são os valores que trazem prosperidade. O valor número um é a gratidão.
Eu queria mostrar a minha gratidão com palavras e, principalmente, com ação. O que eu sabia fazer melhor era ensinar inglês, então eu decidi dar aulas de graça na internet, pra qualquer pessoa no mundo que quisesse aprender o idioma.
Com a indenização do seguro do carro que capotou, eu comprei um carro popular, bem mais simples que o anterior e paguei a produção de 300 vídeo-aulas que iríamos gravar para oferecer grátis online. Eu planejei essas aulas pensando em um aluno como eu, alguém que não tem facilidade de aprender. Nossas aulas são passo a passo. A aula 1 é como dizer “oi, bom dia, boa tarde, boa noite” em inglês. Aula 2, como se apresentar: “I’m Felipe Dib”, “Nice to meet you”. Aula 3: “How are you?”. Aula 4: “What's your name? First name, middle name, last name”. E assim nós vamos evoluindo.
Nós gravamos 20 aulas, mas tivemos que interromper as filmagens, porque um mês depois do acidente, eu bati o carro de novo. E dessa vez eu me machuquei MUITO.
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Era uma sexta-feira, depois do almoço. Eu estava no quarto respondendo e-mails, quando os meus pais me convidaram para fazer um passeio. Eles iam com uns amigos até Ponta Porã, uma cidade na fronteira com o Paraguai, onde muita gente da região faz compras. É um passeio comum para quem mora em Campo Grande.
Eu animei de ir, inclusive porque eu queria colocar um "toca-CDs" no meu carro "novo" entre aspas, que não tinha nem som. Meus pais foram na frente e eu combinei de pegar a minha namorada e ir com o meu carro.
Era a primeira vez que eu pegava estrada depois do acidente. Eu estava com muito medo, muito inseguro por causa da batida anterior. Eu fui bem devagarzinho. Eu dirigia a 60 quilômetros por hora, e o tempo começou a fechar, começou a chover forte. O limpador do parabrisa estava na velocidade máxima e, mesmo assim, a visibilidade era ruim. Essa viagem normalmente dura 3 horas, mas naquela velocidade e com aquela chuva, eu falei pra minha namorada: “Meu amor, nós vamos chegar lá só amanhã”. Ela falou pra mim: “Se a gente chegar pro café da manhã, eu já tô feliz”.
Aí, numa curva onde já aconteceram alguns acidentes, nosso carro aquaplanou e atravessou a pista. Dessa vez, eu não rezei. A única coisa que saiu da minha boca foi: “Caraaa…”. E aquela palavra foi interrompida pelo maior barulho que eu já ouvi na minha vida. O meu carro bateu de frente com outro, que vinha no sentido contrário. Foi uma pancada tão violenta, que eu apaguei. A frente do carro amassou igual a uma sanfona e me espremeu pra dentro do carro, que virou uma bola de ferro amassado. Eu admito que no primeiro acidente eu estava errado, eu tive 100% de culpa, mas no segundo não.
Quando eu acordei, acho que alguns segundos depois da batida, a Cy, hoje minha esposa, já tinha sido retirada do carro. Só que eu estava preso nas ferragens. Com o impacto da batida minhas pernas dobraram até ficarem grudadas no meu peito, com os meus pés em cima do volante. O meu primeiro pensamento foi checar se eu tinha ficado paraplégico. Eu tinha pouquíssima mobilidade naquela posição, mas consegui me mexer um pouquinho e percebi que eu não tinha fraturado a coluna. Naquele instante, eu comecei a agradecer a Deus. Morrendo de dor nas pernas, nos pés, o corpo inteiro queimando, ardendo, mas eu já estava agradecendo.
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Enquanto os bombeiros tentavam me soltar das ferragens, alguém pegou o meu celular e ligou pros meus pais. Eles, que também estavam na estrada, só que mais à frente, voltaram em direção a Campo Grande. Mas o acidente tinha bloqueado a rodovia, então eles desceram do carro e caminharam um tempão até chegar no local da batida. De repente, eu vejo minha mãe, chegando desesperada e gritando: “Meu filho! Meu filho!” Eu fiz um sinal de joia pra ela com o polegar, sinalizando que estava tudo bem, mas não estava.
Deve ter demorado umas 3 horas até os bombeiros conseguirem me soltar das ferragens. Quando eles esticaram o meu corpo na maca, o grito que eu dei deve ter chegado a Campo Grande. A dor era insuportável. No hospital, descobriram que eu fraturei 6 costelas, calcâneo, fêmur, um osso na face. Minha boca não se mexia, meus olhos ficaram pretos. Depois, eu soube que eu tinha fraturado um osso na coluna também.
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Eu passei 29 dias internado, sentindo dor sem parar um minuto, sem conseguir dormir. Por causa das fraturas, eu não conseguia me mexer, talvez em alguns meses eu conseguiria me levantar. Eu tinha que fazer as necessidades na cama. O código para fazer o "number 2" era chocolate. Minha mãe colocava um lençol como cortina e eu ficava um tempão pra conseguir, precisando de ajuda para me limpar… E aí eu fui tendo a constatação de que o dinheiro não compra as coisas que têm mais valor na vida. A grana que eu tinha no banco não tirava a minha dor, não me dava mobilidade, não me ajudava a dormir. O dinheiro é fantástico para um monte de coisas, mas ele não seria a causa da minha felicidade, como até então eu acreditava.
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A minha vontade de devolver todas as bênçãos que eu tinha recebido veio com mais força ainda. Eu me lembro de uma noite lá no hospital, segurando as mãos dos meus pais e chorando, eu falei pra eles: “Deus foi muito bondoso comigo. A partir de agora eu vou dedicar minha vida pra agradecer, vocês vão ver. Enquanto eu não fizer a diferença na vida de cem mil pessoas, eu não vou sossegar”.
Quando eu tive alta, fui levado de maca pra casa dos meus pais, ainda sem me mexer da cintura pra baixo. Eu liguei pro produtor que eu tinha contratado antes, pedindo pra gente dar sequência nas gravações. Eu não podia sair da cama, e por isso ele ia em casa. Eu gravava as aulas ali, sentado na cama dos meus pais. Segundo nossos alunos eu estava muito arregalado e muito amarelo naquelas primeiras aulas. E eles têm razão, eu estava feio demais.
Depois de meses de fisioterapia, dedicação, graças a Deus eu voltei a andar. Eu sabia que esse gesto de gratidão duraria pra sempre, não seria algo passageiro. Já se passaram 10 anos desde que eu comecei a postar as aulas na internet. De lá para cá, a equipe cresceu e nós criamos uma plataforma própria, o Você Aprende Agora.com. Já são 41 milhões de aulas lecionadas para alunos em 181 países.
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Há dois anos, nós começamos a produzir conteúdo do currículo de inglês da BNCC pro Ensino Fundamental e Médio. Nosso curso hoje é transmitido pela TV aberta, chegando a milhões de pessoas que não têm nem celular, muito menos internet. Meu sonho é levar o Você Aprende Agora pros estudantes das escolas públicas. Eu ainda não consegui, mas um dia eu chego lá.
Eu trago o exemplo que eu tive em casa, de me preocupar em como eu posso ajudar as pessoas, o que eu posso fazer para retribuir a bênção de estar vivo. Eu sou um muçulmano que crê que todas as religiões pregam a mesma mensagem, com palavras diferentes. Todas buscam uma ligação com algo superior, que cada um chama do jeito que quiser: Cristo, Jeová, Krishna, Alá… Tanto faz. O importante é se conectar com essa força e agradecer pelo nosso bem mais precioso: a vida. Thank you very much. I'm Felipe Dib. See you next class!
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Geyze Diniz: Nossas histórias não acabam por aqui. Confira mais dos nossos conteúdos em plenae.com e em nosso perfil no Instagram @portalplenae.
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Para Inspirar
Inspire-se com o episódio de Corpo da décima oitava temporada do Podcast Plenae - Histórias para Refletir!
1 de Dezembro de 2024
Geyze Diniz: Foi durante um ensaio que a bailarina Marília Costa sentiu que havia algo estranho com seu corpo. Aos 28 anos foi diagnosticada com câncer de mama e iniciou o tratamento. Anos mais tarde, após ter dois abortos, nasceu seu filho Tainã. E seu peito que antes representava doença, passou a significar vida. Eu sou Geyze Diniz e esse é o podcast Plenae. Ouça e reconecte-se.
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Fiz uma bateria de exames e, quando o resultado da biópsia saiu, eu fui direto para o consultório da mastologista. No caminho, eu pedi para minha amiga ler o laudo do exame, enquanto eu dirigia. Ela leu: “Carcinoma ductal invasivo”. Eu não entendi aquelas palavras, então eu falei pra ela: “Ah, beleza não é câncer não, né?”. E ela respondeu: “Não, não, não é. Relaxa”. Mas ela sabia que era.
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A gente chegou no consultório e eu lembro que a médica ficou com lágrimas nos olhos quando viu o laudo. Ela disse: “Olha, dar essa notícia pra uma mulher tão jovem é difícil, mas eu preciso te dizer: você está com câncer.” A minha mãe e minha amiga estavam ao meu lado e colocaram a mão em meus ombros.
Eu não sei explicar, mas eu não fiquei tão abalada na hora. Eu falei: “Tá bom. O que que eu tenho que fazer agora?”. Eu tive uma força tão grande, que até eu fiquei surpresa, porque não era o meu padrão. Eu era uma pessoa frágil. Eu sou muito magra, a imunidade sempre baixa. E emocionalmente também eu me sentia frágil. Mas naquele momento essa fragilidade desapareceu. E nunca mais voltou.
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Eu entrei no centro cirúrgico sem saber direito o que ia acontecer, porque durante a cirurgia os médicos iriam investigar um segundo nódulo, que poderia ser maligno. Quando eu acordei, soube que tinham removido a parte central da mama esquerda, incluindo o mamilo. Não vou dizer que foi uma operação tranquila, mas foi menos invasiva do que poderia ter sido.
Pouco tempo depois, eu comecei a quimioterapia. Foram quatro sessões da quimio mais forte, aquela que faz o cabelo cair e que efeitos colaterais fortes. Depois mais 12 de uma quimio mais branda. E, para terminar, eu fiz 30 sessões diárias de radioterapia. No total, foram 10 meses vivendo uma montanha russa física e emocional. Quando eu estava bem, eu estava muito bem. É curioso, mas talvez nesse período eu tenha vivido os dias mais felizes da minha vida. A consciência da finitude me mostrava que aqueles momentos eram muito preciosos.
Então, eu aproveitava para ir ao parque, assistir espetáculos, viajar. Eu cheguei a pegar um avião de São Paulo à Vitória, no Espírito Santo, para visitar uma grande amiga. Era um tipo de aventura que eu nunca tinha feito antes. Nos dias bons, eu me sentia radiante. Nem a careca era um peso para mim. Eu já tinha sentido vontade de raspar a cabeça antes da doença, então eu tirei de letra. Às vezes eu colocava um lenço, mas só pra fazer um estilo ou pra me proteger do frio ou do sol.
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Só que nem sempre eu estava bem. Quando eu acordava mal fisicamente, eu entendia que aquele mal-estar também ia me deixar pra baixo emocionalmente. Nesses dias, eu me permitia sentir tristeza, angústia, medo. Como eu tenho uma consciência corporal muito presente, eu sentia todo o meu corpo recebendo e digerindo aquelas medicações.
A quimioterapia mata não só as células doentes, as saudáveis também. Eu entendia que aquela tristeza era um dos efeitos colaterais. Eu tinha saído da minha melhor forma física para um corpo com 10 quilos a mais. Foram intensas as transformações, externas e internas. Nada mais era como antes.
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Eu não tinha medo de morrer. Eu tinha medo de não conseguir dançar mais. Durante o tratamento, eu até tentei voltar pra companhia, mas foi impossível. Eu fui em um ensaio, e com 30 minutos de aquecimento já me dei conta que eu não tinha condições físicas. Quando o tratamento terminou, eu fiquei em uma menopausa induzida e iniciei o tratamento preventivo. Por sete anos eu tomei o comprimido diariamente. Com ele, eu não podia engravidar de jeito nenhum, porque o remédio pode causar aborto espontâneo, defeito congênito e até morte fetal.
Eu parei esse medicamento aos 36 anos. A essa altura, eu estava em um relacionamento e decidimos perguntar ao meu médico se eu podia engravidar. Ele disse que sim, mas pediu uma série de exames pra gente ter certeza que não havia nenhum foco da doença. Foi neste período de um ano, que eu fui concebendo a ideia de ser mãe. Até então, a maternidade não era um sonho pra mim. Eu sabia que seria difícil engravidar, por tudo que meu organismo tinha passado. Mas eu fui entendendo que o meu desejo era mais maternar e não necessariamente gestar.
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Quando o médico me liberou pra começar as tentativas, eu engravidei no primeiro mês! Foi uma surpresa imensa, era um indício que meu organismo estava saudável e pronto para gerar um bebê, parecia inacreditável. E só então eu senti no meu coração o desejo forte de gestar. Pela primeira vez, eu me imaginei com um bebê nos braços.
O que eu não imaginava era que o sonho seria interrompido. Na oitava semana, eu soube que a minha gestação era anembrionária, quando um óvulo fertilizado se implanta no útero, mas o embrião não se desenvolve. Ainda teve mais: os exames de imagem mostravam a possibilidade de uma gestação molar, quando o saco gestacional se transforma em um tumor maligno.
Encarar o risco de um novo câncer era muito assustador. Mas felizmente uma biópsia mostrou que não era um tumor. Eu podia respirar aliviada quanto a isso. Mas, eu tinha perdido o meu bebê e eu sentia dentro de mim um vazio enorme. Eu vivi um luto solitário, para os outros o meu bebê não existiu.
Apesar de toda a tristeza, eu procurava me agarrar na ideia de engravidar novamente. Aquelas semanas de gravidez me encorajaram a assumir que eu queria e poderia gestar. Segundo os médicos, a gestação anembrionária é muito comum. Não tinha nada a ver com o tratamento. Então, eu decidi continuar tentando.
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Seis meses depois, eu engravidei de novo. E de novo, eu perdi. Os médicos nem consideram que foi um aborto, mas sim uma gravidez química. É uma condição em que o óvulo é fecundado, mas o embrião não se implanta no útero. Eu estive grávida durante uma semana. Foi tão pouco tempo, que eu nem cheguei a criar vínculo com o bebê. Dessa vez, o meu sentimento não era de tristeza, era de raiva.
Eu estava fazendo tudo que estava ao meu alcance. Acompanhamento nutricional pra melhorar a qualidade dos óvulos, meditação, corrida, ioga... E o que estava acontecendo? Era a vida, mais uma vez, me mostrando que eu não tinha controle de nada. No mesmo dia em que eu recebi a notícia desse aborto espontâneo, eu ia me apresentar como bailarina. Eu voltei a dançar depois que o tratamento de câncer acabou. Mas agora eu dançava um espetáculo solo chamado Inquieta Razão em que eu narrava de forma poética a minha história com a doença.
Eu estava a caminho do teatro quando eu decidi que aquela seria a última apresentação do solo. Eu não queria mais me envolver emocionalmente e fisicamente com aquela memória. E eu acho que essa foi uma das minhas melhores performances, expressei tudo que estava sentindo, raiva, frustração, medo, angústia e também concebi em cena que o câncer era um capítulo encerrado em minha vida.
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O Tainã está com um ano e cinco meses e ainda mama. Um único seio tem sido mais do que o suficiente pra atender as suas necessidades. E mais do que isso: eu produzo tanto leite que me tornei doadora de leite materno. Quanto mais eu amamento, quanto mais eu ordenho, mais eu produzo. E essa abundância me relembra diariamente a força da vida.
Amamentar nunca foi um fardo, nem mesmo nas madrugadas longas. Para mim, a amamentação é uma evidência da minha própria potência, da vida que flui em mim. E, como se não bastasse, amamentar ainda previne o câncer de mama. Se um dia meu corpo carregou uma doença, hoje ele jorra vida.
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Geyze Diniz: Nossas histórias não acabam por aqui. Confira mais dos nossos conteúdos em plenae.com e em nosso perfil no Instagram @portalplenae.
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