Para Inspirar

Fabiana Scaranzi em "Seguindo a intuição"

O sexto episódio da décima sexta temporada do Podcast Plenae traz a história - ou histórias! - de Fabiana Scaranzi e sua sede por reinvenção.

8 de Setembro de 2024



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Fabiana Scaranzi: Eu me casei pela segunda vez aos 46 anos. Fiz uma transição de carreira aos 48. Entrei na minha quarta faculdade aos 54 e vou me formar aos 59. Em nenhum lugar tá escrito que eu não posso fazer isso.

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Geyze Diniz: É difícil rotular Fabiana Scaranzi, já que ela está sempre se reinventando. De dançarina a modelo, de apresentadora a mentora, de autora a empreendedora. Fabiana fez todas essas mudanças por ter certeza do que quer, e não ao contrário, como muitos pensam. Assim segue sua intuição e nunca para de aprender. Eu sou Geyze Diniz e esse é o podcast Plenae. Ouça e reconecte-se.

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Fabiana Scaranzi: Quando eu tinha uns 5 anos de idade, minha mãe me colocou pra fazer aula de balé. Pouco tempo depois, eu fui aprovada num exame da Escola de Bailado, que ficava embaixo do Teatro Municipal. Pra mim, aquela escola era o lugar mais bonito do mundo. Eu ficava lá a tarde inteira, e não fazia só balé. Eu tinha aula de história da música, história da dança. Aprendi a solfejar e até a tocar piano. Eu venho de uma família de classe média baixa que não era muito ligada em arte. Então, a Escola de Bailado abriu a minha cabeça.

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Eu comecei a sonhar em ser bailarina clássica e a dançar no Balé Bolshoi. Mas, aos 13 anos, eu sofri um acidente de kart e quebrei vários ossos do corpo. Triturei o tornozelo, quebrei o braço, fraturei o fêmur em dois lugares. Quando a gente é jovem, a gente não tem noção do perigo. O lado bom disso é que você só foca no seu objetivo, sem se deixar paralisar pelo medo. E eu lembro que, no hospital, o meu objetivo era dançar no espetáculo de final de ano da escola, e só.

Eu fiquei três meses engessada até o quadril. Depois, tive que reaprender a dobrar o joelho e a andar. Com muito sofrimento, choro, sacrifício, eu consegui me apresentar no final do ano, oito meses depois do acidente. Só não consegui dançar de sapatilha de ponta, porque eu não tinha recuperado muito a força naquela perna.

Mas, eu me lembro que eu convidei os médicos pra sentarem na primeira fila do Teatro, e foi um momento muito emocionante para todos nós. Mas também foi um momento de encarar a realidade. O meu sonho de ser bailarina clássica fora do Brasil não ia se realizar. Então, eu decidi focar nos meus estudos. E pra mim era muito importante isso também, já que eu seria a primeira pessoa da minha família a entrar numa faculdade.

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Bem nessa época pré-vestibular, o meu único irmão, que é um ano e meio mais velho que eu, foi diagnosticado com uma doença neurológica progressiva. Em 20 dias, ele não conseguia mais mexer um lado do corpo. Em um mês, ele não conseguia mais falar. Eu fiquei tão obcecada em me aproximar do meu irmão de alguma maneira, que aí eu decidi estudar comunicação.

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Eu entrei na FAAP, que era uma das faculdades mais caras de São Paulo. O meu pai se ofereceu pra pagar uma parte da mensalidade, mas eu teria que ajudar. Mas como, se eu não tinha experiência em nada? Quem apontou um possível caminho foi um amigo, o Osvaldo.

Ele me falou o seguinte: “Olha, a minha irmã trabalha numa agência de modelos. Ela falou que vem uma gringa fazer um teste pra levar algumas meninas pra trabalhar fora do Brasil. E parece que essas meninas ganham bem, porque elas recebem em dólar”. Aí eu falei: “Mas, eu nunca fui modelo, Oswaldo. Não tenho fotos, eu não tenho um book”. Ele me disse: “Fala que roubaram”. Eu disse: “Mas eu vou mentir?”. E ele me devolveu com uma pergunta que eu me faço até hoje, em várias situações: “Você tem outra opção?”

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Eu fui no teste, não entendia quase nada do que a gringa falava. Mas traduziram pra mim: “Anda pra frente, anda pra trás, dá uma volta, vira”. Essa gringa pediu meu book e eu contei que tinham roubado. Aí ela mandou tirarem umas fotos minhas e me dispensaram naquele dia. Depois de 10 dias, me ligaram da agência dizendo que eu tinha sido uma das 5 modelos do mundo escolhidas pra aquela temporada.

Eu fiquei muito feliz e aí que eu soube que essa agência de modelos era a Ford, uma das melhores do mundo. Aí me contaram logo em seguida que eu ia pro Japão. Eu entrei no avião sozinha, apavorada aos 17 anos. Eu me lembro que durante o voo eu pensava assim: “Por que meus pais me deixaram ir?” Lá no fundo, parece que eu não queria que eles tivessem deixado, porque aí eu não teria que ser responsável pela minha escolha.

Lá no Japão, eu conheci uma realidade muito diferente da minha. Eu ouvi histórias que eu não gostaria de ter ouvido, histórias de sexo, de drogas das outras modelos. Eu aprendi a me proteger, aprendi a me virar e segui firme ali no meu objetivo de ganhar dinheiro pra pagar minha faculdade.

Então eu trabalhava lá por três meses, que era a duração do visto, e voltava para o Brasil fazia um semestre de faculdade. Daí eu trancava o curso e viajava de novo. Fui pra Alemanha, pra Espanha, pra Nova York e pra outros países. Eu comecei depois a trabalhar muito também no Brasil. No total, eu fiz 120 capas de revista e peguei uma aversão por balança até hoje.

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Quando eu acabei a faculdade, eu não quis mais ser modelo. E as pessoas não entendiam muito minha decisão. Por que eu estava abrindo mão de uma carreira de sucesso, com muitos anos pela frente? É que, pra mim é muito claro, quando alguma coisa não faz mais sentido, eu paro de fazer. É claro que tem um sofrimento envolvido numa decisão dessas. Mas eu preciso me sentir feliz com aquilo que eu faço. Fora isso meu objetivo era cursar a faculdade de Comunicação. E eu tinha conseguido.

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Na minha terceira reinvenção da vida, eu fui trabalhar como publicitária na agência W/Brasil. Quem entrevistava os candidatos paras vagas era o próprio Washington Olivetto, dono da agência. E eu me lembro que ele me perguntou: “Por que você quer trabalhar aqui?” Eu respondi: “Ah, porque tudo que vocês fazem é a minha cara. Eu acho que eu vou poder contribuir muito com a agência”.

E aí o Washington falo: “Nossa! Você é muito cara de pau. Porque, se você acabou de sair duma faculdade, você não sabe nada! Mas eu vou te contratar pela sua autenticidade e autoconfiança.” E lá fui eu. Fiz um estágio na direção de arte e fiquei trabalhando lá por dois anos. E apesar de todo o aprendizado, eu tive que reconhecer em algum momento que eu não seria um grande talento ali, eu não teria potencial pra me destacar na agência.

Eu queria me comunicar sim, mas, de outra maneira, por outro caminho, mas não sabia como. Alguns dias depois, na própria agência eu conheci o Roberto Talma, amigo do Washington Olivetto e diretor de TV, que disse que eu era muito comunicativa e perguntou se eu queria fazer um teste para apresentar um programa na TV Bandeirantes chamado Memória Band. Fiz o teste e passei.

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Era tudo muito novo pra mim, mas eu estava amando fazer aquilo! Paralelamente, eu prestei vestibular para jornalismo porque eu gostava da prestação de serviços, de contar histórias, de escrever e também de estudar. A essa altura, eu tinha me casado, me separado e tinha um filho pequeno, de um ano e meio. Muita gente foi contra a minha decisão de fazer outra faculdade.

É impressionante, né, a quantidade de pessoas que falam que não vai dar certo quando você ousa fazer uma coisa que elas não tiveram coragem de fazer. No primeiro mês da faculdade, eu fui a um cabeleireiro e encontrei a Sandrinha Annenberg, que eu conhecia dos testes de modelo. Eu contei que eu estava estudando jornalismo e ela me disse que sabia que iam fazer um teste para o jornalismo na TV Globo, mas que as pessoas precisavam estar cursando ou ter a faculdade de jornalismo.

Eu tinha acabado de entrar na faculdade! Eu estava no timming certo! Eu passei no teste e fui contratada pela emissora. Fiquei muito feliz! E eu acho que, quando a gente ouve nosso coração e mira no que faz sentido pra gente, as coisas fluem. Eu fiquei mais de 11 anos na TV Globo. Comecei apresentando a previsão do tempo, depois fui repórter e apresentadora de vários telejornais. Eu saí de lá quando eu recebi uma proposta irrecusável pra mim na época da TV Record para ser apresentadora do Domingo Espetacular, que era o principal concorrente do Fantástico, onde eu fiquei mais 5 anos.

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Eu sempre gostei muito de trabalhar. Eu comecei aos 17 anos e nunca parei. O trabalho moldou o meu caráter, me deu disciplina e me ensinou a ter responsabilidade. Me proporcionou conhecer pessoas, aprender línguas e culturas diferentes que eu jamais teria tido essa oportunidade.

Mas eu percebi que, num certo ponto, eu estava trabalhando no piloto automático. Eu não ficava mais nervosa, nem ansiosa pra apresentar um programa de 4 horas ao vivo, por exemplo. Eu apresentava com a técnica que havia aprendido, mas eu não sentia mais aquele frio na barriga. E eu comecei a me questionar: será que isso ainda fazendo sentido para mim?

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Mesmo sabendo que tinha algo errado, eu fui empurrando aquele desconforto pra debaixo do tapete. Eu tinha um super salário, estava numa posição de destaque, era reconhecida nacionalmente pelo que eu fazia. Então, eu falava pra mim mesma: “Fabiana, nem pensa em fazer nada diferente porque tá tudo certo. Quantas pessoas não gostariam de tá aqui no seu lugar? E eu me sentia muito culpada só de pensar naquilo!” Eu dizia: “Calma, Fabiana, amanhã você vai acordar melhor.”

Só que aquela sensação estranha não passava. Até que um dia eu senti uma dor aguda no estômago e fui levada de ambulância pro hospital. Fizeram muitos exames e o meu médico me perguntou: “Fabiana, o que que tá acontecendo, hein?”. E na hora eu respondi: “Eu que te pergunto o que tá acontecendo. Eu senti uma dor horrorosa e quase desmaiei”. Ele falou: “Bom, você tá com uma úlcera aberta no estômago. E é muito sério você não ter sentido nada até hoje”. 

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Naquele momento, eu tive um ataque de choro porque eu percebi que corpo, mente e espírito estavam cada um pra um lado. E eu precisava juntar todos novamente. Eu acho que o meu desequilíbrio emocional se manifestou numa doença física. Eu acredito, realmente, nesses fenômenos psicossomáticos. E aí não dava mais pra eu me enganar ou fingir que nada estava acontecendo.

Então, eu decidi que, quando o meu contrato terminasse, e faltava um ano e meio praquilo acontecer, eu não o renovaria. Eu fiquei quase 20 anos na televisão. E foi uma trajetória linda demais! Onde eu pude aprender muito e me tornar uma das melhores no que eu fazia. Mas eu acho que os humanos têm ciclos, assim como a natureza. A gente gosta, né, de acreditar em estabilidade e permanência, só que a vida não é assim.

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Uma noite indo pra praia com meu marido, peguei um caderno e uma caneta e comecei a rabiscar mais ou menos como seria a estrutura de um livro, que depois veio a se chamar Mulheres, Muito Além do Salto Alto. Mal sabia eu que, daquele rascunho, sairiam muitas possibilidades profissionais que se concretizariam depois. Eu estava com novos desafios e isso me encheu de energia! A minha úlcera cicatrizou e os meus olhos voltaram a brilhar.

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Eu me reinventei! Eu comecei a fazer palestras pra mulheres e a criar um trabalho mais autoral, diferente de quando você apresenta telejornais onde você tem que falar o que a emissora quer que você fale. Através do livro, que eu escrevi, eu comecei a ajudar mulheres maduras que também queriam fazer transição de carreira. Nesse meio tempo, eu virei colunista da revista Forbes onde escrevo sobre comportamento feminino e comunicação.

Eu sempre tive muito interesse no comportamento humano. Eu fazia muitas matérias de comportamento na TV, para o Fantástico. As pessoas falavam que eu era uma psicóloga de botequim, por eu ser uma boa ouvinte. Os meus amigos psiquiatras falavam: “faz uma faculdade de Psicologia, Fabiana”.

Eu achava que ia perder muito tempo fazendo uma faculdade que levaria mais 5 anos pra terminar. Então, eu resolvi fazer uma pós-graduação em Psicologia Positiva na PUC, que levaria só dois anos. Mas, quando eu acabei, eu achei que não era suficiente estudar só a felicidade. Porque a gente tem um lado sombra muito importante. E eu precisava aprender também sobre esse nosso lado. Eu sou uma dessas pessoas adeptas do lifelong learning, do aprendizado contínuo. Estudar alimenta a minha alma. 

Durante a pandemia, eu prestei vestibular e entrei sim no curso de psicologia. No meu aniversário de 59 anos, eu postei um vídeo que tem mais de 3 milhões de visualizações e mais de 12 mil comentários. Nesse post eu conto sobre uma pergunta que uma jornalista me fez uma vez. Ela me falou, o seguinte: “Você já foi bailarina clássica, modelo, apresentadora de TV e agora tá fazendo a quarta faculdade. Isso quer dizer que você não sabe o que você quer?”.

E eu respondi: “Não, muito pelo contrário, é porque eu sei o que eu quero. Mas eu quero muitas coisas. Eu tenho muitos interesses. E não é um número na minha idade nem ninguém que vão me impedir de realizar todos os meus sonhos. Se Deus quiser. Eu levei muitos anos pra me sentir confiante e livre pra fazer o que eu quiser.” 

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A autoconfiança é algo que se aprende na prática. Quando eu fui pro Japão aos 17 anos, chorando, ali eu estava ganhando autoconfiança. Quando eu voltei a estudar, divorciada e com um filho pequeno, eu estava construindo a convicção de que eu sou capaz. Quando eu me reinventei depois da televisão, eu estava reafirmando que eu acredito sim em mim mesma.

Existe um estigma de que as pessoas fazem transição de carreira porque elas não sabem o que querem. Ou porque não elas tiveram sucesso com as escolhas que fizeram. E isso não é verdade.  Eu acho que o meu post viralizou, inclusive, porque as pessoas se sentiram validadas pela minha fala, ainda mais com 59 anos. É como se elas dissessem: “Nossa, mas eu também posso?” É óbvio que você pode. Volte a estudar, se isso vai te fazer bem. Vai ler, fazer um curso. Não precisa ser uma faculdade longa como eu fiz, mas vai fazer o que te faz feliz.

A gente fica muito presa à idade. Quanto mais a gente racionaliza um número, mais a gente desanima. E eu não pensei nisso, só vou fazendo o que me deixa bem e feliz. Hoje tenho mais projetos do que quando eu tinha 18 anos.  Dou mentorias de comunicação e de transição de carreira ara mulheres, tenho uma startup de liderança feminina, sou colunista da Forbes e agora, com o fim da faculdade de Psicologia, eu vou poder ajudar ainda mais as mulheres a terem a vida que elas querem e merecem ter. 

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Geyze Diniz: Nossas histórias não acabam por aqui. Confira mais dos nossos conteúdos em plenae.com e em nosso perfil no Instagram @portalplenae.

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Superstições esportivas: o misticismo entra em campo

As tradicionais crenças populares invadem também o meio esportivo. Conheça as “fézinhas” mais famosas dos jogadores e também dos torcedores!

1 de Dezembro de 2022


Nada mais brasileiro do que a cultura das “fézinhas”: uma superstição no dia a dia não faz mal a ninguém, afinal, e fortalece a confiança naquilo que não se vê. Existem as mais populares, como desvirar o chinelo pela saúde da mãe, bater três vezes na madeira para evitar notícia ruim, entrar com o pé direito em um evento importante ou evitar passar por debaixo das escadas. 

Existem as mais complexas, conhecidas como simpatias, muito popular entre as avós e que perderam um pouco de força na modernidade, mas que não morreram e não deixam de ser superstições. Dar água na concha para criança que demora a falar, por exemplo, é um clássico da infância. 

"Superstições são tão antigas quanto as religiões. No começo, as superstições foram identificadas como ‘religiões ruins’. A palavra vem do latim superstitio e significa originalmente algo como ‘ter muito medo dos deuses’, ainda na época do Império Romano. Alguém que rezava muito, tomava muito banho, era excessivamente temeroso em relação aos deuses… Isso era superstitio. Mas, com o passar do tempo, esse conceito mudou para classificar outras religiões como ruins”, conta  o psicólogo americano Stuart Vyse. Ex-professor da Universidade de Rhode Island, nos Estados Unidos, à revista Saúde. 

A superstição só migrou da “religião ruim” para a “ciência ruim”, como é conhecida até hoje, durante o Iluminismo. Tudo que era uma crença pautada em algo irracional era assim classificada. Vale dizer que, apesar de ser um movimento global, como por exemplo a astrologia, cada região possui as suas próprias crenças, como o mau olhado na América do Sul, ou a crença em cores e números, mais forte na Ásia. 

Mas qual é o papel da superstição no nosso cérebro? Há um conceito na psicologia chamado “ilusão do controle”, que te contamos melhor nesse artigo. “Quando você joga dados ou faz coisas que são completamente aleatórias, a superstição dá a noção estar realizando algo a mais para conseguir alcançar aquilo que é desejado”, diz Stuart. Ou seja, é uma espécie de efeito placebo cerebral, que te dá mais confiança, ainda que seja subjetivo.

Superstição dos torcedores

Mas se há um evento que reúne as maiores crendices populares, esse evento é o futebol. Seja para seu time do coração ou para a seleção, todo torcedor fanático tem um ritual para fortalecer seu time, ainda que sejam só coincidências. Em quase todas as entrevistas feitas para esse artigo, a crença de que gritar gol antes traz má sorte foi a vencedora. Em segundo lugar, entrar sempre com o pé direito em caso de ir assistir ao jogo no estádio. E, por fim, a importância que se dá à camisa usada no dia do jogo.

“Tem uma camisa do Fortaleza que eu só uso pra passear. Se eu usar em dia de jogo, o Laion perde”, conta Humberto Mota, torcedor do Fortaleza. “Não estrear blusa em jogo importante. Se está valendo vaga/título, nunca usar uma blusa nova e sem história”, complementa sua amiga de time, XX.

Essa não é uma especificidade somente dos torcedores do Fortaleza. A corintiana Carolina Marconi revelou sentir o mesmo. “A superstição básica é fazer exatamente tudo igual ao que fez no dia do primeiro jogo que o Brasil ou o time ganhou, incluindo usar a mesma roupa até o fim do campeonato/copa”, conta. 

O são paulino Rafael Teixeira diz que acorda já com a camiseta da sua “seleção”. “Eu sempre visto a camisa do SPFC no dia, mesmo antes do jogo, e fico com ela o dia inteiro. Não importa qual camiseta, só precisa ser do São Paulo”. Isso se aplica aos torcedores da Seleção Brasileira, porque o torcedor Vinicius Buono complementa: “Eu assisto todos os jogos da copa no mesmo lugar com a mesma roupa (que não lavo entre um jogo e outro)”. Ele também faz “figas” com os dedos para afastar a sorte do adversário em caso de um passe de sucesso, movimento que ele diz ter aprendido com seu pai. 

O palmeirense Marcelo Favilla vai além. Mais do que usar a mesma camisa em todos os jogos ao longo do campeonato para “acumular a sorte”, como ele mesmo define, ele ainda possui mais duas crenças muito fortes. A primeira delas é a mais importante: em dia de jogo do “porco”, deve-se comer porco antes do jogo, seja lá qual for a opção. 

“Em dia de jogo do Palmeiras, eu tenho que comer carne de porco, independente do horário e de qual opção, nem que seja um bacon no almoço, uma linguiça de noite, pernil antes de entrar no jogo ou se eu assistir em casa um salame, é tradição aqui de todos nós”, conta. 

A posição demarcada para assistir o jogo, superstição comentada em alguma das falas anteriores, marca presença para Marcelo também. “Se a gente está vendo o jogo em casa e estamos meu pai, eu e meu irmão sentados em determinado lugar, e aí sai um gol, então não podemos mais mudar de posição depois do segundo tempo, temos que ficar sentados exatamente daquela forma e a gente meio que mantém isso até o final do campeonato”, diz. Matheus Sertório, igualmente palmeirense, traz a religião para sua superstição. “Faço o sinal da cruz três vezes antes e durante o jogo, sem falta”, conta. Ele também, é claro, não abre mão de usar a mesma camisa em todos os jogos, como de praxe.

E falando em palmeirense, o seu rival histórico, os corintianos, também têm suas próprias fézinhas. Lucas Baranyi conta que, sempre quando o juiz apita, é preciso gritar “Vai Corinthians''. Já Lourdes Scarano, aos 90 anos, não abre mão de assistir ao jogo na TV, mas com o radinho ligado. “Ele é antigo e me dá sorte”, conta. “Quando o Corinthians disputou o mundial em dezembro, eu tirei a árvore de natal da sala porque era verde”, complementa Victor Basilio, revivendo a velha disputa de cores entre os times.   

Ex-corintiano e atual fã de carteirinha dos jogos da copa, Victor Cianci diz ficar tão tenso antes dos jogos, que há uma verdadeira preparação - também considerada uma superstição, já que se repete todos os jogos. “15 minutos antes do jogo eu me isolo de todos e fico ouvindo alguma música bem ‘seleção’, para entrar no clima e colocar a cabeça no jogo”. 

Misticismo profissional

Além dos torcedores, os próprios jogadores têm suas crenças também. Isso pode atuar diretamente na ilusão de controle, ou seja, se esse jogador entrar em campo após ter feito o seu ritual, ele se sentirá mais confiante, uma espécie de efeito placebo. Segundo artigo, o atacante Neymar sempre fala com seu pai e faz uma oração em conjunto antes de cada partida. Além disso, ele coloca o nome do filho e o número da sua camisa (dez) nas caneleiras e entra em campo sempre com o pé direito, toca o gramado com as mãos e faz o sinal da cruz. Como dissemos, a religião é um dos pilares de muitas das superstições. O capitão da seleção brasileira, Thiago Silva, também faz o sinal da cruz três vezes quando entra em time, além de se ajoelhar em frente à sua camisa e rezar.

O português mundialmente conhecido e idolatrado, Cristiano Ronaldo, pede para ser o primeiro a entrar em campo. Há boatos que dizem que ele não gosta de jogar sem antes cortar o cabelo. O zagueiro francês Laurent Blanc, que estava lá no 3x0 contra o Brasil na final da copa de 1998, beijava a careca do goleiro do time, Fabien Barthez antes de a bola começar a rolar. 

E ainda falando de jogadores pelo mundo, o zagueiro inglês John Terry conta que, quando jogava no Chelsea, se sentava sempre no mesmo lugar do ônibus do clube, escutava o mesmo disco e estacionava o carro no mesmo lugar no estacionamento do estádio Stamford Bridge. Ele não é o primeiro britânico supersticioso, já que o meio-campista Jack Grealish prefere estar com as canelas desprotegidas do que usar a meia e a caneleira na altura normal. Isso porque, em um ano onde a meia encolheu depois de lavar, ele entrou assim em campo e sentiu que teve sorte, como conta em entrevista. 

Há crenças que são partilhadas de forma coletiva. Como é o caso da equipe que nos trouxe o pentacampeonato em 2002. Denilson contou, em entrevista, que era preciso sempre tocar pagode no ônibus, a mesma playlist, a caminho do jogo. Inclusive, em uma das partidas, eles esqueceram de uma das músicas e voltaram rapidamente ao ônibus só para cantar o refrão. Superstição da forte!

Se você pensa que é só entre os jogadores, está enganado. Técnicos também acreditam no que parece "bizarrice" para muitos. Como é o caso do ex-técnico do time do Botafogo, Cuca, que acreditava que o ônibus que levava os jogadores para a partida não podia jamais dar ré. Luiz Felipe Scolari, o “Felipão”, usava sempre o mesmo agasalho em todos os jogos - mas resta saber se a crença se mantém depois do fatídico e inesquecível 7x1.

Um dos técnicos mais famosos por sua superstição é o Zagallo, “pai” de quatro dos nossos cinco títulos. Aficionado pelo número 13, ele chegava até mesmo a anotar em um bloco frases com 13 letras que mostrassem seu otimismo. O mais curioso é que, apesar de usar o número em tudo, há muitas pessoas que temem essa mesma combinação, tanto que, em alguns países, alguns hotéis e prédios não têm o 13º andar, nem o número 13 em assentos de teatro e plataformas de trem. Existe até a fobia do número 13, que recebe o nome de Triskaidekaphobia. 

Até mesmo a família dos jogadores entra na onda das crenças. Mãe do goleiro Cássio, titular do Corinthians, conta que, no dia que o time conquistou um de seus títulos mais importantes - o da Libertadores -, a família se manteve sentada nas mesmas posições de sempre, como já era de costume, mas ela foi além e jejuou o dia inteiro, uma espécie de “promessa” em troca do título. 

A verdade é que superstição e futebol são assuntos tão individuais e que mexem tanto com os sentimentos de uma pessoa, que é impossível questionar. Nos resta aceitar, respeitar e, porque não, se divertir com as histórias que contam por aí. Se todas as crenças juntas forem capazes de nos trazer o título do hexacampeonato, que vença a melhor!

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