Para Inspirar

Experiência de quase morte: o que já se sabe sobre o assunto

Um dos momentos mais intrigantes para a ciência até então é justamente o fim da vida. Mas, pessoas que quase morreram podem trazer algumas pistas.

1 de Agosto de 2023


Para morrer, basta estar vivo. Apesar de convivermos com essa certeza de que um dia faremos a nossa passagem, quase ninguém está de fato pronto para ela. E o que torna esse momento tão difícil é justamente a incerteza do que de fato acontece ao pararmos de respirar para sempre. 

Mais do que somente imaginar o que há do lado de lá - e aqui, vale reforçar que cada um tem a sua crença, mas é impossível saber de fato -, nos apavora a ideia de efetivamente morrer fisicamente. O que acontece com o nosso corpo? Quais são as sensações? E a nossa mente então, para onde ela vai? 

A ciência busca a resposta dessa e de outras perguntas há muitos e muitos anos. E pessoas que viveram a experiência de quase morte podem trazer algumas pistas! Veja a seguir o que já sabemos sobre o assunto. 

Experiência (in)esquecível 

Mas então, afinal, o que é que a pessoa sente? Primeiro, é importante dizer que depende muito do que levou a pessoa a estar naquela situação. Se for o caso de um acidente que envolveu um trauma craniano, por exemplo, a morte cerebral pode chegar antes da morte física, tornando muito difícil medir qualquer manifestação do cérebro.

Há pessoas, porém, que vivenciam uma experiência de quase morte com o uso de psicodélicos, por exemplo. Um estudo conduzido pela Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins, feita com 3.192 pessoas, convidou desde participantes de grupos que se reúnem para dividir suas experiências a respeito, até mesmo usuários de drogas psicodélicas. 

Esses participantes foram divididos em dois grupos: de um lado, aqueles que experimentaram a quase morte sem uso de qualquer substância química (933 entrevistados) e, do outro, pessoas que tiveram experiências psicodélicas (2.259 analisados) — inclusive quase morte — com uso de drogas.

A conclusão foi poética: grande parte dos entrevistados - 90%, para sermos mais exatos - tiveram uma espécie de revelação sobre o sentido e o propósito de viver. Eles ainda relataram terem diminuído o medo da morte e aumentado a sensação de bem-estar pessoal. O resultado foi bem parecido nos dois grupos: 88% sentiu isso sem usar drogas e 89% usando as substâncias psicoativas. 

Há ainda mais descobertas nesse mesmo relatório final: 

  • Cerca de 56% do grupo que utilizou as drogas afirma ter encontrado “algo ou alguém que poderia chamar de Deus”, versus 48% do grupo sem drogas. 

  • No grupo que não usou os psicodélicos, a incidência de ter tido contato com pessoas que morreram foi maior. 

  • Os dois grupos demonstraram em peso terem descoberto um significado pessoal, espiritual ou “perspicácia psicológica” após a experiência. 

Apesar dos resultados finais positivos, uma outra pesquisa - essa, realizada na Universidade de Liege, Bélgica - trouxe uma outra opinião. Os pesquisadores monitoraram 19 pessoas após terem tido uma experiência de quase morte em uma unidade de terapia intensiva por 12 meses depois do ocorrido e concluíram que, com o passar do tempo, o cérebro dessa pessoa volta ao normal. 

No primeiro monitoramento, de três a sete dias após a alta do hospital, esses pacientes costumavam experimentar sintomas dissociativos, como esquecer quem eram ou sentir-se desconectado de si mesmo e até de suas dores. Mas, por outro lado, também relataram maior bem-estar espiritual e pessoal.

Um ano depois, porém, esses mesmos pacientes foram novamente contatados, a fim de medir sua qualidade de vida após essa experiência que, ao que tudo indica, parece trazer um novo sentido para vida. E o que eles descobriram foi que não houve associação significativa entre o que passaram e sua qualidade de vida, apesar de essas experiências serem “normalmente relatadas como transformadoras”, como eles escreveram. 

O cérebro em sua última valsa

Um estudo chamado PNAS, (“Proceedings of the National Academy of Sciences”, revista científica multidisciplinar dos EUA), conseguiu um feito muito difícil, para não dizer inédito: analisar o cérebro de uma pessoa que está vivenciando a experiência de quase morte. 

Medir a atividade cerebral em humanos imediatamente antes e depois da morte pode ajudar os especialistas a explicar alguns fenômenos que tantas pessoas relatam, como a sensação do corpo flutuar acima de si mesmo ou ver memórias de toda a sua vida passando rapidamente diante de seus olhos.

Foram quatro pacientes analisados, todos estavam em coma e, com a autorização de suas famílias, eles foram removidos dos aparelhos de suporte de vida. Foi nesse momento que sensores de eletroencefalograma começaram a medir então essa atividade cerebral que se dava enquanto eles entravam em parada cardíaca.

Metade deles, ou seja, dois, apresentaram um aumento de ondas gama – que é a atividade cerebral associada a sonhos lúcidos e alucinações – mesmo depois que seus corações pararam. “A descoberta das atividades gama marcadas e organizadas no cérebro moribundo sugere que [uma experiência de quase morte] é o produto do cérebro terminal, que é ativado na morte”, disse o principal autor do estudo, Jimo Borjigin, à revista Vice.

“No que me diz respeito, nosso estudo pode ser a melhor opção possível para encontrar assinaturas neurais de consciência de quase morte. A única coisa melhor do que isso é fazer com que os pacientes sobrevivam para contar a história que se correlaciona com as assinaturas neurais detectadas”, conclui ele. 

Um outro estudo, esse feito por cientistas da NYU Grossman School of Medicine, entrevistou 567 homens e mulheres de diferentes países que tiveram experiências lúcidas quando deveriam, supostamente, estarem inconscientes. A conclusão foi bem próxima: picos de atividade das ondas gamma, delta, theta, alpha e beta foram percebidos. 

Todas essas ondas estão associadas a momentos de grande demanda, como explica a revista Veja. É como se aquelas pessoas estivessem fazendo um esforço para pensar ou resgatar algo da memória. Esses indivíduos ainda relataram sentir uma separação do corpo físico, uma ausência absoluta de dor durante os episódios lúcidos - que não foram frutos da sua imaginação -, e que, posteriormente, passaram a reavaliar sua própria vida. 

Ou seja, tudo que trouxemos ao longo desse artigo foi chancelado por esse último estudo. Essa pesquisa se concentrou em pacientes que sofreram de parada cardíaca pois, do ponto de vista clínico, é o mais próximo que se chega à morte. Um a cada cinco pacientes relataram sentir tudo isso, mas a boa notícia é que todos também relataram terem gostado do que viram. 

Por isso mesmo, tantas pessoas ao longo da história tentaram deslegitimar essas experiências, colocando na conta de efeitos das medicações. Mas, com o avanço da medicina, muitas pessoas conseguiram sobreviver a essas experiências e os relatos não param de chegar e somar. 

“À medida que o cérebro se desliga durante os eventos de reanimação, vários de seus freios naturais são liberados”, afirmou o médico britânico Sam Parnia, líder do estudo. “O processo, conhecido como desinibição, permite o acesso às profundezas da consciência e das memórias guardadas pelas pessoas.” É a certeza de que o nosso cérebro, em seu último momento, continua a perpetuar o instinto de nos proteger, nos inibindo da dor e trazendo à tona sentimentos e memórias boas. 

O mistério continua a intrigar, mas já não estamos mais tão no escuro. Prova disso é que até mesmo peças audiovisuais já se dedicam ao tema. Um documentário produzido pela gigante Netflix, chamado “Vida após a morte”, conta histórias muito semelhantes às que trouxemos aqui. Só nos resta continuar acompanhando esses estudos e aguardando com otimismo e esperança esse momento complexo que chegará para todos nós.

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Desmistificando conceitos: o que é resiliência e plasticidade?

Amplamente usado nos dias de hoje, o conceito físico e literal de resiliência é pouco conhecido – assim como o de plasticidade. Entenda mais sobre o assunto

25 de Novembro de 2020


A nossa primeira convidada da terceira temporada do Podcast Plenae - Histórias Para Refletir foi a jornalista Veruska Boechat , viúva do jornalista Ricardo Boechat. A “doce Veruska” como era apelidada pelo mesmo e conhecida pelo Brasil, viu seu mundo ruir em fevereiro de 2019, com o acidente súbito que custou a vida de seu marido, companheiro, melhor amigo e pai de suas duas filhas.

Mais do que contar o antes, durante e depois desse acontecimento, Veruska fala principalmente do seu interior e da jornada de força e autoconhecimento que desenvolveu ao enfrentar esse luto tão intenso e pessoal sem deixar os outros aspectos de vida desandarem também.

Outras histórias de superação também já passaram por aqui. Um exemplo disso é o quinto episódio da segunda temporada do Podcast Plenae - Histórias Para Refletir, que trouxe a narrativa de Rodrigo Hübner Mende s e a forma como ele encontrou de conviver e aprender novamente a reconhecer seu próprio corpo.

E o que ambos - assim como outros - têm em comum, apesar de terem sido acometidos por males diferentes? A resiliência e a plasticidade.

A resiliência

Em uma palestra em Davos ministrada por Rodrigo Hübner, ambos os termos foram citados, como em várias outras situações de sua vida. “Como você sabe, resiliência é um conceito da física que diz que, na natureza, alguns materiais têm a capacidade de retornar ao seu estado original após sofrerem uma deformação ou um impacto” explica ele.

O conceito, conhecido como “bouncing back” pelos americanos, explicaria o movimento de uma bola de borracha, por exemplo, que, quando arremessada contra uma parede, ela é capaz de se deformar e recuperar sua forma rapidamente.

“Quando subi no palco, o entrevistador me perguntou: Rodrigo, sabendo que a história da humanidade é marcada por crises cíclicas, você acha que é possível aplicar o conceito de resiliência para superação dessas crises?” conta ele. Sua resposta, entretanto, foi surpreendente.

“Eu pessoalmente acredito que, diante de uma mudança imposta, a tendência humana é querer voltar à situação anterior. Senti isso na pele logo depois do meu acidente. Passei 3 anos fazendo 8 horas por dia de fisioterapia para voltar a ser quem eu era. Ou seja, um jovem fisicamente independente” diz.

Mas será que isso é possível, ou melhor, será que isso é saudável? Rodrigo também responde essa. “Hoje eu percebo que a resiliência é uma capacidade fundamental para nossa essência e propósito de vida. Quer dizer, seja qual for o impacto, a ruptura que surgir na nossa frente, a gente precisa ser capaz de preservar, de proteger nosso objetivo maior”.

Se para garantir a nossa essência, a resiliência é o caminho fundamental para isso, por que ainda é tão difícil fazer isso de forma prática? “Quando a gente pensa na nossa ação, eu prefiro usar um conceito que é o oposto da resiliência: a plasticidade”.


A plasticidade

Plasticidade, ainda bebendo de fontes científicas, “é a capacidade de um material se moldar, se transformar, se desprender da forma anterior” diz ele. “Resumindo, eu propus que as lideranças lá presentes buscassem combinar resiliência do propósito com plasticidade da ação . Que deixassem para trás o ‘bouncing back’ e começassem a pensar em ‘bouncing forward’”.

E o que isso significa afinal? Tomando a explicação do empreendedor social e ativista da inclusão social, é preciso que tenhamos resiliência para garantir que, independente do que nos aconteça, nossa essência jamais seria deformada, ou seja, voltaria à sua forma normal.

Mas, para lidar com as novas situações da vida, é preciso ter plasticidade, ou seja, esse poder de se adaptar e se moldar ao que for de forma orgânica, mesmo após seremos submetidos à uma intensa pressão.

Assim como resiliência, conceito amplamente divulgado e conhecido hoje em dia, a plasticidade também vem ganhando notoriedade. A neuroplasticidade, que é a capacidade do cérebro de desenvolver novas conexões entre os neurônios a partir do comportamento e do estímulo do indivíduo, vem sendo cada vez mais estudada por especialistas - sobretudo no campo da educação e da senescência.

E você, acredita ser capaz de manter uma postura de resiliência e plasticidade ao mesmo tempo? Não se esqueça de que as adversidades da vida sempre irão existir, mas cabe a você decidir como lidará com elas.

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