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Desmistificando conceitos: o que são os cuidados paliativos?

Essa linha de cuidado que reúne um conjunto de práticas que vão ter como objetivo fornecer qualidade de vida para os pacientes que mais precisam. Entenda mais!

24 de Novembro de 2023


No segundoepisódio da décima quarta temporada do Podcast Plenae, embarcamos no propósito de Fernando Korkes: usar os seus conhecimentos médicos para ajudar quem mais precisa no Sistema Único de Saúde. Isso, por si só, já seria incrível. Mas a proposta de Fernando é ainda mais específica: trazer essa ajuda de uma forma que faça sentido para o paciente, levando em consideração suas chances de cura e garantindo a dignidade e a qualidade de vida.

Esse olhar não foi adquirido por ele ao longo da formação. Korkes, assim como tantos outros profissionais da saúde, estudou a medicina tradicional, que abre pouco diálogo para o subjetivo e para o sentimental. Essa jornada teve início dentro dele a partir de uma situação específica em sua vida: o câncer que levou sua mãe. Ao longo do tratamento, Fernando viu de perto que tratar um indivíduo não significa tratar somente a sua doença. E que, na verdade, há tantas frentes para se olhar que muitas vezes a doença fica em segundo plano.

Ele viu de perto uma área que ainda caminha a passos curtos no Brasil, mas que promete avançar cada vez mais com firmeza e gentileza que deve ser: os cuidados paliativos. Hoje, falaremos desse termo e desse tipo de atenção que deveria ser regra e matéria obrigatória na graduação, mas que infelizmente ainda é cercado de tabus muito maiores e mais complexos.

A atenção final: os cuidados paliativos

Descrita pelos ingleses pela primeira vez nas décadas de 1950 e 1960, a intenção de uma morte digna, próximo de pessoas queridas e menos sofrida se tornou uma preocupação legítima e que se estendeu aos Estados Unidos da América e outros países da Europa, segundo este artigo científico.

Foi em 1947 que Cicely Saunders, personagem importantíssima para a jornada dos cuidados paliativos,
segundo Academia Nacional de CuidadosPaliativos - conheceu e acompanhou até a morte um paciente de 40 anos chamado David Tasma, vítima de um carcinoma retal inoperável.

A partir dessa experiência, a enfermeira, assistente social e médica dedicou sua vida ao sofrimento humano e em 1967, fundou o St. Christopher´s Hospice, o primeiro serviço – e até hoje o mais reconhecido - a oferecer cuidado integral ao paciente, dos sintomas e alívio da dor ao sofrimento psicológico.
  

Isso resultou na criação do modelo de cuidados integrais e mais humanizados, especificamente para pessoas com “doenças avançadas, progressivas e crônicas, sem possibilidade de tratamento modificador da doença”. Essa foi o primeiro passo para a construção de uma área que ganharia força nos anos seguintes, mas ainda não a força suficiente.

“O cuidado paliativo é uma linha de cuidado que reúne um conjunto de práticas que vão ter como objetivo fornecer qualidade de vida para os pacientes e familiares no contexto de uma doença grave e ameaçadora de vida. Esse cuidado vai ser feito principalmente através do alívio de sintomas, dor e sofrimento, oferecendo suporte e técnicas que buscarão ajudar o paciente a viver de uma forma mais ativa e funcional possível, até a finitude.”, explica Ana Carolina Stamm Fávero, psicóloga, especialista em Psicologia Hospitalar e Cuidados Paliativos.

Na jornada desse cuidado, respeitar os valores e histórico de vida daquele paciente é fundamental, pois trata-se de um cuidado que irá olhar para além da parte física. Isso não quer dizer que não seja importante o manejo das comorbidades e desconfortos físicos, é claro, mas nessa dinâmica, é preciso se manter sensível a questões emocionais, sociais e espirituais, como explica Ana.

“Estamos falando de um tratamento biopsicossocial e espiritual. Então é cuidar do paciente e seu entorno como centro do cuidado, trazendo assistência focada genuinamente no sujeito e não na doença em si”, diz. É isso que torna essa linha de cuidado tão importante: o olhar para o paciente de uma forma holística, com o objetivo de fornecer um cuidado pautado no bem-estar integral desde o diagnóstico de uma doença ameaçadora de vida, perdurando pelo acompanhamento e evolução dessa doença até o seu possível fim.

“Eu acredito que é por meio dessa abordagem que a gente afirma a vida e reconhecemos a morte como um processo natural. É uma abordagem que vai apoiar também as tomadas de decisões, possibilitando que elas ocorram de uma forma mais coerente a partir de orientações reais de todas as opções de cuidado que temos disponíveis. O alívio do sofrimento é o foco”, afirma.

Os caminhos do cuidado paliativo

No Brasil, a área ainda caminha a passos lentos. Em uma pesquisa divulgada pelaAcademia Nacional de Cuidados Paliativos, observou-se que menos de 10% dos hospitais brasileiros disponibilizam uma equipe de CP (cuidados paliativos). Para efeito de comparação, a cobertura dos EUA é de 75% dos hospitais norte-americanos. O mapeamento ainda evidenciou que mais de 50% dos serviços de CP do país iniciaram suas atividades na década de 2010, ou seja, é uma discussão extremamente recente e ainda elitizada - 50% dos serviços são concentrados na região sudeste e menos de 10% do total na região norte-nordeste.

“A questão do acesso é um ponto que precisa ser melhorado. É preciso expandir esse cuidado para áreas remotas e não falar sobre isso somente em grandes centros de saúde. Precisamos garantir de fato um acesso independentemente da localização geográfica, com mais recursos destinados, mais investimentos nessa área e sem excluir as áreas onde de fato a aplicação desse cuidado vai ser mais difícil, mas que não pode ser esquecida”, pontua Fávero.

Graças a figuras como Ana Claudia Quintana, médica especialista em cuidados paliativos e autora de “A morte é um dia que vale a pena viver”
– te contamos aqui sobre ele – o tema tem ganhado mais atenção. Em recente entrevista, ela abordou justamente essa questão da inacessibilidade de um atendimento tão importante, e revelou que apenas 0,3% dos pacientes que precisam de cuidados paliativos têm acesso e que, por conta disso, tantos pacientes com câncer, por exemplo, não morrem pela doença, mas sim, pela dor.

Ela também participou como uma das entrevistadas para o documentário “Quantos dias. Quantas noites”, projeto apoiado financeiramente pelo Plenae e que te contamos em detalhes por aqui e que gerou ainda essa matéria relacionada completa quefizemos para falar sobre esses anos que ganhamos na era da longevidade. Essa atenção que o assunto tem recebido é importante para trazer luz ao tema, que ainda sofre muitos mitos.

“Acho que o principal gargalo do cuidado paliativo hoje é fornecer orientações reais sobre o que é esse tipo de cuidado e desmistificar algumas coisas que são constantemente faladas a respeito dessa abordagem. Hoje eu vejo muito mais iniciativas e organizações trabalhando em prol dessas discussões, tornando mais real e mais acessível essas informações, então acredito que esteja melhorando”, comenta Ana Carolina.

Para ela, o fato de o assunto precisar ser desmitificado está relacionado a um outro problema bem comum em nosso país: o tabu com a morte. Mais de 73% dos brasileiros não gostam de falar sobre esse tema, segundo pesquisa encomendada pelo Sindicato dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil (Sincep) e realizada pelo Studio Ideias. Isso dificulta várias outras conversas importantes para se ter ainda em vida,
como debatemos neste artigo completo.

“Os cuidados paliativos tornam a questão da morte mais concreta e real, nos coloca frente a frente com sua possibilidade e por mais que a gente tenha a certeza da nossa finitude, a gente tenta afastar de todas as formas essa temática. Se perguntamos para as pessoas como elas acham que vão falecer, a maioria fala que gostariam de falecer de uma forma aguda do coração e em casa, mas é uma baixíssima parcela, quase irrisória, que vai morrer dessa forma. Então a partir do momento que idealizamos essa morte, não nos permitimos discutir como gostaríamos de ser cuidado. Porque se a gente acha que a gente vai morrer dormindo, a gente não precisa pensar sobre a forma que a gente quer ser cuidado”, reflete.

Onde, como e para quem?

Os cuidados paliativos, justamente por focarem em um atendimento mais personalizado e dissociado de protocolos rígidos e unificados, pode ser encontrado em diferentes lugares. Esse cuidado pode ser oferecido de diversas formas, configurações e locais, com técnicas e condutas adaptáveis, em prol de um melhor suporte para aquele paciente e sua família. “É literalmente sobre olhar para o sujeito e abrir mão de protocolos mais estruturados e fechados e ir adaptando as terapias conforme as necessidades dele”, explica Ana.

Eles são possíveis de serem oferecidos tanto em casa, com a assistência domiciliar, possibilitando que os familiares e cuidadores estejam mais próximos e presentes. Em casas de repousos e LPIs, em hospices - clínicas especializadas como a de Cicely Saunders. Atualmente, há setores inteiros e leitos destinados a isso em grandes hospitais e, em algumas regiões, é possível encontrar a abordagem até mesmo na atenção primária, através de programas comunitários.


Ainda, o cuidado paliativo é destinado para qualquer um que esteja enfrentando uma doença ameaçadora de vida, independentemente da fase dessa doença ou da idade do enfermo. Há, por exemplo, centros pediátricos dedicados a área. “Todo mundo deveria ser contemplado por esse atendimento desde o diagnóstico de uma doença ameaçadora de vida, pra já ir ponderando sobre o que de fato será benéfico para aquele indivíduo, sem em nenhuma etapa do cuidado submetê-lo a terapêuticas fúteis, que só vão expor aquele sujeito a um sofrimento sem uma melhora efetiva ou sem possibilidade de reversão daquela condição clínica”, reforça.

Por fim, mas não menos importante, é preciso capacitar alunos de todas as áreas da saúde sobre o tema. “Precisamos treinar profissionais para essa área que é extremamente delicada, que lida com uma etapa de muita fragilidade e demanda profissionais específicos”, pondera a psicóloga.

Para quem está pensando em mergulhar na área, seja como um estudante e futuro profissional ou apenas um curioso e até alguém que irá iniciar a jornada como acompanhante de um paciente paliativo, há alguns caminhos para se aprofundar. Livros, de blogs, por vídeos de organizações confiáveis e especializadas, conversas com especialistas da área e até grupos de apoios: tudo isso será válido e bem-vindo frente a um tema ainda tão mistificado e que, com esse artigo, esperamos ter desmitificado um pouco mais.

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Chitãozinho e Xororó em “Os bastidores do sucesso”

Na terceira temporada do Podcast Plenae - Histórias para Refletir, conheça a trajetória de companheirismo e trabalho de Chitãozinho e Xororó

20 de Dezembro de 2020


Leia a transcrição completa do episódio abaixo:

[trilha sonora]


Chitãozinho: O meu irmão e eu somos muito diferentes. Eu puxei o nosso pai. Sou sonhador, gosto de comunicar. Faço churrasco no final de semana em casa, tomo meus vinhos, gosto muito de ir pra fazenda e curtir a natureza. O meu irmão já puxou a nossa mãe. Ele não sai de casa, é mais retraído e até eu brinco com ele, falo assim: que ele não quer viver, quer durar. Xororó: O Chitão é coração. Muito alegre, extrovertido, gosta de viver a vida em todos os sentidos. Eu já sou contido, penso mais, gosto de tudo certinho. Mas eu acho que essa diferença nos completa e traz o equilíbrio da dupla. No palco, a nossa parceria deu tão certo, que já se vão 50 anos. [trilha sonora] Geyze Diniz: Irmãos, sócios, amigos. Todas essas relações envolvem dedicação. Manter todas elas juntas com a mesma pessoa e alcançar o sucesso envolve muita sabedoria e amor. Hoje vamos mergulhar na emocionante história de uma das duplas mais conhecidas, amadas e longevas do Brasil: Chitãozinho e Xororó. Ouça no final do episódio as reflexões da professora Lúcia Helena Galvão para ajudar você a se conectar com a história e com você mesmo. Eu sou Geyze Diniz e esse é o Podcast Plenae. Ouça e reconecte-se. [trilha sonora] Chitãozinho: Eu sou o filho mais velho de oito irmãos. O Xororó é o segundo, dois anos mais novo que eu. É lá na cidade de Rondon, no norte do Paraná, a gente morava numa serraria, porque o nosso pai era motorista de caminhão e transportava madeira a semana toda. E a nossa casa era uma casa muito pequena, muito humilde, com fogão a lenha, com lamparina, não tinha eletricidade. E rádio a gente só ouvia à noite, no escritório da serraria. A gente sentava na varanda e ficava ouvindo as duplas sertanejas que faziam o programa nas rádios de São Paulo, então, a gente ouvia Tonico e Tinoco, Jacó e Jacozinho, Tião Carreiro e Pardinho, Zico e Zeca… Muitas duplas que são muito importantes até hoje na história da música sertaneja.  Xororó: Nós tivemos uma infância com muita liberdade de correr, brincar, jogar bola empinar pipa, bolinha de gude, rodar pião. Aquela coisa gostosa do interior, que já não se vê mais, principalmente nas grandes cidades. Eu acho que a minha parceria com o meu irmão começou aos 7 anos, ele 9, né, 2 anos mais velho do que eu. Ele era responsável por me levar pra escola e trazer, claro. E era bem distante de casa, tinha uns 2 quilômetros, eu acho. A gente ia por uma estrada de terra, aqueles dois molequinhos. Chitão: Bem, a influência da música veio do nosso pai, seu Mário. Na adolescência, ele fez a primeira dupla com o João Mineiro, que depois, mais tarde, veio a fazer sucesso com a dupla João Mineiro e Marciano. Nosso pai teve que deixar o sonho de ser artista pra trás, e foi pro Paraná, lá ele construiu a família, mas continua sempre cantando e compondo. E nosso pai passava a semana toda viajando, transportando madeira. Quando ele voltava, ele pegava o violão e cantava com a nossa mãe as músicas que ele ficava ensaiando durante a viagem. Como não tinha gravador, eles repetiam as músicas várias vezes. A nossa irmã, a Rosária, um dia rasgou o caderno de música dele, de composição. Ele queria lembrar uma música e ficou muito bravo. Ele já estava pensando em dar uma surra na Rosária, aí eu falei: “Não, pai, se for a música tal, fica tranquilo que nós sabemos cantar”. Aí a gente começou a cantar. O Xororó que tem a voz aguda, começou imitar a mãe, e eu comecei a imitar a voz do pai, que é mais grave. Aí nós começamos a cantar a música "Cortando a Estrada". Xororó: Quando nosso pai nos ouviu cantando pela primeira vez, ele ficou bobo e falou: “Nossa, vocês sabem cantar direitinho. Quem que ensinou?” Nós falamos: “Pai, foi o senhor e a mãe. Quando vocês cantam aqui em casa a gente fica perto ouvindo, e assim a gente aprendeu”. Aí ele falou: “E o violão? Quem ensinou? Vocês sabem?". "É, a gente também sabe um pouquinho, lá, o ré, o dó." Aí mais uma vez ele falou: “Daqui pra frente, eu vou ensinar pra vocês tudo que eu sei." E assim começou a dupla Os Irmãos Lima. [trilha sonora] Chitão: Bem, o nosso pai começou a mostrar a gente pra todo mundo, né: na escola, na igreja, onde tivesse festa ele tava colocando a gente pra cantar. E tinha um programa de calouro na cidade, lá no clube, lá em Rondon que o prêmio que a gente ganhava dava pra comprar pipoca, dava pra comprar ingresso do cinema. E a gente adorava porque era matinê todos os domingos. A gente ganhava o prêmio e já comprava o ingresso e ia assistir o filme. E eu me lembro que uma vez, a gente tava no meio de um filme do Mazzaropi, um filme muito engraçado, e o nosso pai entrou na sala, assim, de cinema achou nós dois em um cantinho lá, tirou a gente da plateia. Eu falei: "Pai, mas nós 'tamo 'vendo filme". E ele falou: "Não, nós vamos ter uma festa de aniversário na casa de um compadre, o fulano de tal, e eu prometi de levar vocês lá pra cantar. E nós saímos chorando do cinema de tanto que a gente gostava. Aí no caminho ele foi consolando a gente, acabou nosso choro e chegando na casa do nosso cumpadre começamos a cantar. E ele fazia sempre isso com a gente, ele adorava ver a gente cantando e adorava ver a plateia se emocionando com a gente, desde criança.   [trilha sonora] Bem, quando eu tinha 12 anos, a gente teve que mudar pra São Paulo. O nosso pai quis sair do interior porque a nossa mãe, ela tinha uma doença, ela era bipolar, que a gente veio descobrir isso muitos anos depois. Mas, aí ele aproveitou para fazer o tratamento da nossa mãe numa clínica em São Paulo e começar a mostrar a gente nas rádios.  Xororó: Na mudança, a nossa mala era um saco, o cadeado era um nó. Eu me lembro direitinho como se fosse hoje. Nós de calças curtas, que era como os meninos usavam naquela época, final dos anos 60. Viajamos na carroceria de um caminhão de Rondon até Londrina. Pegamos um trem e descemos na Estação da Júlio Prestes, em São Paulo. Nosso pai arrumou emprego como motorista de ônibus na cidade de Mauá, no Grande ABC, e nos mudamos pra lá. Ele canalizou aquele sonho da música na gente. Um dia, seguindo o conselho da nossa avó, a mãe dele, né, a vó Maria, ele nos levou para conhecer Geraldo Meirelles, que era um apresentador de programas de rádio e televisão. Quando ele nos ouviu pela primeira vez, ele falou: "Caramba, vocês são muito afinados, mas Irmãos Lima, nem pensar." E sugeriu Chitãozinho e Xororó, que era o nome de uma música do Athos Campos e do Serrinha, que fala sobre dois inhambus, inhambu chitão e o xororó, dois pássaros que cantam muito  bonito. A gente chegou em casa revoltado. Particularmente eu, né, achei que esse nome era horroroso, muito caipira. Caramba, cantar música sertaneja com nome de Chitãozinho e Xororó, nada a ver. O Chitão, pra me zoar, me chamava de Xororó e eu falava: “Que Xororó o quê, rapaz!? Meu nome é Durval!” [trilha sonora] Chitão: Quando eu fiz 14 anos, a gente era muito pobre e passava muita dificuldade e eu não via a hora de completar 14 anos pra ajudar, pra começar a ganhar um dinheiro. Inclusive, eu até parei de estudar pra começar a trabalhar. E aí, nosso pai me arrumou um emprego de cobrador de ônibus na viação Barão de Mauá. Foi meu primeiro emprego, já fui lá tirei minha carteira de trabalho, eu tenho ela até hoje. Mas esse emprego durou apenas um ano, porque a música já tava tomando espaço na nossa vida, graças a Deus. Xororó: O Geraldo Meirelles tinha um programa na Rádio 9 de julho e arrumou pra gente um horário pra cantar ao vivo às sextas-feiras, às sete e meia da manhã. Nós morávamos em Mauá, a emissora ficava na Vila Mariana. A gente acordava às 4h da manhã, 'caminhava' 20 minutos, pegava um ônibus por mais 20 minutos, depois 40 minutos de trem até a Estação da Luz, mais 20 minutos de ônibus até chegar a rádio. Dois moleques sozinhos, com dois violões. Foi lá que a gente cantou pela primeira vez a música Galopeira. Aí, gravamos um disco e a nossa carreira começou profissionalmente. Isso foi em 1970. [trilha sonora] Chitão: Bem, como eu sou o irmão mais velho, eu sempre tomava a frente de tudo. Era meio que o empresário da dupla, marcava shows, fazia contato, marcava entrevista, programas de rádio… Onde tinha música eu queria colocar a gente pra cantar, e eu acho que aprendi isso com o nosso pai, de correr atrás. Eu não gosto de ficar em casa parado, tô sempre falando com alguém. E o Xororó não, o Xororó é completamente diferente de mim. Ele fica em casa, ele compõe, ele ensaia. Ele tem tempo para ser o profissional bacana que ele é. E isso fez a gente demorar um pouquinho pra gente se ajustar, porque no início, chegou uma época, eu fiquei tão me sentindo importante, que eu fiquei meio que autoritário. E isso eu nem percebia. E na medida que o meu irmão foi crescendo, ele também foi ficando adulto, ele foi entendendo que ele também tinha o espaço dele ali dentro. E ele começou a dar as opiniões dele, coisas que eu fazia que ele não concordava. Ele começou a falar e eu demorei um pouco pra entender que ele também tinha os direitos dele. Mas depois a gente aprendeu a respeitar o espaço de cada um e hoje a gente se respeita muito e ele até fala uma frase que eu acho muito bacana: "O meu espaço termina onde começa o seu". E essa é nossa filosofia até hoje.   [trilha sonora] Xororó: Em 72, Seu Geraldo montou uma caravana e fomos nós fazer o nosso primeiro show em praça pública, pra mais de 10, 15 mil pessoas. Éramos dois adolescentes de 16 e 14 anos. A banda de abertura tocou um baita som. Nós entramos em seguida, só com dois violões acústicos, o som foi lá pra baixo. Quando acabou o show, a gente falou com Seu Geraldo: “Seu Geraldo, não dá pra cantar com dois violões. A gente precisa de instrumentos eletrônicos”. O Geraldo falou: "Eletrônicos?" Sim, e aí veio a ideia de montar a nossa primeira banda, um conjunto, como se falava naquela época. Isso era algo inédito pra música sertaneja. Chitão: Mais ou menos em 1972, por aí, nós conseguimos comprar um fusca e a gente saiu fazendo show em circo com esse fusca. Aí nós fomos pro Paraná em 1975 e lá deu uma geada muito forte e arrasou a economia do estado, então o dinheiro que nós ganhamos lá, a gente gastou lá mesmo. E quando nós chegamos em casa nossos irmãos e nossos pais estavam passando muita necessidade. Aluguel atrasado, não tinha comida em casa … O único bem que a gente tinha era o Fusca. Então a gente pensou assim, vamos dar um tempo na carreira, vamos vender esse Fusca e usar esse dinheiro pra pagar as contas e de repente a gente arruma um trabalho. E esquece um pouco a música porque não tá dando pra sobreviver. Eu ia muito lá no Bar do Café, no Largo do Paissandu, pra encontrar o pessoal de circo que vinha pra contratar shows. Então, eu voltei pra lá, eu e Xororó voltamos pra lá pra ver se a gente encontrava com alguém. E pensando seriamente, dentro do carro, um conversando com o outro, ali por perto da Avenida São João, aí eu falei: "Ai Xororó, vamos ter que vender esse carro, e não tem jeito, nossa vida tá muito difícil." E isso no rádio começou a tocar a música Tente Outra Vez do Raul Seixas, ele 'tava' lançando aquele disco. Xororó: Quando a gente ouviu a letra, parecia um sinal. A gente não podia parar. Precisava tentar mais um pouco. O Chitão teve uma ideia de falar com a gravadora e pedir um adiantamento pro próximo disco. Com aquele dinheiro, conseguimos pagar as contas e encher o tanque do Fusca e tentar de novo. Depois daquele dia, tudo começou a dar certo. [trilha sonora] Xororó: Naquela época, as duplas sertanejas que faziam boas bilheterias nos circos apresentavam uma peça antes do show, pra atrair o público, né. Por mais de três anos, nós também fizemos a nossa, né, que se chamava O Pistoleiro da Ave Maria. O meu personagem era um cowboy bebum que se chamava Johnny. Em paralelo, nós gravamos um disco, e as músicas começaram a tocar muito nas rádios. Chegou ao ponto em que o povo não queria mais a peça, queria música. Era só a gente começar a peça e o povo começava: “Canta! Canta!”. Isso foi em 79 com o disco 60 Dias Apaixonado Foi o nosso primeiro Disco de Ouro. A gente vendeu mais de 250 mil cópias! Antes disso, não passava de 10 mil. A nossa consagração veio mesmo em 82, quando gravamos o nosso oitavo álbum: Somos Apaixonados, que ultrapassou a marca de 1 milhão e meio de cópias vendidas. A gente sabia que a segunda faixa daquele LP seria um sucesso. Mas achou que o nome da música não era, assim, tão sugestivo pro título desse disco. Somos Apaixonados parecia mais vendável do que Fio de Cabelo [trilha sonora] Chitão: Fio de Cabelo foi a primeira música sertaneja a ser tocada nas rádios FM. E nós começamos a ser convidados também para participar de programas de televisão que, até então, nunca tinham levado uma dupla sertaneja. A gente era jovem, tinha uma aparência bacana e se apresentava de uma forma bem profissional. Xororó: Eu me lembro que, naquela época, o Silvio Santos chamou a gente pra fazer um programa no SBT todo domingo e ali a nossa imagem ficou muito muito conhecida. Aí nós fizemos muito sucesso mesmo. Então, foi muito importante a música Fio de Cabelo. E a gente sempre cuidou da nossa carreira. Naquela época na televisão a gente começou a usar cabelo grande, usar umas roupas mais incrementadas. E a gente tinha visto o Rod Stewart no Rock in Rio com aquele cabelo arrepiado e comprido atrás. Nós começamos a imitar e como a gente 'tava' na televisão, o nosso corte de cabelo virou sucesso nacional e as pessoas passaram a ir no cabeleireiro e pedir pra cortar o cabelo igual o do Chitãozinho e Xororó. [trilha sonora] Chitão: O nosso pai ele chegou a ver, assim, um pouco do nosso sucesso porque ele faleceu em 83. Ele morreu muito jovem, com 51 anos, e ele chegou a acompanhar a gente, assim, em alguns shows. Então ele começou a sentir um pouco o sucesso da música Fio de Cabelo e, infelizmente, ele se foi muito cedo, mas ele deixou um legado muito bacana. Ele não só, colocou a gente no caminho da música, como eu acho que essa harmonia, né, que existe entre nós se deve muito ao sonho que nós realizamos do nosso pai, que o sonho dele sempre foi fazer de nós dois uma dupla famosa.  [trilha sonora] Xororó: A nossa parceria deu tão certo que eu nunca me vi fazendo um disco solo. Já tivemos muitas brigas feias, sim. Todo irmão tem, né. A gente pensa muito diferente em muitas coisas, mas o nosso privilégio é ter a música como nosso elo, nossa força, nossa paixão em comum. Esse amor supera qualquer desavença. Nas vezes em que a gente se desentendeu, o ranço fica pra trás quando pisamos no palco. Começamos a cantar, aí tudo muda. A música é o nosso remédio, nossa alma, nossa vida.  [trilha sonora]

Chitão: É muito comum, né, as duplas serem formadas por irmãos, porque é muito mais fácil e quando você aprende tudo junto, né, já vem um pacote mais pronto. Esse vínculo, assim, do convívio de viver a dois, não é uma coisa muito fácil. Mas quando se é irmão, a gente briga em família e não guarda rancor, sabe, não guarda mágoa de ninguém. Eu mesmo sou assim. Eu e meu irmão nós somos muito diferentes. Eu tenho um comportamento, ele tem outro. Eu penso de um jeito, ele pensa de outro, só que na música nós somos muito parecidos. E isso prevalece sempre no nosso convívio, então entre nós, mesmo que a gente tenha uma discussão, às vezes, mais severa por um motivo ou outro, não fica rancor. Dali uma semana já acabou a briga e a gente tá em paz novamente.  Xororó: O principal fator pra longevidade da nossa carreira acredito que seja o respeito que a gente entre nós e, mais ainda, pelo nosso público. As pessoas parecem que consideram a gente como se fosse a família delas. A gente sente esse amor do fã quando ele quer uma atenção, uma palavra, uma foto. Eu acredito que a gente tem como missão usar o nosso dom pra tocar os corações. A música pode transportar o ser humano pra outro lugar, de fazer uma pessoa lembrar de um grande amor, de uma viagem. Faz um bem danado pra alma. Esse amor é o que mantém a gente juntos nesses 50 anos e sabe lá Deus quanto tempo mais. Enquanto nossos fãs curtirem o que a gente faz, a gente vai continuar cantando, vai seguir. [trilha sonora]

Lúcia Helena Galvão: Dá pra gente dizer que o Chitãozinho e o Xororó são duas pessoas que sabem aproveitar o melhor que a vida oferece. Da infância pobre, lembram dos jogos e brincadeiras. Do pai, lembram que passava a semana toda ausente, mas lembram do retorno e da bela cantora em dueto com a mãe. E o pai, seu Mário, não deixou só o sonho de artista e as boas lembranças, deixou o símbolo de paternidade que fez com que os dois irmãos jamais se esquecessem que eram irmãos. E esse sentimento permitiu que passassem por cima de todas as dificuldades de convivência. E se todos nós lembrássemos que também temos um único pai, quem sabe o que poderia acontecer conosco? É, esses dois rapazes não sabem só cantar, são muito bons de ouvido também, sabem ouvir a vida. Ouvem e decoram pra não perder jamais a lição, mesmo que as dificuldades arranquem algumas folhas do caderno. E deve ser por isso que tocam tanto o coração das pessoas com a sua cantoria. É a vida recolhida pelo caminho que canta com eles.  [trilha sonora] Geyze Diniz: Nossas histórias não acabam por aqui. Confira mais dos nossos conteúdos em plenae.com e em nosso perfil no Instagram @portalplenae. [trilha sonora]

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