Para Inspirar

Deborah Telesio em "Essa onda vai passar"

A sétima temporada do Podcast Plenae está no ar! Confira a história da empresária Deborah Telesio. Aperte o play e inspire-se!

20 de Março de 2022


Leia a transcrição completa do episódio abaixo:


[trilha sonora]


Deborah Telesio: Você já teve a sensação de ter sido protegido? De que algo ruim podia ter acontecido, um tropeço, um acidente, mas que de forma quase inexplicável não foi desta vez? Quantas vezes o “quase” aconteceu? Será que é por acaso? Como e porque vivenciamos o “quase”? Quais as mensagens que estes eventos nos trazem? Assim como ocorrem com tantas pessoas em diferentes situações, eu vivi uma experiência extrema de quase morte, e não tive dúvidas de que o que me salvou foi algo maior. Na minha intuição, eu chamo de Divino ou de anjos. 


Dia 26 de dezembro é a data do meu segundo aniversário. Eu sou sobrevivente do Tsunami que aconteceu na Ásia em 2004, depois de um terremoto subaquático de 9 pontos na escala Richter, que tirou a vida de mais de 250 mil pessoas. Algumas delas, lamentavelmente, bem ao meu lado. 


[trilha sonora]


Geyze Diniz: Todos nós já passamos por avalanches no decorrer da vida. Mas com Deborah Telesio, essa expressão foi vivida na pele em 2004. Deborah estava fazendo snorkeling na Tailândia, quando o Tsunami atingiu ela no meio do mar. Ao contrário da maioria das pessoas ao seu redor, Débora sobreviveu, e só se deu conta da dimensão da tragédia quando foi levada de volta ao continente. 


Em solo firme, a executiva teria outra missão: encontrar sua amiga que ficou na praia quando a onda veio. Debora conta que, depois dessa experiência, assinou um novo contrato com a vida. Conheça a história de Deborah Telesio e sua conexão com o aqui e o agora. Ouça, no final do episódio, as reflexões do especialista em desenvolvimento humano Marc Kirst , para te ajudar a se conectar com a história e com você mesmo. Eu sou Geyze Diniz e esse é o podcast Plenae, ouça e reconecte-se.


[trilha sonora]



Deborah Telesio: Era uma viagem de férias com a minha melhor amiga, irmã de alma Marie, com quem eu já percorri vários cantos desse mundo. Eu, que sempre trabalhei como louca de executiva de multinacionais, e pra quem conhece este mundo sabe que é bem puxado, me dava sempre ao luxo de me aventurar pelo mundo, pra recobrar as energias e ampliar meus horizontes. Frequentemente com ela, com a  Marie, uma amiga dessas que aquece o coração e já por mais de 30 anos. E com quem eu compartilho dessa sede de conhecer e de viver o novo. 


Pra nós, quando a gente viaja, vale a cultura do lugar, vale os sabores, os cheiros, as comidas, as paisagens, as pessoas, seus hábitos e suas crenças. 


[trilha sonora]


Chegando em Bangcoc, fomos surpreendidas ao ver um Beit Chabad, bem em frente ao nosso hotel. Beit Chabad é uma entidade judaica presente em muitos países, mas eu nunca esperaria encontrar um lá. Era época de Chanukah, a festa das luzes e dos milagres. Durante 8 dias, os judeus acendem velas para celebrar a vitória da luz sobre a escuridão. Eu e a Marie somos judias. Quando eu cheguei lá, eu falei pra ela: “Vamos acender as velas de Chanukah!”. Atravessamos a rua e fomos acender as nossas velas. As velas que celebram o milagre. A gente ainda nem sabia o quanto precisaríamos de um grande milagre nos próximos dias. 


A viagem seguiu bem, super interessante essa parte do mundo. Pudemos testemunhar as várias crenças que permeiam aquele lugar. Budistas na Tailândia, hinduístas em Bali, a coexistência de todas as religiões em Cingapura. Fomos aos templos budistas, fizemos oferendas, assistimos a rituais hinduístas que nunca tínhamos visto. Já no final da viagem, estávamos passando alguns dias no sul da Tailândia, onde há ilhas de beleza incomparável. O mar é super calmo e as pessoas são gentis. 


Naquele dia, eu acordei sentindo um leve tremor  na minha cama. Ela sentiu também. Era suave, nem demos muita bola. Mal sabia que esse era o tal do terremoto, que viria a causar tanta devastação. 


[trilha sonora]


Marie não estava se sentindo muito bem neste dia e queria ficar na praia, quieta. E diferente de todos os outros dias, nesse, decidimos fazer um rápido programa separadas uma da outra. Eu queria aproveitar meu último dia naquele paraíso e decidi pegar um barquinho 

pra fazer snorkeling. Fomos procurar um barqueiro na beira do mar pra me levar a um ponto de snorkeling bem conhecido por lá. Um cara jovem se ofereceu, mas eu não quis. Preferi um velhinho, porque eu me sentia mais segura com ele, eu de biquíni, sozinha no meio do mar. Até hoje eu penso naquele jovem. Será que eu salvei a vida dele, quando escolhi o homem mais velho pra me levar? Não sei, nunca vou saber.


Eu dei o meu passaporte pra Marie e me despedi, e ela tirou uma foto de mim, no barco. O barqueiro me levou a um lugar com umas rochas vulcânicas gigantescas no meio do mar. Tinha vários barcos  por lá e um monte de gente, talvez umas 30 pessoas. O barqueiro disse que ia me esperar num canto e eu fui nadar pra bem perto da pedra vulcânica, onde havia vários corais e peixes. Eu estava de máscara, de snorkel, e tinha comigo uma máquina fotográfica daquelas descartáveis. Era um peixinho colorido a minha última lembrança, até que eu tenho um apagão, uma amnésia. Eu não tenho a menor ideia do que aconteceu naquele momento, nenhuma lembrança. 


Num intervalo de tempo que eu não sei quanto durou, aconteceu algo tão grande que arrancou a minha máscara, arrancou o snorkel, a câmera da minha mão. Quando eu me dei conta, eu tava com a cabeça fora da água, meio zonza, tentando entender o que estava acontecendo. 


Olhei em volta e percebi que eu não tinha nem saído do lugar, que eu continuava na mesma posição em relação à tal da pedra vulcânica. Mas as pessoas que estavam lá já não estavam mais. 


[trilha sonora]


Olhei pra frente e, aí, eu vi uma parede de água vindo na minha direção. Não era uma onda grande normal. Era algo muito assustador, nem sei precisar a altura. Nesse momento eu entendi que ia morrer. Que eu morreria e que ninguém jamais saberia de mim. Que a minha vida iria terminar e não tinha o menor sentido pra mim. Eu queria viver. Fiquei inconformada, eu não queria morrer. 


A onda chegou e não quebrou. Eu pude passar por cima dela, sem que nada me acontecesse. Eu consegui me estabilizar de novo, até que uma terceira onda gigante veio na minha direção. Só que essa, ao contrário da anterior, já tava quase quebrando. Não ia dar tempo de eu passar por cima dela. Não ia dar tempo de eu furar a onda. Não havia nada, absolutamente nada que eu pudesse fazer. Era eu e a fúria do mar. 


[trilha sonora]


A onda, de fato, quebrou em cima de mim. E eu me lembro da sensação exata de estar embaixo da água, naquele rebuliço. Enquanto eu era arremessada de um lado pro outro, eu lembrei de várias coisas. Lembrei de um sonho de infância em que eu era engolida por uma onda. Lembrei da minha avó, que tinha morrido dois meses antes. Lembrei do meu pai, que já era falecido. 


Quando o fôlego acabou, eu comecei a respirar água e tive um pensamento meio macabro: “Ah, não é tão ruim morrer afogada”. 


[trilha sonora]


Eu acho que, por 1 milésimo de segundo, eu não desmaiei. De repente, uma luz iluminou as minhas pálpebras e eu tive uma sensação de que eu tava sendo puxada pra cima. Quando percebi, eu tava com a cabeça fora da água, eu estava respirando, eu tava viva. 



Eu senti nitidamente que tinha uma coisa ali muito maior do que eu. Não sei se foi a minha avó que veio me salvar, se foram anjos, se foi Deus. Mas eu não tenho dúvida de que algo grande, divino,  cuidou pra que eu tivesse exatamente naquele lugar, nem um pouquinho mais pra esquerda, nem um pouquinho mais pra direita. A primeira frase que veio na minha cabeça foi: “eu fui salva por um colchão de anjos”. Colchão porque eu sabia que os corais estavam muito perto, que a pedra gigante estava a poucos metros de mim.


Eu olhei à minha volta e vi o mar imundo, cheio de sujeira. Consegui nadar até um pedaço de barco que tava virado, subi nele e senti uma fraqueza incrível. Estranhamente, eu não tinha nenhum arranhão. Eu não bati nos corais, eu não bati contra a pedra, eu não fui arrastada pra outro lugar. Eu tava sim exausta, mas inteira. 


[trilha sonora]


Um cara se aproximou de mim, segurando uma criança e perguntou se eu tava bem e se eu podia segurar aquela criança. A menina devia ter uns 4 anos. Toda raladinha e falava sem parar em um idioma que eu não entendia. As únicas palavras que eu identifiquei foram “mami” e “papi”. Eu segurei aquela menina contra o meu corpo e fiquei falando pra ela em português mesmo: “Calma, vai ficar tudo bem”. De repente, uma mulher subiu naquela pedra gigante e gritou o nome da menina: Nicole. Nunca mais esqueci. Era a mãe dela. Graças a Deus!


Do nada, apareceu um barquinho de madeira com um casal e um barqueiro pra nos resgatar. Nem sei de onde esse barco surgiu. Talvez ele estivesse mais pra dentro do mar, antes da onda arrebentar. Todos os outros barcos já não estavam mais lá, inclusive o que me trouxe. Fico pensando se o barqueiro conseguiu ligar o motor e fugir a tempo.


O barco resgatou os poucos sobreviventes: eu, a Nicole, a mãe da Nicole, o homem que a salvou. Tinha também um cara em estado de choque, dizendo que a namorada dele não tinha sobrevivido. O barco também levou o corpo de um tailandês e uma moça super jovem, que alguém tentou reanimar no barco. Eu, por outro lado, estava passando muito mal e vomitando, porque realmente eu tinha me afogado. Até que alguém gritou: “Vamos que vem mais onda!”


Aquele foi o momento em que eu me senti mais forte na minha vida. Eu pensei com uma convicção que eu nunca mais senti: “Hoje, eu não morro mais. Hoje eu já morri e nada mais vai me acontecer”. 


[trilha sonora]


Lembrei de novo da minha avó, que era uma mulher forte que enfrentou duas guerras mundiais, e que sempre me dizia: “Tudo o que você sabe ninguém tira de você”. Então eu ia me virar, na verdade eu acho que ela até estava lá do meu lado naquele momento, emprestando a força dela pra mim. Eu sabia que eu tinha meus recursos, meu aprendizado da vida e eu pensava: “A única coisa que importa agora é encontrar a Marie”. 


[trilha sonora]


Só que o barco não me levou pra ilha onde a Marie tava. 


[trilha sonora]

Eles foram para uma cidade chamada Krab, de onde saem todos os barcos em direção às ilhas. Quando a gente chegou na costa, eu entendi que a coisa era muito séria. Tava tudo destruído, os barcos um em cima do outro. Começaram a gritar de novo: “Corre, vem mais onda!”. Todos correram e eu também corri, corri, corri, junto com um monte de gente. Fui dar numa estrada, nem lembro bem como. Uma família se aproximou e me ofereceu para que eu entrasse no carro deles. Ela com um lenço na cabeça, árabes. As crianças no carro ficaram em polvorosa quando eu disse, meio zonza, que eu era do Brasil. Começaram a dizer “Ronaldo, Cafú”. Essa mulher, ou, esse anjo, me perguntou como poderia me ajudar, eu pedi que ela me levasse de volta pra ilha onde a Marie estava e ela disse que não tinha como, claro que não. 


Eu, executiva, pensei super logicamente e falei: “Me leva pra um centro de informação turística, porque  lá eu sei que eu vou poder falar inglês, que vão me entender, vai ter telefone, vai ter fax, vai ter tudo o que eu preciso”. Essa família me levou, mas antes parou num posto de gasolina, onde tinha um chuveiro. Foi maravilhoso tirar aquela sujeira de mim. Me deram as roupas do filho, um menino de uns 10 anos. Quando eu saí vestida com as roupas dele, ele viu os meus pés descalços, tirou os chinelos dele e me deu. Como que eu posso agradecer essas pessoas? 


[trilha sonora]


No centro de informação turística, eu consegui avisar a minha mãe que tava tudo bem e pedi pra ela repassar a informação pro filho da Marie, caso ela ligasse. A gerente desse centro arrumou um hotel pra eu dormir, me levou para uma padaria, me fez comprar um pão, uma coca cola e me deu uns 2 dólares. 


Eu só soube da dimensão da tragédia quando liguei a TV do hotel e vi as imagens das ondas gigantes e da destruição em tantos países. Até então, eu nem sabia o que era um tsunami. A mesma mulher que se sentiu tão forte naquele barco, era agora uma pequena, frágil, assustada. Eu nunca me senti tão sozinha. Mas ainda assim, eu tinha certeza de que tudo ia dar certo no final. 


[trilha sonora]


Passei mais dois dias andando por essa cidade, eu, a sacolinha do pão que eu não conseguia largar, por medo de não ter mais o que comer, vestindo as roupas do menino. Visitei as escolas que receberam os resgatados, os hospitais, procurava o nome da minha amiga nas listas de sobreviventes. Encontrei mais incontáveis solidários pelo caminho, muitos deles em situação parecida com a minha, procurando sobreviventes, tentando contato com pessoas, ou pior, pessoas que tinham perdido entes queridos. E a Marie? 


Liguei na embaixada brasileira, mas eles também não tinham notícias dela. Ela, por sua vez, demorou 3 dias pra fazer contato com a família dela ou com qualquer outra pessoa. Ela achava que eu tava morta, ela não tinha coragem de dar essa notícia pra ninguém, e por isso preferiu o silêncio. A experiência dela foi até mais traumática que a minha. Ela viu o mar recuar e as pessoas caminharem em direção à água, com curiosidade. A Marie, por outro lado, foi pra trás, o que salvou a vida dela. Ela se agarrou em uma árvore  pra não ser arrastada pelas ondas, subiu morros e demorou mais de um dia pra ser resgatada. 


Enquanto esperava o resgate, ela se juntou a um grupo de jovens israelenses e foi literalmente carregada por eles. Esses jovens levaram a Marie de volta a Bangcoc, justamente pro mesmo Beit Chabad onde a gente acendeu as velas de Chanukah. Foi lá que a Marie acessou a internet, soube que eu estava viva e decidiu entrar em contato com a família. 


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Nós nos reencontramos em Bangcoc. Choramos, nos abraçamos, falamos horas sem parar, ligamos pras nossas famílias.  No mesmo Beit Chabad, recebemos mais um presente. De não apenas poder conhecer aqueles meninos geniais que salvaram minha amiga, mas também de sermos abençoadas com uma cerimônia de renascimento. E porque eu passei por isso? Por que eu sobrevivi e aqueles 250 mil outros não tiveram a mesma sorte? Essa pergunta permanece comigo, mas depois de 17 anos eu acho que tem alguns aprendizados que sim me transformaram. Os momentos que vivi naquele barco que me resgatou, a força que eu ganhei naquele momento e acreditar. Saber que sim, conto com aquilo que aprendi, que posso aplicar, que nenhum aprendizado ou experiência é em vão, como disse a minha avó. 


Mas acreditar que as coisas podem dar certo, de que há algo grande que nos cuida, isso eu levo pra mim em todos os meus dias. E como não ser grata. Quanto vale poder comemorar meu segundo aniversário com a minha amiga, que hoje, aliás, é a madrinha da minha filha Nina?  Essa minha menina Nina, que nasceu em 2010, deve ter sido a razão para eu ter sobrevivido. Será? 


Quanto vale poder juntar as nossas famílias, que se tornou agora uma família estendida e celebrar as festas judaicas juntos, acender as velas de Chanukah todos os anos e agradecer por tantos milagres que vivenciamos todos os dias? E como retribuir? 


Eu sempre acho que não é suficiente.


Hoje, eu sou CEO de uma empresa de equipamentos de radioterapia para tratamento oncológico. Diante de tamanha vulnerabilidade, todos nós, seres humanos, vivemos com a pandemia do coronavirus, esse tsunami que está passando na vida de todo mundo. E diante da minha responsabilidade como líder, como eu poderia retribuir o cuidado que eu recebi na minha vida? 


Essa pergunta, esse compromisso, está comigo todos os dias. E o agradecimento de ter saúde, de ter podido cuidar da empresa, da equipe, de tentar ajudar as pessoas que estão vivendo tempos tão difíceis. E sim, com atitude de que vai dar certo. Importar-se genuinamente com o outro, ser solidário, como tantos foram comigo no momento mais vulnerável da minha vida. E, principalmente, acreditar. Chame-se anjos, chame-se Deus, chama-se Santos, Buda, Shiva, não importa, ter fé em você e nessa força. Por que tem algo grande, maior, que cuida, e temos que nos dar conta, agradecer e fazer a nossa parte. 


[trilha sonora]


Marc Kirst: Como teu espírito reagiu ao ouvir esse relato tão raro e impactante? No dia em que Deborah sobreviveu sem nenhum arranhão, mais de 220 mil pessoas faleceram no Tsunami mais devastador da história. Se ouvirmos, sem pensar em nós mesmos, talvez deixamos escapar uma percepção transformadora. Se você acabou de ouvir sobre esta experiência, significa que você também é sobrevivente. Nem sempre de formas tão explícitas, mas eu te pergunto: quantas vezes será que o acaso do xadrez da vida te salvou de uma tragédia e você nem percebeu? Um segundo a mais ou a menos no momento em que saímos de casa. Uma fala ou silêncio que influenciou alguém que amamos a pegar a direita em vez da esquerda. Uma viagem que precisou ser cancelada e no momento ficamos decepcionados. 


O nosso hábito de controlar e interpretar nos leva a categorizar tudo o que nos acontece como bom ou ruim. Mas na ignorância do que o futuro nos reserva, talvez valha a pena abdicar das avaliações da nossa mente para sentir um novo nível de gratidão. O desapego do que achamos que precisa acontecer para aceitar o que está acontecendo. O olhar sobre a nossa caminhada não depende só dos eventos espetaculares e inesquecíveis, mas da consciência, do olhar e da perspectiva que escolhemos a cada dia que temos o privilégio de respirar mais uma vez. Qual é a experiência que você está vivendo agora? Te convidamos a aproveitá-la, qualquer que seja. 


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Geyze Diniz: Nossas histórias não acabam por aqui. Confira mais dos nossos conteúdos em plenae.com e em nosso perfil no Instagram @portalplenae.


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Para Inspirar

Adriana e Giovanna Araújo em "Caminhando juntas"

Na décima primeira temporada do Podcast Plenae, emocione-se com a cumplicidade e parceria de Adriana e Giovanna Araujo.

3 de Abril de 2023



Leia a transcrição completa do episódio abaixo:

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Adriana Araújo: Quanto mais valente eu tentava me mostrar pra minha filha, mais forte ela se exigia ser. E quanto mais madura e tranquila eu a via, mais serenidade eu buscava oferecer. A gente se abasteceu dessa troca. Esse pacto conduziu a nossa vida por um caminho de amor e companheirismo que eu nunca havia experimentado. Mas o custo foi alto. Nós duas amadurecemos à força. Uma abriu mão de parte da juventude. A outra, da infância. E as inseguranças e fragilidades ocultas que estavam ali inevitavelmente apareceriam.


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Geyze Diniz: Ainda na gravidez, Adriana Araújo descobriu que sua filha, Giovanna, nasceria com uma síndrome rara. Foram 10 cirurgias para que Giovanna pudesse caminhar com as próprias pernas, e para Adriana foi um trabalho contínuo de entender suas emoções, força e vulnerabilidade. 


Eu sou Geyze Diniz e esse é o podcast Plenae. Ouça e reconecte-se.


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Adriana Araújo: No dia 7 de outubro de 1997, eu acordei com um novo papel no mundo, o de mãe. Ainda na maternidade, com a minha bebê dormindo no bercinho de acrílico ao meu lado, eu amanheci num choro incontrolável. 


Até hoje é difícil definir esse choro. Quando eu volto àquele momento pra encontrar as nuances de cada sentimento que havia ali, eu vejo um choro de decepção comigo mesma. De inconformidade e frustração por não ter conseguido dar à minha menina o formato que o mundo classifica como normal. Um choro de choque, de enxergar as diferenças anunciadas no borrão do ultrassom, agora tangíveis. Um choro de não fazer ideia se a minha menina poderia andar e correr. De não saber como seria a vida da criança frágil e de pernas tortas que dormia tranquila no berço da maternidade. Um choro de intuição de que seria difícil, muito difícil de que julgamentos e preconceitos inevitavelmente surgiriam. Um choro de quem envelheceu uma década em horas, de quem sabia que dali pra frente tudo seria diferente.


[trilha sonora]

A Giovanna nasceu com uma doença chamada hemimelia fibular, é uma deformidade ortopédica, congênita e rara, que afeta 7 bebês a cada 20 milhões. Em termos bem simples, a minha filha não tem o osso de sustentação da perna direita, a fíbula. Ela veio ao mundo com mais algumas complicações: o pé esquerdo torto e ausência de alguns dedos nos pés e na mão direita.


Eu volto no tempo e entendo as razões de cada choro na maternidade. Mas algumas daquelas lágrimas eu não choraria de novo. As lágrimas da culpa eu tentaria não chorar, ainda que elas ainda existam no meu coração, 25 anos depois.


[trilha sonora]


Giovanna Araújo: Não teve um momento específico em que eu percebi que era diferente das outras pessoas. Pra mim, era simplesmente um fato da vida, até porque na infância eu nem ligava muito pra minha imagem. Às vezes, os colegas perguntavam por que a minha perna e os meus dedos eram daquele jeito, daí eu explicava. Mas eu nunca deixei de ser aceita no grupo por causa disso. Sempre tive muitos amigos, sempre me encaixei nos lugares onde eu frequentei. Eu sei que outras pessoas podem sofrer bullying por ter uma diferença, mas essa não foi a minha experiência. 


A minha aparência atípica virou uma questão pra mim quando eu cheguei na adolescência. Eu me incomodei com as cicatrizes nas minhas pernas, por causa de tantas cirurgias. Me incomodei por ter dificuldade de usar salto. Mas, no geral, eu acho que eu ligo tanto pra aparência quanto qualquer pessoa da minha faixa etária. Na minha geração, as pessoas se comparam demais com as outras, por causa das redes sociais. 


Eu fui percebendo que, na verdade, as pessoas não estão preocupadas com os outros. Elas estão pensando em si, nas próprias vidas. Com o tempo, a minha insegurança passou. 


[trilha sonora]


Adriana Araújo: Em 2020, eu publiquei um livro sobre a minha história como mãe da Giovanna. Mas antes de ser um livro, foi uma conversa comigo mesma. Eu precisava olhar pelo retrovisor pra processar as emoções e visitar as memórias dessa jornada. A caminhada nem sempre foi fácil. E, durante muitos anos, eu não tive tempo pra parar e refletir sobre os percalços que nós enfrentamos. 


Aí, eu comecei a escrever a história na forma de e-mails que eu enviava pra mim mesma. E à medida que os textos foram ganhando corpo, surgiu um desejo de transformá-los num livro familiar. Eu pensava em fazer uma encadernação bonita e dar de presente pra Giovanna, pra minha família e, especialmente, pros médicos que foram essenciais na vida da minha filha. 


Um dia, eu tava no salão de beleza, fazendo a raiz do cabelo, quando eu comecei a pensar em um desses médicos, que a gente apelidou de doutor Marceneiro. Eu senti uma necessidade muito forte de expressar em palavras a minha gratidão por ele. Peguei o celular e comecei a escrever no bloco de notas. Enquanto eu digitava, eu chorava de emoção. Aí, a cabeleireira me perguntava: "Tá tudo bem?”. “Sim, tá tudo bem”, eu dizia pra ela. Eu só precisava colocar os meus sentimentos no papel.

Eu terminei aquele capítulo do doutor Marceneiro e tive certeza que gostaria de transformar aquelas memórias num livro. E não só pra família, mas pra quem quisesse ler. Quando eu compartilhei esse desejo com a Giovanna, ela, a princípio, não curtiu muito a ideia.


[trilha sonora]


Giovanna Araújo: Eu e minha mãe temos personalidades muito diferentes. Ela é comunicativa, extrovertida. Eu já sou bem reservada e só costumo me abrir com pessoas mais próximas. Por isso, eu achava meio estranha a ideia de contar a nossa história pra qualquer um. Mas a minha mãe queria muito publicar esse livro. E quando ela coloca uma ideia na cabeça, ninguém tira. Ela insistiu pra eu ler o manuscrito. Eu enrolei, enrolei. Quando eu finalmente peguei o calhamaço, terminei em 24 horas. Eu imaginava que ela fosse escrever um relato factual, ao pé da letra, sobre a nossa vida. Só que ela criou uma peça literária, poética. Ficou muito bonito.

Esse foi um dos fatores que me levaram a concordar com a publicação da obra. Mas o principal era a ideia de ajudar outras pessoas em situação parecida com a nossa. Existem muitas mães de crianças que nascem com alguma diferença e que poderiam se enxergar na nossa experiência. De fato, depois que o livro foi publicado, várias mulheres entraram em contato com a gente. Elas disseram que, de alguma forma, se sentiram representadas na nossa experiência. 


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Adriana Araújo: Logo no começo do livro, eu aviso: “Essa não é uma história de vítimas nem de heroínas. É apenas a história de duas meninas que caminham juntas”.


Eu não fui educada pelos meus pais para me vitimizar. Eu não gosto dessa posição, não acho que é isso que te faz seguir em frente. Essa compreensão ficou ainda mais forte depois que a Giovanna nasceu. Muitas pessoas olhavam pra ela e falavam: “Ah, coitadinha, tadinha”. É uma expressão cultural, que o povo fala sem nem perceber o quão danosa ela é. E aí, virou uma batalha pessoal ensinar a minha filha a não se vitimizar, nem deixar que as pessoas a tratem com essa visão.


Mas, na outra ponta, mães de crianças com alguma deficiência também costumam ser colocadas no papel de heroínas, uma posição que até pode fazer bem pro ego. O fato de eu trabalhar em televisão pode reforçar esse rótulo. Só que, na verdade, não existem heróis. Na tentativa de dar conta da minha missão, eu botei uma armadura, peguei uma espada na mão e fui em frente com toda a força que eu tinha. Mas isso não significa que eu fui forte o tempo todo. Eu fraquejei muitas vezes, tive momentos de fragilidade, de tristeza, de medo. De muito medo. 


[trilha sonora]


Giovanna Araújo: Em alguns momentos eu admito que pensei: “Por que eu? A minha vida teria sido um pouco mais fácil se eu não tivesse precisado das cirurgias”. Eu poderia me vitimizar e passar o resto da vida me lamentando por não ter nascido igual a maioria da população. Mas esse pensamento não me levaria a lugar nenhum. E tem o outro lado da moeda. Eu sou uma pessoa de muitos privilégios e oportunidades. Se colocar na balança, as coisas boas pesam muito mais do que as ruins. Definitivamente, eu não sou uma coitada.

E eu também não sou uma heroína por ter enfrentado tantos desafios. Às vezes a gente vê uma pessoa com uma trajetória difícil e pensa: “Eu nunca conseguiria passar por isso”. Mas como a gente pode saber, se não tá na pele do outro? Tem situações que ou você enfrenta ou você enfrenta. Cada um faz o melhor que pode quando tem um problema.


[trilha sonora]


Adriana Araújo:  Desmistificar o papel da heroína não foi só pros leitores do livro, foi pra nós duas também. Eu me tornei mãe aos 25 anos, enquanto tava construindo uma carreira na televisão. E a Giovanna intuitivamente, ela percebeu que o desafio era enorme e colaborava muito, muitas vezes com silêncio. Ela nunca manifestou revolta. Nunca perguntou por que era diferente. Nunca reclamou dos remédios, das cirurgias, dos cortes, das suturas, das agulhadas. Já eu esperava birra, irritabilidade, nervosismo. Recebi serenidade e silêncio.


Durante muito tempo, eu entendi esse silêncio como um presente. Porque ele facilitava a minha vida. Mas o silêncio também pode ser uma armadilha bem perigosa. Eu escolhi mostrar à minha filha o que, naquele momento, eu achava que seria o melhor de mim: a coragem, a confiança, o otimismo, a fé. E conforme ela foi crescendo, eu percebi que a Giovanna só viu a mãe forte. Como que uma pessoa vai lidar com as próprias fragilidades, se o modelo que ela tem é quase de perfeição?

O livro também teve essa função de mostrar pra minha filha que ela vai ter muitos momentos de dúvida, de fraqueza, de medo em várias fases da vida, na juventude, na vida adulta, na vida profissional, na vida amorosa.

Giovanna Araújo: Quando você é pequeno, tem uma visão idealizada dos pais. Conforme cresce, percebe que eles também têm momentos de dúvida e fragilidade, que são pessoas com as mesmas dificuldades de qualquer outra. Eu ainda vejo a minha mãe como uma mulher forte e determinada, mas agora de uma maneira um pouco mais equilibrada.

Uma das minhas maiores surpresas ao ler o livro foi descobrir o sentimento de culpa que ela carrega por eu ter nascido com uma diferença. Eu achei até engraçado, porque isso nunca tinha me passado pela cabeça. Eu acredito bastante em Deus,  acho que Ele cria a gente do jeito que a gente tem que ser criado. Não tem nada a ver ela pensar que é culpa dela, mas às vezes todo mundo tem umas ideias meio irracionais.

[trilha sonora]


Adriana Araújo:  O livro também serviu como um auto abraço. Foi uma maneira de dizer para mim mesma: “Ok, eu poderia ter feito algumas coisas de outra maneira, os bastidores poderiam ter sido apresentados a minha filha mais cedo. Mas eu entreguei o que eu dava conta”. Eu cheguei aos 50 anos com a Giovanna em uma das melhores faculdades de medicina do país e eu tenho um baita orgulho disso. Tá faltando só um ano para ela se formar e é uma felicidade pra mim vê-la encaminhada e bem. Eu ofereci aquilo que foi possível, que eu tinha condições de oferecer naquele momento.


As mães são muito mistificadas, como se a maternidade fosse um momento sagrado, santificado. Quando uma grávida descobre que o filho vai ter uma deficiência, uma diferença física ou neurológica, ela é vista como se ela tivesse falhado onde nunca poderia ter falhado. Expor a nossa história tem também a função de mostrar que a perfeição não existe. A trajetória de todas as mães e filhos, de todos os pais e filhos terá os seus desafios, independentemente de ter ou não uma condição de saúde nessa história. O livro é uma declaração de amor à Giovanna e à nossa jornada, incluindo as dificuldades que fizeram parte das nossas vidas. Ele tem o propósito de abraçar a nossa história como ela é, com cicatrizes, para seguirmos juntas na nossa caminhada.

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Geyze Diniz: Nossas histórias não acabam por aqui. Confira mais dos nossos conteúdos em plenae.com e em nosso perfil no Instagram @portalplenae.


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