Para Inspirar
Conheça a história de um artista premiado que trouxe suas vivências mais desafiadoras para o centro de sua arte.
13 de Outubro de 2024
Leia a transcrição completa do episódio abaixo:
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Dalton Paula: A arte me deu muito mais do que eu poderia imaginar. Na adolescência, o meu horizonte era só participar de exposição em Goiânia. Se uma pessoa me falasse que eu ia expor na Bienal de São Paulo, fazer parte do acervo do MoMA e abrir um centro cultural, eu ia achar que era brincadeira.
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Geyze Diniz: Dalton Paula acredita que todas as suas vivências contribuíram para chegar aonde chegou. Tanto os desenhos que fazia quando era pequeno, quanto seu trabalho como bombeiro o ajudaram a criar o olhar e a crença de que é possível transformar qualquer material em arte.
Hoje, ele já exibiu suas obras em diversos países e está à frente do ateliê-escola Sertão Negro, dividindo suas experiências e seus aprendizados com os novos artistas. Eu sou Geyze Diniz e esse é o podcast Plenae. Ouça e reconecte-se.
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Dalton Paula: Eu fui uma criança introvertida e de saúde frágil. Fiquei boa parte da infância trancado num apartamento. Para passar o tempo, eu assistia desenhos animados, entre eles os Cavaleiros do Zodíaco, um anime japonês. Eu gosto de contar esse episódio, porque a gente nunca pode desprezar nenhuma forma de arte.
Um desenho despretensioso pode ser o começo de uma história maior. E comigo foi assim. Por causa dos Cavaleiros do Zodíaco, eu passei a colecionar revistas de heróis. A minha brincadeira era copiar esses desenhos com papel carbono e colorir com lápis de cor. Eu acho que, de alguma maneira, a combinação de cores que eu usava naquelas cópias chamou a atenção da mãe do meu amigo.
Quando eu tinha 14 anos, ela me convidou para fazer um curso de pintura na Escola de Artes Visuais em Goiânia. Hoje eu entendo esse estímulo como uma armadilha, no bom sentido, pra capturar um adolescente e inserir no universo das artes. Foi assim que eu descobri a minha missão de vida.
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A lista de materiais da aula incluía uma malha de uns 3 metros de comprimento. Antes da gente pegar qualquer tinta e pincel, um professor com formação em artes cênicas pediu para gente enrolar o corpo nessa malha e produzir sons e movimentos. Ele estava estimulando a gente a refletir qual era melhor linguagem para potencializar o que a gente queria dizer.
No curso, eu conheci o trabalho de artistas como Farnese de Andrade, Marco Paulo Rolla e Arthur Bispo do Rosário. Ver linguagens diferentes causou uma erupção na minha mente. Eu fiquei 6 anos nessa escola, e depois dois no Museu de Arte de Goiânia, estudando desenho. As aulas estimulavam a gente trabalhar com o lado direito do cérebro, o lado das aptidões artísticas. E aos poucos eu fui explorando outros caminhos, como a fotografia e a foto performance.
Desde cedo, eu percebi que viver de arte no Brasil era um desafio. Embora a minha mãe me incentivasse a seguir por esse caminho, eu queria uma segurança financeira. Então, eu optei por ter uma profissão paralela e fiz faculdade de química por dois anos. Só que eu entendi que não dava para ser artista e, ao mesmo, se submeter a questões de mercado. E aí eu decidi prestar um concurso para o Corpo de Bombeiros.
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Eu trabalhei 12 anos como bombeiro, e esse período foi uma escola para mim. Eu prestava socorro pra vítimas de acidente de trânsito, de agressão, pra pessoas feridas e que tiveram um mal súbito. Eram crianças, adultos e idosos. Eu, como uma pessoa que recebeu muitos cuidados na infância, me vi no papel de cuidador.
Essa experiência me deu acesso aos corredores dos hospitais. Me fez entrar em casas de pessoas em situação de violência e vulnerabilidade. Foram vivências que ajudaram a engrossar a minha casca. É curioso, porque o Cerrado, o bioma do Centro-Oeste, onde eu moro, tem árvores com cascas bem grossas e mais resistentes a queimadas.
Trabalhar como bombeiro ajudou também a formação da minha identidade. Passar por situações de intensidade emocional e psíquica me deram ferramentas para poder mergulhar cada vez mais a fundo no trabalho artístico. Eu comecei a me interessar pela busca de minhas origens. Eu tenho poucas informações sobre a minha árvore genealógica, assim como outros corpos negros.
A pesquisa pela ancestralidade toca raízes profundas, que direcionam a gente no presente e apontam o caminho do futuro. Eu me senti pertencente em lugares como quilombos, os terreiros, subúrbios da cidade, as festas populares de Goiânia. Fui me sentindo mais conectado com as minhas raízes, com a terra e, assim, com a minha essência.
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A minha atividade de artista e a vida do bombeiro caminhavam em paralelo, mas às vezes os dois mundos se chocavam. Teve uma vez que o convite de uma das minhas exposições era uma foto minha vestido de noivo, maquiado e com a sobrancelha modelada. Com autorização do meu comandante, eu coloquei o convite no corredor do quartel. O meio militar, a gente sabe, tem um viés viril, e ainda precisa romper muitas barreiras em termos de gênero e sexualidade. Para mim, a arte tem um papel de tirar a pessoa do eixo e forçar uma reflexão sobre determinadas coisas.
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Teve uma época em que o meu tempo livre ficou muito reduzido, e eu comecei a pensar em outras formas de produzir arte. Eu circulava muito pela cidade nas viaturas, e comecei a mapear os muros, prestando atenção em cores e texturas. Um tijolo quebrado e a água escorrendo pela parede atraíam a minha curiosidade.
Eu enxergava pinturas naqueles muros e fiz um trabalho de foto performance nas minhas folgas, em que eu colocava diante daquelas paredes como um personagem. Como artista, é possível transformar qualquer material em arte. Seja um trabalho performático com seu próprio corpo, seja uma instalação, um objeto e uma fotografia. Eu não consigo fugir desse exercício.
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Na minha primeira exposição individual, eu fiz um empréstimo consignado na folha de pagamento para bancar não só a minha arte, mas o coquetel e o DJ que ia tocar no evento. Era uma loucura, mas hoje, colhendo os frutos dessa loucura, eu vejo que foi bom ter me arriscado. Eu tive muita sorte de contar com o apoio de pessoas ao meu redor, da minha mãe, dos meus colegas da corporação. A gente não faz nada sozinho.
Em 2014, aconteceu a minha primeira exposição individual em São Paulo. Era um passo importante, porque o meu trabalho poderia passar a ser visto por muito mais gente. Nessa época, eu precisava fazer muitas negociações nos Bombeiros para poder estar em São Paulo por algumas horas. Todo dia saem ônibus de Goiânia cheio de pessoas que vão pra São Paulo comprar roupa pra revender. Eu fazia esse bate-e-volta de 1.800 quilômetros. Chegava de manhã em São Paulo e à tarde já voltava pra trabalhar em Goiânia no outro dia.
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As artes começaram a exigir cada vez mais dedicação, conciliar duas profissões exigentes foi ficando impossível. Até que, em 2016, eu recebi um convite para participar da 32ª Bienal de São Paulo. Foi a gota d’água para eu tomar coragem, chutar o balde e deixar a corporação. Era uma fase de instabilidade política e econômica no Brasil. Eu ouvi de muita gente que era maluquice trocar um emprego público e estável para viver de arte. Mas eu decidi acreditar no meu sonho.
Em 2020, veio a primeira exposição internacional de Nova York. Eu cheguei nos Estados Unidos em fevereiro, para ficar 80 dias. Mas logo depois começou o lockdown. A minha família queria que eu voltasse pro Brasil, mas eu decidi continuar em Nova York, e falei pra minha galeria: “Vou parar de ver televisão. Vou parar de ler as notícias. Se o mundo acabar, me avisa”.
Todo dia, eu ia caminhando um pouco mais de uma hora do Airbnb até o estúdio. Era inverno. Às vezes, eu ia caminhando na chuva, às vezes, na neve. Mas eu não podia perder aquela oportunidade. Aí eu ia para o atelier, me concentrava e assim eu consegui fazer 24 retratos. São pinturas que retratam líderes negros que foram silenciados na história brasileira.
Essa era uma série que eu tinha começado em 2018, inspirada na falta de imagens históricas dos negros. As únicas fotos e pinturas que eu encontrava objetificavam esses corpos. Nos meus retratos, eu procurava criar uma nova história. Aí, o MoMA, que é o Museu de Arte de Nova York, comprou 6 dessas pinturas, e meu trabalho passou a fazer parte da coleção do museu. A exposição, de fato, foi acontecer só em setembro, e todos os meus trabalhos foram vendidos.
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Depois disso, eu me senti com a casca grossa o suficiente para trabalhar em qualquer lugar do mundo. Com a grana, eu consegui construir uma casa, um atelier e uma escola que se chama Sertão Negro, em Goiânia. Num momento em que a educação e a cultura estavam sendo muito atacadas no país, eu achei que abrir uma escola de arte seria a atitude certa. Eu recebi muita ajuda na vida, e quero deixar a minha contribuição para artistas da nova geração. Quero compartilhar com eles o que eu aprendi sobre os códigos acessados nas galerias, nas instituições e nos museus.
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Hoje, o Sertão Negro tem aula de gravura, de cerâmica, de capoeira angola e de história da arte. O espaço tem 6 mil metros quadrados. A gente desenvolve práticas agroecológicas produzindo parte do nosso alimento, de forma orgânica. A gente tem banco de sementes crioulas, que foram desenvolvidas, adaptadas ou produzidas por agricultores familiares, quilombolas, indígenas ou assentados da reforma agrária.
Hoje, o Sertão Negro tem 30 pessoas fixas o que compõem essa comunidade de artistas em formação que frequentam a escola, participam das atividades e desenvolvem suas pesquisas. Um dos nossos projetos é dar autonomia pros artistas, garantindo para eles não só um lugar para trabalhar, mas para morar, que é o Jatobá Nascente. O Sertão Negro também possui três chalés com bioconstrução, que se conectam com o nosso programa de residência artística internacional, que recebe artistas do país e do mundo.
A gente vê a arte de uma forma expandida. A nossa referência são as comunidades tradicionais, tanto quilombolas quanto indígenas. Nesse contexto, a terra, a planta e todos os elementos naturais são sagrados. Uma pincelada no Sertão Negro não é mais importante do que uma semente plantada no solo. Cultivar um jardim num lugar que já foi um depósito de lixo é uma manifestação artística.
Nesse momento de superaquecimento do planeta, das queimadas, das grandes enchentes, a gente tem que encontrar outras formas de está no mundo, de usar a água, de construir nossas casas e de se alimentar. A receita já existe. Ela é ancestral e tá nas comunidades tradicionais. A humanidade tem buscado outros caminhos, mas eu acho que eles não tão dando muito certo.
Ao longo da vida, muitas das vezes eu ouvia vozes internas de que eu não pertencia a nenhum lugar. De que eu não podia fazer isso ou aquilo. Eu poderia ter parado no meio do caminho, se tivesse acreditado nessas vozes. Mas eu não sou uma pessoa de fugir da missão. Hoje, eu só peço força, sabedoria e discernimento para tocar o meu trabalho da melhor forma possível e deixar a melhor contribuição que eu puder pro mundo.
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Geyze Diniz: Nossas histórias não acabam por aqui. Confira mais dos nossos conteúdos em plenae.com e em nosso perfil no Instagram @portalplenae.
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Para Inspirar
O terceiro episódio da décima terceira temporada do Podcast Plenae é com Thais Renovatto, representando o pilar Corpo!
1 de Outubro de 2023
Leia a transcrição completa do episódio abaixo:
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Thais Renovatto: Quando eu soube que tinha HIV, eu me isolei por um tempo pra tentar digerir a notícia da maneira mais pragmática possível. Quais eram as opções que eu tinha? Eu podia encher a cara de droga pra tentar esquecer a minha condição. Podia acabar com a minha vida e, por tabela, com a da minha família. Podia ficar revoltada e sair passando o vírus para todo mundo. Ou eu podia me cuidar.
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Geyze Diniz: Aos 31 anos, a vida de Thais Renovatto virou de cabeça para baixo. Ela descobriu de repente que tinha contraído o vírus da AIDS de um namorado. Apesar do medo inicial ela se cercou de bons profissionais de saúde, começou o tratamento médico e soube que era possível levar uma vida normal. Hoje ela é casada, tem dois filhos saudáveis e se dedica a combater o preconceito contra o HIV. Eu sou Geyze Diniz e esse é o Podcast Plenae. Ouça e reconecte-se.
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Thais Renovatto: Era uma quinta-feira, em São Paulo, no ano de 2013. Eu tinha trabalhado o dia inteiro e, à noite, saí pra conhecer uma balada nova na rua Augusta. Eu fui com uns amigos, mas uma hora me separei da turma pra pegar uma bebida no bar. O lugar tava lotado e eu tive que disputar espaço no balcão. Até que um cara que também tava por ali puxou papo comigo: “Cheio, né?”, ele falou.
Era um tipo comum e simpático. Eu adoro conhecer pessoas e tenho facilidade pra fazer amizades. Pra mim, um encontro rapidinho no balcão do bar é suficiente pra ir no aniversário da pessoa no fim de semana. O papo fluiu e a gente passou a noite conversando. Trocamos telefones e mantivemos contato pelos dias, semanas e meses a seguir.
A gente começou a fazer vários programas juntos. Parque, restaurante, bar… Ele era um cara romântico, do tipo que mandava rosas colombianas no meu trabalho e organizava viagens de fim de semana. Não demorou pra eu me apaixonar.
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Depois de três meses de relacionamento, a gente começou a transar sem camisinha. O meu critério, como de muitas meninas e mulheres, foi a confiança.
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O primeiro sinal que a saúde dele não ia muito bem foi uma tosse persistente, que apareceu meses depois que a gente se conheceu. Ele parou de fumar e, mesmo assim, o sintoma continuava. Eu insistia pra levá-lo ao médico, mas ele não deixou. Ele foi sozinho à consulta e disse que tava com início de pneumonia, causada por uma mistura de cigarro, gripe mal curada e o desgaste físico das nossas viagens. Ele se tratou, mas não adiantou.
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Junto com a tosse veio um chiado no peito e uma febre alta. Ele foi pro hospital e acabou internado. Eu saía do trabalho e ia direto visitá-lo. Só que o quadro dele só piorava. Ele foi perdendo peso rapidamente e acabou sendo entubado na UTI. Eu ainda tinha esperança que ele fosse se recuperar, até que a mãe dele me chamou pra conversar na recepção do hospital.
Ela me disse: “Esses dias aqui sempre teve tão lotado e eu não tive a oportunidade de te contar. Mas, a verdade é que ele tá morrendo de aids”. Ela contou desse jeito, pá pum!
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É difícil explicar o que eu senti quando eu ouvi aquelas palavras, mas eu vou tentar. Em uma fração de tempo muito curta, passou pela minha mente um filme com flashes de toda a minha vida. Vieram lembranças antigas, recentes, numa linha do tempo contínua. As imagens se encaixavam rapidamente, até chegar àquele instante no hospital. Eu tava de pé e a minha canela ficou fria.
De repente, as minhas pernas já não sustentavam o peso do meu corpo. Me deu uma aflição tipo aquela que a gente sente quando anda na montanha-russa. Eu desmaiei. Quando retomei a consciência, tava com um copo de água com açúcar na mão. Um amigo querido tava comigo e perguntou: “Thais, pelo amor de Deus, o que foi? Você tá branca!”. Eu mal conseguia respirar. Mexi a boca e disse só pra ele: “Me tira daqui”.
Tava caindo uma chuva torrencial em São Paulo naquele dia. Eu tentei correr em direção ao carro, mas eu não tinha força. Meu amigo desacelerou o passo pra me acompanhar e foi caminhando de mão dada comigo. Quando eu contei pra ele o que tinha acabado de ouvir, ele fez uma cara de pânico. Pra ele também tudo fazia sentido agora.
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No carro, eu chorei. Chorei por ser burra. Chorei por entender que o meu namorado ia morrer mesmo. Chorei porque eu não tava entendendo mais nada. Chorei porque fiquei apavorada pelo meu provável diagnóstico. Logo a notícia se espalhou entre os amigos. Todo mundo ficou em choque. O peso da palavra aids é muito forte. Eu nasci no começo dos anos 80, então eu me lembro da morte do Freddie Mercury, do Cazuza, do Renato Russo. Eu sei muito bem o que é a aids.
Mas jamais imaginei que pudesse acontecer tão perto de mim. Eu fiquei revoltada e perguntava: O que eu fiz de errado? Por que esse castigo? Por que Deus me deu as costas? E eu logo fiz o teste e o resultado, como eu esperava, deu positivo. Quando eu saí do posto de saúde, entrei no meu carro e dei um grito, que com certeza foi ouvido pela rua inteira. Segurei o volante e a minha testa caiu em cima da buzina, mas eu ignorei o barulho. Chorei por alguns minutos, até eu retomar o fôlego, secar o rosto e seguir pro trabalho. Era o primeiro dia da minha nova vida.
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Procurei uma psicóloga e, com a ajuda dela, um infectologista. O médico me acalmou. Ele me explicou que aids é uma coisa, HIV é outra. O HIV é o vírus causador da aids. E uma vez que a pessoa é infectada, ela vai ter o vírus pro resto da vida. Só que, embora não tenha cura, tem tratamento. Se a pessoa se tratar, ela não vai ter aids e vai morrer por outra causa.
Nos últimos dias de vida do meu namorado, quase ninguém ia ao hospital. Mas que tipo de pessoa eu seria se o abandonasse no momento que ele mais precisava? Eu tinha que fechar aquele ciclo. Numa sexta-feira à tarde, eu entrei na UTI e peguei na mão dele. Ele tava pesando 35 quilos. Eu disse: “Ontem eu peguei meu exame e deu positivo. Eu só queria que você soubesse que eu te desculpo. Um dia conversaremos sobre isso, mas não nesse plano. Eu te perdoo, vá em paz”. No dia seguinte, ele morreu, aos 40 anos.
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Nessa fase, eu usei todo repertório que eu tinha. Ia na terapia, tomava remédio pra dormir, rezava, lia o Evangelho Segundo o Espiritismo e fazia meditações. Por orientação da minha psicóloga, eu dizia pra todo mundo que o resultado tinha dado negativo. Só as minhas irmãs e uma amiga sabiam a verdade.
Eu comecei a fazer o tratamento com antirretrovirais. E eu tomo um comprimido por dia e não tenho nenhum efeito colateral. Por causa do remédio, eu tenho pouquíssimo vírus circulando no corpo. E aí, tanto a doença não evolui quanto eu não passo o HIV pra ninguém, mesmo se eu transar sem camisinha.
Ainda assim, eu tinha muitos medos. Como seria a minha vida dali em diante? Como seria guardar esse segredo pra sempre? Como eu poderia realizar o sonho de casar e ter filhos? O que leva tantas pessoas com HIV a esconder essa condição é o medo do preconceito e a dificuldade de aceitação.
Até os 31 anos de idade, eu nunca tinha feito um exame de HIV na vida. Nenhum ginecologista tinha sugerido que eu fizesse. Eu achava, inocentemente, que era uma coisa muito distante de mim. O meu critério, que hoje eu entendo como absurdo, foi confiar num cara pelo fato de que ele tinha pós-graduação e morava num bairro legal. Nunca me passou pela cabeça pedir exames pro parceiro antes de tirar o preservativo.
E qual era o meu crime? Transar sem camisinha com o cara de quem eu gostava? Eu nunca vou saber se ele me infectou de propósito. E se ele fez isso, ele é uma pessoa horrível, mas ele já pagou pelo crime dele. Eu de verdade não guardo nenhuma raiva, porque a culpa não foi só dele. Tem a minha parte também. Eu não me cuidei. A partir dessas reflexões, eu assumi a responsabilidade pelo meu erro e me absolvi. A pergunta que eu fazia lá atrás, “por que eu? por que eu?”, aos poucos virou “por que não eu?”.
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Aos poucos, eu comecei a me relacionar com outras pessoas. Só que eu não me sentia à vontade de ficar com um cara e já contar que eu tenho o vírus do HIV. Não existia a menor chance de eu infectar alguém, porque, além de eu não ter vírus circulante no meu corpo, eu sempre usava preservativo. Mesmo assim, os poucos homens pra quem eu contei sumiram do mapa. Eu não tenho raiva deles. Eu teria feito a mesma coisa no passado, antes de saber tudo que eu sei hoje.
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Isso mudou quando eu comecei a me relacionar com um colega de trabalho, o Rodrigo. Ele era meu amigo, a gente começou a sair e a coisa foi crescendo. Depois de alguns meses de relacionamento, ele pediu pra tirar o preservativo. Eu recusei e pensei numa estratégia pra falar a verdade. Primeiro, eu pediria pra ele fazer um teste de HIV. Ele veria que o resultado deu negativo e só então eu contaria tudo.
Mas o meu plano não saiu conforme o planejado. Antes que eu sugerisse o exame, a camisinha estourou durante uma transa. Eu fiquei desesperada. Ele falou: “Calma, você toma anticoncepcional e eu não tenho nada”. “Mas eu tenho!”, eu respondi. E assim, depois de um susto, eu contei tudo que eu tinha ensaiado. Pra minha surpresa, ele me abraçou e disse que não ia cair fora. Disse que tava comigo pra tudo. Eu chorei de alegria e de alívio.
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Nós não só continuamos juntos, como nos casamos e tivemos dois filhos, o João e a Olívia. O Rodrigo e eu somos o que se chama de casal sorodiferente, em que um é positivo e o outro negativo pra HIV. A gente engravidou pelo método natural e as crianças não têm o vírus, graças ao protocolo de tratamento feito durante a gestação e depois que os bebês nasceram.
Eu só não pude amamentar, porque o meu leite materno tinha uma carga viral. Os médicos tinham me garantido que, se a gente seguisse o tratamento à risca, a probabilidade de que eu passasse o HIV pros bebês era mínima. Mesmo fazendo tudo certinho, eu tinha muito medo. Uma das maiores alegrias da minha vida foi pegar o resultado negativo do João e da Olivia.
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Com o apoio do meu marido, eu tomei coragem pra contar a minha história pra todo mundo. Eu acredito que o preconceito não é só externo. Ele começa pelas pessoas que têm HIV e se escondem. Eu fui me sentindo na obrigação de esclarecer as bobagens que eu ouvia por aí. Eu não podia ser omissa.
Tipo num happy hour do trabalho em que alguém fez uma piada: “Ah, tá magro, hein? Tá com aids?” E todo mundo riu. Eu me posicionei: “Gente, não é assim. Eu tenho HIV e não tô cadavérica”. Já aconteceu também de alguém não querer beber no meu canudo, por medo de contágio. Se em 2023 a pessoa ainda acha que o HIV se pega pela saliva, eu fico triste não com ela, mas por ela.
A epidemia de aids já tem 40 anos e a gente ainda enfrenta os mesmos preconceitos e tanto desconhecimento. Esses dias eu recebi uma mensagem no Instagram que eu fiquei assustada. A menina contou que comprou um vestido no brechó e tinha uma marca de sangue. Ela queria saber se era possível pegar HIV.
Eu entrei no perfil dela e vi que ela era uma estudante de uma faculdade cara de São Paulo. É uma pessoa jovem com acesso à informação .E eu expliquei: “O HIV se pega pela relação sexual desprotegida, pelo compartilhamento de seringa e por transfusão de sangue. O vírus não sobrevive fora do corpo. Não tem a menor chance de você se infectar por um pingo seco numa roupa”.
Eu faço um trabalho de formiguinha, tentando ampliar o conhecimento sobre o HIV e quebrar o preconceito da sociedade. Eu tento mostrar que, mesmo com o vírus, é possível ser feliz, é possível ter saúde e é possível levar uma vida comum. A minha trajetória é igual a de qualquer outra pessoa: não é perfeita, mas é do jeito que tinha que ser.
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Geyze Diniz: Nossas histórias não acabam por aqui. Confira mais dos nossos conteúdos em plenae.com e em nosso perfil no Instagram @portalplenae.
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