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Ciúmes: como entendê-lo e como curá-lo?

Tão comum quanto nocivo, o ciúmes é parte da nossa gama possível e infinita de sentimentos, e envolve nosso cérebro mais do que nosso coração

14 de Dezembro de 2022


Se você foi jovem nos anos 2000, certamente assistiu a obra de Manoel Carlos, Mulheres Apaixonadas. Para além dos vários enredos possíveis que uma novela propõe, um deles se conecta com o nosso artigo: o ciúmes doentio da personagem Heloísa (Giulia Gam), que via em cada movimentação do seu marido, Sérgio (Marcello Antony), uma potencial ameaça ao relacionamento.

A palavra doentio aqui não é usada em vão: o ciúmes, quando em excesso, deve ser tratado como uma doença, uma condição que atrasa a vida da pessoa de quem sente e, claro, de quem é o objeto do sentimento. Há até um grupo de apoio - também mencionado na telenovela - para isso: o MADA, ou Grupo de Mulheres Que Amam Demais Anônimas. Sim, como um Alcoólicos Anônimos, mas aqui, o álcool não é o problema.

O ciúmes, é claro, não se trata de uma exclusividade feminina. Aliás, é bastante comum entre os dois gêneros e é fonte até mesmo de crimes passionais. Revogada em 2015, a Lei do Feminicídio (nº 13.104), prevê pena de 12 a 30 anos para homens que violentam mulheres de alguma maneira, motivados pelo fato delas serem isso: mulheres.


E, como sabemos, muitos desses crimes, classificados como “passionais” pela lei, são fonte desse sentimento de posse tão difícil que é o ciúmes. A seguir, explicaremos sua origem, seu trajeto em nosso cérebro e os caminhos possíveis para sentí-lo de forma moderada. 

A psicanálise e o ciúmes

Te contamos aqui neste artigo um pouco mais sobre os mecanismos da paixão no nosso cérebro, esse sentimento tão intenso e avassalador que ativa circuitos potentes e opera em nosso metabolismo como o uso de substâncias químicas recreativas - as drogas. 

“A paixão, do ponto de vista do cérebro, se assemelha a uma espécie de demência temporária, hipermotivacional, com características de estresse, obsessão e compulsão” explica o neurocientista e professor Pedro Calabrez em vídeo para a Casa do Saber. 

Com o ciúmes, o processo não é muito diferente. Para o psicanalista Guilherme Facci, em entrevista à Revista Gama, o ciúme é um dos sentimentos mais humanos que existem, comum desde a infância, e é considerado hoje como saudável se ocorre em certa medida.

Mas, se ele se torna persistente, se é baseado em um “imaginário inflacionado”, ou fundado em uma “verdade absoluta”, como descreve nessa entrevista, pode ser delirante e virar uma patologia próxima à paranoia. A investigação acerca do tema é tamanha que, ainda no começo do século, outro psicanalista - esse bastante famoso - se debruçou sobre o tema em um dos seus vários escritos: Sigmund Freud.

Em
“Alguns Mecanismos Neuróticos no Ciúme, na Paranoia e na Homossexualidade”, o considerado pai da psicanálise traça justamente esse mesmo paralelo citado por Guilherme, que é o do ciumento como um paranoico. Ele ainda fazia uma distinção: havia o ciúme normal, comum, corriqueiro; o projetivo, que ainda estaria dentro da normalidade; e o patológico, que seria o delirante.

Mas essa não é uma teoria absoluta e causa divergência entre os estudiosos.

Os níveis normais de ciúmes É difícil cravar essa questão, já que ela é individual e diz respeito também à linguagem de amor que aquele indivíduo foi exposto. Para alguns, ciúmes ainda é sinônimo de amor, e sua ausência indica uma clara falta de afeto.

Para outros, a movimentação é justamente contrária, e a natureza desses entendimentos podem ser múltiplas. Crianças que foram expostas a um relacionamento tóxico ainda na infância, por exemplo, podem entender o ciúmes como um modus operandi, ou seja, é assim que se ama quando se ama.

Outras, que buscaram a ajuda de um psicoterapeuta, por exemplo, podem ir para o caminho oposto e entender até o mínimo sinal de ciúmes como algo que as sufoca.  Para o especialista mencionado anteriormente, há algum nível de classificação possível. “No normal, tem alguém olhando para meu par, aquilo me incomoda um pouco. Tem algum apego ao objeto amoroso, um desconforto, mas que passa rápido, é algo que não se sustenta muito, é uma bobagem”, explica.

Mas esse duelo de sentimentos começa a se tornar um problema quando a certeza absoluta, aquela mencionada no tópico anterior, entra em jogo. É nesse imaginário muito inflacionado que mora o problema, o grande divisor de águas para um diagnóstico de uma psicose. O problema é que isso pode acontecer na neurose também, como ele prossegue.

O ciumento se aproxima muito de um paranóico justamente porque busca essa tal verdade que se quer chegar a qualquer custo. Mas, para a psicanálise, não há em nenhuma hipótese uma verdade absoluta.  “O problema já começa por aí: acreditamos que é possível encontrar o nosso objeto amoroso que vai nos completar. E é o primeiro equívoco. O segundo equívoco é que a gente vai poder apreender esse objeto, tê-lo”, explica.
É aí que se consagra o ciúme patológico: quando acredita-se que perder aquela pessoa é perder uma parte de si, o que não é verdade.  A falta que todos temos. Como te contamos neste artigo, segundo o famoso psicanalista francês, Jacques Lacan, nós só existimos a partir do olhar do outro.

Portanto, o que sabemos sobre nós mesmos é baseado em evidências que “nos contaram”. Exemplo: você sabe que tem uma personalidade forte pois cresceu ouvindo que tinha. Se considera uma pessoa engraçada pois sempre fez o outro rir. E assim por diante.
Partindo desse princípio, sabemos que o outro é imprescindível para que a gente se reconheça, por exemplo, dentro de uma relação - seja ela qual for!

O ciúmes entre irmãos, por exemplo, também é normal,
como mencionamos aqui. Mas é importante ressaltar que sempre haverá a falta, em todo ser humano. Nascemos faltantes e estaremos sempre em busca, pelo resto de nossas vidas, de preencher esses vazios que nos habitam.  Essa busca pode ser instigante, como a busca por um propósito, mas também pode gerar angústia e frustração.

Todos esses sentimentos são legítimos e válidos, fazem parte, e cabe a nós saber nomeá-los e gerenciá-los,
como mencionamos neste artigo É no processo de análise, por exemplo, que podemos entender que essa falta é estrutural. “Eu sei que eu não vou encontrar o objeto que me completa porque esse objeto não existe”, como pontua Guilherme.

E aí começa o entendimento de que, se esse objeto não existe, então sentir ciúmes de algo que foi produzido pelo meu inconsciente é uma batalha em vão, que só irá machucar e não terá de fato um fim. Há ainda quem relacione o ciúme ao ato sexual, o desejo que haja essa terceira pessoa imaginária para que então, durante o ato, haja a ilusão de que você está possuindo aquele objeto que o outro queira, mas que agora é seu.

E novamente: tudo isso é fruto da ilusão de controle.
Falamos dela por aqui também, lembra?  É tudo parte de crença, que afinal, é o que nos torna humanos em sua maior potência. Crer é intrínseco a nossa existência, e crenças são indiscutíveis porque são individuais, partem da experiência de vida daquele ser humano, como explicamos lá naquele comecinho. 

O problema é crer que um outro ser humano será seu, ou que o outro ser humano está tomando determinadas atitudes segundo o seu próprio olhar, o que posiciona tudo ainda mais no campo da imaginação, já que é impossível decifrar o que o outro está fazendo, essa é uma leitura somente sua.  

É possível curar o ciúme? A neurociência já identificou quais circuitos cerebrais são ativados quando a sensação dá as caras. Uma pesquisa publicada pelo Instituto Nacional de Ciências Radiológicas do Japão na revista Science, por exemplo, mostrou que quando sentimos inveja de uma pessoa - sentimento próximo ao ciúme - o córtex anterior cingulado (CAC), mesma área que está mais ativa quando sentimos dores físicas, funciona com mais intensidade. 

 Pesquisadores da Universidade da Califórnia em Los Angeles fizeram um experimento onde os participantes iam lentamente se sentindo excluídos e reforçaram a tese de que o CAC era intensamente provocado e deixava a pessoa à beira de um ataque de nervos. Ainda, de acordo com uma pesquisa publicada na "Frontiers in Ecology and Evolution" e reveladas neste artigo, o ciúmes faz com que níveis de testosterona – ligados à agressividade e competitividade – e de cortisol – um indicador de estresse do organismo – aumentem exponencialmente.

Se a dor de um ciúmes pode ser comparada a uma dor física, então parte-se do princípio de que há um remédio para curá-la. Mas, infelizmente, ainda não há nenhuma droga dessa natureza fabricada, apesar das incessantes buscas. Isso porque o mecanismo neuroquímico exato por trás desses sentimentos ainda não foram decifrados de maneira exata. 

Mas,
como explica esse artigo da Revista Galileu, o processo para se chegar a um novo composto e comercializá-lo é longo, demanda muito investimento de tempo e de dinheiro, além das várias etapas de segurança obrigatórias que devem ser submetidas.  O que já se sabe é que seria uma droga comparável às que já conhecemos, ou seja, tarjada, vendida controladamente e sempre com a indicação de um acompanhamento de psiquiatra e psicólogo juntos.

Esses, aliás, já podem ser usados para atenuar a dor de quem sente ciúmes, mas tratando seus sintomas finais, como uma depressão ou a ansiedade que o sentimento causa. Ele pode ser entendido até mesmo como um TOC, mas isso tudo, claro, com indicação. Por fim, uma outra possibilidade cogitada pelos pesquisadores e levantada pela Galileu é desenvolver uma terapia baseada em estimulação magnética transcraniana (EMT), uma técnica, que consiste em emitir correntes elétricas que alteram a atividade cerebral.

Porém, a técnica, já usada em tratamento de doenças como depressão, mal de Parkinson e enxaqueca, só pode ser aplicada na superfície do cérebro, mas os circuitos do ciúme e da dor social se localizam mais profundamente no órgão. Por ora, olhar profundamente para o que causa esse transtorno segue sendo a melhor saída possível.

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Chitãozinho e Xororó em “Os bastidores do sucesso”

Na terceira temporada do Podcast Plenae - Histórias para Refletir, conheça a trajetória de companheirismo e trabalho de Chitãozinho e Xororó

20 de Dezembro de 2020


Leia a transcrição completa do episódio abaixo:

[trilha sonora]


Chitãozinho: O meu irmão e eu somos muito diferentes. Eu puxei o nosso pai. Sou sonhador, gosto de comunicar. Faço churrasco no final de semana em casa, tomo meus vinhos, gosto muito de ir pra fazenda e curtir a natureza. O meu irmão já puxou a nossa mãe. Ele não sai de casa, é mais retraído e até eu brinco com ele, falo assim: que ele não quer viver, quer durar. Xororó: O Chitão é coração. Muito alegre, extrovertido, gosta de viver a vida em todos os sentidos. Eu já sou contido, penso mais, gosto de tudo certinho. Mas eu acho que essa diferença nos completa e traz o equilíbrio da dupla. No palco, a nossa parceria deu tão certo, que já se vão 50 anos. [trilha sonora] Geyze Diniz: Irmãos, sócios, amigos. Todas essas relações envolvem dedicação. Manter todas elas juntas com a mesma pessoa e alcançar o sucesso envolve muita sabedoria e amor. Hoje vamos mergulhar na emocionante história de uma das duplas mais conhecidas, amadas e longevas do Brasil: Chitãozinho e Xororó. Ouça no final do episódio as reflexões da professora Lúcia Helena Galvão para ajudar você a se conectar com a história e com você mesmo. Eu sou Geyze Diniz e esse é o Podcast Plenae. Ouça e reconecte-se. [trilha sonora] Chitãozinho: Eu sou o filho mais velho de oito irmãos. O Xororó é o segundo, dois anos mais novo que eu. É lá na cidade de Rondon, no norte do Paraná, a gente morava numa serraria, porque o nosso pai era motorista de caminhão e transportava madeira a semana toda. E a nossa casa era uma casa muito pequena, muito humilde, com fogão a lenha, com lamparina, não tinha eletricidade. E rádio a gente só ouvia à noite, no escritório da serraria. A gente sentava na varanda e ficava ouvindo as duplas sertanejas que faziam o programa nas rádios de São Paulo, então, a gente ouvia Tonico e Tinoco, Jacó e Jacozinho, Tião Carreiro e Pardinho, Zico e Zeca… Muitas duplas que são muito importantes até hoje na história da música sertaneja.  Xororó: Nós tivemos uma infância com muita liberdade de correr, brincar, jogar bola empinar pipa, bolinha de gude, rodar pião. Aquela coisa gostosa do interior, que já não se vê mais, principalmente nas grandes cidades. Eu acho que a minha parceria com o meu irmão começou aos 7 anos, ele 9, né, 2 anos mais velho do que eu. Ele era responsável por me levar pra escola e trazer, claro. E era bem distante de casa, tinha uns 2 quilômetros, eu acho. A gente ia por uma estrada de terra, aqueles dois molequinhos. Chitão: Bem, a influência da música veio do nosso pai, seu Mário. Na adolescência, ele fez a primeira dupla com o João Mineiro, que depois, mais tarde, veio a fazer sucesso com a dupla João Mineiro e Marciano. Nosso pai teve que deixar o sonho de ser artista pra trás, e foi pro Paraná, lá ele construiu a família, mas continua sempre cantando e compondo. E nosso pai passava a semana toda viajando, transportando madeira. Quando ele voltava, ele pegava o violão e cantava com a nossa mãe as músicas que ele ficava ensaiando durante a viagem. Como não tinha gravador, eles repetiam as músicas várias vezes. A nossa irmã, a Rosária, um dia rasgou o caderno de música dele, de composição. Ele queria lembrar uma música e ficou muito bravo. Ele já estava pensando em dar uma surra na Rosária, aí eu falei: “Não, pai, se for a música tal, fica tranquilo que nós sabemos cantar”. Aí a gente começou a cantar. O Xororó que tem a voz aguda, começou imitar a mãe, e eu comecei a imitar a voz do pai, que é mais grave. Aí nós começamos a cantar a música "Cortando a Estrada". Xororó: Quando nosso pai nos ouviu cantando pela primeira vez, ele ficou bobo e falou: “Nossa, vocês sabem cantar direitinho. Quem que ensinou?” Nós falamos: “Pai, foi o senhor e a mãe. Quando vocês cantam aqui em casa a gente fica perto ouvindo, e assim a gente aprendeu”. Aí ele falou: “E o violão? Quem ensinou? Vocês sabem?". "É, a gente também sabe um pouquinho, lá, o ré, o dó." Aí mais uma vez ele falou: “Daqui pra frente, eu vou ensinar pra vocês tudo que eu sei." E assim começou a dupla Os Irmãos Lima. [trilha sonora] Chitão: Bem, o nosso pai começou a mostrar a gente pra todo mundo, né: na escola, na igreja, onde tivesse festa ele tava colocando a gente pra cantar. E tinha um programa de calouro na cidade, lá no clube, lá em Rondon que o prêmio que a gente ganhava dava pra comprar pipoca, dava pra comprar ingresso do cinema. E a gente adorava porque era matinê todos os domingos. A gente ganhava o prêmio e já comprava o ingresso e ia assistir o filme. E eu me lembro que uma vez, a gente tava no meio de um filme do Mazzaropi, um filme muito engraçado, e o nosso pai entrou na sala, assim, de cinema achou nós dois em um cantinho lá, tirou a gente da plateia. Eu falei: "Pai, mas nós 'tamo 'vendo filme". E ele falou: "Não, nós vamos ter uma festa de aniversário na casa de um compadre, o fulano de tal, e eu prometi de levar vocês lá pra cantar. E nós saímos chorando do cinema de tanto que a gente gostava. Aí no caminho ele foi consolando a gente, acabou nosso choro e chegando na casa do nosso cumpadre começamos a cantar. E ele fazia sempre isso com a gente, ele adorava ver a gente cantando e adorava ver a plateia se emocionando com a gente, desde criança.   [trilha sonora] Bem, quando eu tinha 12 anos, a gente teve que mudar pra São Paulo. O nosso pai quis sair do interior porque a nossa mãe, ela tinha uma doença, ela era bipolar, que a gente veio descobrir isso muitos anos depois. Mas, aí ele aproveitou para fazer o tratamento da nossa mãe numa clínica em São Paulo e começar a mostrar a gente nas rádios.  Xororó: Na mudança, a nossa mala era um saco, o cadeado era um nó. Eu me lembro direitinho como se fosse hoje. Nós de calças curtas, que era como os meninos usavam naquela época, final dos anos 60. Viajamos na carroceria de um caminhão de Rondon até Londrina. Pegamos um trem e descemos na Estação da Júlio Prestes, em São Paulo. Nosso pai arrumou emprego como motorista de ônibus na cidade de Mauá, no Grande ABC, e nos mudamos pra lá. Ele canalizou aquele sonho da música na gente. Um dia, seguindo o conselho da nossa avó, a mãe dele, né, a vó Maria, ele nos levou para conhecer Geraldo Meirelles, que era um apresentador de programas de rádio e televisão. Quando ele nos ouviu pela primeira vez, ele falou: "Caramba, vocês são muito afinados, mas Irmãos Lima, nem pensar." E sugeriu Chitãozinho e Xororó, que era o nome de uma música do Athos Campos e do Serrinha, que fala sobre dois inhambus, inhambu chitão e o xororó, dois pássaros que cantam muito  bonito. A gente chegou em casa revoltado. Particularmente eu, né, achei que esse nome era horroroso, muito caipira. Caramba, cantar música sertaneja com nome de Chitãozinho e Xororó, nada a ver. O Chitão, pra me zoar, me chamava de Xororó e eu falava: “Que Xororó o quê, rapaz!? Meu nome é Durval!” [trilha sonora] Chitão: Quando eu fiz 14 anos, a gente era muito pobre e passava muita dificuldade e eu não via a hora de completar 14 anos pra ajudar, pra começar a ganhar um dinheiro. Inclusive, eu até parei de estudar pra começar a trabalhar. E aí, nosso pai me arrumou um emprego de cobrador de ônibus na viação Barão de Mauá. Foi meu primeiro emprego, já fui lá tirei minha carteira de trabalho, eu tenho ela até hoje. Mas esse emprego durou apenas um ano, porque a música já tava tomando espaço na nossa vida, graças a Deus. Xororó: O Geraldo Meirelles tinha um programa na Rádio 9 de julho e arrumou pra gente um horário pra cantar ao vivo às sextas-feiras, às sete e meia da manhã. Nós morávamos em Mauá, a emissora ficava na Vila Mariana. A gente acordava às 4h da manhã, 'caminhava' 20 minutos, pegava um ônibus por mais 20 minutos, depois 40 minutos de trem até a Estação da Luz, mais 20 minutos de ônibus até chegar a rádio. Dois moleques sozinhos, com dois violões. Foi lá que a gente cantou pela primeira vez a música Galopeira. Aí, gravamos um disco e a nossa carreira começou profissionalmente. Isso foi em 1970. [trilha sonora] Chitão: Bem, como eu sou o irmão mais velho, eu sempre tomava a frente de tudo. Era meio que o empresário da dupla, marcava shows, fazia contato, marcava entrevista, programas de rádio… Onde tinha música eu queria colocar a gente pra cantar, e eu acho que aprendi isso com o nosso pai, de correr atrás. Eu não gosto de ficar em casa parado, tô sempre falando com alguém. E o Xororó não, o Xororó é completamente diferente de mim. Ele fica em casa, ele compõe, ele ensaia. Ele tem tempo para ser o profissional bacana que ele é. E isso fez a gente demorar um pouquinho pra gente se ajustar, porque no início, chegou uma época, eu fiquei tão me sentindo importante, que eu fiquei meio que autoritário. E isso eu nem percebia. E na medida que o meu irmão foi crescendo, ele também foi ficando adulto, ele foi entendendo que ele também tinha o espaço dele ali dentro. E ele começou a dar as opiniões dele, coisas que eu fazia que ele não concordava. Ele começou a falar e eu demorei um pouco pra entender que ele também tinha os direitos dele. Mas depois a gente aprendeu a respeitar o espaço de cada um e hoje a gente se respeita muito e ele até fala uma frase que eu acho muito bacana: "O meu espaço termina onde começa o seu". E essa é nossa filosofia até hoje.   [trilha sonora] Xororó: Em 72, Seu Geraldo montou uma caravana e fomos nós fazer o nosso primeiro show em praça pública, pra mais de 10, 15 mil pessoas. Éramos dois adolescentes de 16 e 14 anos. A banda de abertura tocou um baita som. Nós entramos em seguida, só com dois violões acústicos, o som foi lá pra baixo. Quando acabou o show, a gente falou com Seu Geraldo: “Seu Geraldo, não dá pra cantar com dois violões. A gente precisa de instrumentos eletrônicos”. O Geraldo falou: "Eletrônicos?" Sim, e aí veio a ideia de montar a nossa primeira banda, um conjunto, como se falava naquela época. Isso era algo inédito pra música sertaneja. Chitão: Mais ou menos em 1972, por aí, nós conseguimos comprar um fusca e a gente saiu fazendo show em circo com esse fusca. Aí nós fomos pro Paraná em 1975 e lá deu uma geada muito forte e arrasou a economia do estado, então o dinheiro que nós ganhamos lá, a gente gastou lá mesmo. E quando nós chegamos em casa nossos irmãos e nossos pais estavam passando muita necessidade. Aluguel atrasado, não tinha comida em casa … O único bem que a gente tinha era o Fusca. Então a gente pensou assim, vamos dar um tempo na carreira, vamos vender esse Fusca e usar esse dinheiro pra pagar as contas e de repente a gente arruma um trabalho. E esquece um pouco a música porque não tá dando pra sobreviver. Eu ia muito lá no Bar do Café, no Largo do Paissandu, pra encontrar o pessoal de circo que vinha pra contratar shows. Então, eu voltei pra lá, eu e Xororó voltamos pra lá pra ver se a gente encontrava com alguém. E pensando seriamente, dentro do carro, um conversando com o outro, ali por perto da Avenida São João, aí eu falei: "Ai Xororó, vamos ter que vender esse carro, e não tem jeito, nossa vida tá muito difícil." E isso no rádio começou a tocar a música Tente Outra Vez do Raul Seixas, ele 'tava' lançando aquele disco. Xororó: Quando a gente ouviu a letra, parecia um sinal. A gente não podia parar. Precisava tentar mais um pouco. O Chitão teve uma ideia de falar com a gravadora e pedir um adiantamento pro próximo disco. Com aquele dinheiro, conseguimos pagar as contas e encher o tanque do Fusca e tentar de novo. Depois daquele dia, tudo começou a dar certo. [trilha sonora] Xororó: Naquela época, as duplas sertanejas que faziam boas bilheterias nos circos apresentavam uma peça antes do show, pra atrair o público, né. Por mais de três anos, nós também fizemos a nossa, né, que se chamava O Pistoleiro da Ave Maria. O meu personagem era um cowboy bebum que se chamava Johnny. Em paralelo, nós gravamos um disco, e as músicas começaram a tocar muito nas rádios. Chegou ao ponto em que o povo não queria mais a peça, queria música. Era só a gente começar a peça e o povo começava: “Canta! Canta!”. Isso foi em 79 com o disco 60 Dias Apaixonado Foi o nosso primeiro Disco de Ouro. A gente vendeu mais de 250 mil cópias! Antes disso, não passava de 10 mil. A nossa consagração veio mesmo em 82, quando gravamos o nosso oitavo álbum: Somos Apaixonados, que ultrapassou a marca de 1 milhão e meio de cópias vendidas. A gente sabia que a segunda faixa daquele LP seria um sucesso. Mas achou que o nome da música não era, assim, tão sugestivo pro título desse disco. Somos Apaixonados parecia mais vendável do que Fio de Cabelo [trilha sonora] Chitão: Fio de Cabelo foi a primeira música sertaneja a ser tocada nas rádios FM. E nós começamos a ser convidados também para participar de programas de televisão que, até então, nunca tinham levado uma dupla sertaneja. A gente era jovem, tinha uma aparência bacana e se apresentava de uma forma bem profissional. Xororó: Eu me lembro que, naquela época, o Silvio Santos chamou a gente pra fazer um programa no SBT todo domingo e ali a nossa imagem ficou muito muito conhecida. Aí nós fizemos muito sucesso mesmo. Então, foi muito importante a música Fio de Cabelo. E a gente sempre cuidou da nossa carreira. Naquela época na televisão a gente começou a usar cabelo grande, usar umas roupas mais incrementadas. E a gente tinha visto o Rod Stewart no Rock in Rio com aquele cabelo arrepiado e comprido atrás. Nós começamos a imitar e como a gente 'tava' na televisão, o nosso corte de cabelo virou sucesso nacional e as pessoas passaram a ir no cabeleireiro e pedir pra cortar o cabelo igual o do Chitãozinho e Xororó. [trilha sonora] Chitão: O nosso pai ele chegou a ver, assim, um pouco do nosso sucesso porque ele faleceu em 83. Ele morreu muito jovem, com 51 anos, e ele chegou a acompanhar a gente, assim, em alguns shows. Então ele começou a sentir um pouco o sucesso da música Fio de Cabelo e, infelizmente, ele se foi muito cedo, mas ele deixou um legado muito bacana. Ele não só, colocou a gente no caminho da música, como eu acho que essa harmonia, né, que existe entre nós se deve muito ao sonho que nós realizamos do nosso pai, que o sonho dele sempre foi fazer de nós dois uma dupla famosa.  [trilha sonora] Xororó: A nossa parceria deu tão certo que eu nunca me vi fazendo um disco solo. Já tivemos muitas brigas feias, sim. Todo irmão tem, né. A gente pensa muito diferente em muitas coisas, mas o nosso privilégio é ter a música como nosso elo, nossa força, nossa paixão em comum. Esse amor supera qualquer desavença. Nas vezes em que a gente se desentendeu, o ranço fica pra trás quando pisamos no palco. Começamos a cantar, aí tudo muda. A música é o nosso remédio, nossa alma, nossa vida.  [trilha sonora]

Chitão: É muito comum, né, as duplas serem formadas por irmãos, porque é muito mais fácil e quando você aprende tudo junto, né, já vem um pacote mais pronto. Esse vínculo, assim, do convívio de viver a dois, não é uma coisa muito fácil. Mas quando se é irmão, a gente briga em família e não guarda rancor, sabe, não guarda mágoa de ninguém. Eu mesmo sou assim. Eu e meu irmão nós somos muito diferentes. Eu tenho um comportamento, ele tem outro. Eu penso de um jeito, ele pensa de outro, só que na música nós somos muito parecidos. E isso prevalece sempre no nosso convívio, então entre nós, mesmo que a gente tenha uma discussão, às vezes, mais severa por um motivo ou outro, não fica rancor. Dali uma semana já acabou a briga e a gente tá em paz novamente.  Xororó: O principal fator pra longevidade da nossa carreira acredito que seja o respeito que a gente entre nós e, mais ainda, pelo nosso público. As pessoas parecem que consideram a gente como se fosse a família delas. A gente sente esse amor do fã quando ele quer uma atenção, uma palavra, uma foto. Eu acredito que a gente tem como missão usar o nosso dom pra tocar os corações. A música pode transportar o ser humano pra outro lugar, de fazer uma pessoa lembrar de um grande amor, de uma viagem. Faz um bem danado pra alma. Esse amor é o que mantém a gente juntos nesses 50 anos e sabe lá Deus quanto tempo mais. Enquanto nossos fãs curtirem o que a gente faz, a gente vai continuar cantando, vai seguir. [trilha sonora]

Lúcia Helena Galvão: Dá pra gente dizer que o Chitãozinho e o Xororó são duas pessoas que sabem aproveitar o melhor que a vida oferece. Da infância pobre, lembram dos jogos e brincadeiras. Do pai, lembram que passava a semana toda ausente, mas lembram do retorno e da bela cantora em dueto com a mãe. E o pai, seu Mário, não deixou só o sonho de artista e as boas lembranças, deixou o símbolo de paternidade que fez com que os dois irmãos jamais se esquecessem que eram irmãos. E esse sentimento permitiu que passassem por cima de todas as dificuldades de convivência. E se todos nós lembrássemos que também temos um único pai, quem sabe o que poderia acontecer conosco? É, esses dois rapazes não sabem só cantar, são muito bons de ouvido também, sabem ouvir a vida. Ouvem e decoram pra não perder jamais a lição, mesmo que as dificuldades arranquem algumas folhas do caderno. E deve ser por isso que tocam tanto o coração das pessoas com a sua cantoria. É a vida recolhida pelo caminho que canta com eles.  [trilha sonora] Geyze Diniz: Nossas histórias não acabam por aqui. Confira mais dos nossos conteúdos em plenae.com e em nosso perfil no Instagram @portalplenae. [trilha sonora]

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