Para Inspirar

Celso Athayde em “A busca diária para a melhor versão de mim”

Fundador da CUFA, Celso Athayde conta no Podcast Plenae como fez a exceção se tornar regra para milhares de brasileiros

18 de Outubro de 2020


Leia a transcrição completa do episódio abaixo:

[trilha sonora] Celso Athayde:  Eu quero ser o cara mais rico do mundo. Mas, quando eu falo de riqueza, não é o dinheiro pelo dinheiro. Não é o dinheiro pelas coisas que ele pode comprar, nem o dinheiro pelo poder que ele pode me dar. É pela possibilidade de transformar. Porque eu acredito no meu valor. Mas meu projeto de vida, ele é coletivo. [trilha sonora] Geyze Diniz: Tive oportunidade de conhecer o Celso durante a pandemia e minha admiração por ele nesse período só aumentou. Sua capacidade de mobilizar e inspirar os outros é contagiante. No final do episódio, você ouvirá reflexões do doutor Victor Stirnimann para te ajudar a se conectar com a história e com você mesmo. Eu sou Geyze Diniz e esse é o Podcast Plenae. Aproveite este momento, ouça e reconecte-se. [trilha sonora] Celso Athayde: Eu sou do Rio de Janeiro, da Baixada Fluminense, de uma cidade chamada Nilópolis, onde tem a Beija-Flor. Com seis anos de idade eu fui morar na rua, porque meus pais se separaram. Minha mãe e meu pai eram alcoólatras, brigavam todos os dias. Eu nem me lembro direito dessa época. Só consigo lembrar das brigas e que a gente morava numa favela no bairro do Cabral. Quando minha mãe resolveu ir embora de casa de verdade, eu e meu irmão fomos juntos com ela. Como minha mãe não tinha pra onde ir, a gente foi pra debaixo de um viaduto em Madureira na expectativa de que na semana seguinte a gente ia dar um jeito. Só que esse jeito nunca foi dado e passamos esse tempo ali, na condição de pedintes.  [trilha sonora] É claro que ninguém deveria morar na rua, mas foi ali que eu vivi a minha primeira experiência que iria mudar minha vida.  [trilha sonora] Eu conheci um cara que morava na rua também, como eu, e que dizia que antes de estar nessa situação, ele era empresário. Ele tinha tido um emprego, uma casa com piscina, uma família, escola pros filhos, viagens pro exterior... Pra muita gente, a história dele era a de um cara que perdeu tudo, mas eu enxerguei outra coisa ali. Eu enxerguei o cara que já teve tudo. E se ele estava ali, eu comecei a acreditar que comigo podia acontecer o inverso. Se ele perdeu tudo, então eu poderia conquistar tudo. Aí eu passei a sonhar com essas coisas. Eu passei a ter esperança e aumentar a régua da expectativa do que eu podia alcançar. [trilha sonora] Algum tempo depois, eu tinha mais ou menos 13 anos, uma enorme enchente acabou fazendo a gente sair do viaduto. Então fomos remanejados para um abrigo público  chamado Pavilhão de São Cristóvão e, de lá, para a Favela do Sapo, em cima do Camará, onde fui criado. Lá, conheci um outro cara super interessante, infelizmente ligado ao tráfico, um dos fundadores do Comando Vermelho. As histórias dele sobre o crime não me seduziam, mas suas ideias sobre a revolução social sim. Eu sentia que não queria fazer parte daquilo que ele fazia, mas queria fazer aquilo que ele dizia. E sempre que ele me falava de fazer contato com pessoas de fora da favela e abrir outras possibilidades, isso sim, alimentava em mim um jeito de pensar que marcaria para sempre o meu jeito de ser e de trabalhar.  Pensando nisso, fui trabalhar como camelô em Madureira e então reencontrei o viaduto onde eu havia morado, já com essa crença da possibilidade de uma transformação social e pessoal dentro de mim. Comecei, então, a organizar um baile de charme, um ritmo que bombava na favela e esse baile começou a ficar famoso. Nessa época, comecei a organizar também alguns encontros, que a gente chamava de Informe. A gente se encontrava em um espaço da favela em que as pessoas pudessem falar qualquer coisa que estivessem pensando. Alguém levantava um tema e a gente então passava um sábado inteiro conversando sobre aquilo. Aparecia de tudo: cinema novo, Tropicália, energia nuclear... Não importava o assunto, a gente estava ali para buscar algum tipo de identidade e não, necessariamente, para aprender algo. [trilha sonora] Foi assim que, em 1998, eu me encontro com o rap, com os Racionais MCs, que trouxeram outra energia contestadora para a história. Esse momento é importante porque os Racionais me ajudaram a organizar na minha cabeça uma série de sentimentos que eu já tinha, mas que estavam embaralhados e desconectados ainda. Uma vez que eu estruturei essas emoções, elas se desdobraram em ideias e pensamentos sobre o que realmente é importante pra mim. Isso me fez entender que eu era preto e ser preto era pertencer a algo maior. Isso me fez entender que o que eu precisava pra mim e pras pessoas à minha volta era, na verdade, uma jornada coletiva. Isso me fez entender onde eu estava, onde eu queria chegar e - principalmente - como eu poderia chegar. Isso é muito grande. Nessa mesma época eu conheci o rapper MV Bill. Ele fazia parte do movimento hip hop e também de vários grupos, e estava começando a tentar fazer algumas ações com os Racionais. Então me tornei empresário dos dois, tanto dos Racionais como do MV Bill, e fizemos vários shows. Assim nasceu a CUFA, da ideia de transformar nosso inconformismo em atitude, em transformar o discurso do rap em ações práticas. Porque eu percebi que se eu não era feliz em ser quem eu era, se eu nunca aceitava o destino que eu achava que planejaram pra mim, então era preciso mudar. Esse espírito era tão forte que ficou na organização mesmo depois de eu deixar de fazer parte dela formalmente. A CUFA é, como sempre foi: a tentativa de continuar democratizando o conhecimento, mas também levar para os territórios um estímulo e um sistema para pessoas conseguirem transformar os seus discursos em ações. Em realizar a partir do que elas pensam, e não apenas reproduzir algo que ouviram de alguém por aí. Quero que as pessoas se tornem responsáveis por si mesmas, que tenham a insatisfação que eu sempre tive com a situação em que estou e que me faz o tempo todo querer melhorar.  [trilha sonora] Eu até lembro que minha mãe sempre dizia: "Filho, tu quer fazer tudo ao mesmo tempo, deixa de ser olho grande, rapá”. Mas ela também sabia que eu sempre precisava ir para o ponto seguinte. Essa vontade de alterar o cenário em que eu vivo está no centro da CUFA. Cada sonho que eu materializo não abre somente espaço para eu sonhar com outras coisas, abre principalmente espaço para outras pessoas sonharem com aquilo também. É assim que vou seguindo, caminhando, trilhando, buscando novos objetivos. Porque eu quero que cada vez mais gente tenha voz no caminho, que mais gente mude de vida. Queremos conscientizar a base da pirâmide na potência que ela tem. Fazemos isso por meio de oficinas de capacitação profissional e ações que elevam a autoestima da periferia e das favelas. Não queremos deixar ninguém para trás e, por isso, abraçamos tudo que existe na favela, tudo que existe nas periferias. Por isso, q​uanto mais pessoas da CUFA falarem, mais histórias inspiradoras a gente constrói, mais vidas são mudadas. E assim temos pessoas como Preto Zezé, do Ceará, que hoje é o presidente global da CUFA empossado em Nova York, na sede da ONU. E muitas outras pessoas têm espaço e falam. A divisão de poder e de vozes, sempre foi uma marca que eu achei legal em mim, uma característica minha que eu levo para todas os movimentos que eu faço e também para minha vida. ​Foi com essa estratégia que expandimos e hoje atuamos em todos os estados brasileiro, no Distrito Federal e em mais de 15 países. Esse processo fez a gente entender que se aumentar o número de vozes era legal, aumentar o número de ritmos era mais importante ainda. Por isso, apesar de estarmos com o rap há 20 anos, hoje tem gente que trabalha na CUFA e nem de hip hop gosta. Criamos projetos que trabalham com cultura de maneira ampla e também com educação, lazer e esportes. Nossas ações são para a favela entender que ela é importante, não importa o caminho. E tudo isso depende de dinheiro, sim. Quando a gente monta ações na CUFA que trazem dinheiro, conseguimos investir muito nas favelas, financiando organizações e a própria instituição. Esse pensamento me levou a deixar a CUFA para trabalhar em outra frente e formar a Favela Holding, que hoje tem 20 empresas. A grana que conseguimos lá, uma parte fica na própria holding e outra parte repassamos para a CUFA em forma de doação, para que ela possa desenvolver suas ações de forma sustentável. Eu chamo isso de "movimento social por vias econômicas". Acredito em mudar a realidade de uma população investindo em crescimento econômico e na distribuição de renda. O dinheiro não traz a felicidade direta, mas traz a autonomia. E só quem tem autonomia poderá ser feliz. É essa a mentalidade e a forma de trabalhar que hoje estou sistematizando para criar um documento que sirva para outras pessoas que também queiram atuar por uma transformação coletiva. Minha vontade é chamar organizações sociais que existem por aí e mostrar para elas o que fizemos e como é que elas podem ser nacionais também. Eu não quero o monopólio do bem, ao contrário, quem quer o monopólio do bem só vai conseguir fazer o mal. [trilha sonora] Hoje, com 57 anos, eu sigo insatisfeito com o lugar onde estou e com o que eu construí.  [trilha sonora] Mas insatisfação não é sinônimo de infelicidade. O fato é: eu não consigo ficar dormindo esperando o tempo passar, sabendo que tem uma guerra lá fora e com milhões de pessoas precisando de nós. Por isso, sigo buscando, agora na Favela Holding, as mesmas coisas que busquei a minha vida inteira, que foi liberdade, dinheiro, uma fonte de sobrevivência e independência. Criar bases para as pessoas deixarem o lugar de invisibilidade e serem protagonistas das suas próprias histórias é a nossa grande meta, é a nossa missão. Os invisíveis são invisíveis, então cabe às pessoas que têm fala pública a responsabilidade de ajudar a mudar essa história. Por isso, falo com todo tipo de gente, de todas as realidades e contextos, com empresas, políticos e com o máximo de pessoas que eu posso articular. Tenho como princípio que transitar é o nosso plano de paz, sem nunca abandonar quem eu sou, sem nunca pensar no meu sucesso ou no sucesso da CUFA como as exceções do lugar de onde eu vim. Mas em transformar isso em regra. E por esse projeto eu não paro de trabalhar nunca.

[trilha sonora]

Victor Stirnimann: Esta história é uma autêntica jornada do herói. Para quem conhece os mitos, está tudo ali. Um começo inocente exposto a perigos e desafios que poderiam representar o fim da linha ou mesmo um mergulho sem volta no lado mais escuro da alma. Mas o herói é aquele que está sempre aprendendo e que sempre põe em prática aquilo que aprendeu. Isto exige humildade, desapego, mas leva um super-poder. Para alguém assim, cada pessoa que cruza seu caminho se torna um professor. Ouvir o Celso é perceber como ele se tornou um líder e um exemplo apesar das dificuldades. Ele teve encontros com pessoas que foram abrindo seus olhos para horizontes cada vez maiores e criou novas metas e iniciativas a partir dali, com a coragem de quem tem muito pouco a perder e com o coração alimentado de ideais, que é a marca registrada de todas as grandes almas. Ideais que não deixam esquecer que a batalha de um é a batalha de todos e que a verdadeira razão de ser do herói é a transformação do coletivo de onde ele partiu. Porque a mensagem maior de toda sabedoria é sempre a mesma: a vida é uma grande aventura. Estamos todos aqui para fazer descobertas, para nos expressarmos, para evoluir e transformar. Por isso, não importa se você conhece os mitos, os mitos conhecem você.

[trilha sonora] Geyze Diniz: as nossas histórias não acabam por aqui. Acompanhe semanalmente nossos episódios e confira nossos conteúdos em plenae.com e no perfil @portalplenae no Instagram.  [trilha sonora]

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Para Inspirar

Marcos Piangers em “Paternidade é afeto”

Na quinta temporada do Podcast Plenae - Histórias para Refletir, conheça a paternidade afetuosa do escritor Marcos Piangers

6 de Junho de 2021


Leia a transcrição completa do episódio abaixo:

[trilha sonora]

Piangers: Eu devia ter uns 4 ou 5 anos quando perguntei pra minha mãe, Heloisa: “Por que todo mundo tem pai e eu não?”. Eu lembro que ela ficou desestabilizada com a pergunta. Acho que por isso essa passagem ficou tão marcada na minha memória. 

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Geyze Diniz: Ele já escreveu dois livros sobre sua experiência como pai, mas sua história com a paternidade vai além dessas páginas escritas. Piangers passou mais de 35 anos sem saber quem era seu pai biológico, e metade desse tempo se preparando para ser o melhor pai do mundo para suas filhas, Anita e Aurora. 

Conheça a história cheia de emoção,  cuidado e amor de Marcos Piangers. Ouça, no final do episódio as reflexões do rabino Michel Schlesinger para te ajudar a se conectar com a história e com você mesmo. Eu sou Geyze Diniz e esse é o Podcast Plenae. Ouça e reconecte-se. 

[trilha sonora]

Piangers: Não é nada fácil a vida de uma mãe solo. A gente morava só nós dois num apartamento pequeno, em Florianópolis, e meus avós cortaram relação com a minha mãe quando descobriram que ela engravidou antes de casar. Eu só fui conhecer os meus avós quando eu tinha 2, 3 anos, depois de muito esforço de uma amiga que intermediou as relações. 

Eu cresci sonhando com quem seria o meu pai. A gente tem essa narrativa do herói muito forte na nossa produção cultural, e eu ficava pensando: será que ele é o Super-Homem? Ou ele é um ator famoso? Um jogador de futebol? Um milionário? Mas também tinha o outro lado: e se ele fosse um vilão? Um bandido? Uma pessoa ruim? 

[trilha sonora]

Na adolescência, quando eu perguntava pra minha mãe quem era o meu pai, ela sempre repetia que era ela. Eu acho que ela tinha medo de me contar, de eu ir atrás e me magoar com a reação dele. Aquela coisa de mãe protetora sabe? Eu acho que ela se sentia até orgulhosamente empoderada de me criar sozinha. De provar pro meu pai biológico e pros meus avós, e pro mundo, que ela dava conta de pagar todas as contas e lidar com todos os desafios de ser uma mãe solo. Até hoje ela tem esse espírito forte de lidar com os problemas de uma maneira objetiva, de aparentemente não sofrer com os percalços da vida.   

[trilha sonora]

Depois de muuuuitos anos, ela me contou uma história que foi decisiva para não revelar quem era o meu pai. Ela conta que, quando eu tinha uns 3 anos, a gente foi na praia da Joaquina e eu ia de barraca em barraca pedindo picolé de molango. Ela ia atrás tomando conta de mim. Em um guarda-sol, o pessoal já estava meio bêbado e me deu caipirinha pra provar. Depois disso, eu pedia picolé de molango ou caipilinha. Aí todo mundo dava risada, era uma diversão na praia. Numa dessas barracas, eu encontrei o meu pai biológico. Ele reconheceu a minha mãe, mas virou a cara pra ela. Ela passou mal, quase desmaiou. Eu me lembro vagamente das amigas abanando, jogando água e falando: “O cara tá lá, o cara tá lá”. É claro que na época eu não entendi quase nada, mas fiquei angustiado de ver a minha mãe passando mal. Foi a partir desse dia que ela resolveu não me contar quem era o meu pai.

[trilha sonora]

Eu me casei e a minha esposa já estava grávida da nossa primeira filha, a Anita, quando eu fui perguntar pra minha mãe de novo: “Mãe, minha filha não vai conhecer o avô?” E ela disse: “Pra que você quer saber?”. Ia sempre desconversando.  

Quando a minha filha já tinha 8, 9 anos, a minha mãe descobriu um câncer. E aí ela resolveu me contar: seu pai tem esse primeiro nome, esse segundo nome, a gente se conheceu na empresa, teve uma história, ele fugiu quando descobriu que eu estava grávida, virou a cara pra mim na praia, se mudou de cidade e aí eu decidi que eu mesma ia criar você. 

Aquilo foi profundamente libertador pra mim, ouvir a verdade. Abracei ela e falei: “Que bom”. Meu pai não é um jogador de futebol, um empresário famoso, um milionário, mas também não é um bandido. É só uma pessoa comum que cometeu um erro. E isso me deu um alívio, tirou um peso das minhas costas. 

[trilha sonora]

Depois disso, por incrível que pareça, não me deu vontade NENHUMA de conhecer o cara. Primeiro, por respeito pela minha mãe, por ela ter ficado e cuidado de mim. Segundo, porque, naquela altura, eu preferia dedicar o meu tempo, a minha energia, para minha esposa, pras minhas filhas, pros meus amigos, e pra minha mãe, em vez de fazer um esforço tremendo para procurar e me relacionar com um cara que me abandonou. Pra que eu faria isso? Por causa do nome, da convenção social, do laço sanguíneo? O meu pai biológico contribuiu com UMA célula apenas para minha formação. Paternidade não é DNA, é afeto, presença, carinho. Hoje eu tenho uma família estendida amorosa e presente, uma pequena aldeia para criar as minhas filhas. Essa rede de amor substitui um pouco aquela falta que eu sentia quando eu era pequeno.

[trilha sonora]

Só que a minha esposa, que é muito curiosa, buscou no Facebook pessoas com o nome do meu pai biológico. E achou vários caras e começou a mandar pedido de amizade, e um deles aceitou e disse: “Oi, Ana”. Ela escreveu que queria conversar, e ele já respondeu: “Eu acho que eu sou o pai do Marcos”.  Então ela perguntou: “Por que você nunca falou com ele?”. E ele respondeu que durante muito tempo não teve certeza se era o meu pai, apesar da minha mãe ter dito pra ele que era.

Quando a minha esposa me contou essa história, eu falei: “Pronto, é o mesmo papo de SEMPRE”. “Ah, mas eu não tinha certeza que eu era o pai”; “Ah, mas a mãe não me deixou participar como eu queria”. É um comportamento MUITO egoico e machista. Os caras sempre colocam a culpa na mulher. E eu fiquei pensando: “Poxa, a minha mãe estava lá por mim, com todas as dificuldades, até hoje ela tá aqui por mim. E o cara vai botar a culpa nela!?”.

[trilha sonora]

A essa altura eu já tinha lançado o meu primeiro livro, O papai é pop, sobre a minha experiência como pai. Já tinha mergulhado no universo da paternidade e da masculinidade e já tinha ouvido relatos de muitos pais que cuidaram e abandonaram seus filhos. Um ano depois dessa conversa, a minha esposa publicou o livro dela, A Mamãe é Rock, e eu lancei o O Papai é Pop 2. A gente foi lançar os livros na livraria Travessa, no Rio de Janeiro. Estava um dia incrível, com vários amigos, altas filas, vinho branco. Na tarde de autógrafos, eu senti que a Ana estava cada vez mais nervosa, olhando pra alguém da fila. Olhando e nervosa, olhando e nervosa. Eu pensei: “Peraí. Ela já me contou que o meu pai biológico mora aqui no Rio”. 

Eu não sabia a cara dele, mas ela sabia, então, deve ser o meu pai biológico. Vi o cara chegando, acompanhado de duas amigas. Continuei recebendo todo mundo de forma carinhosa, atenciosa, tirando fotos, dando autógrafos, conversando com todas as pessoas. Quando chegou a vez dele, eu estendi a mão e falei: "ô, rapaz, tudo bom? Eu sei quem você é”. 

[trilha sonora]

Ele me olhou assustado. A amiga dele falou: “Ai, meu Deus, tô nervosa!”. Eu falei: “Calma, você não precisa ficar nervosa, tá tudo certo, deu tudo certo. A minha mãe me criou super bem. Eu não tenho mágoa, eu não tenho raiva, nem vontade de voltar no tempo”. Ele ficou ali do lado por um tempo. A gente se despediu quando ele foi embora, mas depois a gente nunca mais se falou.

[trilha sonora]

Embora eu tenha dito pro meu pai biológico que eu não queria voltar no tempo, na verdade, se eu pudesse e se o meu pai estivesse disposto e pudesse ter sido amoroso, atento e sensível, eu ia querer voltar sim.

[trilha sonora]

 Porque eu senti muita falta de ter um pai. De ter um gigante protetor do meu lado, segurando a minha mão. De deitar numa barriga grande e pensar: “Aqui ninguém me pega, eu tô seguro”. Eu senti falta de ter um pai quando eu comecei a me apaixonar pelas meninas e não sabia o que falar, o que fazer. Senti falta de ter um pai pra me ensinar a andar de bicicleta. Eu só fui aprender depois de velho. Eu senti falta de ter um pai pra me levar no futebol, me dar um time do coração. Senti falta de ter pai quando nasceram as minhas duas filhas. Alguém pra me falar: “Não sai pra beber cerveja. Você tem filha pequena em casa. Volta pra cuidar delas, se conecta com essa engrenagem, que é importante nos primeiros dias, meses e anos”. Eu senti falta de ter um pai ontem. Eu senti falta de ter um pai hoje, de poder ligar pra alguém e conversar. 

[trilha sonora]

Eu passei e passo a vida tentando entender a figura masculina. Por que que desde pequeno a gente ouve que os homens têm que ser conquistador, forte, malandro, alheio às questões da família e dos afetos? Esse modelo coloca muita pressão sobre as mulheres, mas também é altamente prejudicial pros próprios homens. A paternidade é uma chance do homem se transformar não pela dor, mas pelo amor. É a chance dele se conectar com ele mesmo. Isso é tão importante que a ciência mostra que até a saúde do homem melhora quando ele participa da criação dos filhos. 

Eu já viajei para vários países tentando passar uma mensagem de que a gente precisa mudar essa visão de paternidade e masculinidade. Vi famílias japonesas chorando, porque lá os homens são frios com os filhos e as esposas. Senti a mesma coisa numa palestra em Londres. Na Ilha da Madeira, em Portugal, um cidadão de idade avançada levantou e falou: “Eu passei a vida fugindo dessa sensibilidade que você tá falando, desse carinho com os filhos. Eu me arrependo profundamente disso”. Em Criciúma, em outra palestra, um outro senhor falou a mesma coisa. Tem muito homem que morre infeliz por não ter expressado seus sentimentos, abraçado mais e vivido a sua verdade.

[trilha sonora]

Com os meus livros e vídeos, eu acredito que a mensagem já tenha chegado, talvez, a 1% da população brasileira. Ainda tem muuuuito homem afastado da família, agressivo com os filhos, perdendo a chance de viver um casamento feliz. Eu sozinho não vou dar conta de alcançar todo mundo. Por isso eu incentivo que mais homens escrevam e falem sobre esse assunto. A gente tem que multiplicar a mensagem. E não é sobre mim, é sobre 6 milhões de crianças que não têm o nome do pai na certidão de nascimento, e outras milhões que não tiveram um pai presente e afetuoso dentro de casa. É importante pros homens, pras mulheres, pra sociedade e especialmente pras crianças. Essa é a minha missão. 

 [trilha sonora]

Miguel Schlesinger: Ninguém faz filho sozinho. E, portanto, ninguém deveria criar um filho sozinho. É muito doloroso para uma pessoa, como contou o Marcos Piangers, quando o pai ou a mãe estão vivos e não assumem a sua paternidade ou maternidade. Esse é um cenário mais comum entre homens, que muitas vezes deixam para a mulher a difícil tarefa de criar um ser humano. Esses homens não prejudicam somente as mulheres e as crianças, mas a si mesmos. Eles perdem a oportunidade de conhecer um amor profundo, e de envelhecer ao lado de um filho.

Que nós saibamos fortalecer juntos, uma sociedade na qual as pessoas assumam a responsabilidade por seus filhos. E quando os filhos não tiverem a sorte de ter pais presentes, que saibamos abraçar esses órfãos e mostrar que é possível mudar o curso da história. Mesmo aquele que não recebeu afeto pode constituir uma família repleta de amor. Como tão lindamente faz Marcos Piangers. Certa vez, um amigo me ensinou que professores são aqueles que nos ensinam como se comportar, mas não menos mestres, são aqueles que nos mostram o caminho a NÃO ser seguido. Às vezes são os anti-heróis, os anti-exemplos, que fazem com que sejamos quem somos, que fazem com que tenhamos a vontade de escrever uma história diferente. 

[trilha sonora]

Geyze Diniz: Nossas histórias não acabam por aqui. Confira mais dos nossos conteúdos em plenae.com e em nosso perfil no Instagram @portalplenae.

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