Para Inspirar
Inspire-se com o episódio de Mente da décima oitava temporada do Podcast Plenae - Histórias para Refletir!
1 de Dezembro de 2024
[trilha sonora]
Geyze Diniz: Carolina
Farani desenvolveu transtornos alimentares na adolescência que foram
desencadeados pelo bullying que sofria na escola. O tratamento foi longo, mas
Carolina conseguiu com o apoio da família e acompanhamento médico recuperar não
só sua saúde, como sua identidade, sua autoestima e a vontade de sonhar. Eu sou
Geyze Diniz e esse é o Podcast Plenae. Ouça e reconecte-se.
[trilha sonora]
Carolina Farani: Eu me mudei de Salvador pra Santos,
no litoral de São Paulo, com 12 anos. Quando meu pai me contou que tinha
recebido uma proposta de trabalho, eu senti medo e euforia. Era um mix de
sentimentos, de querer e ao mesmo tempo de não querer ir pra outro estado. Por
um lado, eu sabia que ia sentir saudades das minhas amigas. Mas por outro, era
legal a ideia de conhecer um lugar diferente e fazer novas amizades.
Só que no primeiro dia de aula eu já percebi que não ia ser
fácil me enturmar. Assim que eu abri a boca pra falar o meu nome, eu senti o
preconceito. Carolina. Mas como eu falava na época: ‘Carolina’. Em quatro
sílabas, meus colegas perceberam que eu era nordestina. Naquela época, começo
dos anos 2000, ninguém falava em bullying, muito menos em xenofobia. Eu nem
fazia ideia que essas palavras existiam. Mas descobri na pele o significado
delas.
[trilha sonora]
Eu não podia abrir a boca, que alguém imitava o meu sotaque.
Se falavam comigo, era tipo assim: “Ôxe, mainha”, “Vixe, mainha”. Eu nunca nem
chamei minha mãe assim. Mas, pros alunos da classe, isso não tinha a menor
importância. Era tanta perseguição, que eu comecei a tentar mudar o jeito
de falar, treinando em casa olhando pro espelho. Não adiantou nada. A turma
pegou implicância comigo e eu fui acusada de roubar uma prova que sumiu. Até o
professor acreditou nesse boato, um absurdo.
Daí inventaram que eu tinha um
caso com um moço que trabalhava na escola. O motivo: ele era nordestino. Ele era o rapaz da
cantina que vendia o lanche. Mas, de repente, ele virou o meu namorado. A fake
news foi tão pesada, que a psicóloga da escola me aconselhou a parar de
frequentar a lanchonete. Um tempo depois, este moço foi demitido. Não sei
exatamente por quê.
Meu irmão, que é dois anos mais
velho do que eu, também passava pelo mesmo processo de adaptação na escola de
forma nada agradável. Ele se isolou, e demonstrou estar estressado e meus pais
focaram em ajudá-lo. Eu, por outro lado, percebendo a
preocupação deles, não quis amolá-los com o que eu sentia. Portanto, me fechei,
e comecei a descontar a tristeza na comida. Ganhei em torno de vinte quilos a
mais. Ou seja, além da minha origem, passaram a implicar com o meu corpo e com
a maneira que eu me vestia.
Eu comecei a ter muita vergonha de falar em sala,
minhas notas despencaram e começaram a me chamar de ignorante. O ataque agora
era falar que todo nordestino é burro. Chegou a um ponto em que eu não
tinha mais identidade. O meu apelido na turma passou a ser Ana ou Aninha, de
baiana, baianinha. Percebendo que eu era minoria e queria tanto pertencer ao
grupo, que eu aceitei ser chamada assim. Mesmo odiando.
[trilha sonora]
Quando eu completei 18 anos, eu fiz uma cirurgia de redução
das mamas, já que por conta do meu sobrepeso eu tinha muita dor nas costas. Na
consulta pré-operatória, o médico falou assim: “Olha, eu vou ser bem franco com
você. Você tem que emagrecer e tem que fazer ginástica, porque desse jeito o
seu fígado vai virar uma pasta”. A partir disso, comecei a me preocupar com
minha aparência e saúde.
Eu entrei na academia e comecei a excluir alguns alimentos
da minha dieta. Era tipo assim: feijão dá gases, então tira o feijão. Arroz tem
calorias, então corta o arroz. Depois tirei o pão, a carne, o leite, as frutas.
E assim foi até chegar ao extremo de passar cinco dias sem comer nada, só
bebendo litros e litros de água. Ao mesmo tempo, eu passava horas e horas na
academia, com um plástico filme enrolado na barriga, pra queimar mais gordura.
Coincidiu que, nessa época, eu acabei o Ensino Médio e
entrei na faculdade de propaganda e marketing. A minha vida melhorou um pouco,
porque pelo menos eu parei de ser perseguida. Eu tinha me tornado uma pessoa
retraída, cheia de traumas, mas consegui fazer amizades com um grupo de 9
meninas.
Só que nessa mesma época, os traumas que ficaram dentro de
mim, emergiram, trazendo a questão do ser aceita em um grupo. Eu encarei aquilo
como uma nova oportunidade de se refazer, porém eu não sabia lidar direito com
as pessoas – por conta das coisas que eu sofri. Foi no segundo ano de universidade que se via uma
modificação notória em minha aparência.
Minha pele era amarelada e meu cabelo
começou a cair e ficar ralo. Com 21 anos, eu cheguei a pesar 32 quilos. Mesmo assim, eu
tinha uma imagem distorcida e me enxergava gorda no espelho. Frequentava lojas
de roupas infantis, porque as de adulto não cabiam em mim. Teve um dia que eu coloquei uma saia e uma das colegas
percebendo minhas pernas muito finas, falou o seguinte: “Carol, você não tá
muito magrinha, não?”.
Eu neguei, disse que estava bem. Mas era mentira. Eu
estava mal para caramba. Eu sentia tanta tontura que às vezes eu saia da aula
porque não conseguia raciocinar. Eu cheguei a me perder no caminho da faculdade
pra casa, por causa da confusão mental. Teve um dia que as meninas
combinaram um café da manhã na república de uma delas, mas eu não fui. Eu menti
que me atrasei e só encontrei as meninas na aula.
Quando eu cheguei na
faculdade, uma delas, a Priscila, me falou: “Eu guardei um pedaço de bolo que
eu fiz especialmente pra você, Carol”. Aí ela me deu o tupperware na frente de
todo mundo. Eu agradeci, guardei o pote na mochila e fui pro banheiro. As 9
meninas foram atrás de mim e me prensaram naquele cubículo, perguntando porque
eu não comia. A Fernanda, que era a mais esquentada, falou na lata: “Qual o seu
problema, Carol? Você tá magra demais, não come nada. Você tem alguma doença?”.
Eu comecei a chorar e, pela primeira vez, falei que precisava de ajuda. Eu
expliquei que eu não sabia por que eu estava comendo tão pouco. Contei que me
achava gorda, que me sentia sempre cansada e que pensava em suicídio. As
meninas me aconselharam a falar a verdade pros meus pais, mas eu não falei
nada.
[trilha sonora]
Eu estava tão magra, que não tinha
força pra andar direito. Eu me lembro que uma vez fui pra um restaurante com a
minha família e me apoiei nos meus pais pra conseguir caminhar, tipo uma
bengala humana. Quando a gente entrou no restaurante, todo mundo olhou pra
gente. Meus pais ficaram super incomodados e meu irmão começou a gritar com uma
família que estava sentada numa mesa. Só anos depois eu descobri o que tinha
acontecido. Alguém dessa mesa aí comentou que eu tinha AIDS.
[trilha sonora]
A primeira pessoa a nomear a
minha doença foi uma professora da academia.
[trilha sonora]
Um dia ela me perguntou se eu estava me alimentando. Eu respondi que estava um pouco inchada. Aí ela falou: “Você
se acha inchada?”. Eu respondi assim: “É, preciso emagrecer alguns quilos a
mais”. Nesse mesmo dia, ela ligou pra minha mãe e falou que eu tinha anorexia.
Eu estava assistindo TV, quando a minha
mãe entrou no meu quarto muito brava perguntando: “Você tá doente!? O que que
você tem?!”. Ela ficou horrorizada com o telefonema da professora e me proibiu
de frequentar a academia. A maior indignação era com ela mesma, por ser médica
e não ter percebido o que estava acontecendo comigo.
[trilha sonora]
A minha mãe me levou num
psiquiatra especializado em transtorno alimentar. Depois dessa primeira consulta
ela se ligou que a doença era grave e cuidou de mim durante o tratamento. Ela diminuiu
o ritmo de trabalho pra poder fazer refeições comigo, um hábito que a gente não
tinha mais. A reintrodução alimentar foi muito difícil. No começo, quando eu
tentava comer, passava mal e vomitava. Daí a nutróloga me ensinou a comer de
pouquinho. Uma colher de chá de arroz no almoço. Uma lasquinha de bife.
A nutróloga me explicou assim: “Sabe as crianças desnutridas da Somália? Você
sabia que não pode colocar alimento de uma vez que elas podem até morrer?
Então, não se sinta culpada se você não conseguir. Eu só quero que você tente e
me conte sobre tudo que você fizer. O negócio é tentar, Carol”.
O tratamento incluía duas
sessões por semana com uma psicóloga, mas no começo eu não falava nada. Eu só
fui começar a me soltar quando a psicóloga encontrou um jeito de se comunicar
comigo: pela escrita. Eu contei que gostava de escrever quando era criança e
daí ela me deu um caderno. Ela pediu pra eu escrever tudo que se passava pela
minha cabeça. Nos momentos em que eu tivesse mais desesperada, era pra
desabafar o que eu estava sentindo. Foi só nessa fase que eu comecei a elaborar o
estrago causado pelo preconceito na escola.
[trilha sonora]
Depois de dois anos de
tratamento, dando passos de formiguinha, meu irmão veio pra Santos e me
convidou pra almoçar no shopping com minha mãe. A gente foi a um restaurante
por quilo e eu pedi um prato feito, que tinha arroz, brócolis e carne. Eu
lembro que, quando coloquei o brócolis na boca, senti um gosto delicioso e a
minha pupila até dilatou. O meu irmão ficou tão emocionado de me ver comer que
levantou da mesa e foi pro banheiro chorar de felicidade. A gente até deu
risada quando ele falou: “Eu não acredito que eu tô chorando porque você comeu
um brócolis”.
[trilha sonora]
Esse dia foi muito marcante pra
mim. Foi uma prova pra mim mesma de que eu era capaz de comer. Quando eu voltei
a me alimentar, eu não recuperei só o peso e a saúde. Eu recuperei também a
minha identidade e a vontade de sonhar. A minha mãe viu que eu estava pesquisando
sobre a Austrália e me ofereceu um intercâmbio de um ano pra lá. Eu saí do
Brasil com o aval do psiquiatra.
Ele me deu alta, mas me fez um alerta enfático
quando me perguntou assim: “Você sabe que é uma doença crônica?”. Eu disse que
não, daí ele me explicou: “Se você sofrer algum gatilho, o transtorno alimentar
pode voltar”. Eu tive alguns momentos de compulsão e de bulimia na
Austrália. Mas eu não deixei a coisa desandar e não cheguei nem perto de ficar
tão magra e tão doente como eu fiquei em Santos.
É que eu tinha ganhado
ferramentas e autoconhecimento pra lidar com a minha condição. Depois que eu voltei pro Brasil, não tive mais recaídas. Nem
mesmo durante a gravidez. Hoje, eu tenho 39 anos e sigo uma alimentação
equilibrada. Pensamentos viciosos sobre o meu corpo não me atormentam mais. As
minhas preocupações agora são com a minha filha.
[trilha sonora]
Quando eu olho pra trás, eu sinto gratidão pelas
pessoas que me apoiaram e por cada pequena conquista que tive ao longo do
caminho. O processo foi doloroso, mas me fez renascer mais forte. Eu aprendi
que a minha batalha não era apenas contra a balança ou a comida, mas por um
amor próprio que eu precisava redescobrir. Esse amor me permitiu recuperar o
brilho nos olhos, o prazer de compartilhar uma refeição e a coragem de ser quem
sou. Mais do que vencer um transtorno alimentar, eu venci a guerra que eu travava
contra mim mesma.
Hoje, eu não busco um corpo perfeito, mas uma vida
equilibrada e feliz, em que me sinta bem na minha própria pele. Quando eu olho
para minha filha, eu vejo que todo o esforço valeu a pena – por mim e por ela.
Eu quero que ela cresça com a certeza de que o valor dela não está em um
número, mas na pessoa que ela é. E se minha história puder iluminar o caminho
de outras pessoas, então eu vou ter cumprido a minha missão. Porque a
verdadeira cura é viver sem medo, com amor e aceitação.
[trilha sonora]
Geyze Diniz: Nossas histórias não acabam por aqui. Confira mais dos nossos conteúdos
em plenae.com e em nosso perfil no Instagram @portalplenae.
[trilha sonora]
Para Inspirar
O sexto episódio da décima quinta temporada do Podcast Plenae é do produtor Konrad Dantas, representando o pilar Contexto
5 de Maio de 2024
Leia a transcrição completa do episódio abaixo:
[trilha sonora]
Konrad Dantas: Começar a vida do zero é fácil. Eu comecei do menos 100. Eu sou negro. Não tenho sobrenome italiano. Não estudei em faculdade renomada. Eu aprendi a filmar fazendo alguns cursos livres. Nas aulas, eu era o único moleque que não tinha morado fora do Brasil. O único que ainda não falava inglês fluente. Era o mais jovem da turma. Na minha cabeça, eu tinha que arrepiar.
[trilha sonora]
Geyze Diniz: Konrad Dantas foi um dos grandes responsáveis por fazer o funk sair da bolha e se tornar o movimento cultural que representa nos dias de hoje. Dono do maior canal do Youtube da América Latina, Kond, como é conhecido, acumula diversas produções de sucesso e prêmios, se tornando exemplo e provando que não existe o impossível. Eu sou Geyze Diniz e esse é o Podcast Plenae. Ouça e reconecte-se.
[trilha sonora]
Konrad Dantas: Meu nome é Konrad, mas me chamam de Kond. O apelido veio porque o meu irmão mais novo, Kauê, não conseguia pronunciar o meu nome.
Eu nasci em Santos e cresci na Vila Santo Antônio, na periferia do Guarujá, litoral de São Paulo. A minha mãe é professora da educação infantil, e o meu pai fez de tudo um pouco: pintor, pedreiro, cozinheiro, encanador… A gente morava num conjunto habitacional da CDHU.
Quando eu era criança, eu sonhava em mudar a realidade da minha família. Mas, eu não acreditava que tinha capacidade intelectual de passar num vestibular de uma faculdade pública. E eu também sabia que a minha família não tinha condição de pagar uma boa faculdade privada pra mim. Então, eu achava que a música seria o meio pra eu ganhar dinheiro.
[trilha sonora]
Com 11 anos de idade, eu comecei a cantar rap e abri uma gravadora. E eu era o CEO e o único artista dessa empresa. Eu escrevi o nome da gravadora na porta do meu armário, no meu quarto. Coisa de moleque. Eu não lembro muito o que eu escrevi, assim, mas era alguma coisa, do tipo, o nome do meu bairro, sei lá. Tipo Quebrada Santo Antônio, alguma coisa assim.
O meu nome artístico era KondZilla, uma mistura do meu apelido com o personagem Godzilla, o primeiro filme que eu assisti no cinema. O plano de virar cantor de rap não deu certo. Eu era muito tímido e, pra mim, não fazia sentido ser um artista tímido. Eu também não sabia tocar nenhum instrumento então era um pouco mais difícil eu fazer os instrumentais. E aí, eu entendi que eu era um apertador de botão. Um apertador de botão com um bom ouvido, eu diria.
[trilha sonora]
Eu acho que uma das minhas maiores habilidades, desde cedo, é corrigir a rota quando um caminho tá indo pra uma direção errada. Eu aprendi com a minha mãe a ser pragmático. Não tenho tempo a perder.
Na adolescência, eu percebi que eu tinha um pouco de aptidão pra design. Com 16 anos, a minha mãe comprou pra mim um gravador de CD. E eu fazia coletânea das músicas da época na Baixada Santista e criava capa dos CDS e vendia por 5 reais. Olhando pra trás, eu acho que eu fazia um pouco do trampo que eu faço hoje, que é de produção executiva.
Aí, eu comecei a trabalhar como web designer numa faculdade e ganhava 915 reais por mês. Eu sabia que precisava estudar, se eu quisesse crescer. Eu encontrei um curso bom pesquisando na internet, mas meus pais não tinham condição de pagar. E eu falei: “Mãe, assim que eu tiver uma oportunidade, eu vou estudar cinema 3D em São Paulo”.
[trilha sonora]
Uns dois ou três meses depois dessa conversa, a minha mãe faleceu.
[trilha sonora]
Ela teve um aneurisma cerebral, ela tinha só 46 anos. Eu nunca tinha visto nem ela ficar gripada. Quando a minha mãe morreu, a gente tava sem se falar, assim, por que a gente tinha tido um desentendimento. Na minha cabeça, a gente ia se falar em breve, assim, voltar a fazer as pazes. Mas não deu tempo.
Ela ficou em coma 10 dias. E eu fui todos os dias ao hospital conversar com ela. Tenho certeza que, no meu coração, que ela me perdoou por tudo que eu fiz de errado, e eu também conversei muito com ela e falei muitas vezes que eu tinha liberado o perdão pra ela. Tenho certeza que um dia a gente ainda vai se encontrar e alinhar tudo que ficou desalinhado aqui nesse plano espiritual.
Acho que a negrona era visionária. Sabia que ia partir cedo porque ela tinha feito três seguros de vida. E aí, no dia do enterro dela, aconteceu algo muito curioso. Eu lembro que as amigas dela falaram assim pra mim e pro meu irmão: “Bom, sua mãe trabalhou a vida toda pra realizar um sonho que era comprar um apartamento em frente à praia de Santos, no Gonzaga.”
Aí eu pensei: “Se eu comprar o apartamento, eu não vou ter dinheiro pra pagar nem o condomínio”. Então, eu e meu irmão, a gente decidiu correr atrás do nosso sonho, e não do sonho da minha mãe. E eu e meu irmão usamos essa grana pra estudar. Meu irmão virou dentista. Eu comprei a minha primeira câmera e fui pra São Paulo estudar computação gráfica e cinema 3D.
Na época, eu tava focado em trabalhar com pós-produção. Então, eu não me dediquei em duas disciplinas: direção de cena e direção de fotografia. Quando o curso acabou, eu me senti em dívida com a minha mãe. E eu comecei a estudar essas matérias por conta própria. O resultado foi que eu acabei me apaixonando por essas duas áreas que, hoje, são o core business da minha empresa.
Aí eu comecei a tatear pra ver pra onde que eu ia, aonde seria mais fácil eu trabalhar como videomaker. Eu queria fazer vídeo de música, mas não conhecia ninguém nessa área. Achei que seria impossível. Daí, eu fui fazer vídeo de esportes radicais.
Como eu sou do litoral, eu tenho muitos amigos surfistas e skatistas. Eles são patrocinados por marcas e as marcas queriam me pagar com bermuda e camiseta. Não fazia sentido eu montar uma loja de roupa pra eu pagar as minhas próprias contas. Eu vi que não ia rolar no esporte e decidi tentar na música.
[trilha sonora]
Quando eu vi um cara chamado MCLon, que fez um clipe com um celular Motorola V3 em cima de uma laje, batendo na palma da mão. O vídeo tinha 7 milhões de views no Youtube. Eu pensei: “Se o cara faz isso com um Motorola V3 e teve 7 milhões de views, com o que eu aprendi nas aulas, o vídeo vai ficar muito melhor e, provavelmente, vai dar mais audiência”. Eu já sabia da importância do funk pras pessoas que vivem na favela. Na comunidade que eu cresci tocava muito funk. E eu sabia também que só os artistas grandes, apoiados pelas gravadoras que tinham clipes bons.
Eu achava, e continuo achando, que a música tem um papel fundamental no entretenimento pra quem é de comunidade. No começo dos anos 2000, a classe C tava vivendo um momento de ascensão econômica. Os jovens tavam tentando entrar na universidade, as famílias tavam comprando carro pela primeira vez. O consumismo foi parar na música, em um movimento chamado de funk ostentação.
Quando eu cheguei em São Paulo, eu vi que a periferia daqui era diferente da periferia do litoral. Na capital rola muito mais grana, e eu fui filmando tudo que me chamava atenção na favela. Um óculos de 2 mil reais. Uma moto de 80 mil.
O primeiro clipe que eu fiz que bombou foi o do MC Boy do Charmes, que deu 1 milhão de views em 28 dias. Eu não sabia se era competência ou sorte de principiante. Eu não me deslumbrei. E o meu terceiro clipe de funk foi do MC Guimê, que deu 1 milhão de views em duas semanas. Aí eu achei que tinha um pouco de talento pra fazer aquilo ali.
E aí, eu comecei a fazer mais clipes e a investir no meu canal do Youtube, que eu chamei de Canal KondZilla. Em 2016, a gente fez videoclipe da música do MC João, 'Baile de Favela'. Foi o primeiro clipe de funk a bater 100 milhões de visualizações.
O MC João foi ao programa da Fátima Bernardes, e ela falou assim pra ele: “Cara, a sua música é muito legal. Mas, se não você não tivesse falado aquele palavrãozinho, talvez a sua música ia um pouquinho mais longe”.
E a gente ficou pensando: “Será que ela ia mais longe mesmo?” A linha entre retratar a realidade e promover um tipo de cultura é tênue. Mas a gente decidiu experimentar. Tirou os palavrões das músicas e decidiu também não filmar mais mulher de lingerie, nem armas nos vídeos.
Todo mundo falou que eu ia falir a KondZilla e afundar o funk. Só que foi ao contrário. A gente fez o clipe da música ''Deu Onda, do MC G15, e o vídeo foi o segundo vídeo mais assistido do mundo no Youtube. O funk saiu da bolha da periferia. O número de inscritos do canal no Youtube pulou de 8 pra 22 milhões, em um ano.
[trilha sonora]
Eu sabia que quem tinha capacidade técnica e artística pra desenvolver um trabalho de audiovisual pro público de comunidade não queria trampar com funk. Então, eu decidi me dedicar nesse gênero, e pra esse público. O Brasil ainda tem muito preconceito com o funk. É um gênero de origem periférica, marginal, no sentido de tá à margem da sociedade ideal, de um comportamento vendido como o sonho. Só que o funk já é um movimento cultural, e não apenas um gênero.
Eu sempre fui muito observador. E sempre gostei de tentar entender o comportamento das pessoas. Na periferia que eu cresci, eu via algumas coisas acontecendo. E ouvia algumas histórias. E eu pensava: “Bom, se um dia eu tiver a oportunidade de contar uma história dento de uma obra de audiovisual, eu quero contar a história desse cara, daquele cara, daquele outro cara”.
E eu fui juntando essas informações e comecei a pensar numa história de três moleques, amigos de infância, que queriam comprar um tênis, um Adidas Springblade, que na época era o tênis mais bombado, que toda molecada queria comprar. Eu pensei em fazer um curta que representasse a galera da periferia de São Paulo, né. O povo quer se ver representado nas telas. E a quebrada de São Paulo não tem nada a ver com a quebrada de Nova York.
E aí, quando eu comecei a contar essa história pra um amigo fotógrafo, ele me apresentou pra um roteirista. E aí, esse roteirista falou assim: “Cara, isso não é um filme, nem um curta. Isso é uma série”.
A gente desenvolveu um projeto e apresentou pra Netflix. Em 2019, o Sintonia foi a séria mais assistida da plataforma. E hoje, a nossa empresa trabalha com música, com produção de conteúdo pra internet, pra publicidade, documentário, ficção. Só o nosso canal do Youtube tem mais de 67 milhões de inscritos e hoje, é o maior canal do Brasil e da América Latina.
[trilha sonora]
Quando eu penso na minha trajetória, eu comparo com a de um árbitro de futebol. Um árbitro provavelmente queria ser um artilheiro ou então, um goleiro. Mas ele vive de futebol. Aconteceu isso comigo também.
Eu queria viver de música. Achava que seria eu cantando. Depois, eu achava que ia ser produzindo as batidas. Hoje eu vivo do meu sonho, mas não na atividade que eu imaginei. Hoje sou empresário, produtor fonográfico e produtor audiovisual. Eu alcancei o mesmo objetivo, mas por estradas diferentes, conseguindo dar uma vida mais confortável pra minha família.
[trilha sonora]
Ano passado, inaugurei o Instituto Kondzilla, uma ONG pra capacitar o jovem de periferia no Guarujá porque eu tinha percebido que tinha um déficit na mão de obra especializada no audiovisual. E os cursos são uma oportunidade para galera descobrir novos talentos, né?
E eu quero mostrar pra molecada que não existe o impossível, desde que dependa apenas de você. Ninguém me ensinou que era impossível. Tudo dá para fazer, desde que a gente trabalhe duro. A sorte é a soma de um monte de circunstâncias que acontecem ao mesmo tempo. Quanto mais preparado você tiver, mais você vai conseguir aproveitar as oportunidades quando ela bater na sua porta. E isso não significa que você tenha que ficar contando apenas com a sorte. Você pode desenvolver estratégias pra criar a sua própria sorte. Ou então, como dizem os evangélicos, a sua sorte de bênçãos.
[trilha sonora]
Geyze Diniz: Nossas histórias não acabam por aqui. Confira mais dos nossos conteúdos em plenae.com e em nosso perfil no Instagram @portalplenae.
[trilha sonora]
Conteúdos
Vale o mergulho Crônicas Plenae Começe Hoje Plenae Indica Entrevistas Parcerias Drops Aprova EventosGrau Plenae
Para empresas