Para Inspirar

Camila Gomes em “Benzer é abençoar com fé, amor e esperança”

Inspire-se com o episódio de Espírito da décima oitava temporada do Podcast Plenae - Histórias para Refletir!

1 de Dezembro de 2024



Leia a transcrição completa do episódio abaixo:

[trilha sonora] 

Camila Gomes: Fizeram um mapeamento das benzedeiras de Florianópolis e seus saberes e eu fui catalogada como a benzedeira mais jovem. Não foi fácil abrir mão da carreira de psicóloga pra me dedicar a essa função. Eu tive medo. Mas dentro de mim eu sentia que deveria servir a espiritualidade dessa maneira.

[trilha sonora]
 


Geyze Diniz: Desde pequena, Camila Gomes sempre teve o hábito de rezar em muitas situações do dia a dia e não poderia imaginar que essa atitude se tornaria sua vocação. Depois de passar por algumas religiões, como o catolicismo, o kardecismo e a umbanda, ela se tornou benzedeira, abençoando com palavras de fé, amor e esperança. Eu sou Geyze Diniz e esse é o Podcast Plenae. Ouça e reconecte-se. 

[trilha sonora]

Camila Gomes: Desde pequena, eu já era benzedeira sem saber. Eu me lembro de estar na fila de um banco e ver uma criança chorando. Eu não conseguia ignorar aquela situação e fiquei pensando o que eu podia fazer. Daí eu fechei os meus olhinhos e rezei. A criança foi se acalmando e eu fui me acalmando também. Eu devia ter uns 7 anos. 

Rezar faz parte do meu cotidiano desde que eu me conheço por gente. Eu nasci numa família católica não praticante e estudei num colégio de freira. Antes de deitar, a minha mãe rezava comigo a oração do Anjo da Guarda. Era assim: “Anjinho da guarda, meu bom amiguinho, guiai-me sempre pelo bom caminho.” Tinha até um quadro com essa oração no meu quarto. Muitas vezes, eu ficava conversando mentalmente com esse Anjinho da Guarda até dormir. 

A reza nunca foi só uma repetição de palavras
pra mim. Eu tenho uma memória de estar sozinha no meu quarto, fazer uma oração e chorar por sentir uma paz profunda. Minha avó paterna, muito católica, me explicou que esse bem-estar que eu sentia era a presença do Divino Espírito Santo. Pra mim sempre foi muito simples: se eu tinha algum problema, era só rezar que melhorava. Só mais tarde eu descobri que não funcionava assim pra todo mundo. 


[trilha sonora] 

Eu gostava tanto de ir à igreja que queria ser freira. Aí, na catequese, eu descobri que só os padres podiam celebrar missa. Foi um balde de água fria. Eu fiquei tão magoada, que quase chorei. Eu me lembro que as crianças ao meu redor debocharam de mim, como se o desejo de ser freira fosse ridículo. Eu comecei a me desconectar do catolicismo na adolescência, quando estudei história e desenvolvi uma consciência crítica.

Eu fiquei muito decepcionada com o passado violento e
castrador da igreja. A ruptura aconteceu na época da crisma, quando eu passei dois anos indo à igreja todos os domingos. No dia do sacramento, por rebeldia, eu decidi que eu não iria me vincular àquela religião. E aí eu simplesmente não fui à cerimônia.
 

Foi mais ou menos nessa época que eu descobri o kardecismo, assistindo à novela
A Viagem, que passava na TV Globo. Nessa época a minha mãe ganhou um livro de Allan Kardec e começou a trazer as leituras dele pra nossa casa. A gente passou a frequentar centros espíritas pra tomar passe, mas eu sentia falta do ritual da missa. A minha ligação com o kardecismo nunca foi tão forte quanto com a igreja católica. 
 

[trilha sonora] 

Mesmo sem um vínculo religioso, eu nunca deixei de rezar, até porque reza pra mim é tão automática quando escovar os dentes antes de dormir. A espiritualidade voltou com força depois de um problema de saúde, aos 22 anos. A essa altura, eu já estava na faculdade de psicologia e engravidei sem planejar. No quinto mês de gestação, eu senti uma dor nas costas violenta. Fui pro hospital e descobri que estava com pedra no rim.

Me deram remédio e
eu voltei pra casa, só que o medicamento mascarou os sintomas. Dias depois, eu tive uma febre de quase 40 graus e comecei a delirar. Me levaram pro hospital de novo e eu fui diagnosticada com pielonefrite, uma infeção grave no rim. A febre tinha secado 70% do líquido amniótico, e o meu bebê estava em sofrimento fetal.
 Os médicos queriam induzir um aborto, mas eu não concordei. Daí eles tentaram repor o líquido amniótico com um soro intravenoso.

Eu tomei litros e litros de soro, até que meu rim direito parou de funcionar e eu fiquei uma mulher elefante, muito inchada. 
Mesmo grávida, eu tive que fazer uma cirurgia pra colocar um cateter no rim. A operação deu certo, mas eu ainda passei quase três meses internada. Muitas rezas e médicos competentes salvaram a minha vida e a do meu filho. Mateus nasceu com 36 semanas de gestação e saudável. 

[trilha sonora] 

Como eu não tinha histórico de problema renal, os médicos acreditavam que depois do parto o rim voltaria ao normal. Mas não foi o que aconteceu. Eu tive alta com um dreno no rim. Nos primeiros dois anos depois da cirurgia, eu vivia fazendo exames e consultas. Nenhum médico entendia porque o meu rim não funcionava direito. Foi o período mais difícil da minha vida.

Eu dividia o meu tempo entre a faculdade, o estágio e os cuidados com o Mateus.
Pra piorar, o meu relacionamento com o pai do meu filho não deu certo. E aí a minha saúde gritou. Eu comecei a ter episódios de desmaio, mal-estar e suor frio. O meu estágio era num projeto social de adolescentes numa comunidade carente. Toda vez que eu atendia pacientes, eu passava muito mal e ouvia vozes. No início, eu achava que era por causa dos antibióticos que eu tomava para controlar a infecção no rim.
 

Até que, durante uma aula
de psicopatologia, eu aprendi sobre os critérios para fechar um diagnóstico de esquizofrenia e me identifiquei com quase todos. Meu Deus, era só que me faltava! Como eu ia conseguir criar uma criança nessa condição? Naquele dia, eu entrei numa catarse. Cheguei em casa, pedi pra minha mãe cuidar do Mateus e avisei: “Mãe, eu mal”. Eu chorei, chorei, chorei. Num ato de desespero e exaustão, eu resolvi rezar igual eu fazia na infância. Eu estava apavorada e pedi saúde pra poder cuidar do meu filho. 
 


[trilha sonora] 

Menos de uma semana depois desse dia, numa reunião do estágio, eu peguei o elevador com uma colega que conhecia muito pouco. Eu não lembro porque eu comentei que tinha separado e que estava morando com a minha mãe. Aí essa colega me falou assim: “Ah, então é você a morena de cabelo comprido que o Preto Velho mandou chamar”. Eu disse: “Hãn?”. Daí ela falou: “Não, é porque eu trabalho com cura aos finais de semana. A gente tem um grupo e tal…”. Quando ela falou a palavra “cura”, eu lembrei na hora da minha oração. E ela continuou: “O Preto Velho mandou chamar uma mulher de cabelo comprido do meu trabalho que ia se separar. É você”. 

Essa minha colega não sabia quase nada da minha vida. A nossa relação era bem superficial e nova. Mas eu acreditei nela. Pedi o endereço, a data, o horário e fui de roupa branca, como ela recomendou. Eu não sabia o que esperar, mas imaginava que seria recebida por um idoso negro. Quando eu cheguei lá, descobri que era um ritual de umbanda, uma religião que eu desconhecia. E o Preto Velho era, na verdade, um jovem branco que incorporava uma entidade com esse nome.  

 
O médium começou a falar comigo como se ele soubesse o que se passava na minha cabeça. Ele falou sobre a minha conexão com o sagrado, sobre a minha avó paterna. Disse que desde criança me acompanhava, que era um dos meus guardiões. Falou da minha gravidez, do meu processo de saúde, da faculdade. Disse que eu tava sendo forjada pela espiritualidade pra trabalhar no espaço da saúde mental. Ele falou ainda que as vozes na minha cabeça eram, na verdade, mediunidade. 

Eu fiquei super emocionada. Eram coisas que quase ninguém sabia sobre a minha vida. O Preto Velho disse que eu devia frequentar aquela roda todo domingo. Falou que ele ia me ensinar a rezar e a mexer com as ervas, pra eu me curar. Depois que eu melhorasse, eu poderia ajudar outras pessoas a se curarem também. Segundo ele, o meu problema no rim não era físico. Era só o caminho que me levaria até a espiritualidade e ao meu propósito: servir o outro.  

[trilha sonora] 

Foi tudo meio mágico. Eu passei a frequentar os encontros e o meu rim melhorou. Quando eu aprendi a controlar a mediunidade, parei de ouvir as vozes. Eu passei sete anos nesse grupo de umbanda. No final, eu já estava num novo relacionamento, tinha me formado em psicologia e estava grávida do meu segundo filho, o Chico.  

As entidades diziam que eu estava pronta pra ser uma sacerdotisa, uma mãe de santo. Mas eu não queria fincar a minha bandeira na umbanda. A minha ligação é com a espiritualidade, não com a religião. Dogma não é comigo. Eu falei isso pras entidades, e aí o Preto Velho disse: “Ah, filha, você pode fazer então como as suas ancestrais e se tornar benzedeira. Leva o legado, sem precisar levar a religião”. 

Quando o Preto Velho falou sobre as minhas ancestrais, eu pensei que era sobre a minha avó paterna. Ela não era benzedeira, mas era rezadeira. Nesse processo de me tornar benzedeira, casualmente eu fui morar na Lagoa da Conceição, uma região de Florianópolis. Sabia que a minha avó materna havia nascido lá. Eu comecei a perguntar sobre ela pra minha tia e descobri que a minha bisavó, a mãe da minha avó, foi considerada santa na Lagoa da Conceição. Ela morreu no parto de gêmeos e foi enterrada com os dois bebês no colo.

A minha avó tinha dois
pra três anos quando a mãe dela faleceu. Um tempo depois, foram remover as ossadas e descobriram que os corpos dos bebês tinham sido consumidos pela terra, mas o corpo da minha bisavó estava intacto, e o cabelo dela tinha crescido. Virou um burburinho na comunidade e ela foi considerada santa. Desde então, todas as mulheres que tinham problemas de parto ou com filhos pequenos rezavam pra ela. Eu achei curioso me tornar benzedeira no lugar onde as minhas sementes femininas vieram.
 

[trilha sonora] 

Benzer, na etimologia, significa dizer o bem. Uma benzedeira abençoa com palavras encharcadas de fé, amor e esperança. A fé é o que abre a porta da pessoa que vai ser benzida. Se ela não tiver fé, nem adianta se benzer. Já o amor é a fonte curativa Divina, presente em tudo que há. É como uma chama que existe dentro de cada um de nós, uma força que eu ativo dentro de mim e propago pela fé. E a esperança é o fio que conduz a chama do amor.  

Antigamente, as benzedeiras tinham um papel super importante nas comunidades. Elas cuidavam das pessoas com suas rezas, ervas e rituais. Só que, por não se renderem aos dogmas religiosos e decidirem seguir livres, elas começaram a ser perseguidas e chamadas de bruxas, porque não seguiam a religião oficial. Muitas foram assassinadas. E assim, com medo do julgamento, elas foram desaparecendo.  
 

Ser uma benzedeira contemporânea é exercer a função de conexão com a espiritualidade e com a natureza. Mas também é lutar pelo reconhecimento desse trabalho, inclusive pedindo que ele seja pago. A benzedeira de hoje é uma mulher que não se curva, que se entende como livre e sagrada. E que questiona os papéis que sempre foram impostos às mulheres na sociedade. 

[trilha sonora] 

Desde 2012, eu sigo alinhando os saberes ancestrais que recebi em sonhos, em psicografias e práticas da umbanda com os saberes científicos que estudei na universidade. Como benzedeira, eu pude realizar o meu desejo de infância, que era celebrar missa. Ou pelo menos a minha versão da missa. Na pandemia, eu comecei a receber muitos pedidos pra benzimentos à distância. Teve um dia que eu benzi 500 pessoas!

Eu comecei a pensar como eu po
dia continuar benzendo, mas sem me esvair energeticamente. Daí eu criei uma métrica pra fazer um benzimento coletivo e misturei esse ritual com arte. Hoje, eu tenho um espetáculo chamado Roda de Benção, que acontece no teatro uma vez por mês. É uma maneira de preservar a cultura imaterial do benzer. Assim, as futuras gerações podem conhecer essa prática ancestral de forma artística e desvinculada de dogmas religiosos.
 

Eu gosto de ensinar as pessoas a se abençoarem e a abençoar também. É assim: eu fecho os olhos, entro em contato com a minha respiração, inspiro e expiro. Eu sinto a presença do Divino dentro do coração e irradio essa força pros ombros, pras mãos. Daí eu mentalizo a pessoa e encaminho todo o amor que houver para ela. Nessa conexão com o Divino, eu propago fé, amor e esperança em ondas.  

[trilha sonora] 

Pra terminar esse episódio, eu convido você a receber uma bênção agora. Então, eu vou pedir pra que você feche os olhos, se puder, respire fundo, atente na sua respiração. Se vier qualquer pensamento, deixa passar, não se apegue a ele. Respira fundo. Eu peço nesse instante aos Anjos Guardiões de cada um dos irmãos e irmãs que aqui se fazem presente para que eu possa adentrar seus espaços sagrados e lhes entregar essa benção, essa graça: 

Divina mãe da Conceição da Poderosa Criação, tira todo mal, todo banto, todo e qualquer quebranto do campo físico e extrafísico de cada um dos irmãos e irmãs neste momento. Deus o fez e o criou, Deus perdoa quem mal os olhou, em louvor a todas as mães e Marias eu rezo nesse instante e evoco a chama violeta para que limpe e dissipe todo miasma, toda energia deletéria, toda forma de pensamento, toda e qualquer energia contrária que nesse instante possa estar obstruindo a conexão com o Sagrado e o Divino dentro da vida de cada um dos irmãos e irmãs. 

Eu evoco ainda nesse instante Nossa Senhora da Conceição, mãe Oxum acolha cada um dos teus filhos e filhas neste instante e sobre teu manto sagrado possas nutri-los do teu amor, da tua fé, da tua coragem, misericórdia, resiliência para que sintam a tua presença em luz, dentro do seu ser. Evoco ainda, grande Mãe misericordiosa, para que nesse instante acendas a centelha Divina que pulsa e arde dentro do peito de cada um dos irmãos e irmãs ativando a força do amor, da fé e da esperança nutrindo cada célula do corpo físico e extrafísico de cada um dos meus irmãos e irmãs nesse instante.

 Eu
vos abençoo, meus irmãos e irmãs. Mas é a fé e a ancestralidade que os abençoa, os reza e os cura. Diante dos quatro elementos da natureza, fogo, terra, água e ar, da força motriz do amor, da fé e da esperança, eu vos entrego essa benção. Abençoados estão em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo, amém. 
Inspira com profundidade, solte o ar devagar pela boca e, aos poucos, pode ir retomando o estado presente, abrindo os olhos, sentindo a presença da benção dentro do seu coração. Que assim seja, axé, amém.

[trilha sonora]

Geyze
Diniz
: Nossas histórias não acabam por aqui. Confira mais dos nossos conteúdos em plenae.com e em nosso perfil no Instagram @portalplenae. 

[trilha sonora]
 

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Para Inspirar

Claude e Batista em "Parceria de longa data"

O quinto episódio da décima terceira temporada do Podcast Plenae é com Claude e Batista, representando o pilar Relações!

15 de Outubro de 2023



Leia a transcrição completa do episódio abaixo:


[trilha sonora]


Batista: Quando a gente começou, lá nos anos 80, era só nós dois na cozinha.

Claude: O Batista foi o meu primeiro funcionário no restaurante. Ele chegou lavando prato, virou chef e, principalmente, virou meu amigo. A nossa relação é, tipo assim, um casamento. A gente se conhece só pelo olhar.


[trilha sonora]

Geyze Diniz: Ambos tiveram seus primeiros contatos com a culinária através da vivência com suas avós, um em Roanne na França e outro em Gurinhém na Paraíba. E por coincidência do destino, se encontraram no Rio de Janeiro. Há mais de 40 anos Claude e Batista constroem uma relação de amizade e parceria. Eu sou Geyze Diniz e esse é o podcast Plenae. Ouça e reconecte-se.


[trilha sonora]


Claude: Eu cresci numa casa com doze pessoas em Roanne, uma cidade a 90 quilômetros de Lyon, o coração da gastronomia francesa. A gente morava praticamente dentro do restaurante da família, que ficava na parte de baixo da casa.

O Troisgros, que foi inaugurado pelos meus avós paternos, existe até hoje e é um lugar super famoso. Os meus pais, Pierre e Olympe, trabalhavam o dia inteiro no restaurante. Então, eu passava o dia com a minha avó materna, a italiana Anna Forte, que eu chamava carinhosamente de Mémé. Como boa “nonna” italiana, a comida dela era maravilhosa.

Eu me lembro de ficar em cima de uma cadeira, encostada na mesa da cozinha, enrolando basicamente todos os domingos aquelas tirinhas do nhoque. A casa da minha avó tinha perfume de molho de tomate em qualquer lugar.

Batista: A minha infância foi em Gurinhém, uma cidade de 14 mil habitantes no interior da Paraíba. Eu passava muito tempo com a minha avó, Corina, enquanto minha mãe trabalhava como professora.

A minha avó tinha um restaurante de beira de estrada que servia comida para caminhoneiros. Ela servia comida brasileira, tipo arroz, rabada e macaxeira na manteiga. Eu comecei a ajudar ela na cozinha com 8 anos.

Eu descascava cebola, pimentão e picava coentro. Em troca, ela me dava um dinheirinho pra mim comprar um sorvete, um geladinho. E também para ir no parque de diversão.

 

[trilha sonora]

 

Batista: Quando eu tinha 6 anos, eu assinei um “contrato”, obviamente de brincadeira, que dizia que eu ia trabalhar com um amigo da família quando eu crescesse. Esse amigo era o Paul Bocuse, um dos chefs mais famosos do mundo naquela época.

A brincadeira se tornou realidade aos 17 anos de idade. Eu comecei descascando batatas, como muitos iniciantes, e fiquei na cozinha do Paul Bocuse por dois anos. Depois, eu estagiei em vários lugares da Europa e voltei para o  restaurante da família em Roanne.

Um belo dia meu pai entrou na cozinha e disse que o Gaston Lenôtre, um amigo e chef muito famoso naquele momento, tava procurando alguém pra trabalhar no restaurante que ele ia abrir no Rio de Janeiro. O meu pai perguntou: “Alguém quer ir?” Eu respondi, olha, na hora: “Eu!”

 

Batista: Quando eu tinha uns 9 anos, meu avô começou a me chamar pra ajudar ele na roça. Ele me pegava em casa umas 4h30 da madrugada e eu trabalhava até meio-dia. Depois eu ia pra escola.


Na adolescência, eu passei a estudar à noite e eu ficava o dia inteiro com meu avô. Eu ajudava ele a cuidar de cavalo e de boi. Ajudava ele na plantação de algodão, milho e cana. Os meus tios tinham ido embora, então era só nós dois na roça.

 

[trilha sonora]

 

Claude: Eu cheguei no Rio em 1979, com 23 anos de idade.

[trilha sonora]

Eu não falava nada de português, mas o Brasil era como um sonho tropical, sinônimo para mim de sol, Pelé, futebol, mulher bonita, caipirinha e praia. A primeira coisa que eu me lembro ao sair do avião foi o cheiro. Era um aroma de calor úmido, maresia, uma coisa muito diferente para um francês do interior.


O restaurante do Gaston Lenôtre chamava Le Pré Catelan e fez um sucesso imenso. Quando o meu contrato de dois anos acabou, eu tinha planos de voltar para França. Só que a vida tinha outros planos pra mim. Decidi ficar no Brasil, pensando em novos desafios.

 

Peguei o telefone e liguei para meu pai, falei: "Pai, eu decidi ficar no Brasil. Ele respondeu: "Ah é, meu filho, então se vira". Ele não apoiou minha decisão então eu tive que me virar e decidi abrir o meu primeiro restaurante. Eu vendi os bens que tinha naquele momento, que eram poucos. Aluguei um espaço de 30 metros quadrados no Leblon, coloquei seis mesas e 18 banquinhos. O restaurante recebeu o nome da minha cidade: Roanne.

 

Batista:  Quando eu tinha 17 anos, eu viajei proo Rio de Janeiro com a minha vó, pra passar duas semanas. A gente ficou hospedado na casa do meu tio, na favela da Rocinha.

Ele trabalhava como porteiro num prédio no Leblon e soube que um restaurante novo tava precisando de alguém pra lavar pratos. Este restaurante era o Roanne, que era do Claude.

Fui contratado pelo Claude. Um ano depois, a gente se mudou pra um restaurante maior, lá no Jardim Botânico, que se chamava Claude Troisgros e depois passou a chamar Olympe.

 

Claude: Duas vezes por semana, o Batista ia comigo comprar peixe no mercado de Niterói. Depois do serviço, todo mundo ia pra casa bem de madrugada. Mas eu e o Batista ficava lá no restaurante, porque tinha de estar lá em Niterói pelas 5 da manhã. A gente compara o peixe, tomava um café, comia um sorvete, voltava e sempre na subida da ponte ponte Rio-Niterói a minha "fiorina" velha, que o Batista chamava de carro dos Flintstones, quebrava. Eu falava: "Batista, sai do carro! Empurra aí!". E o Batista empurrava suando, e eu tentando ligar aquele carro. A gente chegava no restaurante lá 8, 8 e meia da manhã. Deixava o peixe e naquele momento a gente tinha um tempinho para ir para casa e dormir um pouco, porque às 4 e meia da tarde a gente tava lá de novo no restaurante, pra começar o turno da noite. Nossa amizade começou assim, no trabalho duro.

 

Batista: Aos poucos, virei aprendiz do Claude. Comecei preparando as entradas. Depois, passei pros legumes, pros peixes e as carnes, pra confeitaria e pros molhos.

Conviver dentro da cozinha de um restaurante não é fácil. É muito prato pra servir e muita gente pra agradar. Não pode atrasar e nem errar.

Só que, quando o serviço acaba, todo mundo relaxa e se ajuda. Depois que a gente fechava o restaurante, lá pelas 2 da manhã, eu levava o Claude e o resto do pessoal pra dançar forró. Fui que ensinei ele a dar os primeiros passos. Hoje até que ele dança bem.

 

[trilha sonora]

 

Claude: O Batista virou meu intérprete. O restaurante tinha muita rotatividade e a maioria dos funcionários era de origem nordestina. Eles diziam que não entendiam absolutamente nada do que eu falava, porque naquela época eu tinha muito sotaque, não é?. Hoje eu quase não tenho, não é?

Eles perguntavam o que eu tinha falado e o Batista, malandro, às vezes inventava.

O Batista sempre me acompanhou nos eventos que faço por todo o Brasil. Um dos primeiros foi um casamento em Vitória, no Espírito Santo. Quando a gente chegou na cidade, de manhã, foi direto pra casa do cliente. A gente só foi pro hotel lá pelas 2 da madrugada, depois do evento. Quando abri a porta do quarto... surpresa! Só tinha uma cama de solteiro e nenhuma outra vaga no hotel. Tava um frio de cão e não tinha como um de nós dormir no chão, impossível. O jeito foi dividir a cama com Batista: um, obviamente, com os pés para um lado e o outro, claro, na posição contrária. Foi a nossa primeira noite juntos.

Batista: Eu me casei, tive três filhos e me separei. E fui morar num apartamento em Botafogo. Mas aquele bairro não é pra mim. Eu gosto mesmo é da Rocinha, aonde eu moro até hoje com a minha atual mulher e meu filho Bernardo de 5 anos.

A Rocinha parece uma cidade à parte do Rio de Janeiro. Tem tudo e todo mundo me conhece. Eu gosto de chegar do trabalho, bater um papo e tomar uma cervejinha com os meus amigos.

 

[trilha sonora]

 

Claude: Eu tinha total confiança no Batista e por isso deixei o Olympe nas mãos dele quando tive uma proposta de abri um restaurante em Nova York chamado CT, a minhas iniciais: CT.

Nos Estados Unidos, eu conheci o canal de TV Food Network, que só passava gastronomia. Quando eu voltei ao Brasil, fiquei pensando por que não tinha mais programas de culinária por aqui. O que existia na época era o programa da Ofélia, da Palmirinha, Ana Maria Braga e o Olivier Anquier tava começando.

Um dia, a Marluce Dias da Silva, que era superintendente executiva da Globo, foi comemorar o aniversário de casamento no Olympe. Eu, na maior cara de pau, eu perguntei pra ela por que não tinha gastronomia na televisão brasileira. Ela olhou para mim sem rodeios e disse: “Porque? Você quer tentar?” Eu respondi assim na hora: “Quero, sim!” e ganhei um quadro num programa que já existia na GNT. Foi um sucesso, tá? Não sei se pelo meu sotaque ou por outras razões.

Um tempo depois, eu ganhei um novo programa com Renato Machado, o Menu Confiança. Foi aí que o Brasil conheceu o Batista.

 

Batista: Eu que preparava os ingredientes pras receitas e arrumava as bancadas nos dias de gravação. Mas eu sempre esquecia de alguma coisa. O Claude tava gravando e, na hora de pegar a cebola, aí não tava lá. Aí ele gritava: “BATIIIIIIISTAAAAAA!!! Cadê a cebola?!” Aí a gravação parava ou a edição cortava depois.

Claude: Só que, numa temporada do Menu Confiança, o diretor decidiu deixar a cena. E o resultado foi que a audiência subiu. A cena em que o Batista entrava meio atrapalhado virou uma marca registrada do programa. Ele começou a aparecer mais e mais. Acabou que ele virou apresentador junto comigo. Mais tarde vieram os reality shows The Taste Brasil e Mestre do Sabor.

Batista: Por causa da televisão, eu viajei pra fora do Brasil pela primeira vez. A gente passou 10 dias em Nova York pra gravar e eu fiquei impressionado com a beleza da cidade. Na Times Square, tinha uns telões lindos, passando várias coisas. Uma hora, mostraram eu e o Claude. Era uma ação de publicidade. Quando eu vi, eu chorei muito. Veio toda a lembrança das minhas origens.

Outra temporada especial pra mim foi quando nós gravamos um especial de Natal com a minha família, na Paraíba. Eu levei o Claude pro forró e almoçamos na casa dos meus parentes. Foi uma festa.

[trilha sonora]

Claude: Já são 41 anos de convívio. Hoje, somos irmãos, temos muitas histórias para contar, porque a gente passou por muita coisa junto. É isso que constrói uma história, é isso que constrói a confiança e uma amizade, assim, sólida como a nossa. O Batista é, acima de tudo, o meu grande amigo, meu grande parceiro. Como ele diz, “nosso sangue bateu, hein chef?” desde o início. E isso não tem preço, mas tem um valor incalculável.

 

Batista: Quando eu cheguei no Rio, aos 17 anos, eu não imaginava que eu seria chef de cozinha, muito menos apresentador de TV. Hoje em dia, as pessoas me reconhecem na rua, pedem selfie e autógrafos.

O Claude mudou a minha vida em muitos sentidos. Eu ganhei uma profissão, um trabalho na TV e um sócio pro meu primeiro restaurante, que se chama Do Batista. Acima de tudo, eu ganhei um amigo.

 

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