Para Inspirar

Caio Bonfim em "Cruzando a linha de chegada"

Conheça a história dos caminhos que precedem um atleta olímpico e o levam até o pódio.

10 de Novembro de 2024



Leia a transcrição completa do episódio abaixo:

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Caio Bonfim: Eu sou o tipo de pessoa que se alimenta da pressão. Quando eu jogava futebol já era assim. Quanto mais eu apanhava, quanto mais a torcida me xingava, melhor era o meu desempenho. É da minha personalidade. No segundo ano do Ensino Médio, eu escolhi trocar o futebol pela marcha atlética e aguentar os xingamentos na rua durante os treinos.  
 

[trilha sonora] 

Geyze Diniz: Os problemas de saúde na infância não impediram Caio Bonfim de se dedicar ao esporte. Filho de pai treinador e mãe atleta, Caio seguiu os passos da família e trouxe a medalha de prata para casa, uma conquista de todos e que deu luz a marcha atlética, esporte pouco conhecido no Brasil. Eu sou Geyze Diniz e esse é o Podcast Plenae. Ouça e reconecte-se. 
 

[trilha sonora] 

Caio Bonfim: A minha história com o esporte começa bem antes de eu nascer. Meu pai era professor de educação física e se apaixonou pelo atletismo ainda na faculdade. Ele tinha o sonho de ser professor e aí ele passou num concurso pra dar aula num colégio público em Brasília. Ele introduziu o atletismo nessa escola e formou um grupo de atletas, de onde saíram três campeões sul-americanos e duas atletas olímpicas. Nesse grupo estava a minha mãe.  
 

[trilha sonora] 

Os meus pais se apaixonaram, se casaram e fundaram um clube chamado Caso: Centro de Atletismo de Sobradinho. Sobradinho é uma cidade que fica de 20 a 25 quilômetros de Brasília. Foi lá que eu nasci. A minha chegada mudou a trajetória total da minha mãe no esporte. É que, antes dela ficar grávida, a especialidade dela eram as provas de 10.000 metros. Quando ela voltou da gravidez e queria competir, o meu pai foi sincero: “A gente só pode inscrever duas atletas por prova. E as meninas dos 10.000 metros são muito boas. Hoje não dá para tirar nenhuma delas e colocar você”.  

Uma dessas meninas era a Carmem de Oliveira. Ela competiu a Olimpíada de Barcelona e foi a primeira brasileira a ganhar a São Silvestre. A outra era a Solange Cordeiro, que foi pras Olimpíadas de Atlanta. Só que a minha mãe queria competir de qualquer jeito. E daí meu pai falou: “Tem uma prova aqui que ninguém faz e tem vaga sobrando. Você quer fazer?”. Essa prova era a marcha atlética.  

A minha mãe foi super bem, e meu pai incentivou ela a continuar na marcha. Ela começou a treinar, se dedicar e foi oito vezes campeã brasileira, campeã ibero-americana e campeã sul-americana. A primeira brasileira a ganhar uma medalha internacional na marcha atlética feminina 

[trilha sonora] 

Eu não sei qual foi o dia em que eu aprendi a marchar. Aconteceu naturalmente. A nossa casa respirava o atletismo e marcha atlética. Eu cresci acompanhando a rotina de treinos da minha mãe e as viagens dela. Só que se dependesse da minha saúde na infância, eu não teria sido atleta. Com apenas 7 meses de vida, eu tive uma meningite. Meus pais nem sabiam se eu sairia vivo do hospital.

Com 1 ano e 2 meses, eu comecei a andar e em poucas semanas as minhas pernas entortaram. Os médicos não sabiam
o porquê, mas as minhas pernas ficaram bem arqueadas pra fora, como se fosse um alicate. Eu fui operado e fiquei dois meses de gesso, a ideia era corrigir o problema daquele momento, mas os médicos alertaram que elas entortariam novamente à medida que eu crescesse. Só que, em mais um mistério que a medicina não explica, as minhas pernas nunca mais deram problema.
 

[trilha sonora] 

Nada disso impediu que eu praticasse o esporte. Em casa, o que não faltava era incentivo. Eu lembro que uma vez meu pai chegou em casa num sábado e encontrou eu e meu irmão dormindo. Era tipo meio-dia e ele ficou indignado. Tirou a gente da cama e levou pro estádio onde ele dava treino de atletismo. Com 8 anos de idade, eu já corria de 6 a 8 quilômetros com meu pai.  

A minha paixão era o futebol. Eu cheguei a ser atleta das categorias de base do Brasiliense. Eu não era ruim, não. Eu jogava na lateral esquerda, uma posição em que você precisa ter velocidade. O preparador físico do time viu que eu tinha potencial e começou a me passar uns treinos por fora. Quando eu tinha 15 anos, eu comentei com meu pai o que tava fazendo. Ele ficou surpreso e me falou: “Caio, no ano que vem vai ter a Copa Brasil de Marcha Atlética em Balneário Camboriú. Você vai se dar bem, filho. Vamos fazer um teste”. A minha história com a marcha começa nessa prova.  

[trilha sonora] 

Mesmo treinando só pro futebol, eu fiquei em terceiro lugar na categoria sub-18. A minha mãe ainda era atleta e competiu também. Os dois ficaram emocionados com o meu resultado. Isso foi num sábado. No dia seguinte, tinha a competição da categoria sub-20, e meu pai me inscreveu também. Eu não queria marchar mais 10 quilômetros, mas ele insistiu: “Caio, amanhã é uma prova diferente. Os cinco primeiros se classificam pra representar o Brasil no campeonato pan-americano. Vai que você consegue. Mas fica à vontade se você não quiser”. Mas eu fui. Melhorei 4 minutos do tempo de sábado pra domingo e fiquei em segundo lugar. No campeonato pan-americano, eu fiz índice pro campeonato mundial.

Um mês depois, eu
fui campeão brasileiro. Faz pouco tempo que eu perguntei pro meu pai porque que ele me incentivou a marchar e não a correr. E ele falou: “Quem é a criança que sabe fazer marcha atlética? Ninguém sabe, mas você e seu irmão sabiam. Então, se juntasse o preparo físico e a técnica de vocês com a bagagem que tinham, vocês largariam na frente”. Durante toda a infância, meu pai inscreveu eu e meu irmão em provas de marcha atlética. Mesmo sem treinar, a gente conhecia a técnica. Os resultados foram tão bons, que eu resolvi dar uma chance e trocar o esporte mais popular do país pro menos popular.
 

[trilha sonora] 
 
Só que uma decisão dessas traz algumas realidades difíceis de lidar.  

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Uma delas é ver que a marcha atlética é pouco reconhecida dentro do atletismo. Aquilo me incomodava. A cada medalha que eu ganhava, eu queria mostrar que o meu trabalho também tinha valor. Essas coisas foram me alimentando, criando a minha identidade e aumentando a minha vontade de fazer parte da marcha atlética. 

Mas a pior parte era aguentar os xingamentos na rua. Toda vez que eu treinava na rua, passava um carro, buzinava e gritava alguma coisa. Já era difícil ser adolescente e lidar com a transformação do corpo e da cabeça. Era difícil sustentar a escolha de ser atleta, enquanto os meus amigos começavam a sair, curtir a vida. Mas aqueles xingamentos eram uma escala de agressão que eu não estava preparado.  
 

[trilha sonora] 

A marcha atlética, ela é uma competição de quem caminha mais rápido. Pra diferenciar da corrida, criaram duas regras. Uma é que o atleta não pode tirar os dois pés ao mesmo tempo do chão. A outra é que a perna precisa esticada no primeiro contato com o solo. Por causa disso, a marcha tem como característica um rebolado. Pra mim nunca foi estranho, porque era a profissão da minha mãe. Mas pra quem não tá acostumado, é esquisito. 

Na rua, o que eu mais ouvia era: “viado”, “vai trabalhar vagabundo”, “para de rebolar”, “vira homem”. Pras mulheres os xingamentos eram ainda mais fortes. Isso quando os motoristas não jogavam o carro na nossa direção, e a gente era obrigado a pular pro meio-fio. Agora, imagina você cansado, com sede, debaixo do sol quente e tendo que aguentar isso todos os dias? Eu não exagerando. Eram todos os dias.  

No começo, a gente marchava dentro do estádio. Ninguém queria sair pra ser humilhado. A gente treinava na rua no máximo no sábado, às 6 da manhã, pra ninguém ver. Eu fui quebrando isso dentro do clube. A gente não podia deixar a ignorância alheia limitar o nosso treino. Quantas pessoas não abandonaram a marcha por causa disso? E aí eu falava assim: “Hoje é a prova de fogo. 'Vamo' ter que treinar na rua”. 

[trilha sonora] 

Eu encontrava conforto nas pessoas que me apoiavam. Tinha gente que passava de carro e falava: “'Vamo' lá!”, “Bom treino!”. Mas acima de tudo eu tinha apoio em casa. Eu acho que, pra tudo na vida, o mais importante é ter suporte da família. Meus pais acreditavam em mim. Eles me davam confiança. Eu sempre fui elogiado como atleta pela minha parte mental. Mas na verdade a base dessa força eram os dois pilares que apanhavam junto comigo e absorviam algumas porradas que eu levava. Por causa da minha família, a caminhada não foi tão difícil. 

[trilha sonora] 

Com muita dedicação, os resultados foram chegando. A primeira Olimpíada foi a de Londres, em 2012. A minha mãe chegou a ter o índice pra disputar as Olimpíadas de Atlanta, mas não pode ir por causa de uma mudança na regra na última hora. Então, as Olimpíadas de Londres foi uma realização de um sonho coletivo. A família inteira viajou pra Inglaterra. A gente foi pra London Eye, aquela roda-gigante famosa, e passeou pela Abbey Road, em Liverpool, porque meu pai é fã dos Beatles. A minha colocação na prova não foi boa. Eu fiquei em 39º e saí carregado numa cadeira de rodas. Mas de qualquer jeito foi importante, porque mostrou que era possível estar entre os melhores do mundo. 

Nos Jogos Olímpicos do Rio, em 2016, o negócio ficou mais sério. Eu terminei em quarto lugar. É uma colocação ingrata, porque você quaaase chega no pódio. Mas foi um resultado que me fez acreditar no meu trabalho. Os meus pais eram meus treinadores e muita gente acreditava que essa relação não daria certo. Ninguém me pressionava, mas eu fazia questão de continuar desse jeito, porque eu confiava muito no trabalho do meu pai.

Meu pai revelou cinco atletas olímpicos, e todos trocaram de treinador quando ficaram grandes. Eu não queria fazer a mesma coisa. E aquele quarto lugar no Rio mostrou que a nossa parceria era boa
. E depois daquela Olimpíada eu brinco que o som da buzina mudou. Era sempre um “pã” e um xingamento, e hoje, é um “pan-pan”, 'vamo' lá campeão.” 
 

[trilha sonora] 

Em 2021, nas Olimpíadas de Tóquio, eu fiquei em 13º lugar. Esse resultado eu considerei um fracasso. A pandemia me interferiu muito, e eu percebi que algumas decisões erradas atrapalharam o meu rendimento. Mas foi ali que eu tive um papo comigo mesmo e decidi fazer algumas mudanças pras próximas Olimpíadas. Eu já sabia que eu era muito bom. Já treinava bem. Mas ainda tinha alguns pequenos detalhes que podiam fazer a diferença.  

coloquei no papel tudo que eu podia melhorar: me alimentar perfeitamente, dormir melhor e obedecer ainda mais todos os profissionais que estavam comigo. Se o fisioterapeuta me mandasse fazer os exercícios X, Y e Z, eu ia fazer exatamente o que ele mandou. O meu objetivo era terminar as provas de Paris e Los Angeles porque eu projetei duas Olimpíadas , olhar para trás e falar: “Cara, eu entreguei tudo que eu podia entregar. Se eu ficar em último lugar, eu tenho que ter muito orgulho, porque eu dei o máximo que eu podia”.  
 
2022 já começou o ano da obediência e da disciplina. No Campeonato Mundial, eu fiquei em sexto lugar. Eu tinha o que melhorar. No ano seguinte, ganhei a medalha de bronze e falei: “Agora eu tenho que manter esse padrão pra 2024”. E foi assim que eu ganhei a medalha de prata em Paris.  

[trilha sonora] 

Até hoje eu me emociono quando eu lembro disso. Quando eu cruzei a linha de chegada, me ajoelhei no chão. Alguém me entregou uma bandeira do Brasil, eu me enrolei nela e corri em direção à minha mãe. De longe eu falei: “Mãe, somos medalhistas olímpicos!”. O médico que estava do lado dela, porque ela estava passando mal, filmou esse momento. Aquela medalha não era só minha. Era da minha família inteira. 

Logo depois da prova, eu dei uma entrevista pra CazéTV que viralizou. Eu precisava desabafar. Mais difícil do que fazer uma prova de 20 quilômetros é viver de marcha atlética no Brasil. Uma vez meu pai me disse que com 25 anos ele tinha dois empregos, duas casas e dois carros. Ele me admirava porque eu não tinha nada, mas mesmo assim me dedicava ao esporte. Tem que ter coragem mesmo pra viver do atletismo e, ainda mais, de marcha atlética. 

A minha teoria é que todo mundo é uma estrelinha no céu. Existem alguns cometas Halleys brilhantes, que brilham mais do que tudo, tipo o Usain Bolt, Michael Phelps. A minha estrelinha lá brilhando e ela ia brilhar mesmo se eu não tivesse subido no pódio em Paris. Talvez o meu maior legado nem seja a medalha em si. O nosso projeto em Sobradinho, o Caso, hoje tem 35 marchadores. É uma garotada que pode marchar em paz na rua, sem sofrer a violência simplesmente por se dedicar à sua paixão. 

[trilha sonora]

Geyze
Diniz
: Nossas histórias não acabam por aqui. Confira mais dos nossos conteúdos em plenae.com e em nosso perfil no Instagram @portalplenae.

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Para Inspirar

Desmistificando conceitos: o que é a medicina da floresta?

O conceito que abarca diferentes abordagens, tem ganhado força na atualidade e busca por inclusão das práticas corretas e do reconhecimento dos povos originários

24 de Setembro de 2024


A ciência não está escrita em pedra e a sua renovação é parte cotidiana de sua prática. É até mesmo esperado que, com o passar dos anos e acúmulo de novos conhecimentos, suas práticas sejam revistas. Até porque, não se trata de algo exato e imutável: a ciência é viva e dinâmica, portanto, se flexibiliza e se adapta. 

É o caso da covid-19, exemplo mais recente que não nos deixa esquecer como verdades absolutas adotadas ainda no início da pandemia logo caíram por terra conforme os cientistas foram se tornando mais familiares a esse vírus que chegou de repente e assolou todo o planeta de maneira devastadora. 

Há ainda um outro aspecto muito importante sobre a ciência que a covid nos ensinou: a força da natureza. O mistério que mora no meio ambiente ao nosso redor e que nos condena na mesma medida que nos salva desde que o mundo é mundo - e o tanto de respeito e responsabilidade que a ele devemos. 

A medicina da floresta, tema que falaremos mais a seguir, é uma síntese sobre tudo isso: as ondas científicas que, de tempos em tempos, são revisitadas, a força da natureza, a humildade que devemos ter diante de saberes que transcendem o nosso tempo e muito mais! 

O que é a medicina da floresta?


A medicina da floresta é um termo usado para se referir ao conjunto de práticas terapêuticas, saberes e conhecimentos tradicionais desenvolvidos por povos indígenas, comunidades ribeirinhas e outras populações que vivem em regiões de floresta, especialmente na Amazônia. 

É ainda um conjunto de saberes carregados através dos séculos, principalmente pela oralidade, tema que falamos por aqui recentemente no episódio de Daniel Munduruku, no Podcast Plenae. Essa forma de medicina se baseia no uso de plantas medicinais, ervas, cascas de árvores e outros recursos naturais encontrados na floresta, que são utilizados para tratar diversas doenças e promover o bem-estar.

Elas se concentram, sobretudo, nas abordagens com rapé, ayahuasca, sananga e kambô, medicinas utilizadas há mais de 5 mil anos, segundo esse estudo de Karlene Bianca Oliveira, da Universidade Federal do Pará (UFPA). Mas certamente há tantos outros saberes espalhados por aí e apenas menos catalogados. 

“Pode-se dizer que hoje a medicina mais falada é a ayahuasca, mas para mim não existe medicina melhor ou pior, cada uma vai trabalhar uma necessidade diferente. A cerimônia da ayahuasca é muito feita aqui na Casa Xamânica, mas a gente também abre para a medicina da sananga ou do rapé. Essa última é feita de tabaco e casca de árvore, aplicada nas nossas narinas, sempre dos dois lados para que não tenha nenhum desequilíbrio e seu objetivo é trazer mais foco, concentração, limpeza dos maus pensamentos - ajuda bastante se a pessoa tem depressão, por exemplo”, conta Lucas Reis Bergamo, fundador da Casa Xamânica.

Seu primeiro contato com a medicina da floresta, como ele conta, foi aos 26 anos. Hoje, com 33, ele relembra que a intensidade das primeiras não foi imediata. Foi preciso a terceira consagração da ayahuasca para que ele se sentisse realmente limpo e “na força”, como é chamado o durante o uso do chá. De lá para cá, ele estudou, viajou, fez imersões profundas com povos indígenas, trabalhou em outros locais guiando cerimônias até que tivesse o seu próprio espaço para se dedicar ainda mais a essa área. 

“Cada pessoa trilha o seu caminho. No meu caso, a primeira coisa que eu fiz foi me aproximar dos povos indígenas, que são os detentores da cultura e das rezas que guiam toda essa espiritualidade. É claro que existem outras religiões que trabalham outras vertentes. Mas eu me apaixonei pelos povos indígenas e fui buscar conhecimento na raiz, na fonte”, relembra. 

A partir disso, ele trouxe esses ensinamentos para o contexto urbano. “Ali eu pude entender toda a parte espiritual e cultural dessas medicinas para que, quando eu trouxesse para o contexto urbano, eu tivesse menos prejuízos possíveis enquanto eu estivesse guiando uma cerimônia. Eu sempre tive muita responsabilidade não só espiritual, mas com a parte física mesmo”, diz. 

Segundo Lucas, não há um tempo específico de estudo ou uma formação para isso. O norte é se sentir preparado para estar fazendo esse trabalho pelo outro e mais: para aplicar todos os ensinamentos colhidos durante as cerimônias no seu dia a dia. “Você precisa não só se curar, mas praticar no dia a dia”, diz. 

E isso não quer dizer consagrar medicinas a todo tempo, até porque, é preciso cautela já que muitas dessas substâncias continuam agindo em nosso organismo por um tempo e, a depender das suas sensações durante o uso, é preciso descansar. “Tem pessoas que consagram uma única vez na vida e não sentem necessidade de fazer nunca mais”, explica ele. 

Os aspectos da medicina da floresta


Dentre os principais aspectos da medicina da floresta, destacam-se:

  • Plantas medicinais: espécies de plantas encontradas na floresta e que possuem propriedades curativas, sendo utilizadas de diversas formas, como em chás, unguentos, banhos ou inalações. A ayahuasca, prática que te contamos por aqui em um relato, é uma planta sagrada usada em rituais de cura por algumas comunidades indígenas da Amazônia.

  • Saberes tradicionais: é todo o conhecimento sobre as plantas e seus usos medicinais, transmitido oralmente de geração em geração entre curandeiros, xamãs e outros líderes espirituais. Eles possuem um papel central na manutenção e transmissão desse tanto de informação que poderia se perder pelo caminho, mas é preservada por um grupo específico e especial de pessoas..

  • Espiritualidade: a medicina da floresta muitas vezes está profundamente ligada a crenças espirituais e cosmologias indígenas, por exemplo. A cura é vista como um processo holístico, envolvendo o equilíbrio do corpo, da mente e do espírito, além da relação com a natureza e os seres da floresta.

  • Sustentabilidade: a prática dessa medicina está alinhada sempre com noções básicas de sustentabilidade, respeitando e preservando o ecossistema local por meio de uma colheita cuidadosa das plantas, por exemplo, garantindo sua regeneração e continuidade.

A medicina da floresta atual


Lembra que mencionamos o caráter cíclico que as práticas científicas podem ter ao longo dos séculos? A medicina da floresta não foge a essa regra e, apesar de ser milenar, ela tem atraído novo interesse mundial nos últimos tempos, se tornando “moda” em alguns círculos de pessoas.

Isso se dá especialmente em função das propriedades medicinais de plantas amazônicas, que agora são mais facilmente encontradas, e o potencial que muitas delas têm para a descoberta de novos tratamentos na medicina ocidental - também mais fácil de ser explorado. Até falamos por aqui, em um Tema da Vez, sobre a nova guinada psicodélica que a academia científica tem tomado - e a natureza é parte indissociável desse processo.

O movimento ganhou tanto corpo que há um Centro Medicina da Floresta (CMF), uma organização não-governamental (ONG) que atua na Floresta Nacional do Purus, na Amazônia Brasileira, e que foi criada em 1989 por um grupo de mulheres, crianças e jovens.

Seu objetivo é resgatar o conhecimento tradicional das plantas da região CMF e manter viva a sabedoria popular das comunidades próximas à floresta por meio de medicamentos fitoterápicos,
assuntos que falamos por aqui e também neste outro artigo. A atividade principal dessa entidade é o extrativismo de espécies medicinais, que posteriormente se tornam os Florais da Amazônia. 

Mas há também o lado negativo da coisa toda. “Hoje, infelizmente, muitas pessoas se apropriam de culturas, de etnias, e ficam usando nomes indígenas, sendo que não são, sem realmente ter a capacidade ou o conhecimento para tudo aquilo que ele está carregando. A partir do momento que você faz essa escolha de guiar o outro, não é mais por você. Tem que ter muita responsabilidade, é um trabalho árduo que envolve um preparo de dias antes. Saber como que essa medicina vai chegar até nós, quem foi que fez, como ela está, fazer uma boa ficha de anamnese para entender se aquela pessoa está fisicamente apta para isso”, conta Lucas.

Ele ainda ressalta que, mesmo com tantas informações disponíveis e aumento da procura, o preconceito e a desinformação continuam circulando entre nós quando o assunto é a medicina da floresta. Mas que, apesar disso, a procura só tende a crescer, em sua opinião.

“A tecnologia tem o seu lado negativo, mas vem nos auxiliando muito também. Ela nos ajuda a divulgar e passar uma mensagem, não dizendo para as pessoas que elas devem consagrar, mas passando todo esse conhecimento, toda essa informação. Outro benefício é para os povos indígenas, a visibilidade que eles estão tendo, conseguindo viajar mundo afora para levar sua cultura e trazer o seu ganha pão, conseguir estruturar suas terras para ter uma água de um poço artesiano na aldeia, para ter internet, comida, barco para todos”, pontua.

Por fim, se você está procurando iniciar na medicina da floresta, independente da sua finalidade, busque conhecimento. Isso vale para internet, claro, mas procure conversar com quem já teve contato com alguma das abordagens ou ir até uma casa onde essas cerimônias são realizadas, para entender um pouco mais sobre como será o processo. 

Eu acho que o caminho para todas as medicinas é o caminho do coração, do que a pessoa está sentindo ali. Mas para qualquer tipo de medicina, eu acho que deve ter sim algumas recomendações. Converse com participantes, entenda qual medicina está consagrando e da onde que ela veio, quem preparou isso é muito importante também, porque hoje as pessoas estão fazendo medicina de qualquer jeito e estão colocando coisas dentro da para dar mais efeito que não são a verdadeira matéria prima”, conclui Lucas. 

Não se esqueça ainda de falar com o seu médico se for idoso, gestante ou tiver algum problema prévio, seja ele cardíaco, mental ou de outra ordem. Tenha sempre cautela, não só com as medicinas da floresta, mas com todas as novas abordagens que se propor a conhecer. Não se canse nunca de buscar mais sabedoria e autoconhecimento!

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