Para Inspirar

Bernardinho em "Errei muito mais do que acertei"

O quarto episódio da décima terceira temporada do Podcast Plenae é com Bernardinho, representando o pilar Mente!

8 de Outubro de 2023



Leia a transcrição completa do episódio abaixo:


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Bernardinho: Seria possível viver do voleibol? Quando eu recebi a proposta pra ser treinador, eu fui conversar com meus pais. A minha mãe, mais zelosa, preocupada, ficou desesperada, achou que era uma loucura. Já o meu pai me falou: “Se é o que você ama fazer, vai. Mas faz bem feito e só volta quando der certo”. Ele sabia que ia ser difícil, que eu ia querer desistir. Ao longo da minha vida, sempre que eu me deparo com situações dessa natureza, eu penso: só volta quando der certo. 

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Geyze Diniz: A trajetória do técnico Bernardinho não é só marcada por suas vitórias, mas também por seus aprendizados. Seus erros e acertos dentro e fora da quadra foram importantes lições para ele e para todos que o acompanham. Bernardinho reconhece a importância de aprender e se adaptar para um mundo em constante transformação. Eu sou Geyze Diniz e esse é o podcast Plenae. Ouça e reconecte-se.

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Bernardinho: Nós fomos apresentados ao esporte muito cedo. Era uma estratégia dos meus pais, Maria Ângela e Condorcet, para gastar a energia dos 5 filhos e também para nos educar. Eu pratiquei judô, futebol, natação e tênis, sem talento pra nenhuma modalidade. O vôlei eu conheci por acaso, nas areias de Copacabana, junto com meu irmão, Rodrigo. Não era nada sério, que a gente praticasse com a intenção de jogar pra valer. A gente só queria mesmo era brincar.

Só que um vizinho achou que nós levávamos jeito e aí nos convidou pra fazer um teste no time mirim do Fluminense. Foi lá que eu conheci Benedito da Silva, o Bené, o meu primeiro treinador. Esse cara me ensinou tantas lições que eu carrego até hoje. Uma delas foi aprender a ouvir “não”.

Desde pequeno, eu não gostava de perder. Eu já tinha um espírito resmungão, dava palpite no jogo alheio e cobrava o desempenho dos outros jogadores. E meu alvo preferido era o meu irmão. O Rodrigo não ligava pros chiliques que eu dava. Ele tem um ótimo temperamento e me deixava brigar sozinho. Sempre que isso acontecia, o Bené me expulsava do treino. Eu tinha uns 13, 14 anos e me sentia perseguido, injustiçado. Era aquele pensamento: “Tudo eu! Tudo eu! Sempre eu!”.

Muitos anos depois, já treinador da seleção feminina, fui perguntar pro Bené porque ele fazia isso comigo. Ele disse: “Você queria tanto jogar, que eu te mandava embora e você voltava. O seu irmão não queria muita coisa. Mas ele jogava muito bem e o time precisava dele também”. O Bené sabia, como eu sabia também, que eu não tinha muito talento pro vôlei. Se eu quisesse cavar o meu espaço, eu ia ter que saber lidar com os desafios. E o Bené não tinha medo de falar “não” e de me desafiar.

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Quando eu tinha 15 anos, já capitão da equipe infanto juvenil, fui convidado pra jogar com o time adulto do Fluminense. Fiquei me achando. Eu aceitei o convite, mas nem cheguei a jogar, passei a partida inteira no banco. O problema é que, no mesmo final de semana, o meu time infanto juvenil também tinha um jogo. Quando eu me reapresentei pro Bené, ele me falou: “Você é o capitão da equipe, você abandonou justamente os jogadores que mais precisavam de você”. Eu nunca esqueci disso. Com poucas palavras, o Bené me deu uma lição sobre a importância da humildade e do senso de coletividade.

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Os meus pais não viam com bons olhos o meu interesse crescente pelo vôlei. Nos anos 60, 70, 80 mesmo, o esporte era só uma profissão pra quem jogasse futebol. 

[trilha sonora]

Os meus pais queriam que eu estudasse, fizesse faculdade e eu fui fazer economia na PUC do Rio. Eu adorei o curso e levei os estudos em paralelo à vida de atleta. Foi uma época em que tive muitas dúvidas sobre o meu futuro profissional. Só que a paixão acabou falando mais alto do que a razão.

Com muito empenho, eu conquistei uma vaga na seleção brasileira que ficou conhecida como a “geração de prata”. Nós ganhamos a primeira medalha olímpica do vôlei brasileiro, em Los Angeles 1984. Os jogadores principais eram Bernard, William, Fernandão, Renan, Amauri, Montanaro, Xandó, Badá. Eu era reserva. Nunca fui aquele cara que entra em quadra pra decidir, mas eu sempre cobrei muito de quem tinha condições para isso.

Desperdício de talento era e ainda é até hoje uma das coisas que mais me incomodam. Eu me considero esforçado. O meu diferencial é que eu não desisto. Isso pode ser uma qualidade, mas por outro lado leva a um certo desequilíbrio. Eu certamente pequei pelo excesso, muitas vezes, por uma quase paranoia permanente por performance, por evolução.

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Quando eu tinha 26 anos, nasce meu primeiro filho, o Bruno. Eu tinha me casado com uma jogadora de voleibol da época, a Vera Mossa. Foi uma época em que eu comecei a olhar pra várias direções, sem saber que rumo tomar na carreira. Eu me tornei sócio de um pequeno restaurante chamado Delírio Tropical, hoje uma cadeia com 10 unidades, e tava gostando de empreender. Eu continuava jogando pra complementar a renda, mas já caminhando pro final da minha trajetória como atleta. 

Só que um convite inesperado mudou os meus planos. Uma amiga, ex-jogadora, Dulce Thompson, me telefonou e perguntou se eu queria treinar o time feminino do Perugia, na Itália. Era uma equipe que estava em último lugar no campeonato italiano. Eu me perguntei: “Como? Eu nunca treinei ninguém”. E ela respondeu: “Mas você tem tudo pra isso. Você conhece o voleibol, tem capacidade de liderança, é perfeccionista, chato, cricri”. Enfim, foi uma daquelas bifurcações que de repente mudam a direção de nossas vidas.

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Meus anos de Perugia foram muito duros, mas ricos demais. Eu aprendi uma nova cultura, aprendi a liderar um grupo de mulheres, aprendi o que é ser um treinador. Mais do que isso, estava aprendendo a ser um líder. Treinador tem a ver com questões técnicas, mas o líder, tem a ver com questões humanas.

Eu lidava com meninas de 16 anos, muito jovens, e com atletas campeãs ao mesmo tempo. Foi também a minha primeira experiência liderando uma pessoa da minha família, porque a Vera Mossa veio reforçar o meu time. Mas eu precisava fazer dar certo. Eu queria provar que aquela loucura de ser treinador ia dar certo. 

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Ao final de três anos, o Perugia não só se salvou do rebaixamento, como foi vice-campeão do campeonato italiano por duas vezes e campeão da Copa Itália. Depois dessa experiência na Europa, eu recebi o convite para assumir a seleção feminina brasileira. Era uma geração desacreditada. Mas tinha um monte de talentos. Fernanda Venturini, a grande levantadora, Ana Moser, uma super  atacante, Marcia Fu, Ana Paula, Ana Flávia, enfim, muitos nomes fortes. Mas elas não ganhavam títulos. O problema da equipe é que não existia um compromisso único, um propósito em comum. Os valores estavam desalinhados. Do ponto de vista pessoal e financeiro, também não estava fácil pra mim, porque eu tinha me separado. Enquanto eu me reerguia, eu trabalhava pra unir as jogadoras e criar um time.

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Às vezes eu ia pelo caminho do sofrimento. A dor une as pessoas. As atletas se uniam para resistir àquele treinador louco que gritava com elas. Não tenho dúvida que, em alguns momentos, eu passei do ponto. E, quando eu passei, eu pedi desculpas. Isso aconteceu, por exemplo, num treino para as Olimpíadas de Atlanta de 96. Nós jogamos um amistoso contra uma equipe masculina no ginásio do Maracanãzinho. O time vinha jogando bem, mas nesse amistoso jogou muito, muito mal. Eu fiquei enlouquecido, explodi várias vezes.

Eu fui pra casa e lembro que nesse dia eu estava sozinho com o Bruno. Ele era uma criança de uns 10 anos. Eu fiquei refletindo sobre a partida. Por que será que elas tinham jogado tão mal? Daí me dei conta que elas tavam cansadas, vinham de uma sequência de treinamentos duros. Existiam alguns elementos que eu não estava levando em consideração.

No dia seguinte, elas iam malhar, não tinha treino com bola. Eu nem ia aparecer no centro de treinamento, até para elas poderem descansar um pouco de mim. Mas eu peguei minha bicicleta e fui. Quando elas me viram, fizeram aquela cara de susto, tipo: “hm, lá vem ele…”. E eu então disse: “Ontem eu explodi com vocês e quero me desculpar em público. Eu errei na forma, mas não na intenção. A minha intenção era tirar o melhor de vocês. Eu sei que ontem vocês não estavam conseguindo por N motivos, mas deram o melhor que tinham. Eu não percebi e cobrei de uma forma exagerada”. Elas se olharam, e nós seguimos. Isso aconteceu algumas vezes. 

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Eu treinei a seleção feminina por 7 anos. Foi nesse período que eu conheci a minha segunda esposa, Fernanda Venturini. Nossa relação profissional no começo era conflituosa. Eu era exigente demais com ela, eu reconhecia um enorme talento naquela atleta. Com o tempo, fui reconhecendo que estava exagerando um pouco na cobrança. Ela foi admitindo que deveria se entregar mais pro grupo. Eu costumo dizer que eu briguei tanto com a Fernanda pra transformá-la numa atleta mais completa, que acabei me casando com ela. Juntos, nós tivemos duas filhas, a Júlia e a Vitória.

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No ano 2000, após as Olimpíadas de Sydney, aceitei o convite para ser técnico da seleção brasileira masculina. O tempo é realmente um professor incrível. Com ele, eu aprendi a dosar a cobrança sobre os jogadores, como foi com a Fernanda.

O meu termômetro são os atletas, aqueles atletas que são referências, que aguentam o rojão. Como um Serginho, um Bruno, um Giba, um Murilo. Quando um desses caras fica calado, cabisbaixo, sem energia… Opa, atenção! Esses jogadores estão com você em qualquer situação, mas eles mudam de atitude se interpretam que você está pegando pesado demais. Eu avalio muito os sinais que eles e elas nos emitem.

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Nos meus últimos anos à frente da seleção masculina, eu tive que mudar ainda mais o meu jeito de interagir com o time. Em 2012, nós fomos vice-campeões olímpicos em Londres. Em 2014, vice-campeões mundiais após um tricampeonato mundial. Aquela geração tinha uma expectativa enorme sobre ela que a medalha de prata parecia uma desgraça. Aquela geração, ela não ganhava prata, ela perdia o ouro. Até que um dia, em 2015, o Bruno, meu filho, atleta e capitão da seleção, bateu no meu quarto e pediu pra conversar. Ele veio falando que “nós” precisávamos mudar. Mas o que ele realmente queria dizer é que “eu”, o treinador, precisava mudar. Ele explicou que aquela geração era diferente. Nem melhor nem pior que as anteriores, só diferente. 

Eu, do alto da minha arrogância, pensava que, se eu tinha vencido tudo, aqueles garotos que se adequassem a mim. Só que não é assim. E o Bruno me disse: “Nós precisamos encontrar um caminho para que você se conecte com eles e consiga extrair o melhor de cada um. Se você não mudar a forma de lidar, nós vamos continuar no ‘quase’. O time tem um respeito reverencial por você. E você continua na base da pressão, pressão, pressão, porque foi uma metodologia que deu certo com a geração anterior”.

Ele tinha razão. O Bruno me deu mais uma lição de humildade. Mais uma na minha carreira. Eu, que insisto tanto pros jogadores não se deixarem levar pela vaidade, tinha sido vítima dela. Tem aquela frase do filme “O Advogado do Diabo”, em que o demônio diz: “A vaidade é o meu pecado favorito”. O ego é o inimigo das boas decisões que nós devemos tomar. 

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Eu baixei a bola e fui buscando formas de interagir com os jogadores. Eu finalmente consegui me conectar com eles durante as Olimpíadas do Rio, em 2016. Nos dias de folga, a gente jantava num dos nossos restaurantes do Delírio Tropical, ali na Barra da Tijuca, perto de onde nós treinávamos. Eu trouxe as famílias para jantar conosco: os pais, as esposas, os filhos, sogras. Durante 1 hora e meia, nós jantávamos e eu ajudava a servir os jogadores e as suas famílias. Aí eu passei a conhecer as famílias, a mãe de um, fazia um carinho no filho do outro. Ou seja, foi criada uma dimensão mais humana no grupo. Eles deixaram de me ver apenas como um louco que obriga todo mundo a acordar mais cedo para treinar.

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Eu acredito que o desconforto gera crescimento, então provocar um certo desconforto é interessante. Mas não pode ser demais, senão a corda arrebenta. 

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Essa pequena iniciativa dos jantares gerou números, porque o objetivo não era só ser bonzinho, simpático, popular, era melhorar o desempenho. E nós ganhamos a medalha de ouro.

A foto mais bonita que eu tenho da minha carreira são meus três filhos abraçados depois que ganhamos a medalha de ouro. O Bruno tá de costas. A Júlia, a do meio, tá com a cabeça debruçada no ombro dele. E a Vitória, a caçula, espremida entre os irmãos, como um sanduíche, chorando. Ver uma menina de 7 anos chorando de emoção não é algo muito comum. As duas realmente se sentiam parte do time naquela conquista.

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Recentemente, eu recebi um convite, um desafio gigantesco de treinar a seleção masculina da França visando as Olimpíadas de Paris em 2024. Durou poucos meses. Eu, que tinha acabado de me separar da Fernanda, pedi demissão do cargo por razões familiares. Eu costumo dizer que na vida todos nós tomamos uma série de decisões e essas decisões têm que estar pautadas em três pilares fundamentais: o primeiro é a saúde, sem a qual não cuidamos das outras duas, que são: família e trabalho. A saúde física, a saúde emocional para que a gente possa realmente estar bem, tomar boas decisões e cuidar da nossa família e do nosso trabalho. Sair da seleção da França e desistir daquele processo eu estava realmente priorizando aquilo que muitas vezes não foi minha prioridade, e erros que eu cometi durante a minha carreira.

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As pessoas enaltecem as minhas conquistas, e ok, que foram significativas. Mas, ao longo da minha vida, eu errei muito mais do que acertei. Para tomar decisões certas, eu cometi erros que me trouxeram muita experiência. Errar dói, mas traz aprendizados. Com o tempo, nós percebemos o quão pouco nós sabemos. 

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Hoje, eu me sinto um aprendiz, um aprendiz assustado. Eu tenho um certo temor de não conseguir aprender tudo que eu gostaria de aprender para me adequar a um mundo em constante transformação. Mas eu continuo tentando. No fundo, eu continuo o mesmo garoto inquieto que começou a jogar vôlei nas areias de Copacabana. 

O que eu preciso fazer pra alcançar o que eu quero? O meu espírito curioso e dedicado continua o mesmo, o mesmo.

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Geyze Diniz: Nossas histórias não acabam por aqui. Confira mais dos nossos conteúdos em plenae.com e em nosso perfil no Instagram @portalplenae.


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Para Inspirar

Rodrigo Hübner Mendes em "Resiliência do propósito, plasticidade da ação"

Como um episódio marcante pode mudar os rumos de sua vida - e de outros tantos? Rodrigo Hübner Mendes explica, no Podcast Plenae

11 de Outubro de 2020


Leia a transcrição completa do episódio abaixo:

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Rodrigo Hübner Mendes: Quando o pessoal do Plenae me convidou pra gravar esse podcast, achei interessante a provocação pra que eu falasse sobre minha relação com meu corpo, com a minha saúde, com meu movimento. Especialmente pra alguém que, aos 18 anos, sentiu na pele o que parecia ser uma eterna perda da mobilidade.  [trilha sonora]

Geyze Diniz: Conhecer o Rodrigo é entender o significado da palavra inspiração. Uma assalto, um tiro, uma mudança drástica do percurso. O que seria para muita gente motivo para deprimir e se fechar, foi o motivo com que ele se abrisse para o mundo e criasse caminhos para inclusão de tanta gente que precisa. No final do episódio, você ouvirá reflexões do doutor Victor Stirnimann para te ajudar a se conectar com a história e com você mesmo. Eu sou Geyze Diniz e esse é o Podcast Plenae. Aproveite este momento, ouça e reconecte-se. [trilha sonora]

Rodrigo Hübner Mendes: Durante toda minha infância fui apaixonado por futebol. Comecei jogando bola no quintal de casa e, conforme fui ganhando confiança, pedi pro meu pai me inscrever no campeonato do Clube Pinheiros. Tive a sorte de me destacar logo no primeiro ano. Fui convocado pra a seleção do clube, o que era o máximo pra um garoto naquela idade. Já com 13 anos, levei uma pancada no joelho, o que me afastou completamente do esporte por bastante tempo. Acabei precisando passar por uma cirurgia pra retirada do menisco, que resolveu totalmente o meu problema. Voltei a jogar bola sem nenhuma dor. E, ao mesmo tempo, defini qual seria meu plano de vida. Fiquei tão fascinado com o poder do médico de devolver bem-estar pras pessoas, que decidi que eu seria cirurgião de joelhos de atletas.

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Na época, meu médico tinha fortemente recomendado que eu balanceasse o futebol com algum esporte que não gerasse impacto no joelho e que me desse massa muscular. Lembrei que um primo mais velho tinha experimentado remo recentemente e tinha adorado. E aí fui eu pra raia da USP, onde ficam as instalações de todos os clubes de remo de São Paulo. Logo de cara criei uma enorme curiosidade e motivação por aquele esporte que, no meu imaginário, formava atletas indestrutíveis, incansáveis. Quer dizer, um universo extremamente sedutor para um adolescente em busca de novidades. Comecei remando no Paulistano, que é um clube de elite e tinha a melhor infraestrutura na época. Nosso treinador se chamava Hércules. Acho que nenhum nome pode ser mais apropriado pra descrever um personagem que era um mito na raia. O cara era um armário, alto, muito forte, barba preta. Falava pouco, nunca sorria e fuzilava com os olhos quando alguém se atrevia a fazer um comentário mais descontraído durante o treinamento. Eu achava aquilo tudo muito divertido. Me sentia meio que num filme. Mas levava super a sério. Era bem "caxias" com horários, esforço, etc.

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Saltando no tempo, na época em que eu estava no cursinho pré-vestibular, eu passei por um assalto onde levei um tiro. E isso gerou a imobilidade abaixo dos ombros, chamada de tetraplegia. 

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Fui obrigado a abandonar os estudos e canalizar todo o meu tempo pra diversos tipos de fisioterapia. Tive acesso aos melhores médicos e apoio incondicional da minha família e dos meus amigos. Em nenhum momento me faltou ajuda. Me lembro que, toda noite, a sala de espera do hospital ficava abarrotada de gente querendo me ver, querendo ajudar de alguma forma. Além disso, minha história com esporte foi decisiva para que eu conseguisse sobreviver, especialmente pelo remo que trabalha muito resistência e saber não entregar os pontos. 

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Teve uma passagem muito marcante com meu pai. No dia do assalto, logo que ele chegou no hospital e me viu na maca, num limite entre vida e morte, muito fragilizado, ele segurou no meu braço e disse: filho, fica tranquilo, faz a sua parte, a gente vai fazer a nossa e a gente vai vencer isso tudo. Isso passou a ser o meu lema diário que me influencia até hoje.

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Quando eu comecei a frequentar clínicas de reabilitação, percebi que eu era uma exceção. A maioria das pessoas que passam por acidentes ou nascem com alguma deficiência, enfrentam também pobreza, miséria. Interessante que outro dia eu estava lendo um livro sobre o navegador Ernest Shackleton. Ele era um aventureiro que, em 1914, organizou uma expedição com o objetivo de realizar a primeira travessia do continente antártico com trenós. E aí o negócio deu errado. Antes de chegar no ponto de desembarque, o mar congelou e eles ficaram presos por 9 meses no navio, até que a pressão do gelo arrebentou com a estrutura do barco e eles tiveram que passar um tempo enorme vivendo em cima de placas de gelo, em condições extremas. Temperaturas muito baixas, ventania, muita umidade. Em várias passagens desse livro, o Shackleton fala sobre a relatividade das adversidades. Dizia, por exemplo, que quando a temperatura subia de -25º para -5º, comparativamente eles se sentiam super confortáveis e felizes. Esse livro fez eu voltar no tempo, porque eu me identifiquei muito com essa sensação. Logo na primeira semana de hospital eu tive esse insight de que estava na minha mão dimensionar qual seria o tamanho do meu problema. Em relação a quem não tinha nenhum suporte, me vi ali como uma pessoa extremamente privilegiada. E aí, mais pra frente, o desejo de retribuir tanta coisa boa que eu tinha recebido, combinado com o sentimento de indignação por ver que muitas famílias não tinham como pagar as despesas do tratamento dos seus filhos, com casos muito complicados, resultou na criação do Instituto Rodrigo Mendes.   [trilha sonora]

E o que que o Instituto faz? A gente trabalha pra que nenhuma criança ou adolescente fique de fora da escola por causa de uma deficiência. Pra isso, a gente vem investindo em 3 pilares: identificando o que existe de mais avançado no mundo, oferecendo referências práticas pro professor que tá lá na ponta e se sente inseguro e promovendo formação, cursos pra professores em todo Brasil. 

Nos últimos anos a gente produziu documentários sobre casos de sucesso no Brasil, nos Estados Unidos, na França, na Dinamarca e na Argentina. E como resultado dessa nossa exposição internacional, a gente foi contratado pelo Governo de Angola para um projeto de consultoria para a criação de uma Política Nacional de Educação Inclusiva lá. É a nossa primeira intervenção na África e vai beneficiar milhares de crianças e adolescentes. Olhando pro Brasil, a gente conseguiu impactar mais de 100 mil educadores dos 26 estados brasileiros. Essa é uma marca que a gente atingiu esse ano. Estamos super feliz, é o nosso presente de 25 anos. 

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Voltando à provocação do Plenae, será que a minha relação com meu corpo mudou nesse tempo todo? Será que quando eu era atleta o meu corpo exercia maior influência sobre a minha identidade? Ou, ainda, será que a minha nova condição me levou a ser mais desprendido do meu corpo?

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Para começar, eu acho que a separação corpo, mente e espírito tem uma função meramente didática. Serve para a gente tratar das diferentes dimensões que nos compõem de uma forma mais organizada. Mas, objetivamente, a nossa existência se dá pelo corpo. É por meio dele que somos percebidos, que a gente deixa nossa marca, mesmo que a gente continue a existir na memória dos outros depois da morte. Isso independe da nossa crença pessoal sobre questões metafísicas e religiosas. Quer dizer, eu continuo intrinsecamente ligado ao meu corpo. E o fato do meu corpo ter mudado não significa que minha essência tenha mudado. Eu sinto que ela foi preservada.

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Há alguns anos fui convidado pra dar uma palestra em Davos. Me chamaram para falar sobre resiliência. Como muita gente sabe, resiliência é um conceito da física que diz que, na natureza, alguns materiais têm a capacidade de retornar ao seu estado original após sofrerem uma deformação ou um impacto. Os americanos gostam de chamar isso de "bouncing back", que é o movimento que uma bola de borracha desempenha quando é arremessada contra uma superfície rígida. A bola se deforma e depois recupera a sua configuração. A plateia em Davos tinha príncipes, princesas e grandes autoridades. Quando subi no palco, o entrevistador me perguntou: Rodrigo, sabendo que a história da humanidade é marcada por crises cíclicas, você acha que é possível aplicar o conceito de resiliência para superação dessas crises? Eu pessoalmente acredito que, diante de uma mudança imposta, indesejada, a tendência humana é querer voltar à situação anterior. Senti isso na pele logo depois do meu acidente. Passei 3 anos fazendo 8 horas por dia de fisioterapia pra voltar a ser quem eu era, ou seja, um jovem fisicamente independente. Hoje eu percebo que a resiliência é uma capacidade fundamental para nossa essência. Seja qual for o impacto, a ruptura que surgir na nossa frente, a gente precisa ser capaz de preservar, de proteger nosso objetivo maior. Agora, quando a gente pensa na nossa ação, na nossa vida prática, eu prefiro usar um conceito que é o oposto da resiliência, que é a plasticidade. Plasticidade é a capacidade de um material se moldar, se transformar e se desprender da forma anterior. Resumindo, eu propus que as lideranças lá presentes buscassem combinar resiliência do propósito com plasticidade da ação. Que deixassem para trás o "bouncing back" e começassem a pensar em "bouncing forward". E esse negócio pegou. A expressão "boucing forward" saiu na frase final do relatório do Fórum Econômico Mundial. 

[trilha sonora]

Voltando para a questão da mudança do meu corpo, de certa forma, acho que é isso que eu venho fazendo nesses anos todos. Me reinventado, mas blindando a minha essência. Os caminhos pra eu atingir meus objetivos vão se modificando com o tempo, mas o meu norte segue sendo o mesmo. Eu gosto muito do poema vitoriano que diz que “somos mestres dos nossos destinos, somos capitães das nossas almas”. Apesar da enorme incerteza que está sempre ao nosso redor, da impossibilidade da gente controlar as coisas, daquilo que os budistas chamam de impermanência, me ajuda muito pensar que a nossa intenção, o nosso objetivo maior está sob nosso controle, não importa quantos tiros, quantos trancos a gente leve.

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Os momentos mais difíceis da minha vida foram, de longe, os primeiros dias no hospital. Eu tinha muita dificuldade pra respirar e precisava enfrentar uma maratona de procedimentos que eu nem sabia que existiam. Toda madrugada, tinha a hora em que todo mundo fazia uma pausa pra descansar e eu ficava, ali, acordado, meio que numa sombra, como que na beira de um precipício, me segurando como eu podia pra não despencar. Nessas horas, eu recorria aos melhores momentos do meu passado, que apareciam como um cinema projetado no céu. Eram sempre momentos marcados por leveza e afeto. E aquilo me reanimava. Eu me sentia com uma força sem fim pra, no dia seguinte, encarar de novo aquele maremoto com meu barquinho a remo. 

Me dá muito prazer saber que eu, minha equipe, meus conselheiros, nossos parceiros, quer dizer uma legião de pessoas, trabalham pra melhorar a educação no país, pra que todo mundo esteja no jogo e tenha a chance de marcar um gol ao invés de passar a vida toda no banco de reservas, ou pior, escondido no vestiário. Uma das estratégias que eu adoto pra manter o meu foco no meu propósito é me lembrar de uma noite, quando eu estava no primeiro ano de faculdade, em que eu perdi o sono e resolvi ligar a TV. E estava sendo transmitida a cobertura de um encontro mundial de grandes cientistas, filósofos e líderes religiosos. O objetivo era discutir o futuro do planeta. Os argumentos eram hiper sofisticados até que, num dado momento, a palavra foi passada pro Dalai Lama. E aí, com muita simplicidade, ele falou que é uma ilusão discutir sustentabilidade sem que a gente primeiro reconheça que todos os seres humanos são interdependentes. Eu gosto muito dessa visão de que, se o nosso vizinho tá passando por um sofrimento, de alguma forma a gente também vai ser afetado por esse sofrimento, não importa a altura dos muros que separam as nossas casas. Eu realmente acredito que a gente precisa ser capaz de devolver tanta coisa boa que a vida oferece pra gente todos os dias e trabalhar duro para que as coisas melhorem. Melhorem não só pra gente, mas pra cada vizinho desse bairro planetário chamado Terra. Acho que no fundo eu continuo seguindo o pedido do meu pai, buscando fazer a minha parte. [trilha sonora]

Victor Stirnimann: Escutar o Rodrigo, prestar atenção na forma como ele conta sua trajetória neste mundo, já é uma experiência que muda nossa energia e nos acende. A sua intensidade nos desperta para tudo que a vida pode ser, a nossa vida. Rodrigo é um daqueles mestres que desenvolveram a qualidade de presença. Presença e consciência de quem sabe e nunca esquece que estamos aqui por um tempo, por um triz, e que este milagre bem curto, precisa ser aproveitado, saboreado, celebrado como fogos de artifício em uma noite de verão. Naquela fala aparentemente simples do pai, "faça sua parte e faremos a nossa", exige um dos segredos mais importantes para quem tem a profundidade de escutar. Cada um de nós, sem exceção, é um projeto especial do cosmos, da inteligência universal que se descobre diferente em cada olhar, em cada destino. Fazer a nossa parte é entender que cada vida, sem exceção, encontra limites. Limites que estão nela e não em todas as outras e que são estes limites que a fazem única, exclusiva, nunca repetida em todos os mundos e todos os tempos. Hoje em dia, falamos tanto de transcender os limites, quase esquecemos de que precisamos abraçá-los primeiro, para depois lembrar de nossa verdadeira raiz que é o infinito. Na tradição budista, a escolha de Rodrigo representa o caminho do Bodhisattva, aquele que poderia se libertar primeiro, mas escolhe permanecer enquanto foi possível, ajudando na libertação de todos os outros. Nesta escolha, o capitão de nossa alma nos ajuda a superar a última ilusão, a de que existe um destino nosso que não seja também o de todos os outros.
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Geyze Diniz: As nossas histórias não acabam por aqui. Acompanhe semanalmente nossos episódios e confira nossos conteúdos em plenae.com e no perfil @portalplenae no Instagram.  [trilha sonora]

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