Para Inspirar

Angélica em “A simplicidade do propósito”

Na terceira temporada do Podcast Plenae - Histórias para Refletir, conheça a jornada de força, superação e busca pelo propósito de Angélica

6 de Dezembro de 2020


Leia a transcrição completa do episódio abaixo:

[trilha sonora] Angélica: O acidente de avião que sofri com a minha família em 2015 não foi único trauma da minha vida. Na verdade, a minha carreira artística começou por causa de uma experiência emocional que me abalou profundamente. Quando eu tinha 4 anos de idade, a minha casa, em Santo André, no ABC paulista, foi assaltada. Eu vi meu pai levar três tiros e me fechei. Não conseguia mais ver gente, nem sair de casa. Aí, minha mãe me levou no Programa do Chacrinha pra ver se eu perdia aquele medo. O resto vocês já sabem. Tudo na vida tem um motivo. Se por causa daquele primeiro trauma eu me descobri artista, por causa do segundo, eu descobri o meu propósito de vida.  [trilha sonora] Geyze Diniz: O Brasil viu ela crescer, amadurecer, casar e ter filhos diante das câmeras. Em 2015, depois de sofrer um acidente de avião com toda sua família, ela iniciou uma viagem pra dentro de si mesma e longe dos holofotes. E nessa jornada interna, a apresentadora Angélica descobriu um motivo mais forte para sua existência, um propósito de vida onde a simplicidade e o amor é o que importa. Ouça no final do episódio as reflexões da professora Lúcia Helena Galvão para ajudar você a se conectar com a história e com você mesmo. Eu sou Geyze Diniz e esse é o Podcast Plenae. Ouça e reconecte-se. [trilha sonora] Angélica: Eu, meu marido, nossos três filhos e duas babás estávamos voando de uma fazenda no Pantanal pro aeroporto de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. Era dia 24 de maio de 2015. Quando eu percebi que tinha algo errado no motor, eu me desesperei. O Luciano, meu marido, conversava com o piloto, tentando entender o que estava acontecendo e eu gritei: "Pousa esse avião!". O Luciano virou para mim e disse: "A gente não vai pousar, a gente vai cair". Até o avião bater no chão, passaram-se uns 4 minutos com a certeza que todo mundo ia morrer. Eu chorava, as babás rezavam, as crianças gritavam. Só que enquanto a gente caía, no meio daquela barulheira, teve uns 3, 4 segundos, ou mais, eu não sei mensurar, de um silêncio coletivo, simultâneo e muito, muito confortante. Todo mundo entrou numa mesma frequência de paz coletiva. Foi uma experiência espiritual, energética. Eu acredito que, naquele momento, cada um se conectou com o seu interior e perdeu o medo, como se algo nos dissesse: “Olha, tá tudo bem”. A sensação que eu tenho é que antes da morte vem esse silêncio, essa paz, essa entrega. [trilha sonora] A gente se entregou. O avião quicou duas vezes no chão e ninguém se machucou seriamente. O dia 24 de maio ficou marcado na minha casa como uma data de renascimento coletivo. Meus filhos foram ao psicólogo pra superar o trauma e o Luciano fez três meses de fisioterapia pra tratar uma lesão na coluna. Mas a minha ferida foi na alma e ficou latente por meses, até se manifestar no ano seguinte. [trilha sonora] Em uma viagem com a família pra Nova York, eu estava andando na rua sozinha quando cheguei perto do Central Park e simplesmente travei. Não sabia se eu ia pra frente, nem pra trás. Comecei a sentir falta de ar, achei que ia morrer e comecei a entrar numa paranoia de que ninguém ia me achar. Liguei pro Luciano e ele foi me buscar. Eu conhecia aqueles sintomas. Aos 20 e poucos anos, fui diagnosticada com Síndrome do Pânico. Na época, o médico disse que eu precisava de remédio pra dormir, porque eu estava muito agitada e tinha que descansar. Eu trabalhava demais, não tinha tempo pra descansar, aceitei o remédio. Naquele dia em Nova York, eu pensei comigo mesma: “Opa, tá voltando aí uma história que eu conheço. Só que dessa vez eu não vou tomar nada”.


Comecei a buscar uma terapia que não fosse alopática e caiu no meu colo um documentário chamado The Connexion. O filme falava sobre a conexão do corpo e da mente. Tinha depoimento de pessoas que se curaram de doenças e entrevistas com pesquisadores e professores de Harvard e Stanford que tiravam o chapéu pra meditação. Pesquisei mais o assunto e descobri que realmente a cabeça da gente pode controlar muita coisa. Conheci a meditação transcendental e comecei a praticar todos os dias. Eu me dediquei muito à meditação e a exercícios de respiração, que na ioga se chamam pranayamas. Pra mim funcionou super. Por causa do pânico, eu tinha medo de sair sozinha, medo de ter medo. Mas, logo que eu identificava qualquer sintoma, como taquicardia ou suor na mão, eu começava a prestar atenção na minha respiração. Conforme eu fui me fortalecendo, eu fui ganhando força pra lidar com o meu medo. Até que eu consegui me curar da Síndrome do Pânico sem remédio. [trilha sonora] Durante essa jornada de autoconhecimento, eu tive mais uma surpresa. Ou melhor, um susto.  [trilha sonora]


Aos 43 anos, iniciou o meu processo de menopausa. Eu costumo dizer que eu queimei a largada na vida. Sabe quando você acelera antes da bandeirada? Tudo pra mim foi antecipado, até os hormônios. Eu acredito que a menopausa precoce é resultado da carga de estresse que eu aguentei desde muito cedo.  O tal machismo estrutural também passa por esse discurso de que a mulher não presta mais quando para de menstruar. Até alguns médicos agem como se você tivesse chegado no fim da linha e não houvesse mais nada pra ser feito. Não é verdade, existem tratamentos pra combater os sintomas.  Foi gostoso no começo? Claro que não! A menopausa tira o corpo um pouco do eixo, porque causa de uma mudança química. Mas como a meditação faz o contrário ou seja, coloca a mente no eixo , ela me ajudou a atravessar esse período de uma forma mais tranquila. Melhorou a insônia e me deixou mais equilibrada emocionalmente, pra não ficar tão nervosa ou triste, por causa da oscilação de humor. Algumas vezes, quando eu começava a sentir os tais calores, eu fechava o olho e começava a respirar. Pronto, aquele calor ia embora. Eu fui entendendo que a menopausa é um processo natural. E que o fim de um ciclo representa o início de outro. No meu caso, foi o início de uma fase melhor. Hoje, eu tenho experiência, maturidade, segurança com o meu corpo e um controle mental que eu não tinha antes da meditação. Eu posso não ter os hormônios bombando, mas com bons pensamentos eu sou capaz de influenciar muita coisa do meu corpo. [trilha sonora] Nesse processo de amadurecimento e reflexões, entre acidente, Síndrome do Pânico, meditação e menopausa, teve mais um elemento que contribuiu pra minha viagem interna. Entre 2018 e 2020, eu ganhei um presente inédito: um sabático de um ano e meio. Como eu trabalhava desde os 4 anos, o meu corpo físico e mental estava cansado. Ele precisava de ferramentas pra se restabelecer. Com a pausa, eu pude me conectar com coisas que eu nunca tinha reparado antes, como no meu silêncio. Foi nele que eu aprendi a me sentir confortável na minha pele, a ficar bem sozinha, a me conectar com a natureza. E apesar de ter sido uma loucura de bom, parar de trabalhar me deixou mais vulnerável, mais insegura, porque eu sou uma pessoa que sempre funcionou trabalhando. Essa vulnerabilidade de não saber muito bem onde me agarrar foi boa, porque eu descobri uma força em mim que nem eu conhecia. Descobri que a minha força está no sutil, no suave. Não tá na agitação, na loucura, no trabalhar, trabalhar. Essa serenidade que eu descobri dentro de mim me lembra aqueles segundos de paz na queda do avião. Na meditação, é exatamente aquela transcendência que a gente busca, com entrega total e ausência de medo. É o tal do Nirvana, uma sensação gostosa entre vigília e sono, como se você tivesse voltando de uma anestesia. Com o conhecimento que eu tenho hoje, eu arrisco a dizer que dentro do avião nós alcançamos essa sensação de transcendência coletivamente. [trilha sonora] Quando eu me sinto inteira, eu acabo refletindo isso pra minha família também. A gente vira um pontinho de luz quando tá pleno. E todo mundo ao redor fica melhor, mais tranquilo, equilibrado. Quanto mais eu me conheço, mais eu fico forte pra enfrentar o que vier. A graça da vida é essa também, né? Acontece alguma coisa fora do planejado e a gente tem que tá atento pra dar a volta por cima. Eu nunca gostei do papel de coitada. Meu lema é: “Vambora. Não deu certo? Levanta e vai”. [trilha sonora] O silêncio, a introspecção e a vulnerabilidade me fizeram refletir sobre algo que eu nunca tinha parado pra pensar: o que que eu quero a partir de agora? Eu sei que o meu trabalho foi importante pra divertir muita gente e que eu fiz parte da infância de um monte de pessoas. Isso é realmente bonito e eu sou grata pela minha história. Mas, além disso, no que mais eu posso contribuir? Qual é o meu papel aqui? Que legado eu vou deixar no mundo? Esses questionamentos resultaram no programa que eu faço hoje. O Simples Assim é a forma que eu encontrei de mexer com a vida alheia e provocar reflexões. Nesses anos de autoconhecimento, eu percebi que a necessidade que eu tinha de ouvir pessoas, debater determinados assuntos e me aprofundar em temas existenciais não era uma busca só minha. Eu pensei: “Com o programa, eu posso ajudar o outro a encontrar ferramentas pra ser mais feliz”. A gente tá vivendo um momento de tomada de consciência, uma nova era. As pessoas estão vendo que a felicidade está nas pequenas coisas e que a humanidade é o que une a gente. A proposta do programa é ter empatia, enxergar o outro, não julgar, se conectar com o próximo e ter uma sensação de pertencimento. Porque, embora cada um tenha o seu problema, no fundo todos temos questionamentos semelhantes. Eu sei que quando eu proponho reflexões sobre a vida vem um julgamento: “Ah, é muito fácil ela falar, porque ela tá no lugar do privilégio”. Sim, eu tô, mas esse privilégio não pode me cegar a ponto de eu não enxergar o outro e o meu entorno. Então, porque eu tô nesse lugar eu não vou fazer nada? Vou ficar presa sem poder dar a minha voz e a minha contribuição pra sociedade? Se a gente não olhar pro outro e não se identificar com ele, fica muito difícil viver.  Por isso, o programa não é sobre mim. Eu entro como ouvinte, aprendendo e dividindo com o público os meus anseios e as minhas curiosidades. Eu quero deixar algo que eu considero positivo pra uma, duas, três, vinte, mil, milhões de pessoas. Esse é o meu propósito. E se eu descobri qual é a missão, foi por causa dos percalços que eu tive até aqui. Por isso, para aquela Angélica amedrontada do dia 24 de maio de 2015, eu diria assim: “Você não sabe o quanto tudo isso que você tá vivendo agora e esse sofrimento que você tá sentindo vão te trazer coisas boas e alegrias na vida. Acredite: essa dor vai te conectar com o que realmente importa na sua vida. Chore menos, sofra menos e aproveite as experiências que vêm daqui pra frente, porque elas vão te levar pra um lugar lindo. A-pro-vei-ta e não deixa passar na-da!” [trilha sonora] Lúcia Helena Galvão: Ninguém discute que a Angélica ganhou do berço a beleza física, mas tudo mais ela teve que lutar para conquistar e construir por si mesma o mérito. O assalto presenciado na infância a levou para fora de casa, para encontrar a carreira de sucesso, a fama. Mas ainda havia outras coisas pelo caminho que tinham que levá-la para dentro de si mesma. A Síndrome do Pânico aos 20 e poucos anos de idade deu este recado pela primeira vez, mas ainda havia caminho pela frente antes de chegar a hora de acertar definitivamente o rumo. E esse segundo recado foi um professor bem violento, gritando a lição em seus ouvidos: a iminência da morte dela e de toda sua família no acidente de avião. E a resposta dada por ela foi de alto nível e digna de ser anotada, como uma receita, um modus operandi, com tudo para dar certo. Parar, encarar as angústias, confrontá-las e dizer: "até diante da morte dá para encontrar a paz, porque não agora?". Fazer as angústias se calarem, o medo se calar, criar silêncio e se encher de silêncio, saboreá-lo, depois dar a pausa necessária e reconstruir a vida por definição usando só os materiais consistentes testados pela maturidade conquistada. E aí, chega o ponto bom, onde tudo se compensa. Sou o que sou graças a todos os fatos da vida. Então ele não foram só negativos, não só levaram coisas, mas me deram muito. Grata e em paz com a sua história, ela está apta a começar a distribuir, a compartilhar. Hoje, Angélica é uma mulher madura. Agora, a beleza do corpo contagiou a alma e transborda pelos olhos doando-se generosamente. Agora, ela conquistou o carinho daquela criança que faltava cativar, dentro de si mesma.  [trilha sonora]

Geyze Diniz: Nossas histórias não acabam por aqui. Confira mais dos nossos conteúdos em plenae.com e em nosso perfil no Instagram @portalplenae.

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Para Inspirar

Irmãos Filpi em “De dentro pra fora”

Ouça e leia o episódio da nona temporada do Podcast Plenae, conheça a história dos irmãos Filpi e como foi para sua família a transição de gênero de Miguel.

21 de Agosto de 2022



Leia a transcrição completa do episódio abaixo:

Miguel: Minha mãe me contou que, quando eu tinha 5 anos, eu falei pra ela: “Eu sou um garoto e eu gosto de menina”. Assim, na lata, com essas palavras. E ela respondeu: “Ah, é uma fase, vai passar.” Eu interpretei aquilo como uma rejeição. Várias situações desse tipo fizeram de mim uma pessoa muito revoltada. Eu nasci num corpo de mulher, mas sempre me encaixei melhor no mundo entendido como masculino. Aos 24 anos, eu decidi fazer a transição de gênero, e a minha vida mudou.

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Geyze Diniz: Miguel e Natália são gêmeos idênticos, pelo menos de acordo com a ciência, mas sempre se enxergaram completamente diferentes. Desde brigas na infância à estranhezas durante a adolescência, os gêmeos nunca se viram tão distantes e afastados por conta da maioria querer que eles fossem iguais. Mas a proximidade entre os dois só veio quando as diferenças começaram a ser reconhecidas. Miguel passou por uma transição de gênero e hoje é um homem trans que mostra que o respeito pode ser o maior elo de amor e união em qualquer relação. Conheça a história de mudanças, respeito e amor dos Irmãos Filpi.

Ouça no final do episódio as reflexões da Neurocientista Claudia Feitosa-Santana para te ajudar a se conectar com a história e com você mesmo. Eu sou Geyze Diniz e esse é  o Podcast Plenae. Ouça e reconecte-se.


[trilha sonora]


Miguel: “Existe uma visão romantizada de que a relação entre gêmeos é a mais bonita que existe. As pessoas acham que, porque os irmãos nasceram juntos, eles vão se identificar muito e até sentir o que o outro sente. Comigo não foi bem assim. Eu não cresci sendo o melhor amigo da minha irmã, e nem ela a minha melhor amiga. Na verdade, eu tenho poucas memórias de uma boa convivência entre nós. Eu lembro mais das brigas.

Eu sempre me comparei muito com a Natália. A gente é muito parecido fisicamente e, pra mim, ela é uma referência do que tava certo. Desde pequena, ela seguia aquele modelo feminino estabelecido pela sociedade. Gostava de maquiagem, adorava arrumar o cabelo, fazia a unha. Já eu jogava bola e não gostava de roupa apertada. Eu detestava ter o cabelo comprido, mas não cortava, porque morria de medo da minha mãe ficar triste. Meus pais nunca me falaram nada, mas eu sentia que eles queriam que eu fosse um pouco mais parecido com a Natália. A presença da minha irmã era um constante lembrete  de que tinha alguma coisa errada comigo, só que eu não sabia o que que era.

Natália: Eu tive uma infância tranquila, sem grandes preocupações comigo mesma. Mas o meu irmão, não. Desde pequenininho, ele era bravo, agressivo com todo mundo, principalmente comigo, seu saco de pancadas. Eu lembro que a gente tinha uns 10 anos e alguém chamou ele de “moleca”. Ele ficou transtornado de um jeito, que eu não entendi o tamanho da revolta.

O Miguel explodia por causa de coisas que eu considerava muito pequenas, tipo se arrumar para uma festa. Teve o casamento de um primo que ele fez um escândalo porque ele não queria colocar um vestido. Ele chorava e falava: “Eu não quero arrumar o cabelo, eu não quero pôr essa roupa”. Ele tava muito incomodado, mas não sabia se comunicar direito e não sabia comunicar o que tava sentindo. Depois de muita insistência nossa, ele finalmente se vestiu e a gente acabou indo pro casamento. Mas, dava pra ver que ele estava muito triste.

Em casa, o Miguel era naturalmente o centro das atenções, porque ele peitava os meus pais em relação a tudo. Questionava, literalmente, qualquer ordem. Hoje eu vejo com clareza que a minha mãe e meu pai sentiam que precisavam dar mais atenção pra ele. Mas, quando eu era menor, interpretava essa preocupação como preferência. Eu achava que o Miguel era o filho mais amado e eu acabava me sentia meio sozinha, sabe? Escanteada. Pra não criar mais problemas na família, eu engolia os sapos e obedecia tudo o que meus pais mandavam, mesmo sem concordar. Eu falava sim pra todo mundo, menos pra mim.

Miguel: Quando a gente tinha 16 anos, a Natália e eu fizemos intercâmbio pros Estados Unidos, cada um pra um lugar. 

[trilha sonora] 

Eu já tinha entendido que eu me sentia atraído por mulheres. Mas, mesmo assim, eu queria desesperadamente me encaixar na sociedade normativa. No Brasil, eu tentava esconder o óbvio e levava uma dupla vida. Na escola e na família, eu tentava disfarçar que gostava de meninos. Cheguei até a ter dois namoradinhos, por livre espontânea pressão social. Foi horrível, horrível. Era um sacrifício beijar na boca deles, era um sacrifício falar que eu tava namorando um cara.

Aí, quando eu cheguei na escola americana, eu ouvi dos amigos: “Mas por que você tá mentindo pra gente? Não tem problema nenhum você gostar de mulher”. Aquele acolhimento foi libertador. Eu me senti muito à vontade e decidi que eu não ia mais mentir. Ainda nos Estados Unidos, eu telefonei pra Natália e falei: “Ná, preciso te contar uma coisa. Eu sou lésbica”. Ela reagiu com naturalidade, porque na verdade ela já tinha percebido.

Assim que eu cheguei no Brasil, dei a notícia pro resto da família. O meu pai foi bem de boa, falou que pra ele o importante era eu ser feliz. Minha mãe começou a chorar e disse que tinha expectativas pra mim. Eu respondi: “Mãe, a sua expectativa é casamento? É filho? Eu também quero casar e ter filhos”. Até que ela aceitou rápido, assim. Em pouco tempo eu já tava apresentando a minha namorada pra família. Tirei um “pesaço” das costas.

[trilha sonora] 

Eu passei no vestibular de engenharia, mudei de cidade, cortei o cabelo e aí comecei a comprar roupas na sessão masculina. Aí eu pensei: “Beleza, resolvi meu problema. Sou lésbica, e é isso”. Só que não foi o que aconteceu. Eu ainda não me sentia nada bem, continuava me sentindo deslocado. E eu odiava me olhar no espelho, odiava meu corpo, odiava não ter barba. Os seios, então, eu não suportava. Pra esconder, eu apertava tanto o top, que me machucava. Eu não gostava de entrar no banheiro feminino, e não gostava de ter voz fina. Bom, enfim, eu não era mulher.

[trilha sonora] 

Lá pelos meus 22 anos, eu mergulhei numa depressão. Passei uns dois anos pra baixo, assim, sem ver graça em nada ao meu redor. Eu já tava conformado em levar uma vida inteira infeliz, até que um telefonema em 2019 mudou a minha vida. Uma amiga me convidou pra ir a um bar com mais gente, e aí entre elas um boy que eu não tinha ideia de quem era. Eu detestei saber que um cara ia junto. Eu tinha completo horror a homem, odiava, assim, gratuitamente. Acho que Freud explica, né? Hoje eu entendo que eu sentia inveja deles.

Eu não tinha vontade nenhuma de sair de casa, mas acabei indo ao bar. Quando eu cheguei no rolê, a minha amiga falou: “Oh, só pra você saber, tá, ele é um cara trans”. Nossa, a minha cabeça bugou na hora. Eu falei: “O quê??”. Eu botei esse cara na parede e disse: “Pode me explicar tudo!”. Depois que eu fui saber que era o Luca Scarpelli, ele era um dos poucos youtubers que produzia vídeos sobre o universo trans.

O Luca me falou sobre o trabalho, sobre a família, sobre os sentimentos dele. E eu me identificava com cada frase que ele falava. Ele parecia um clone meu que tava feliz e bem resolvido. Eu fiquei tão alucinado, que fui embora do bar e passei 3 dias trancado em casa, pesquisando sobre transição de gênero e chorando horrores. Eu sabia que isso existia, só que até então era uma coisa muito distante do meu universo, e eu não conhecia ninguém que tivesse feito. Bom, procurei ajuda psicológica e médica e, aos 24 anos, comecei o meu processo de transição.

[trilha sonora] 

Natália: Eu fui a primeira pessoa da família pra quem o Miguel falou a novidade. Eu não fui pega de surpresa quando ele contou que era lésbica. Mas, a transição de gênero confesso que eu não tava esperando. Eu não sabia nada sobre desse assunto e talvez eu nunca vá entender completamente o que é. Mas eu sabia que não precisava entender, eu só precisava respeitar. Então, quando o Miguel me falou, eu respondi: “Olha Mi, eu não sei o que você tá falando, não tenho ideia, mas vambora. Se é o que vai te fazer feliz, pra mim é a única coisa que importa. Então, conta comigo pro que você precisar”. Pros meus pais o anúncio foi um choque…

Miguel: Quando uma pessoa faz uma transição de gênero, quem tá ao redor dela transiciona junto. Eu sabia que eu podia perder os meus pais pra sempre, que talvez eles não fossem aceitar a minha decisão. Só que eu tava tão feliz, eu tinha tanta certeza de que era a coisa certa, que nada, nenhum obstáculo ia me impedir de concretizar o meu plano. Eu passei 24 anos sendo triste e solitário. Não tinha sentido eu passar o resto da vida me sentindo miserável em função do que outras pessoas queriam pra mim.

A minha terapeuta resolveu chamar os meus pais e a minha irmã no consultório, pra uma sessão em família. A minha mãe só chorava, se lamentava que eu ia me mutilar. Quando a psicóloga perguntou o que o meu pai pensava sobre mim, ele respondeu que sentia decepção, que era um desperdício eu não poder engravidar. Ele disse que nunca me enxergaria como um filho. Foi difícil ouvir essas palavras, só que ao mesmo tempo eu pensava: “Meu pai e minha mãe nunca me aceitaram mesmo. Que se dane, eu vou em frente de qualquer jeito”.

Natália: Meus pais não disseram exatamente o que Miguel queria ouvir. A palavra “decepção” foi muito forte, mas eu interpretei que o que meu pai tava falando era como médico, um médico que tava preocupado acima de tudo com a saúde do filho. Ele tava inconformado que o meu irmão tomaria hormônio e acabaria com o corpo dele. Eu lembro que o meu pai falou: “Mas ele tem uma saúde perfeita e quer jogar fora por causa de um pensamento temporário, de uma preocupação estética?”. Então, eu acho que meu pai usou a palavra “decepção” nesse sentido, não que ele tava decepcionado com o Miguel enquanto pessoa.

Meu pai perguntava pro meu irmão: “Você não tá satisfeito em saber quem você é por dentro? Precisa mudar por fora também?”. Acho que o medo dos meus pais era que o Miguel se arrependesse e não pudesse mais voltar atrás da decisão. Mas, eles acabaram aceitando que o meu irmão já tinha idade suficiente pra tomar as suas próprias decisões.

Miguel: Depois dessa sessão, eu passei mais ou menos 1 ano falando bem pouco com os meus pais. Eles nunca me abandonaram, mas ficaram super tristes. A gente meio que entrou num acordo de que eu precisava de apoio, inclusive financeiro, e eles precisavam de um tempo pra processar o que tava acontecendo. Eu comecei a fazer terapia hormonal com testosterona e o meu corpo foi mudando. Depois de um ano, eu fiz a mastectomia para remover os seios. E foi aí que meus pais compreenderam que não se tratava de uma fase, mas sim um caminho sem volta.

[trilha sonora] 

A minha mudança não foi só externa. Foi inclusive, principalmente, interna. Eu era muito arisco, eu tinha pavor de crítica, assim. Qualquer pessoa que tentasse estragar o pouco de felicidade que eu sentia, levava uma patada. Hoje é raro você me ver de cara fechada, de mau humor. Eu sou muito confortável na minha pele, e muito mais tranquilo, mais feliz, mais calmo. O relacionamento com a Natália melhorou muito. A gente descobriu, no caso, que a conversa é um método bem melhor de comunicação do que o grito e a porrada. Eu não conseguia ter uma boa relação com ela e com os meus pais, porque eu achava que parte da minha tristeza era o fato de que eles não acolhiam como eu era. 

Coitados, pai e mãe não têm manual de instrução. E mudança de gênero não é exatamente uma coisa simples de se entender. Meus pais não tinham informação sobre esse assunto e só queriam me proteger.

Natália: Eu errei muitas vezes o pronome masculino depois que o Miguel fez a transição. Ele ficava bravo e achava que eu tava querendo boicotar o processo dele. Mas, na verdade, era só uma questão de hábito. Depois que ele deixou crescer a barba, sua voz engrossou e ele ganhou uma feição masculina, aí ficou fácil chamar ele de Miguel. Eu comecei a enxergar ele como um homem mesmo e hoje é impossível usar o pronome feminino. Agora só tenho que aguentar minhas amigas falando: “Ai, como o seu irmão é lindo! Ele ficou mais bonito como homem do que como mulher”.

[trilha sonora] 

No segundo que o Miguel decidiu fazer a transição de gênero, eu, imediatamente, consegui ver que a impaciência, a intolerância e a agressividade dele ficaram pra trás. Eu também comecei a fazer terapia e aprendi a me posicionar, aprendi a parar de me anular só pra agradar os outros, inclusive o Miguel. A gente teve uns períodos afastados, com pouca conversa, mas hoje graças a Deus a nossa relação é bem melhor. No fim das contas, a gente sempre tá ajudando um ao outro.

Miguel: Quando a minha família começou a respeitar o pronome masculino, eu pensei: “Quer saber? Tá bom, não preciso de mais que isso.” Uma coisa é chamar pelo nome que eu escolhi, outra é de fato acreditar que eu sou um homem. Mas tudo bem, já tá ótimo que eles me respeitem.

Se tem duas pessoas no mundo que viraram militantes da transição de gênero foram os meus avós. Eu tenho certeza que o meu avô sente no fundo do coração dele que eu nasci homem e nunca fui mulher. Mesmo ele sendo de uma geração passada, eu sinto que ele não força nada a barra quando me chama de Miguel. A minha avó, então, ameaça bater em quem erra o pronome comigo. Eu tinha muito medo, muito medo de como eles iam reagir quando eu mudei de gênero. Mas eles aceitaram com mais facilidade do que todo mundo. No fim das contas, o acolhimento que mais me importa é o da minha família.

A mensagem que eu tenho pra passar, tanto pras pessoas cis quanto pras pessoas trans, é que a vida é uma só. Na hora da morte, o que vai importar de fato é o quanto você conseguiu ser feliz, o quanto conseguiu amar, o quanto se sentiu confortável na própria pele. Eu não vou falar que a transição de gênero é um processo fácil. Só que nada, nada, foi mais difícil pra mim do que passar 24 anos sendo quem eu não era, tentando interpretar o personagem que a sociedade esperava de mim. Pessoas bem resolvidas com elas mesmas são melhores pra sociedade. A gente propaga felicidade quando a gente é feliz.

[trilha sonora] 

Claudia Feitosa-Santana: Os gêmeos idênticos Miguel e Natália compartilham conosco a transição de gênero dele e como as relações familiares transacionaram junto.

Como ele, quando descobrimos que o que parecia intransponível, além de insuportável, era apenas uma pedra no meio do caminho, precisamos de apoio para retirá-la, pois somos seres sociais e é extremamente importante vivermos juntos - em família, entre amigos e, inclusive, no meio da multidão. Por isso, pessoas podem ser sentidas como se fossem obstáculos. Mas podem também ser acolhimento. O que precisamos é ter a consciência da relacionalidade, o fato de que estamos inter-relacionados uns com os outros, logo: intersomos. 

E, assim, no meio do caminho havia um outro... um outro que nos ama, um outro que você empatiza, um outro que eu respeito, e por aí vai. Pedras que se transformam em companhias, com as quais nos sentimos confortáveis em nossa própria pele.

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