Para Inspirar

Ana Claudia Michels em “A perseverança de um sonho”

Confira a história da médica Ana Claudia Michels, que trocou as passarelas pelos corredores do SUS em busca de seus sonhos, no Podcast Plenae

13 de Setembro de 2020


Leia a transcrição completa do episódio abaixo:

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Ana Claudia Michels: Eu estava em um ótimo momento, pelo menos aos olhos dos outros, eu era muito bem-sucedida como modelo, uma top model reconhecida no mundo todo. E ainda assim eu sentia que me faltava alguma coisa. 


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Geyze Diniz: Ouvir a trajetória da Ana Claudia é ter a certeza de ser embalada por uma doçura ímpar e muita determinação. Trocar passarelas por hospitais é para quem tem um propósito muito bem definido dentro de si mesmo. No final do episódio, você ouvirá reflexões do doutor Victor Stirnimann para te ajudar a se conectar com a história e com você mesmo. Eu sou Geyze Diniz e esse é o Podcast Plenae. Aproveite este momento, ouça e reconecte-se.


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Ana Claudia Michels: Eu tinha 14 pra 15 anos quando dei o primeiro passo fora de Joinville pra iniciar minha carreira.  [trilha sonora] Recebi um convite para vir a São Paulo e conhecer uma agência de modelos. Eu era muito nova e, para não vir sozinha, viemos eu e minha mãe, completamente às escuras, sem saber de nada, só para ver o que estavam falando. Eu era super magra, esquisita, mas na época eles gostavam das meninas assim, com esse padrão que era uma beleza não muito óbvia.  

Chegamos na agência e era véspera da primeira São Paulo Fashion Week, em 1996, e estava uma correria, todo mundo louco. Ninguém nem olhou na minha cara, fiquei lá sentada no sofázinho o dia inteiro. Até que veio uma pessoa e falou assim: "É, então, o dono da agência não vai poder te ver hoje, porque ele está muito ocupado. Você vai ter que ficar até amanhã". E aí mandaram a gente para um apartamento de modelo. 
O lugar era bem triste, para dizer o mínimo. Era sujo, tinha um monte de colchão na sala. Era escuro, porque as janelas davam para as paredes de um outro prédio. Então no primeiro dia, a minha experiência tinha sido inteira ruim, desde o momento em que chegamos na rodoviária, e ficamos quatro horas esperando a kombi que nos buscaria até a chegada nesse apartamento.
Lembro que na época a sensação era de que estava muito claro que aquilo não era pra gente. Eu nunca tinha sonhado em ser modelo, é lógico que eu admirava as meninas, eu admirava as misses que era o que eu mais conhecia, mas eu isso não tinha brilhado nos meus olhos. Então, era isso, não estava certo. Vamos voltar para Joinville. 

[trilha sonora] Mas, no final do dia seguinte, o dono da agência veio e falou: "Não, você vai ter que ficar. A gente vai começar o São Paulo Fashion Week daqui uma semana, é a primeira edição e a gente acha que você tem potencial. Você precisa ficar."  [trilha sonora] Eu fiquei, fiz desfiles nessa primeira edição e, a partir desse momento, começaram a aparecer trabalhos mais frequentes: eu voltava pra Joinville, aí recebia uma ligação e vinha para algum trabalho. Era muita ralação, mas a sensação era de que eu nunca seria uma super modelo, uma top model. Mas eu também já tinha envolvido tempo e energia demais para desistir sem ter ido até o fim, pelo menos o fim que me deixasse satisfeita. 
[trilha sonora]
Até que eu fiz um trabalho que mudou a minha carreira: a capa da Vogue Itália, em janeiro de 2000. Naquela época, era assim, se alguém falasse: "Qual o trabalho que uma modelo precisa fazer para mudar a vida dela?", a resposta seria a capa da Vogue Itália. Quando eu fiz, foi uma grande realização, e de verdade mudou completamente o meu patamar como modelo. [trilha sonora] Eu estava recebendo um retorno do esforço, mas a sensação era também como se fosse sorte.
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Não que eu não tivesse ralado, porque eu ralei muito. Suei muito pra conseguir me dedicar a essa profissão, que era muito difícil para o tipo de família que a gente era, todos muito grudados e com um estilo de vida mais tranquilo. Aliás, minha família também teve que se sacrificar bastante. Mas ainda assim, quando cheguei lá, a sensação era de que faltava um fundamento. Não sei explicar. Era incrível ter chegado aqui, mas não tem um alicerce. Era como se já naquela época, finalmente uma grande modelo, eu sentisse falta de alguma coisa.
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Dos três filhos lá de casa, eu sempre fui a que tinha tudo resolvido, a que tinha certeza do que queria ser. Eu sempre soube que queria ser médica, e não teve nenhum momento em que eu decidi que não seria mais. Só que eu parei de pensar nisso, eu também parei de me questionar, ninguém falava mais nisso. A verdade é que eu sempre continuei me interessar pelo assunto. 
Lembro que, quando comecei a ter dificuldade pra me manter naqueles padrões absurdos de magreza da moda, ao invés de comprar as revistas que tinham aquelas dietas superficiais, eu comprava livros de nutrição. Eu queria entender como funcionava o metabolismo do corpo humano de uma forma mais profunda até porque essas pessoas que conseguem fazer uma dieta muito restritiva tem uma disciplina com a comida que eu nunca tive. Comer, para mim, sempre foi uma alegria, um carinho.  [trilha sonora]
Quando estava com 22 anos, comecei a ter um problema com depressão e entrei na terapia. Passei por alguns terapeutas e o último foi quando eu estava com 24 anos e voltando a morar no Brasil. Nessa época, eu continuava trabalhando bastante, mas comecei a me questionar sobre o que eu faria depois que terminasse a carreira como modelo.
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Não que viesse na minha cabeça a ideia de quando era adolescente, um sentimento de "aí, eu queria mesmo era ser médica". Se eu parava para pensar nisso, eu pensava: "Não, isso ficou para trás, seria uma loucura voltar para essa ideia agora, isso passou". Como que eu vou voltar para escola e estudar? Tinha essa nuvenzinha na minha cabeça, de que aquilo tinha passado, tinha ficado para outra vida, não para essa. 

Foi aí que o meu terapeuta, que sabia que eu gostava de medicina, falou: "Por que você não vai fazer um cursinho e vai fazer a faculdade que você queria fazer?". Aí ele começou a me irritar. Eu achava que esse homem estava doido, ou estava querendo me deixar animada, porque qual seria a chance de eu começar agora uma faculdade? E ele começou a me estimular: "Você se matricula no cursinho e vê o que acha". E, assim, de 29 pra 30 anos, realmente me matriculei em um cursinho. 

Eu lembro bem que liguei para os meus pais e falei: "Olha, eu vou me matricular num cursinho, vou prestar pra medicina no fim do ano. A chance de eu passar é minúscula, mas eu quero aproveitar isso como uma experiência, quero aprender no cursinho o que eu não fiz quando eu era mais nova, eu quero resgatar isso. Sem muitas cobranças". 
Meus pais e meus irmãos, na verdade, só faltou soltarem fogos de artifício. Acho que eles me conheciam de verdade e sempre souberam que era isso que me faltava, me deram um super apoio e até vieram para São Paulo um dia antes de eu entrar no cursinho, como se fosse para me levar no meu primeiro dia de aula na escola.  [trilha sonora]
Eu me lembro até hoje de ir caminhando no primeiro dia, bastante nervosa, pensando que todos os adolescentes do cursinho se juntariam e fariam um grande bullying com a minha pessoa. Mas eu cheguei e ninguém estava nem aí para mim, estava todo mundo completamente preocupado em passar no vestibular, todo mundo focado. Não é aquele

clima de escola, com todo mundo mais relaxado. Todo mundo está ali com um propósito, eu tinha o meu. 

[trilha sonora] Na primeira semana, me encantei com algumas matérias e com a sensação de voltar a estudar. Mas tinha desespero também, achei que nunca conseguiria aprender de novo matemática, química, eu não sabia nem o que anotar na aula. Nos primeiros dias, nem tirei a caneta da bolsa.
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Eu tinha me matriculado no intensivão, então era tudo dado muito rápido, como uma revisão. Eu lembro bem de, na segunda semana, pensar: "Olha, a chance de eu aprender isso aqui é minúscula. Eu vou sentar, escutar e aproveitar a aula". Mas na verdade, eu fui me redescobrindo como aluna. 
Tinham algumas aulas que eu não dava muita atenção na escola, como história, geografia, mas depois de ter viajado tanto, era diferente. Tinha morado em Paris, em Milão, então as aulas passaram a ser melhor do que assistir um filme, muito gostoso.
Fiz seis meses deste intensivão e, no final do ano, fiz algumas provas para ver como eu me sairia e realmente fiquei bem longe de passar. Mas eu gostei da experiência, gostei muito do cursinho e me animei. Decidi fazer um ano inteiro, para aprender algumas coisas de verdade. 
Isso era 2012 e as aulas começaram em março. Minha rotina era ficar a manhã toda estudando no cursinho e voltar pra casa à tarde para fazer algumas coisas de trabalho como modelo. Era um projeto meio solitário. Mesmo as minhas amigas não entendiam muito o que eu estava fazendo, porque era um mundo bem diferente do que até então vivia na moda. 
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Nessa época, eu morava sozinha e estava solteira, até que em julho conheci o meu marido, o Augusto. Falei pra ele que estava fazendo cursinho e para minha surpresa, ele achou o máximo e resolveu acreditar no meu projeto. 
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Aquilo me deu muito gás, porque eu não sentia mais que estava fazendo isso sozinha. Em seguida, eu fiz amizades com algumas colegas do cursinho e que viraram grandes amigas. Elas ficavam a tarde na biblioteca do cursinho estudando e eu passei a ficar lá também.

Chegou o final do ano e fiz as provas novamente. Conferi as primeiras que tinha feito e de novo não tinha ido bem. Foi frustrante, mas lembro que não cheguei a ficar triste, porque era um projeto meu e ninguém sabia, não havia cobrança por parte de ninguém. E eu tinha adorado a oportunidade de estudar mais velha as matérias de segundo grau, sentia como se fosse um presente. 

Continuei fazendo as provas e teve uma que eu achava que tinha ido melhor. Eu tinha a sensação de ter ido bem, mas não tinha nem corrigido mais, porque combinei com uma amiga minha do cursinho de não olhar mais o gabarito, porque só me frustrava. Mas ela insistiu que eu deveria conferir. E eu lembro até hoje desse dia: eu corrigindo essa prova e vendo que tinha acertado 94%. Ela olhou pra mim e falou: "Você passou, 94%, você passou". Eu falei: "Então, essa prova não era das mais difíceis. Eu acho que todo mundo deve ter ido bem". E ela: "Não, não, não, não é assim. Pode ter sido fácil pra você, mas não pra todo mundo. Eu acho que você passou". E aí foi um nervoso da expectativa de esperar o dia em que iria sair a lista. Saiu, e eu passei. Esse foi um dos dias mais felizes da minha vida, até hoje não acredito, fiquei em 37º lugar e foi muito legal. 

Sabe aquela sensação de quando fiz a capa da Vogue Itália, de que eu achava que era sorte? Agora era diferente. Quando passei no vestibular, aquilo tudo dependia de mim, a conquista tinha outro gosto. Me dá até vontade de chorar quando eu lembro desse momento. Eu já tinha conquistado muita coisa, já tinha a minha casa, eu vivia muito bem e acho que isso muda a visão e o jeito como você faz as coisas, tira um pouco a pressão. 
Minha emoção era de realmente ter conseguido fazer o que eu queria lá atrás, um sonho de infância que tinha desistido. E depois de toda essa loucura que foi a minha vida como modelo desde a adolescência, toda a distância da família, eu me emociono de ter voltado ao meu projeto original. Era um propósito de vida que era meu e foi deixado de lado por uma vida que eu gosto, que me trouxe muitas coisas mesmo, mas que era também uma vida com a qual eu não tinha sonhado. Por isso, eu choro quando lembro de passar no vestibular e trago muitos outros momentos emocionantes e transformadores de tudo que vivi desde então.  [trilha sonora]
Um momento fundamental foi quando começou o internato, que é como chamamos os dois últimos anos dos seis da faculdade de medicina, seria o que chamam de estágio

em outros cursos. Eu fiz o meu internato quase todo no Hospital Geral de Carapicuíba, na periferia de São Paulo, onde fiquei por dois anos, até o fim de 2019, quando me formei. 

Eu tive um internato muito legal e conheci o SUS a partir do olhar de médicos nota um milhão, e não vi aquele caos que muitas vezes esperamos. O SUS enfrenta sim dificuldades porque nosso país é grande e com muitas realidades distintas, mas é um projeto em sua essência maravilhoso. 
Nos postos de saúde e nos hospitais, a gente recebe pacientes em uma situação bem difícil, e não é só remédio que eles precisam. Em muitos casos, o simples fato de você ouvir o paciente e explicar pra ele como tomar uma medicação, já significa muito em lugares vulneráveis. Tem pacientes que você atende que não sabem ler, que você tem que mostrar a caixinha, às vezes desenhar, explicar como tomar e escutar. Escutar bastante. Não é só o tratamento, o último livro, o último estudo, a última medicação, é muito mais complexo do que isso e demanda muito o lado humano do médico, não só a capacidade de saber estudar. É preciso estar ali de peito aberto.  [trilha sonora]
Um dia, um paciente chegou de cadeira de rodas, era final de um plantão e estava todo mundo cansado. Ele tinha um ferimento na perna, era diabético. O ferimento estava infeccionado e iria ter que internar. O filho dele, que devia ter uns 20 anos, começou a chorar compulsivamente falando que ele não poderia internar o pai, porque naquela idade seria obrigatório um acompanhante. Ele falou que era só ele e o pai no mundo, não tinham ninguém, nenhum amigo, nenhum familiar, nem nada, e que ele tinha acabado de conseguir um emprego e não poderia faltar porque eles não tinham mais nada em casa, nem para comer, nem para beber. Eu pensei na hora: "Meu Deus do céu, o que a gente faz aqui é nada, o buraco é muito mais embaixo".  [trilha sonora]
Eu sonhava no início com a endocrinologia, tinha a ver com a experiência que tive durante a vida de modelo. Mas, depois de dois anos em Carapicuíba, vi que eu queria mais, não queria cuidar só dessa parte de um paciente, eu queria cuidar de uma maneira mais ampla. 

Duas professoras que eu tive me inspiraram muito e a alegria delas, além de tratar bem o paciente, de serem impecáveis em relação ao tratamento, a técnica, a ciência. Elas falavam com carinho, elas colocavam a mão no ombro pra escutar. Elas viraram as minhas musas e me deram uma referência fundamental da médica que quero ser, do propósito que busco na medicina. Eu conheci elas duas no internato e aquilo que eu imaginava, de um consultório bonito, num lugar bonito, meio que se desmanchou. Isso não é mais prioridade, eu quero ser, pelo menos, um pouco como elas. 

Uma rotina inteira em hospital, eu acho que talvez não seja possível, quero, na medida do possível, acompanhar de perto os meus filhos, um menino e uma menina, que nasceram durante a faculdade. Mas algum tempo em hospital eu quero sempre manter e tem a ver com essas professoras e com o quanto me emociono toda vez que lembro dos pacientes que tive em Carapicuíba. 
E, por eles, sempre vou querer tratar e estar perto de pacientes que precisam não só de medicação e ciência, mas também de um olhar humano. Se não tiver isso na minha rotina, eu não vou estar satisfeita, não vai ter valido a pena.  [trilha sonora]

Eu tive muitos privilégios pra poder realizar meu sonho de ser médica e tenho consciência disso. Então, eu penso muito que esse tanto de privilégio que tive tem que ter algum retorno pra a sociedade, não pode servir só para eu fazer uma foto bonita, contar uma história. Hoje, se alguém me pergunta o que eu faço, eu falo imediatamente que sou médica. Adoro ter sido modelo e a revolução que aconteceu na minha vida. Mas é tão gostoso poder falar, e eu falo: sou médica!
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Victor Stirnimann: O que é o sucesso? Nós todos crescemos ouvindo que sucesso é ter resultados e que resultados são esses? Em nosso tempo, quase tudo gira em torno da fama e da fortuna. Se você construiu o seu patrimônio, se você se tornou popular, se desperta a inveja dos outros, então, dizem, você chegou lá. E como esses são resultados que bem poucos alcançam, a maior parte das pessoas passa a vida imaginando que é isto mesmo. E que este é o destino maravilhoso reservado apenas àqueles que são especiais. Mas, de repente aparece alguém como a Ana Claudia, que experimentou tudo isso bem cedo e que teve a humildade ou maturidade de reconhecer que essas conquistas do mundo nascem de uma mistura bastante misteriosa de esforço e oportunidade, trabalho e estrela. E ela vem nos contar que esse talvez não seja o sucesso definitivo, mas apenas um degrau de uma escada, e que o próximo degrau ainda mais rico e fascinante é aquele onde ela vem aprendendo a servir. Em nosso tempo tão vaidoso parece incrível quando alguém confessa que sua verdadeira paixão é cuidar dos outros e que aprender é uma grande aventura. Felizes os que descobrem que sempre dá tempo de viver os sonhos, e que a escada não tem fim.
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Geyze Diniz: As nossas histórias não acabam por aqui. Acompanhe semanalmente nossos episódios e confira nossos conteúdos em plenae.com e no perfil @portalplenae no Instagram.  [trilha sonora]

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Para Inspirar

Tiago Mochileiro em "​A educação salvou a minha vida"

Foi com a ajuda dos livros na infância que ele se encontrou e mudou de realidade - e agora busca fazer o mesmo para outras crianças.

28 de Novembro de 2022



Leia a transcrição completa do episódio abaixo:

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Tiago Silva: Se eu tivesse seguido o caminho normal para uma pessoa com a minha origem, eu não estaria aqui contando essa história para você. Para minha sorte, a minha mãe, que é semianalfabeta, dizia: “Você tem que estudar”. Desde cedo, eu percebi que a educação era o único caminho para contrariar a trajetória de pobreza e subverter a realidade a minha volta.

 

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Geyze Diniz: Foi na biblioteca que Tiago Silva descobriu o poder dos livros. Através da leitura, ele ganhou confiança para defender suas ideias e ter suas próprias convicções. Hoje, ele é empreendedor social e através de seu projeto "Mochileiro pela Educação" procura contribuir para que mais jovens possam ter acesso à educação, mudando o próprio destino. Conheça a trajetória de Tiago, que já distribuiu mais de 11 mil livros em 83 cidades do Brasil.

 

Ouça no final do episódio as reflexões do historiador Leandro Karnal para te ajudar a se conectar com a história e com você mesmo. Eu sou Geyze Diniz e esse é o Podcast Plenae. Ouça e reconecte-se.

 

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Tiago Silva: Eu nasci numa cidade chamada Junqueiro, no interior de Alagoas. É uma cidadezinha de 20 mil habitantes, a 130 quilômetros da capital, Maceió. Cresci ouvindo que meu estado tinha alguns dos piores índices do país em relação a analfabetismo, desigualdade social, IDH e mortalidade infantil. 

 

Junqueiro é rodeada por canaviais. No período da queimada da safra, a cana vira um pó, que se dissipa no ar e entra nas residências. A gente colocava uma lona entre o telhado e as vigas de madeira do teto pra barrar essa fuligem. Mas não adiantava muito. O chão de cimento queimado ficava imundo e eu acordava cheio de pó. Aí eu tomava banho de cuia no quintal, porque a gente não tinha chuveiro.

 

Em casa também não tinha televisão. Em 1994, quando eu completei 5 anos, a prefeitura instalou uma TV na rua vizinha. Foi o ano em que o Ayrton Senna morreu, ano também em que o Brasil ganhou o tetra na Copa do Mundo de futebol. Eu me lembro do pessoal assistindo aos jogos e gritando. Tudo isso tá guardado na minha memória, porque foto da minha infância eu só tenho uma. Sou eu neném, sentado numa cadeirinha. A minha mãe diz que ou a gente tirava uma foto ou comia, então ela preferia gastar com comida.

 

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A minha mãe criou os 4 filhos com a ajuda da minha avó. Eu e meus irmãos temos pais diferentes. Eles conheceram os pais e foram registrados por eles. Eu nem isso. A nossa infância foi marcada pelo julgamento alheio por essa característica familiar. As pessoas me perguntavam: “De quem você é filho?”. E eu respondia: “Da dona Quitéria”. “Mas quem é seu pai?”. Essa pergunta me deixava sem jeito, porque ela não tinha resposta. 

 

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Durante muito tempo, a minha mãe trabalhou como gari, varrendo as ruas. Ela conta que muitas pessoas perguntaram se ela não queria dar os filhos pra outras famílias com mais condição de criar. Era uma coisa comum na minha região. Mas, apesar das dificuldades, ela nunca cogitou fazer isso.

 

Em casa, a comida era contada. Todo dia, no café da manhã, a minha avó abria um pacote de biscoito de água e sal. Em cada embalagem vinham 28 biscoitos. Dava sete pra cada criança. A mensagem da minha avó era: “Coma bastante na escola”. Eu fazia isso. Forrava o estômago com merenda, para aguentar o rojão do dia. Quando tocava o sino do intervalo, eu saía em alta velocidade para ser o primeiro da fila e, depois, repetir o prato. A comida era boa demais, com coisas que a gente gosta aqui no nordeste, tipo cuscuz com ovo, macaxeira e inhame.

 

A minha avó era analfabeta e mais voltada pro trabalho. Ela dizia: “Vocês têm que trabalhar, porque filho de pobre não estuda, filho de pobre trabalha”. Não é que ela não acreditasse no nosso potencial. Ela ouviu isso durante muito tempo e foi repassando a crença. Mas a minha mãe pensava de outro jeito. Apesar de também não ter tido acesso aos estudos, ela acreditava que a educação poderia mudar o nosso destino. E insistia pra gente estudar.

 

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Eu ia bem na escola, só tirava 9 e 10. Era o melhor aluno da classe em matemática. Só que eu conversava demais na aula e, por isso, era convidado a me retirar da classe com frequência. Um dia, quando eu tinha 13 anos, um professor me viu no corredor e disse: “A partir de hoje, você vai ser monitor da biblioteca”. E eu: “Biblioteca, professor? Nada a ver isso! Nem combina comigo, porque eu nem gosto de ler”. Ele retrucou: “Você vai ser monitor da biblioteca, vai catalogar e limpar livro. Você vai ler um livro por mês e me entregar um relatório”.

 

Eu não tinha como dizer não, porque não era um pedido, era uma ordem. Então eu fui para biblioteca, com uma sensação de “meu Deus, que que eu tô fazendo aqui?”. Mas aos poucos aquele universo foi me cativando. O primeiro livro que me chamou atenção foi Os Miseráveis. Quando eu li o título, pensei: “É, tudo a ver comigo, vou ler esse livro”. Mal sabia eu que tava pegando na obra mais clássica do escritor Victor Hugo. Era uma versão resumida, adaptada pelo Walcyr Carrasco, com 130 páginas e uma capa vermelha. Quando eu comecei a ler, eu me identifiquei com as personagens, com o contexto, com a estética literária. E fiquei imaginando como seria viver na época da Revolução Francesa, como seria viver em outro país. 

 

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Eu me interessei por literatura clássica e nunca mais parei de ler. O livro foi um ponto de virada da minha trajetória. Por causa da leitura, o meu vocabulário foi melhorando. Eu fui ganhando confiança e comecei a defender as minhas ideias em público. Eu, que antes me sentia uma criança invisível pros outros e até para mim mesmo, comecei a me tornar uma pessoa com convicções próprias.

 

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Quando eu cheguei no Ensino Médio, os meus amigos da rua já não estavam mais interessados em estudar. Eles queriam se casar, ter filhos e conseguir um emprego para sustentar a família. Muitos deles já cortavam cana-de-açúcar. No período da entressafra, eles iam pro Paraná ou pra São Paulo cortar cana, e voltavam 6 meses depois. 

 

Mas eu tinha um outro grupo de amigos com mais grana. Eles moravam no centro da cidade e eram filhos de comerciantes, tipo o dono da sorveteria, o dono do mercadinho. Essa turma tinha um discurso diferente, queria fazer faculdade. E foi assim que eu soube que existia outra possibilidade de futuro.

 

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A essa altura, as minhas irmãs mais velhas tinham engravidado na adolescência e só completaram o ensino médio. Era a repetição da história familiar. Mas eu queria outra vida pra mim. A minha mãe, que nem sabia o que era universidade, apoiou a minha decisão de continuar estudando.

 

No período pré-vestibular, eu trabalhava de manhã como garçom, estudava à tarde e à noite fazia cursinho numa cidade vizinha. Chegava em casa à meia-noite e, no outro dia, acordava às 5 da manhã, pra começar tudo de novo. 

 

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Eu passei numa universidade pública e mudei de cidade pra estudar Medicina Veterinária. Consegui me manter com bolsa de estudo, mas percebi que a minha vocação era outra. Prestei vestibular de novo e entrei num curso tecnológico de Recursos Humanos, em Maceió.

 

Eu fui a primeira pessoa da minha família a fazer faculdade. Eu sabia que ter um diploma seria um divisor de águas e romperia o ciclo da pobreza. Por isso, ainda durante o curso, o meu plano era devolver a educação o que ela fez pela minha vida. E assim nasceu um projeto chamado Conversando sobre Carreira. Eu convidava profissionais de várias áreas pra falar com os jovens de escolas públicas, pra contar como a educação transformou suas vidas. O meu objetivo era dar pra esses adolescentes o que eu não tive: a oportunidade de conversar sobre o futuro. E nada melhor melhor do que o exemplo de pessoas com histórias reais e inspiradoras. 

 

Os jovens ficavam encantados nas palestras. Muitos deles nunca tinham visto um médico fora do hospital. Nunca tinham conversado com um engenheiro, um bombeiro, um veterinário. Carreira e ensino superior eram sonhos distantes para os mais pobres.

 

Durante 2 ou 3 anos, eu consegui levar os convidados, todos voluntários, para lugares próximos a Maceió. Mas a minha ideia era atingir lugares mais longínquos, comunidades mais carentes, chegar a quilombos e aldeias indígenas. E aí eu não encontrava quem quisesse ir, porque a pessoa não queria perder um dia de trabalho. Eu pensei: “Meu Deus, como esse projeto vai andar agora?”. Aí eu me lembrei: o livro! As personagens estão lá, as histórias estão lá. Eu posso dar uma palestra e distribuir livros. 

 

Então eu fui num alfarrábio, num sebo, e comprei 10 livros. Dois exemplares d’A Menina que Roubava Livros, dois O Pequeno Príncipe, dois Alice no País das Maravilhas, dois O Caçador de Pipas e dois O Menino do Pijama Listrado. Não foram escolhas aleatórias. Com essas obras, eu poderia trabalhar competências sócio-emocionais e valores, como amizade, coragem e amor. 

 

E aí eu comecei a colocar livros na mochila e levar para as escolas, mesmo que eu fosse sozinho. Eu postava essas fotos no Facebook e um amigo comentou assim: “Tiago, você é um mochileiro pela educação”. E não é que o nome pegou?

 

Já são 10 anos de trabalho, 83 cidades visitadas em 13 estados brasileiros e 11 mil livros distribuídos. O Mochileiro pela Educação se consolidou como um negócio de impacto social, balizado em três grandes frentes, que são: construir um mundo onde os mais jovens leem, construir um mundo onde mais jovens inspiram e construir um mundo onde mais jovens empreendem. 

 

Quando eu chego numa escola, eu começo contando a minha história. A minha palestra se chama “O fracasso não suporta jovens que sonham”. Os estudantes veem que eu sou uma pessoa igual a eles, com uma origem parecida com a deles, e começam a alimentar a esperança. Tipo: se esse cara consegue, eu também consigo. No fim da palestra, eu digo: “Mas não é uma história isolada. Também tem a história do Pequeno Príncipe”. E dessa maneira eu introduzo o livro. Cada aluno ganha um exemplar e a tarefa de ler a obra, pra gente discutir depois.

 

Com essa estratégia, eu sinto que eu consigo mostrar pros jovens que a educação salva vidas. E educação não é só português, matemática e outras competências técnicas. É também o olhar sensível de um professor, como aquele que me mandou pra biblioteca. É conhecer novos mundos através do livro. E, claro, é a chance de ter um diploma universitário. Porque uma coisa é você ir pra faculdade, entender que aquilo não é para você e escolher outro rumo. Você teve a oportunidade. Outra coisa é nem sequer sonhar com essa possibilidade, por não acreditar no seu potencial ou porque alguém disse que não é pra você. A universidade é para todos, desde que a pessoa queira, acredite e conheça os caminhos pra chegar lá.

 

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A educação transformou não só a mim, mas a minha família também. A minha mãe sentia vergonha de andar com a gente, porque ela era xingada por ter um filho de cada pai. Hoje, as pessoas pedem para tirar foto com ela, por ser a mãe do Mochileiro pela Educação. Ela é tímida e fica sem jeito, mas no fundo ela adora. De tudo que a gente conseguiu, o que me deixa mais feliz é a felicidade da mãe. É ver o orgulho que ela sente por ter acreditado na educação como ferramenta pra mudar as nossas vidas.

 

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Leandro Karnal: Tiago Silva tem uma história muito bonita. Vindo de uma realidade de muito desafio, de pobreza, em meio a cultura do corte de cana, em meio a falta de perspectiva e de esperança. Pessoas honestas, trabalhadoras, mas que dada a formação e a sua realidade imaginavam que o grande destino era formar família, casar e trabalhar na lavoura. O Tiago foi tocado por alguém que o obrigou a ler e leu uma adaptação do Walcyr sobre a grande obra do Victor Hugo, Os Miseráveis. E a partir dali o livro acendeu nele a vontade de crescer, a vontade de ser mais. E ele foi enfrentando os desafios, fez a faculdade, tornou-se a primeira pessoa da família a fazer faculdade e criou um projeto, primeiro, Conversando sobre a Carreira, levando pessoas formadas para conversar com jovens de escolas públicas onde eles podiam ver que, sim, era possível ser médico, veterinário, era possível ser engenheiro, era possível sonhar. Porque se é verdade que toda função é digna, todo trabalho honesto é digno, como é bom oferecer um horizonte, uma esperança. E ele quis repetir a experiência que os livros representaram para ele, de transformação. Então ele passa a distribuir e passa a visitar escolas e vira o Mochileiro pela Educação, transformando a realidade dele, a realidade de outras pessoas. Ele consegue com isso, não apenas deixar claro para os outros que é possível, mas ressignificar sua própria história. Ele transforma dificuldade em oportunidade, de fato em todos os sentidos o Tiago é um vencedor, é um modelo, é uma história muito inspirada pra gente refletir. 


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