Para Inspirar

Alexande Rossi em "Os animais têm muito a nos ensinar"

O quarto episódio da décima quinta temporada do Podcast Plenae é do educador de animais Eduardo Rossi, representando o pilar Relações

21 de Abril de 2024



[trilha sonora]

Alexandre Rossi: A gente tá muito afastado da natureza, e o convívio com os animais de estimação ajuda a restabelecer essa conexão. Os nossos pets têm várias necessidades que não são muito compatíveis com o mundo em que eles estão vivendo hoje, com a gente. Só que a nossa situação é praticamente idêntica à deles. O ser humano tá vivendo numa sociedade e num habitat muito diferente daquele onde viveu por milhares de anos. A única diferença entre os pets e a gente é que a gente tem mais consciência do que eles. 

[trilha sonora]

Geyze Diniz: Alexandre Rossi sempre esteve rodeado de bichos. Seu interesse pelo comportamento animal o levou a trabalhar com isso. Conhecido como Doutor Pet, Alexandre adotou alguns vira-latas, entre eles a Estopinha, que ficou conhecida nas redes sociais e faleceu recentemente. Sua morte o ajudou a superar outra perda, e reforçou a ajuda que os animais podem oferecer aos humanos. Eu sou Geyze Diniz e esse é o Podcast Plenae. Ouça e reconecte-se.

Alexandre Rossi: No meu aniversário de 5 anos, eu ganhei um aquário com um casal de lebistes, um tipo de peixe. Foi o primeiro presente que eu lembro de ter ganhado. O aquário era em formato de cubo, tinha uns 30 centímetros de cada lado e o fundo preto. O macho era todo bonitão, enquanto a fêmea parecia um peixinho comum. 

Eu passava horas observando os lebistes. Eu percebi que, toda vez que ia dar comida, eles ficavam agitados. Eles iam pra superfície, porque a ração boiava, e comiam um monte. Meus pais sabiam que eu adorava tudo relacionado a animais não humanos e me deram outros peixes. Eu tinha uns cascudinhos que, às vezes, ficavam escondidos e acabavam sem comida, porque os lebistes comiam primeiro. Então, eu batia no vidro para avisar que ia dar comida e começava um alvoroço no aquário. 

De uma maneira muito elementar, eu fui vendo que podia influenciar o comportamento de cada peixe. Eu tava diante do que a gente apelida como comportamento supersticioso. Quando você dá o sinal da recompensa, com comida, o animal tende a repetir o mesmo comportamento mais vezes. Com uns 6 anos, eu comecei a ensinar um monte de coisinhas pros peixes. Ensinei um deles a deitar no fundo do aquário. Ensinei outro, um Oscar, a puxar uma cordinha pra tocar um sino e pedir comida. 

O Dudu, um dos meus cinco irmãos, adorava esse truque. Quando os amigos dele iam em casa, ele me pedia pra fazer o peixe tocar o sino. O Oscar ficava meio fora da água se debatendo, então molhava todo mundo. Daí em diante, eu não parei mais. Eu reproduzia os peixes e trocava os que nasciam por objetos no pet shop, que naquela época nem se chamava assim. Depois, eu tive outros bichos. Não lembro onde foi que me deram um girino. Eu cuidei desse girino e ele virou uma rã. 

Quando eu estava na terceira série, eu convidei os coleguinhas da classe pro aniversário da minha rã. Eu nunca comemorei meus aniversários, mas sempre celebrei os dos meus animais. Até hoje é assim. As crianças trouxeram mosca e minhoca de presente pra rã. Eu tenho contato com alguns amigos do primário e eles ainda se lembram desse aniversário.

[trilha sonora]

Mais tarde, eu tive uma aranha caranguejeira. No meu prédio, quando aparecia uma barata, já me interfonavam, porque todo mundo gostava de ver a caranguejeira comendo a barata. Se alguém queria assustar uma pessoa na vizinhança, era só pedir para eu andar com a mão fechada, como se eu estivesse carregando alguma coisa. O pessoal já saia correndo, porque não sabia o que podia ser. 

Eu fiquei conhecido pelos bichos que eu criava. Eu tive cobra, lagarto, iguana, cágado, coelho. Tive muitos hamsters também, que meu pai me deu depois de me desafiar a ficar uma semana sem falar a palavra “hamster”.  A gente morava num apartamento pequeno em nove pessoas: seis filhos, meu pai, minha mãe e minha avó. A minha avó dormia no quartinho da área de serviço da, que era do lado da lavanderia, e as gaiolas ficavam ali, junto com os aquários.

A minha avó se incomodava muito com os hamsters, porque eles ficavam correndo de madrugada na rodinha e atrapalhavam o sono dela. O meio termo foi eu tentar ficar lubrificando as rodinhas para não fazer nenhum barulho. Acho que a minha avó acabou se acostumando com o ruído.

[trilha sonora]

Sempre que morria algum bicho meu, a minha mãe, que é bióloga, falava: “Olha, já morreu. Não quer aproveitar e aprender mais sobre biologia e anatomia?” Ela me ajudava a dissecar os animais, me explicava o que tava por dentro deles e o que podia ter acontecido. Pra mim era uma coisa normal. Depois é que eu fui percebendo que as pessoas ficavam surpresas com isso. 

Quando eu fui entrar na faculdade, eu não sabia o que eu ia estudar. Até que, um dia, eu deitei na minha cama e olhei pra estante. Eu tinha uma quantidade enorme de livros sobre criação de animais. Na hora me veio que a escolha óbvia era zootecnia. Eu entrei no curso já sendo um PhD em criação de bichos. 

A faculdade foi muito bacana, mas eu senti falta de mais conhecimento em psicologia, e acabei fazendo mestrado nessa área. Numa aula da pós-graduação, eu aprendi que alguns animais que têm o cérebro grande em relação ao corpo aprendem a se comunicar através de sinais arbitrários.

Teve uma gorila, por exemplo, que aprendeu libras. Aí, numa conversa com meu orientador, eu falei: “Olha, me desculpa, mas os cachorros podem muito bem fazer o que, teoricamente, só os grandes cérebros são capazes”. Ele me falou: Alexandre, você consegue comprovar isso? Seria muito legal”. E aí eu falei pra ele que conseguia. Eu tinha uma Weimaraner, mas ela já era super treinada por mim.

Então, eu resolvi adotar um vira-lata, pra mostrar que qualquer cachorro poderia aprender. E foi assim que a Sofia entrou na minha vida. Eu peguei ela na rua, perto do aeroporto em São Paulo. Ela tava sozinha, não tinha dono e era alimentada pelos moradores da região. Eu treinei a Sofia e demonstrei no mestrado que ela podia se comunicar através de sinais aprendidos. Hoje, tem mais de 100 citações à Sofia em livros e artigos científicos publicados.

[trilha sonora]

Nessa época, eu apresentava um quadro chamado Doutor Pet, no Domingo Espetacular, na Record, que tinha uma audiência muito grande. Nesse programa, eu ensinava dicas pra melhorar a relação entre as pessoas e os seus bichinhos. A Sofia aparecia na TV e eu percebi que, por causa dela, as adoções de vira-latas aumentaram muito.

Então, eu quis que o meu próximo cachorro também fosse um vira-lata. Eu queria também um animal que tivesse sido devolvido por uma família, pra mostrar que é realmente possível mudar o comportamento de um bicho problemático. Esse pet foi a Estopinha.

[trilha sonora]

A Estopinha logo virou uma celebridade. Eu criei uma página pra ela no Facebook de brincadeira. Cresceu tanto, que ela virou o segundo pet com mais seguidores no Facebook do mundo. Quando eu adotei a Topa, prometi que eu ia cuidar dela até o fim. Ela viveu 14 anos e morreu há poucos meses. Como eu já tive muitos animais, eu sabia que num determinado momento a dor da perda ia passar e eu ia ficar bem de novo. Mas esse luto ainda tá sendo bastante difícil pra mim. 

[trilha sonora]

Durante o processo de finitude da minha cachorrinha, eu abri pros meus seguidores nas redes sociais e na TV o que realmente tava acontecendo. E, conforme eu fui abrindo, fui vendo que eu tava mexendo num ponto muito importante e delicado do ser humano, que é o luto pelo animal de estimação. É delicado, porque muita gente julga quem se apega demais a algum bicho.

Eu entrei em contato com muitas pessoas que estavam mexidas pelas perdas que elas tiveram também. Eu tive consciência de que eu estava ajudando uma grande parte da população ao me expor do jeito que eu me expus. Eu recebi uma avalanche gigantesca de empatia, das pessoas chorando e sofrendo comigo.

[trilha sonora]

A morte da Estopinha complementou a minha missão, que é falar sobre como cuidar bem dos animais, sobre como melhorar a nossa vida e vida a deles. Sem querer ser muito supersticioso, eu acho que até nisso a Topa me ajudou.  A morte do pet é um pedaço super importante dessa relação, e eu jamais tinha pensado em me envolver com isso.

É comum que as pessoas não queiram mais ter pets depois de perder um. Pra mim, no luto da Estopinha, caiu a ficha de que isso acontece porque essas pessoas não elaboraram a morte do bicho de uma forma saudável.  No meu caso, eu sinto que a morte da Estopinha ajudou a curar um pouquinho a dor pelo luto da minha irmã, que morreu de câncer, em 2021.

Antes da morte da Estopinha, eu tive meio que um sonho acordado em que eu e a minha irmã estávamos caindo num abismo, ao lado de uma duna de areia. A gente estava caindo, caindo, caindo. Eu ficava tentando me agarrar na areia e, ao mesmo tempo, tentando impedir que a minha irmã caísse. Mas, obviamente, a duna continuava desmoronando. Eu estava desesperado, chorando. Quando eu entendi que não tinha mais o que fazer, eu pensei: eu vou abraçar ela. Aí eu abracei e a gente continuou caindo.

[trilha sonora]

Quando a minha irmã morreu, no meio da pandemia, eu não pude abraçar ela. Ela tinha feito quimioterapia, radioterapia e estava radioativa. A gente precisava vestir um colete de chumbo, pra não se contaminar com a radiação, A gente usava máscara e não podia chegar muito perto, porque ela estava sem imunidade nenhuma. Isso me pegou muito. 

Nesse sonho acordado, caiu a ficha de que eu queria que a Estopinha morresse abraçada comigo. E foi isso que aconteceu. Chegou um momento em que eu vi que a Topa estava muito mal. Ela estava vivendo com doses altas de morfina, anti-inflamatório e corticoide. A gente estava segurando ela de uma forma quase que artificial demais. Eu senti que ela estava indo embora. Na noite em que ela morreu, eu não dormi e senti na minha mão o coração dela parando de bater. Naquele momento, é como se eu tivesse abraçado a minha irmã. 

[trilha sonora]

Essa é uma das inúmeras situações da minha vida em que os meus bichos me ajudaram. Eu tive depressão desde pequeno. Por mais que as pessoas nos deem palavras de apoio, a gente se sente julgado por elas. Com os animais eu nunca tive essa sensação. Além disso, com eles, eu me transportava pra um outro mundo. Quando eu olhava os peixinhos no aquário, lá na infância, eu me sentia quase como um peixe nadando na água. Observar os pássaros me despertava o prazer de voar. 

Todo mundo que estuda comportamento animal aprende que o humanizar bicho é errado, ponto e acabou. Eu discordo. O ser humano evoluiu cuidando de um monte de crianças na tribo, e agora não tem mais essa configuração social. O resultado é que a gente cuida do pet como se fosse um neném, porque a gente tem essa necessidade pra levar uma vida mais plena. 

Quando eu entendi isso, eu parei de julgar que humanizar é errado, pelo menos do ponto de vista do ser humano. Mas é errado pensando no cachorro ou no gato?  Eu criei uma regra para mim. Não é errado, desde que o tutor tenha consciência disso e saiba como humanizar o animal. A espécie real tem determinadas necessidades, que precisam ser respeitadas. A pessoa precisa achar saídas que beneficiam os dois sempre que possível, ou que pelo menos, não faça mal pra nenhuma das partes. Quando me perguntam: “Pô, você é pai dos seus cachorros e da sua gata?”. Eu respondo que sou. Eu sou pai de pet.

[trilha sonora]

Geyze Diniz: Nossas histórias não acabam por aqui. Confira mais dos nossos conteúdos em plenae.com e em nosso perfil no Instagram @portalplenae.

[trilha sonora] 

Compartilhar:


Para Inspirar

Rene Silva em "Dando voz a comunidade"

O quarto episódio da décima sexta temporada ouve a história de inteligência comunicativa do Rene Silva, que soube fazer do limão uma limonada.

25 de Agosto de 2024



[trilha sonora] 

 
Rene Silva: As pessoas passaram a nos ver como uma referência de favelas de modo geral. Outro dia eu perguntei no Twitter porque as pessoas me seguiam. Milhares de seguidores responderam que nunca pisaram numa comunidade, mas queriam saber o que acontece lá dentro.  

[trilha sonora] 

Geyze Diniz: Rene Silva fundou o jornal Voz das Comunidades com apenas 11 anos. Ele morava no Morro do Adeus, no Rio de Janeiro, e percebeu que a comunicação era um instrumento poderoso para ajudar a melhorar a vida dos moradores. Com o passar dos anos, o Voz das Comunidades rompeu a bolha regional e se tornou referência sobre o cotidiano dos bairros periféricos do Brasil. Eu sou Geyze Diniz e esse é o podcast Plenae. Ouça e reconecte-se. 

[trilha sonora] 

Rene Silva: Eu nasci no Rio de Janeiro. Mas o Rio que eu conheci na infância não é a Cidade Maravilhosa que aparece nas novelas da Globo. Eu cresci no Morro do Adeus, no Complexo do Alemão, Zona Norte do Rio. A minha infância, ela foi marcada por uma guerra entre facções criminosas que disputavam o tráfico de drogas dentro da comunidade. Os territórios eram separados por muros invisíveis, e cada lado da rua era comandado por uma facção diferente. Ninguém podia cruzar essa linha imaginária, nem mesmo as crianças e adolescentes do bairro.  
 

A minha família morava bem no alto do morro, e dava para ver os rastros dos tiros atravessando de um lado para o outro. A gente tinha que chegar em casa cedo e fechar tudo para diminuir o risco de morrer. Mesmo assim, de vez em quando, alguma bala perdida entrava em casa. A geladeira da minha da minha mãe, alguns móveis e as paredes tinham marcas de tiro. Às vezes, o tiroteio começava tipo 10h da noite e varava a madrugada inteira, até amanhecer. 

Da minha casa dava para ver a pista do aeroporto do Galeão. Eu olhava aqueles aviões pousando e decolando e ficava imaginando se um dia eu poderia viajar pelo mundo também. Era algo muito distante da minha realidade, mas eu sonhava com um futuro diferente no meio daquele caos que eu vivia. 

[trilha sonora] 

O melhor refúgio para os meus sonhos era a escola pública que eu frequentava. A diretora e os professores conseguiram criar um ambiente acolhedor para os alunos, apesar do entorno violento. A minha escola tinha um jornal e uma rádio comunitária. Eram projetos criados e tocados pelos alunos mais velhos, já perto do Ensino Médio. Quando eu tinha 11 anos de idade, eu quis participar desse jornal, mas a diretora disse: “você ainda é muito novo, não dá pra você participar, você acabou de chegar na escola”. Mas eu insisti tanto, tanto, que ela me deixou entrar no projeto.  

Aquela atividade me fez enxergar várias coisas que eu não notava antes. Eu passei a perceber os problemas sociais no caminho de casa para escola e da escola para casa. Tinha esgoto a céu aberto, rua sem asfalto, poste sem iluminação, campo de futebol que precisava de reforma, pracinha em mau estado… não faltava assunto. Era o tipo de coisa que, se acontecesse no Leblon, ia aparecer na TV e nos jornais no mesmo dia.

Mas, numa favela, a grande mídia não dava a menor bola, e o poder público, menos ainda. Aí eu tive a ideia de criar um jornal dentro da comunidade
para denunciar todas essas coisas. 
Eu fui conversar com a diretora da escola sobre isso. Ela achou que eu era muito cru para fazer um jornal sozinho. Fazia uns três meses que eu estava contribuindo com o jornal dos alunos.

Mas eu sou
muito insistente. E eu bati o pé e ela topou me ajudar.
A escola conseguiu para mim um computador usado, uma impressora e uma máquina fotográfica. Eu escrevia os textos, tirava fotos, diagramava as páginas, imprimia o jornal e distribuía os exemplares pelo bairro. As primeiras edições, por exemplo, eram feitas em uma folha, aquela folha A4 dobrada. Cada edição tinha, sei lá, quatro páginas, no máximo. 

[trilha sonora]  

Eu chamei o jornal de A Voz da Comunidade. Depois de um tempo, eu tirei o artigo e coloquei o nome no plural, Voz das Comunidades, porque a minha ideia era mesmo dar voz, amplificar as vozes que não eram ouvidas, de dentro das favelas. Em pouco tempo, eu percebi que os problemas sociais que a gente mostrava eram resolvidos muito rápido. O que antes levava, sei lá, dois ou três meses para ser resolvido, em uma ou duas semanas, esse problema já era. E a comunidade começou a ver resultados e eu fui me tornando conhecido no bairro como “o menino do jornalzinho”. 

[trilha sonora] 

O projeto foi crescendo e, em 2010, eu me tornei conhecido fora da comunidade também. Naquele ano, na manhã de 28 de novembro, 3.500 homens da Polícia Civil, da Polícia Militar, da Marinha e da Polícia Federal ocuparam o Complexo do Alemão. Imagens gravadas pela Globo em um helicóptero mostravam traficantes armados fugindo por uma estrada de chão batido. Essas cenas rodaram o mundo. 

E as pessoas no Brasil inteiro queriam saber como é que estava a vida dentro da comunidade, e eu comecei a postar as coisas no Twitter, na conta do Voz. Eu escrevia coisas do tipo: “Nesse momento, as escolas e as creches da comunidade pararam de funcionar; ou sei lá, o ônibus parou de circular; o comércio fechou, as pessoas não estão conseguindo voltar pra suas casas”. E a cobertura da mídia estava muito focada nas apreensões de drogas, nas mortes, nessas informações que as autoridades passam, geralmente, via assessoria de imprensa.

Mas eu es
tava ali, reportando o impacto daquela operação no cotidiano de milhares de pessoas que moravam dentro da comunidade e não conseguiam sair para trabalhar ou voltar pra casa. A situação estava cada vez mais tensa dentro da comunidade. E eu tinha acesso a informações exclusivas, que a grande mídia não tinha, porque eles não estavam ali dentro da comunidade. 
 

E de uma hora para outra, passei a ser seguido por milhares de pessoas. Eu virei narrador em tempo real daquela megaoperação. Quando os jornalistas descobriram que eu era um garoto de 16 anos de idade e tinha um jornal, eles começaram a me chamar, e eu virei uma espécie de correspondente de guerra 

[trilha sonora] 

Depois disso, a gente rompeu as barreiras da comunidade, e a grande mídia se tornou nossa parceira. 
 

[trilha sonora]
 

As redações de jornais, rádios e TVs começaram a abrir os espaços para assuntos que aconteciam dentro das favelas. Não só para os problemas sociais, mas também para as notícias boas também, tipo mostrar os projetos sociais, culturais. A gente ganhou mais visibilidade num espaço que não existia pra gente antes. 

Quem es de fora não entende direito que Complexo do Alemão é uma coisa, Complexo da Maré é outra completamente diferente e assim por diante. Cada lugar tem as suas particularidades, as suas questões internas. Mas, de qualquer maneira, é muito importante furar essas bolhas, principalmente pelo fato de a gente ganhar mais aliados na defesa dos nossos interesses.  

[trilha sonora] 

O Voz cresceu muito e a gente ganhou uma credibilidade nesses anos que a gente nem imaginava. Se a gente der uma notícia sobre o Complexo do Alemão, os portais vão publicar imediatamente, porque confiam no que a gente fala. As pessoas sabem que a gente apura as notícias, a gente faz um trabalho muito sério. Com o tempo, a gente construiu uma equipe de jornalismo que apura tudo o que es acontecendo e descobre se a informação é verdadeira ou não.  

Quando uma criança morre por bala perdida numa comunidade, a gente vai até a casa da família e mostra tudo o que aconteceu. Foi assim com a menina Eloah da Silva dos Santos, de 5 anos. No ano passado, ela levou um tiro dentro de casa, durante a comemoração do mêsversário da irmã caçula. Nas páginas do Voz das Comunidades, as pessoas não são só uma estatística triste. Elas têm um rosto, uma história. 
 

Durante a pandemia, o Voz ganhou recursos nacionais e internacionais. Hoje nós temos uma equipe de mais de 25 pessoas, além dos freelancers e dos voluntários. O jornal impresso, que há muito tempo não é só uma página A4, tem publicidade. Nós passamos a ter também padrinhos e madrinhas que contribuem muito com a gente.  O jornal hoje circula no Complexo do Alemão, no Morro do Vidigal e no Complexo da Penha. A gente faz uma distribuição nos lugares mais pobres, onde menos têm acesso à tecnologia de modo geral.  

[trilha sonora] 

Mas a gente é mais do que um jornal. Porque o Voz se tornou também uma grande ONG. Logo no começo, eu fiz ações para a distribuir chocolates na comunidade. Da primeira vez, eu recebi doações de caixas de bombom e repassei para a umas 150 crianças no Morro do Adeus. Em 2024, foram mais de 20 mil chocolates distribuídos não só no Alemão, como em várias favelas do Rio. 

E os eventos ficaram grandes e as pessoas famosas cada vez mais, interessadas em participar das nossas festas. A gente já fez feira de gastronomia e bloco de carnaval, que não tinha na comunidade. E esse ano, a gente promoveu o Arraiá do Alemão, que foi a maior festa junina da Zona Norte do Rio de Janeiro, um evento para mais de 20 mil pessoas. No encerramento, teve um showzaço da Daniela Mercury com 2 horas e meia de duração, de graça, para toda a comunidade.  

No Dia das Crianças, eu pedi para minha equipe pensar em algo diferente. O pessoal, então, começou a viajar. E a gente falou: ”Vamos levar a Xuxa”, “a Xuxa pra dentro do Complexo do Alemão?”. Até que virou uma realidade. A gente fez uma sessão de exibição de um filme dela num campo de futebol lotado, eram mais de 700 crianças assistindo. A festa tinha corte de cabelo, trança, maquiagem, oficina de perna de pau, orientação sobre saúde bucal, yoga e uma sessão de vacinação infantil com a presença do Zé Gotinha. A Xuxa nunca tinha subido o Complexo do Alemão. Ela subiu o morro, andou pela comunidade e tirou muitas fotos com os fãs.  

[trilha sonora]
 

Eu costumo dizer que sou uma pessoa movida a desafios. Eu gosto de fazer barulho, eu gosto de criar atos grandiosos. E na última eleição, eu desafiei o presidente Lula a visitar o Complexo do Alemão. Ele foi e colocou 0 boné com as siglas do CPX, que significa Complexo do Alemão.  

Lá na infância, eu nunca poderia imaginar que participar de uma atividade escolar me levaria tão longe, literalmente. Eu vivo pelos ares. Fui pra Índia duas vezes, fui pra Inglaterra, fui pra França, Colômbia, Argentina, México, Estados Unidos. E o meu objetivo é expandir cada vez mais o projeto pelo mundo, para que as nossas vozes sejam ouvidas em diversos outros espaços também. 

A gente tem uma edição pronta do Voz pra distribuir no Complexo do Nordeste de Amaralina, em Salvador, na Bahia. A gente quer levar o jornal também pra São Paulo, pra Medellín, na Colômbia e para o Harlem, em Nova York, nos Estados Unidos, onde a gente já tem alguns parceiros.  
 

[trilha sonora] 

Eu vivo viajando, mas eu mantenho uma conexão muito forte com a comunidade e ainda moro no Morro do Adeus. Os problemas sociais que eu publicava numa folha A4 ainda existem. Tem esgoto a céu aberto, buraco na rua, poste sem iluminação, praça sem reforma. A diferença é que, hoje, a gente tem voz e um veículo próprio para denunciar tudo o que acontece na favela.  

[trilha sonora]

Não dá pra resolver todos os problemas do mundo, mas é possível diminuir o sofrimento humano. Os meus maiores sonhos são: não ter ninguém passando fome, nem sendo vítima de injustiça, violência e racismo. Eu sei que esse desejo é uma grande utopia, mas eu luto dia e noite por um mundo melhor.  

[trilha sonora]
 

Geyze
Diniz
: Nossas histórias não acabam por aqui. Confira mais dos nossos conteúdos em plenae.com e em nosso perfil no Instagram @portalplenae. 

[trilha sonora]

Compartilhar:


Inscreva-se na nossa Newsletter!

Inscreva-se na nossa Newsletter!


Seu encontro marcado todo mês com muito bem-estar e qualidade de vida!

Grau Plenae

Para empresas
Utilizamos cookies com base em nossos interesses legítimos, para melhorar o desempenho do site, analisar como você interage com ele, personalizar o conteúdo que você recebe e medir a eficácia de nossos anúncios. Caso queira saber mais sobre os cookies que utilizamos, por favor acesse nossa Política de Privacidade.
Quero Saber Mais