Para Inspirar

Água alcalina não cura nada e nem devolve a juventude

Pagar mais para beber esse líquido é jogar dinheiro fora, diz médica da USP

12 de Julho de 2019


Há anos, circulam pela internet textos e vídeos sugerindo que beber água alcalina pode curar ou prevenir praticamente qualquer doença, e também evitar o envelhecimento . Há inclusive um médico que afirma categoricamente que idosos são “ácidos”, enquanto crianças são “básicas”. Segundo esse mesmo médico, o pesquisador francês Alexis Carrel pôde manter um coração de galinha batendo – fora do corpo do animal – por 27 anos, ao trocar diariamente o líquido em que o coração era mantido, provando que a idade é determinada pelo meio-ambiente, e não pelo passar do tempo. Parece estranho demais para ser verdade? É porque não é! Se fosse, rejuvenescer seria tão simples quanto beber um pouco de água sanitária, produto doméstico bastante alcalino (e, por favor, não faça isso!). Se bases rejuvenescessem, você perderia anos toda vez que tomasse leite de magnésia, outro produto alcalino. Lamento dizer que leite de magnésia funciona pra azia, mas infelizmente não nos devolve anos de vida... A verdade é que o pH sanguíneo nas artérias de um recém-nascido é exatamente igual ao de uma pessoa idosa (entre 7,35 e 7,45), e se mantém muito bem controlado, nessa mesma faixa, durante toda a vida, a não ser que a pessoa fique seriamente doente. E nem preciso dizer que Alex Carrel não fez um coração de galinha bater fora do corpo do animal por 27 anos. Isso é simplesmente ridículo: a coisa mais próxima disso, de alguma forma associada a Carrel, foi uma cultura de células de coração de galinha – não um órgão vivo inteiro! – que realmente parece ter durado bastante tempo, em condições de laboratório muito específicas. E mesmo esse resultado foi posto em questão por outros cientistas. O pesquisador francês merece mais ser lembrado por desenvolver técnicas cirúrgicas muito importantes, motivo pelo qual foi laureado com o Nobel em 1912. Mas afinal, o que é pH? É uma medida da acidez de uma solução (“solução” é um tipo de mistura em que uma ou mais substâncias, os solutos, se dissolvem em outra, o solvente; o solvente mais comum, no planeta Terra, é água). Não precisamos entrar em muitos detalhes aqui. De modo simplificado, quanto mais baixo o pH, maior a acidez da solução. Uma solução ácida é aquela que tem uma predominância de íons de hidrogênio (H+), e tem pH menor que 7. Soluções com pH maior que 7 possuem predominância de íons hidróxido (OH-). Deste modo, saber que o sangue humano tem pH entre 7,35 e 7,45 significa saber que o nosso sangue tem uma ligeira predominância alcalina. Se o pH do sangue é ligeiramente alcalino, não deveríamos beber água com o mesmo pH, para manter tudo igual? Essa ideia não faz o menor sentido, porque o sangue arterial é apenas um dos muitos componentes do nosso corpo, e cada componente tem um pH próprio, em pessoas saudáveis. O pH dos nossos intestinos é normalmente em torno de 6 (ácido), do estômago é entre 1,5 e 3,5 (muito ácido), e a água que bebemos passa por ambos, antes de ser absorvida e ir ao sangue. A maior fonte de acidificação dos nossos corpos é, de fato, o metabolismo. Todos precisamos de metabolismo – é o processo que degrada a comida (ou as nossas gordurinhas) para gerar a energia necessária para nossos corpos funcionarem. Degradar comida ou gorduras armazenadas significa quebrar moléculas grandes, com sequências longas de átomos de carbono encadeados, em moléculas de gás carbônico (CO2), cada uma com apenas um carbono. Geramos energia continuamente deste modo. Acontece que o CO2, quando se dissolve na água (que temos em todas as nossas células) se combina com uma molécula de água (H2O), gerando uma molécula de ácido carbônico (CO2+ H2O → H2CO3), que, como bem diz o nome, é um ácido. Deste modo, viver, gerando energia através de metabolismo, acidifica nossos corpos. Isso acontece a vida toda, independentemente de sermos jovens ou adultos. É natural, saudável, e necessário gerar ácidos em nossas células através do metabolismo. Um ser humano adulto gera, em média, cerca de 900 gramas de CO2, todos os dias, a partir da metabolização da comida que consome. Para efeitos de comparação, uma lata típica de refrigerante contém cerca de 0,7 gramas de gás carbônico (o gás dos refrigerantes também é CO2). Ou seja, uma lata de refrigerante tem menos de um milésimo de todo o CO2 que produzimos por dia. Vamos deixar claro que não há nada de saudável em beber refrigerante: eles contêm muito açúcar e nenhum nutriente útil. Porém, o pH dessas bebidas não é seu problema – se fosse, beber suco de limão ou colocar vinagre na salada (ambos têm pH semelhante ao de refrigerantes) seria perigoso. Produtos ácidos como esses podem causar alterações locais (afetando, por exemplo, os dentes e o estômago), se consumidos em excesso, mas não têm como alterar o pH do corpo inteiro. Muito menos do sangue. Na verdade, o que comemos ou bebemos de produtos ácidos no dia a dia é insignificante perto do ácido que produzimos metabolicamente. Pra se ter uma ideia, se fôssemos beber água alcalina para neutralizar todo o ácido derivado daqueles 900 gramas de CO2 que produzimos a cada dia, teríamos que beber 205 mil litros de água com pH de 10 (um bocado alcalina). É isso mesmo! São precisos 205.000 litros de água alcalina para ter OH- suficiente para se combinar com o H+ liberado a partir do ácido carbônico gerado pelo seu metabolismo todos os dias. Isso é mais água do que um ser humano bebe na vida inteira, até porque beber água demais é tóxico. A partir desses dados, já dá pra perceber por que pagar mais para beber água alcalina é besteira, algo como colocar uma gota de água alcalina num oceano. Mas como, então, estamos vivos se produzimos tanto ácido assim? Estamos vivos porque temos mecanismos fisiológicos excelentes para manter o pH do corpo humano exatamente como deve ser. Isso inclui principalmente os pulmões, que eliminam gás carbônico continuamente do sangue, portanto eliminando o ácido carbônico dele. São cerca de 450 litros de gás carbônico eliminados todos os dias pela respiração, sem que você precise nem pensar nisso! Seus rins também ajudam a manter seu pH estável, eliminando ácidos e bases em excesso, conforme a necessidade, e automaticamente. Portanto, esqueça esse modismo da água alcalina, economize dinheiro e invista em beber água normal, confiando aos seus pulmões e rins a tarefa que eles vêm cumprindo muito bem, de manter seu organismo saudável. Fonte: Alicia Kowaltowski, médica e professora de Bioquímica do Instituto de Química da Universidade de São Paulo, para a revista Questão de Ciência Leia o artigo original aqui .

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Desmistificando conceitos: o que é o amor líquido?

Há uma dificuldade clara em criar conexões mais profundas na pós-modernidade, e um filósofo específico já sabia disso há um tempo

11 de Julho de 2023


Não há quem não goste de se apaixonar. Aquele formigamento que atravessa todo o corpo, os pensamentos acelerados, a saudade que dá mesmo depois de um dia inteiro juntos… A paixão, como te explicamos neste artigo, é tão poderosa que reflete em uma série de funcionamentos do nosso corpo, e não é exagero comparar seus efeitos ao uso de determinadas drogas psicoativas. 

Mas, há uma particularidade sobre a paixão que todos nós sabemos e tendemos a ignorar: ela passa. Mais rápido do que a gente pode imaginar - e isso é bom! Afinal, com todo o vulcão que ela causa dentro de nosso metabolismo, seria insalubre se manter apaixonado por muito tempo. 

O que vem depois desse vendaval é o que vai definir se os pombinhos se manterão juntos ou não: a capacidade de transformar esse sentimento mais fluído em algo mais sólido. Em outras palavras, deixar o amor de fato entrar e se construir, porque afinal, o amor é construído, todos os dias um pouco, e demanda bastante intencionalidade. 

É por isso mesmo que ele pode ser tão raro para alguns, visto como um verdadeiro desafio, algo impossível de ser vivenciado. E é também por isso mesmo que o conceito de “amor líquido” surgiu há algumas décadas em formato de teoria filosófica, e que se mantém aplicável até os dias de hoje - talvez, mais do que nunca. 

A liquidez generalizada

Sociólogo polonês radicado na Inglaterra, Zygmunt Bauman possui diversos trabalhos publicados e se tornou um estudioso da sociedade desde os anos 60. O seu grande trunfo, porém, que o terminou por consolidá-lo como um grande pensador, veio nos anos 90, com a sua teoria de que vivemos em uma “Modernidade Líquida”. 

“Ele usa essa metáfora do líquido porque um líquido é algo que muda de forma o tempo todo, então ele não está jamais preso em uma única forma, ao mesmo tempo que ele conserva alguma de suas características. É justamente esse paradoxo, esse conflito entre características que não mudam e uma mudança constante que ele usa a metáfora do líquido para explicar”, diz o comunicólogo Luís Mauro de Sá Martin em vídeo para a Casa do Saber

Esse conceito da liquidez se desdobrou em outros conceitos posteriores: Sociedade Líquida, Medo Líquido, Vida Líquida, Tempos Líquidos, Mal Líquido… E, entre outros, o Amor Líquido, nosso tema principal deste artigo. Todos eles dizem respeito a esse modus operandi atual, onde estamos vinculados a alguns componentes que não mudam mas, ao mesmo tempo, são relações estimuladas o tempo todo a se transformarem. 

Seu amor cabe em um copo?

“Nada melhor do que o verbo ‘ficar’ para entender o que é a modernidade líquida. Ao contrário do namoro, casamento e até do morar junto, para ficar você não precisa estabelecer nenhum vínculo mais profundo. Se você ficou hoje, você não precisa necessariamente ficar amanhã. É um relacionamento, então estamos dentro de uma permanência, mas você não precisa criar um vínculo mais forte”, explica Mauro.

Se pararmos para pensar, há um século atrás, as relações eram mais duradouras e vistas como para toda uma eternidade - o que não garantia, é claro, que elas fossem saudáveis. Isso vai desde a nossa relação com o trabalho, cada dia mais líquida, como te explicamos neste artigo, até para os nossos relacionamentos interpessoais. 

Prova disso é o constante aumento no número de divórcios. Em 2021, o Brasil registrou 386,8 mil divórcios, 16,8% maior em relação ao ano anterior, como revelou um levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Tanto que esse período ficou gravado por alguns especialistas como “a nova era do divórcio”, como conta  artigo na Superinteressante. “Esse conflito entre a nossa busca pela permanência e uma impermanência constante, para ele [Bauman] é uma das grandes fontes de angústia do ser humano contemporâneo”, conclui Luís. 

Como fugir à norma?

Diante dessa falta de profundidade, vamos nos tornando mais distantes e, por consequência, mais solitários. As amizades são afetadas, nosso consumo se acelera e entra nessa dinâmica e sobrecarrega o planeta, enfim, os danos são multilaterais e extremamente nocivos. 

Para subverter essa lógica, o movimento slow, como te contamos aqui, busca desacelerar em uma rotina acelerada. E isso vai desde comer mais devagar, ter consultas médicas mais longas, entretenimentos mais calmos e até uma infância mais lenta: a regra aqui é colocar o pé no freio e prestar mais atenção nas sementes que se está plantando.

Por fim, estar atento às suas relações e lembrar do que falamos lá no começo, sobre o amor ser uma construção diária, é a chave para escapar desse amor líquido. Aqui neste artigo, te demos algumas dicas de como ter relações mais sólidas e porque isso é importante. 

Às vezes, uma simples pergunta já pode mudar o dia da pessoa, estreitar laços, cortar caminhos. Não é preciso grandes gestos, os pequenos contam - e muito! Você está preparado para fugir à regra da modernidade líquida?

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