Você provavelmente está lendo essa crônica pelo celular.
27 de Novembro de 2023
Você provavelmente está lendo essa crônica pelo celular. E você também provavelmente chegou a essa crônica depois de enfrentar um sem-número de notícias no seu feed, manchetes estampadas, fotos às vezes tão explícitas que a própria plataforma censura e te convida a pensar se você realmente quer ver aquilo.
A fotografia foi revolucionária em todos os aspectos: pudemos imprimir na história para sempre os rostos, lugares e até mesmo os horrores cometidos por nossos semelhantes, para nunca esquecer aquilo que não se deve repetir. Mas, em tempos de redes sociais, esses registros se tornam uma guerra à parte, na palma da sua mão. A verdadeira chuva de registros, por vezes tão duros, turva a nossa visão e suscitam sentimentos tão duros quanto.
As imagens, em bandos, dispostas em grades perfeitas e filtros vibrantes, nos sufocam com ideais de corpos e de rotinas, ao mesmo tempo que nos sufocam com o extremo oposto: vidas perdidas aos montes, seja lá qual for o motivo. Nos tiram do momento presente em busca do clique ideal, mas também nos mantêm presos aos acontecimentos mais recentes, um por minuto, sem tempo para submergir.
Viver os tempos modernos é navegar por esses mares em constante tempestade, uma maré forte que nos puxa para as profundezas e exige força para vencer o que parece ser uma ressaca infinita. O primeiro mal a ser combatido: a mentira e a desinformação. O segundo: a desconfiança que o primeiro tópico nos causa. O terceiro: o estresse emocional que o excesso de informações imprime em nossa mente. O último: a culpa sentida por querer se afastar.
Não podemos fechar os olhos diante de um mundo que parece se dissolver entre nossos dedos e esse é um fato consumado. Mas, se for preciso parar para respirar nessa jornada, acredite: será um ato importante de coragem. Não é possível retomar o fôlego que nossos tempos exigem sem esse intervalo. Saramago nos lembra: é impossível ver a ilha sem sair da ilha.
O distanciamento é necessário para que você possa, inclusive, enxergar com uma dimensão maior e identificar como você pode ser útil. Se não há trégua do lado de lá, que haja aqui, dentro de nós.
Hoje, decidimos refletir sobre o que é ser mulher.
8 de Março de 2023
Ao longo dos últimos 7 dias, homenageamos mulheres pioneiras. Hoje, decidimos refletir sobre o que é ser mulher. Quando descobri que seria tia de menina, fui invadida por um turbilhão de sentimentos conflitantes. Não era só a alegria de mais um bebê a bordo e nem tampouco o ineditismo de ter um sobrinho, afinal, eu já era tia de um menino. Mas essa notícia ressoou diferente em mim, um tipo de frase que te faz pensar em sua própria caminhada.
Que lindo seria ter mais uma mulher no mundo, pensei de imediato. Ter mais uma de nós, somando nessa alcateia de lobas espalhadas por todo o canto, norteando, fortalecendo e dando sentido à sociedade. Mas que percurso exaustivo ela trilharia, pensei também. Quantos desafios seriam postos para ela desde pequena, uma lição prematura de que a jornada tende sempre a ser dupla, em todos os sentidos. Foi como me olhar no espelho e me perceber de uma forma inédita.
É difícil cravar o primeiro momento em que uma mulher entende que é mulher. É complexo pontuar essa grande epifania, o estalar de dedos que expõe de maneira irrefutável: você é uma mulher. Há quem nunca sinta essa virada de chave, há quem sinta já nos primeiros dias de existência.
A experiência feminina é profunda, dinâmica e absolutamente individual. Mas deve-se dizer que, uma vez constatado o fato de que se é uma mulher, não há mais volta. Isso porque essa constatação é carregada de dores e delícias, é um trajeto sem placas de retorno, para o bem e para o mal.
Já se passaram quase sete anos desde que o mundo conheceu o sorriso da minha sobrinha e, de lá para cá, assisti de camarote todos os seus ziguezagues e legitimei cada um deles. O que eu não esperava era ver na prática uma grande lição, entoada por outra grande mulher há tantos anos, se desdobrando diante dos meus olhos: não se nasce mulher, torna-se mulher.
E esse desabrochar que Beauvoir descreveu, e que pode ou não acontecer para cada uma de nós, é um espetáculo à parte, que vale a pena ser assistido. Porque não há nada mais potente do que uma presença feminina que diz, sem rodeios: eu não irei a parte alguma, pois aqui é o meu lugar.
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