Caminhando pelas palavras, encontro virando a esquina um sentimento
25 de Julho de 2024
Caminhando pelas palavras, encontro virando a esquina um sentimento. Um não, vários: saudades, medo, vontade, ânsia, tédio, curiosidade, tristeza, pertencimento. Vigor, raiva, altivez, caos, nojo. Pulo sobre cada um deles como quem pula sobre pedras para atravessar um riacho cuja água não chega ao joelho, mas gela a pele ao mais simples toque. E então, esses sentimentos se diluem.
Ao chegar do outro lado, encontro agora uma floresta de adjetivos: belo, repulsivo, macio, real, desajeitado, forte, frágil. Baixo, brilhante, carinhoso. Caro, inteligente, desconfiado, honesto, gentil, mal. Há tanto por aqui e eu observo como um cientista diante de espécies raras, buscando catalogar cada uma apenas com a força do meu olhar.
Ouço o barulho de uma cachoeira e resolvo mergulhar nessas águas que me trazem substantivos. Embaixo da água, encontro peixes - por si só um substantivo. Também me deparo com meninos, meninas, homem, caneta, corrida, caixa, bombom. Encontro um cesto, um diamante, uma sacola. Há cadeira, toalhas, microscópios, óculos, garrafas, tubos, lençóis, seda.
Há de um tudo, é possível encontrar o universo inteiro ali e me sinto não submersa em águas, mas contemplando as milhares de estrelas da galáxia, como se eu olhasse para o céu. Entendo a imensidão de todas as coisas, a força do ordinário, que está em tudo, em toda a parte, basta olhar com atenção para captar esse brilho e perceberá que está por toda parte.
Substantivos, adjetivos: todos eles falam sobre sentimentos. Esse é um texto que pode parecer ser sobre a natureza, mas é sobre a natureza das palavras. É sobre a língua portuguesa e as milhares de possibilidades que ela nos oferece para que a expressão ganhe asas e alce lindos voos.
No dia do escritor, precisamos acessar as palavras que moram dentro de nós e querem sair, mas não sabem como fazer. São muitos os caminhos, mas para todos eles é preciso sensibilidade e atenção, leveza e potência. Pegue uma caneta e ouça o cantar dentro de si.
São Paulo nem sempre é hostil.
25 de Janeiro de 2023
São Paulo nem sempre é hostil. Mas quando é, o faz com maestria. Te chacoalha, esmaga, condensa. Molha a barra do seu jeans para que o incômodo perdure por todo o dia, como um breve lembrete da vil capital que grita “a esquerda é livre!” no ouvido do desavisado.
Por vezes, muda o clima. Em um mesmo dia, te faz suar e tremer, sentir que errou a roupa, o caminho, todas as suas escolhas. Paralisa em um trânsito de horas que te obriga a achar distrações. Mas te faz ser grato: poderia ser pior, poderia ser o metrô. Lar de todas as pessoas que começam o dia esperançosas ou sonolentas demais para pensar sobre. É um ponto de encontro de almas que gostariam de estar em outro lugar, mas há calor humano, não se pode negar.
São Paulo te dá tantas opções de entretenimento que você acaba solitário no mesmo bar que frequenta há anos, tomando o mesmo drink que já fora mais gostoso. Mas de repente, ela te presenteia com um esplendoroso pôr do sol que insiste em aparecer mesmo sufocado por prédios que despontam de toda a parte, ainda que o espetáculo tenha alguma poluição envolvida. O amanhecer que cheira a chuva, gotas que lavaram a sujeira e renovam as apostas.
SP é também a consciência do coletivo, o sorriso do morador de rua que te atinge no meio de uma passada rápida na calçada e te acompanha por todo o percurso. É a prestação de um serviço caro, mas eficaz, é o cachorro na rua que te segue da feira ao trabalho, deixando uma saudade genuína do que é simples.
São as ruas, povoadas, pipocadas, coloridas. Cheias de vida 24 horas por dia, ora dolorosa, ora sorridente, mas viva. Pronta para te acolher, te oferecer, te ensinar um pouco mais sobre o outro, sobre si e sobre espaço. Uma vitrine de pequenos universos particulares que viajam em seus próprios fones, livros, celulares.
É preciso assumir suas falhas e seus defeitos, não romantizar os seus desalentos. Mas é necessário enxergar beleza no que não se vê, assumir o belo que insiste em habitar até mesmo o duro concreto de suas curvas, que abrigam poesias não decifradas. Cabe a você entender a mensagem ruidosa de uma ligação sem sinal dentro de um túnel que São Paulo tenta te enviar. Você consegue?
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